Steffen Winter - Der Spiegel
No século 18, Catarina a Grande convidou fazendeiros alemães para irem à Rússia cultivar as terras. Mais de dois séculos depois, o país está recrutando pioneiros teutônicos mais uma vez numa tentativa de colocar em uso vastas extensões de terras improdutivas. A terra representa grandes oportunidades para empresários agrícolas, desde que eles tenham nervos de aço
As estradas são um problema. O asfalto escuro, danificado pela geada, está remendado em vários lugares. À medida que a Toyota Camry negra balança pela estrada, Alexander, o motorista, olha rapidamente pelo retrovisor e pisa no acelerador, ultrapassando caminhões que pareciam não ter visto uma oficina mecânica há tempos.
Sentado no banco de trás, Stefan Dürr é jogado para frente e para trás por conta da estrada esburacada. Ao olhar pela janela, vê árvores e arbustos baixos passando. Além deles está uma paisagem russa vasta e brilhante, uma região de campos escuros e quilômetros e quilômetros de terra preta – a Voronezh Oblast. O alemão aponta para as placas ao longo da estrada. Numa delas, as palavras EkoNiva Agro estão pintadas de preto num fundo branco. “Tudo isso nos pertence”, diz ele alegremente.
Quando Dürr, 47, um ex-ativista da Associação de Jovens Fazendeiros da Bavária, estudou agricultura na cidade de Bayereuth, no norte da Bavária, imaginava viver uma vida confortável na fazenda de seu avô na região de Odenwal, perto de Heidelberg. Em vez disso, hoje ele é dono de mais de 170 mil hectares de ótimas terras aráveis na Rússia.
Com seus cabelos cacheados e seu suéter de lã azul e calças jeans cinzas, Dürr poderia passar por um motorista de trator. Mas ele teve resultados de tirar o fôlego como empresário. Ele agora fala russo com quase nenhum sotaque, e está cultivando terras nas regiões de Kursk, Voronezh, Orenburg, Novosibirsk e Kaluga. Através de sua holding, a EkoSem-Agrar, ele emprega 2.800 pessoas na agricultura, tem um rebanho de 28 mil cabeças e mais recentemente gerou um rendimento de US$ 102 milhões. Em anos bons, ele fez 200 milhões de euros vendendo maquinário agrícola, um negócio que desde então ele transformou em outra companhia. De acordo com Dürr, a EkoNiva, uma das subsidiárias, está entre as 30 maiores companhias agrícolas da Rússia.
Planos de expansão
A história de sucesso de Dürr, e suas conquistas pioneiras como um europeu ocidental no coração do leste europeu, servem como modelo para o governo russo. Quase 250 anos depois que a imperatriz Catarina a Grande atraiu dezenas de milhares de alemães para o seu domínio, a Rússia mais uma vez corteja os ocidentais para reavivarem uma indústria agrícola que enfrenta problemas em algumas áreas.
Dürr de fato atraiu imitadores. O barão da carne da Westphalia, Clemens Tönnies, acaba de anunciar um plano para investir milhões perto de uma das fazendas de Dürr. Junto com um sócio russo, Tönnies quer construir dez novas fazendas de porcos, que deverão produzir 62.500 toneladas de carne por ano. É um dos maiores projetos já planejados na Rússia, e promete um investimento de mais de 100 milhões de euros na região de Voronezh.
Eckart Hohmann, um ex-banqueiro do banco estatal alemão WestLB, já está lá. Ele e um sócio da região de Mecklengurg no nordeste da Alemanha estão cultivando uma área de 29 mil hectares, 400 quilômetros ao sul de Moscou. Sua “Fazenda Rheinland” produz trigo, sementes para plantio e levedura. “Os russos praticamente nos forçaram a comprar esta terra”, diz Hohmann, acrescentando que o negócio já havia atingido a lucratividade há algum tempo. Perto dessa fazenda, três fazendeiros de Ingolstadt, na Bavária, estão cultivando um total de 4 mil hectares – e planejam expandir.
Cerca de 23 milhões de hectares de terras férteis não são usados atualmente na Rússia. A maior parte dessa terra fica na cobiçada Região Terra Negra. No início dos anos 90, depois da queda da União Soviética, coletivos de toda parte foram à falência, e o país foi obrigado a importar grãos. O Kremlin desde então transformou a agricultura numa alta prioridade e está recrutando abertamente o conhecimento ocidental.
Seus esforços têm sido bem sucedidos. Quando o Ministro de Agricultura da Bavária Helmut Brunner voltou de uma viagem às vastas fazendas de Dürr, ficou tão entusiasmado que praticamente incentivou os fazendeiros da Bavária a deixarem o país. “Os russos deixaram claro que querem mais fazendeiros da Bavária”, disse Brunner.
No Landtreff.de, um fórum de internet para fazendeiros, um tópico intitulado “Vamos para o leste” estava cheio de comentários otimistas. “Vamos lá, pessoal”, escreveu um agricultor com entusiasmo. “O solo do degelo do permafrost está nos esperando além dos Montes Urais. Vamos lá, produzir até o horizonte!”
Apaixonando-se pela Rússia
A ligação de Dürr com o leste começou muito antes que a comunicação pela internet se tornasse comum. Ele foi um pioneiro no festival de May Day em 1989 na cidade de Weidenberg, na Bavária. Ele estava bebendo uma cerveja quando um funcionário da Associação de Fazendeiros Alemães o abordou. O então presidente russo Mikhail Gorbachev e o então chanceler alemão Helmut Kohl haviam acabado de assinar um acordo para intercâmbio estudantil, e funcionários em Bonn, capital alemã na época, estavam desesperadamente procurando voluntários. Dürr, que tinha 25 anos na época, teve de escolher entre a fazenda de seu avô em Odenwald e uma aventura na União Soviética.
Pouco tempo depois, ele estava numa fazenda coletiva perto de Moscou, em meio a 110 mil porcos e campos aparentemente intermináveis, como um interno do ocidente que havia chegado no meio da perestroika. Ele aconselhou o chefe da operação a plantar colza em vez de apenas trigo. “Khorosho (OK)”, disse o chefe, “mas apenas 50 hectares para começar”.
Dürr ainda parece surpreso quando conta a história. “Cinquenta hectares!” Ele estava acostumado com os 14 hectares da fazenda da família, mas a fazenda coletiva tinha 5 mil hectares.
O alemão desfrutou das festas de estudantes numa Moscou sofisticada e decadente, e depois de três meses, começou a falar russo. Ele ainda fala com entusiasmo sobre o início daquele “período maluco”. Ele havia sido infectado pelo vírus russo.
Dürr ficou lá seis meses. No fim, explicou para a administração agrícola russa como as fazendas coletivas da Alemanha Oriental haviam sido privatizadas. Em prol do Ministério da Agricultura alemã, ele levou russos para os estados de Brandenburgo e Thuringia, no leste da Alemanha, bebeu vodca com eles e aprendeu os melhores brindes russos. “Seus passeios eram elogiados como uma parte do diálogo alemão-russo sobre a política agrícola”, e seu salário era pago pelo Ministério da Agricultura.
Como uma espécie de consultor do governo, Dürr logo levou sua experiência para a Força Tarefa de Reforma Agrária no parlamento russo, a Duma. Suas recomendações eram bem diferentes das dos radicais do mercado. Ele era fortemente contra a privatização e temia os especuladores de terras, e estava preocupado com que a agricultura também caísse nas mãos dos oligarcas.
Um brinde à agricultura russa
Dürr, o contrapeso alemão aos oligarcas russos, está sentado no pub de Shchuchye, a 600 quilômetros ao sul de Moscou. Ele se casou com uma russa em 1994, e três de seus filhos nasceram na Rússia. A rua ainda é chamada Sovetskaya, mas o pub agora é dele. Ele cultiva os 63 mil hectares lá fora, tem 13.500 cabeças de gado em pastos ali perto e patrocina uma escola infantil local.
O bar está cheio. Quase 100 parceiros comerciais de Dürr foram para o vilarejo para visitar seus novos estábulos e um prédio para produção de máquinas agrícolas. O administrador do distrito diz algumas palavras para elogiá-lo. O alemão faz um pequeno discurso em russo. Garrafas de Pyat Ozer, uma marca de vodka siberiana, estão sobre as mesas. É meio-dia. Dürr faz um brinde à saúde da agricultura russa como se estivesse lançando um míssil com uma metralhadora. Os presentes gritam: “Urra! Urra! Urra!”
Dür comprou sua primeira fazenda coletiva, chamada “Dom Tranquilo” na região em 2002. Até então, ele havia ganhado dinheiro vendendo sementes e exportando máquinas agrícolas do leste da Alemanha. Ele comprou colheitadeiras velhas de uma empresa do leste alemão chamada “Progress” por mil marcos alemães, consertou-as e as vendeu na Rússia por 13 mil. Ele eventualmente ganhou dinheiro suficiente com o negócio para comprar 11 antigas fazendas coletivas só na região de Voronezh. É uma terra ideal – solo preto denso com uma camada extremamente grossa de húmus, bem misturada por minhocas, ratos e outros roedores. Hoje, Dürr cultiva quase metade das terras agriculturáveis do distrito. Ele acaba de ter uma produção recorde: 117 mil toneladas de beterrabas, 51 mil toneladas de milho, 180 mil litros de leite por dia – um aumento de 70%.
Será que o alemão deixou de ser um salvador das fazendas coletivas para se transformar num oligarca? Dürr discorda educadamente. “Eu não especulo com as terras”, diz ele. “Planto, vivo da agricultura e crio empregos”. Ele vê a si mesmo como um idealista que passou a conhecer o outro lado da alma russa há muito tempo, e que sabe o motivo pelo qual, duas décadas depois da perestroika, mais campos do que nunca estão improdutivos. De acordo com Dürr, um dos motivos é que muitos agricultores trocaram suas parcelas das fazendas coletivas por engradados de vodka.
Resolvendo problemas fora do sistema legal
Entretanto, ainda há a questão do que leva um fazendeiro alemão para a distante Rússia. A resposta é simples, e tem a ver com números. Quanto maior é uma fazenda hoje, com mais eficiência pode ser cultivada. Graças ao GPS e satélites, a atividade agrícola se tornou bastante automatizada. Além disso, o diesel é significativamente mais barato na Rússia do que na Alemanha, e também não há nenhuma quota sobre o leite. O preço por libro de leite é atualmente de cerca de 30 centavos de euro na Alemanha, enquanto que na Rússia os preços podem chegar a até 42 centavos. Também há subsídios do governo para cobrir gastos com juros, preços mínimos e obrigações de importação para espantar a concorrência estrangeira. A companhia de Dürr, EkoNiva, recebeu 8 milhões de euros em subsídios do governo russo em 2010. O maior país do mundo gasta um total de 5 bilhões por ano para subsidiar seu setor agrícola.
Funcionários locais nem sempre apreciam as boas intenções do Kremlin, como Dürr aprendeu em seus primeiros anos na Rússia. O administrador do distrito da região de Orenburg o importunou por quatro anos. De acordo com Dürr, o homem chegou a ele e pediu sua “fatia”. “Mas eu não pago nada, como uma questão de princípio”, disse Dürr. Depois disso, as autoridades ficaram no seu caminho sempre que possível.
Isso foi até que a Alemanha descobriu uma solução que foi tão democrática quanto inteligente. A EkoNiva, a maior operação agrícola na região, apoiou o oponente do administrado do distrito nas eleições seguintes. O desafiante ganhou, e Dürr foi deixado em paz.
Ele aprendeu como a Rússia funciona, e como as pessoas podem afirmar seus direitos fora da lei, através de um encontro com homens armados e mascarados que o visitaram em seu escritório em Moscou. Eles pediram 800 mil euros, mas depois de negociações duras, concordaram em aceitar 300 mil. Mas então Dürr procurou seus contatos no governo e reclamou para o vice-primeiro-ministro russo. Poucos dias depois, um pacote chegou. Ele continha 300 mil euros em notas arrumadas em blocos. A EkoNiva nunca mais foi importunada.
Político e diplomata
Dürr hoje é muito mais do que apenas um fazendeiro que trabalha em outro país. Ele é um empresário importante, político e diplomata. Ele aprendeu que ainda há questões da história alemã e russa escondidas nesse imenso domínio agrícola. Seus campos circundam o velho assentamento de Rybenskoye. O alemão ainda é ensinado na escola local, e as palavras “Mein Heimatort Rybensdorf” (Rybensdorf, minha cidade natal) estão escritas na parede azul clara de uma das salas de aula. Os imigrantes chegaram na região vindos de Sulzfeld no sul da Alemanha em 1795 em resposta a um convite de Catarina a Grande.
Uma professora usando um casaco de pele grosso corre pela rua quando vê que os alemães vieram visitar. Ela conhece a história de Rybensdorf e trouxe fotos antigas. O primeiro grupo de assentados tinha 54 famílias. Eles tinham nomes como Deutsch, Dreher e Adam, e plantaram tabaco e tentaram criar bichos da seda. Em seu auge, por volta de 1875, havia 2.400 alemães vivendo na região, onde haviam estabelecido colônias satélite com nomes como Michaelstal, Olgenfeld e Ruhetal.
Mas então a maré mudou, e os habitantes locais começaram a forçar os assentados alemães a irem embora. A igreja alemã é a única lembrança proeminente desse período que permaneceu metade intacta. A torre caiu, e é necessária a força combinada de várias pessoas para abrir a porta grande da nave. Os soviéticos usaram britadeiras para aumentar a entrada para que o trator pudesse passar. Eles guardavam grãos na antiga igreja.
Dürr logo aprendeu que a região de Voronezh também tem um pesado fardo histórico. O exército alemão espalhou medo e terror na região durante a 2ª Guerra Mundial. Em junho de 1942, 370.500 russos morreram na terra preta ou ficaram desaparecidos, enquanto os alemães perderam 29 mil soldados. Os russos contra-atacaram um ano mais tarde.
Hoje a região ainda é um cemitério gigante, cheio de monumentos de guerra, alguns dos quais estão nos campos de Dürr. Museus locais contêm itens do Wehrmacht, as forças armadas alemãs da época do nazismo.
Patrono da região
O grande proprietário de terras da Alemanha tem seu jeito próprio de superar o ceticismo dos moradores locais. Sua companhia reformou um memorial de guerra para o exército soviético em Shchuchye. Em 9 de maio, feriado russo que celebra a capitulação alemã, Dürr coloca presentes nos memoriais de guerra em dez vilarejos da região.
Ele já viu um os patronos da região. Ele gastou 200 mil euros para construir a escola infantil em Shchuchye. Sempre que Dürr entra no jardim da infância hoje, ele é tratado como um dignatário visitante de outro país. A equipe reverentemente serve chá e traz o livro de convidados, e as crianças posam para fotos com Dürr e o presenteiam com coisas que fizeram.
Às vezes parece que Dürr está comprando seu caminho para se livrar do estigma de ser alemão. Sua companhia patrocina um time de futebol local, o Lokomotiv Liski. Ela pagou pela reforma do domo da catedral da cidade, e está financiando a construção de uma nova igreja em Zaluchnoye, bem como apoiando uma escola de artes marciais.
As pessoas locais gostam de trabalhar para Dürr, porque ele paga mais do que o salário médio e, como disse um homem sarcasticamente, porque é sempre melhor trabalhar para um alemão do que não trabalhar para ninguém. Os moradores locais também disseram que os novos fazendeiros russos nas vizinhanças são conhecidos por maltratar os funcionários e parceiros nos negócios.
Sonho de comprar a fazenda da família
O administrador do distrito Viktor Shevtsow quer que Dürr fique na região a longo prazo, e ele está tentando convencê-lo de comprar mais terra. Ele até ofereceu a Dürr a possibilidade de escolher uma terra para construir uma pequena casa. Ele decidiu por um lugar no topo de um penhasco sobre o rio Don, e autoridades locais prontamente disseram que a terra era aprovada para construção. Enquanto isso, Dürr até recebeu o Prêmio Pyoth Stolypin para a “Elite Agrícola Russa”, tornando-se o primeiro a alemão a ser agraciado com o título.
Como se para fazer jus ao prêmio, o nativo de Odenwald agora planeja expandir sua operação para 250 mil hectares, uma área do tamanho do estado alemão de Saarland. Ele também quer colocar sua companhia no mercado de ações – na Alemanha, onde ele ainda paga uma parte de seus impostos.
Comparado a tudo isso, seu “velho sonho” em sua Alemanha natal é uma operação muito pequena: a fazenda de seu avô, que teve de ser vendida em 1990 por causa de problemas de herança. Ele recentemente contatou os donos atuais, que estão interessados em vender. Quatorze hectares é uma quantidade de terra ridiculamente pequena no império agrícola de Stefan Dürr. Mas ele não quer deixar passar a oportunidade de comprar de volta a fazenda da família.
Traduzido do alemão por Christopher Sultan
Tradutor: Eloise De Vylder
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