Governo da Alemanha pretende rever projetos focados em energia solar
Alexander Neubacher - Der Spiegel
Os custos de subsidiar a eletricidade solar excederam a marca de $ 100 bilhões de euros (em torno de R$ 280 bilhões) na Alemanha, mas os resultados fracos estão ameaçando a transição do país para a energia renovável. O governo está tentando criar um novo conceito de forma a promover a tecnologia ineficiente no futuro
O guia de viagens Baedeker agora está disponível em versão ecológica. O livro de 200 páginas chamado “Germany –Discover Renewable Energy” (Alemanha -descubra a energia renovável) lista os locais da era solar: o café solar em Kirchzarten, o campo de golfe solar em Bad Saulgau, a torre em Slingen e o “Alster Sun”, em Hamburgo, possivelmente o maior barco solar do mundo.
A única coisa faltando no momento são raios solares. Há semanas que os sistemas de energia solar da Alemanha não geram quase nenhuma eletricidade. Os dias são curtos, o tempo está ruim, e o céu está encoberto.
Como acontece comumente no inverno, todos os painéis solares mais ou menos pararam de gerar eletricidade ao mesmo tempo. Para evitar a falta de luz, a Alemanha atualmente tem que importar grandes quantidades da eletricidade gerada em usinas nucleares na França e na República Tcheca. Para contrabalançar a perda temporária de energia solar, a operadora da rede Tennet recorreu ao plano de emergência, acendendo uma antiga usina movida a petróleo na cidade austríaca de Graz.
A energia solar passou de grande esperança iluminada para um impedimento a uma fonte de energia renovável confiável. Operadores de fazendas solares e donos de casas com painéis solares captaram mais de $ 8 bilhões de euros em subsídios em 2011, mas a eletricidade que geraram foi apenas 3% do total da energia fornecida e em momentos imprevisíveis.
As redes de distribuição não são feitas para permitir que dezenas de milhares de proprietários de painéis solares troquem à vontade entre tirar eletricidade da rede ou colocar energia na rede. Como quase não há opções de armazenagem, a energia excedente tem que ser destruída a um custo substancial. Os consumidores alemães reclamam por terem que pagar o segundo mais alto preço pela energia da Europa.
Indústria solar diante de tempos econômicos difíceis
Nas próximas semanas, o governo alemão pretende decidir como vai lidar com a energia solar no futuro. Os líderes do parlamento do partido governante de centro-direita, a União Democrática Cristã (CDU), e do Partido Democrático Livre (FDP) escreveram uma carta ao ministro do meio ambiente, Norbert Röttgen, pedindo que apresentasse um novo conceito até o dia 25 de janeiro. O ministro da fazenda, Philipp Rösler (FDP), prefere acabar com o a atual sistema de subsídio, assim como a parte empresarial do CDU.
O líder do FDP, que há muito ignora o assunto da transição de energia, espera reforçar sua popularidade opondo-se aos subsídios solares. Rösler encontrou uma oportunidade para demonstrar que ele, diferentemente de seu colega Röttgen, entende de economia, especialmente por saber que muitos no CDU, e seu partido associado bavariano, a União Social Cristã (CSU), concordam com ele.
O vice-líder parlamentar do CDU, Michael Fuchs, atacou fortemente seu colega de partido Röttgen. Ele responsabiliza o ministro pelo aumento no custo da eletricidade. Mas Röttgen está reagindo. Nesta semana, ele vai se reunir com representantes da indústria solar, que enfrenta tempos economicamente difíceis como resultado da competição com a China. Röttgen teme que menos subsídios possam eliminar mais produtores de painéis solares da Alemanha.
A briga em torno da energia solar tem o potencial de aumentar as divisões dentro de uma coalizão que já está com dificuldades. Para muitos liberais e políticos do CDU/CSU, os problemas dos subsídios solares são um símbolo da má administração da transição de energia. O plano da chanceler Angela Merkel de finalmente ultrapassar o conflito sobre a energia nuclear, que vinha sendo travado há anos, e desenvolver novos contingentes de eleitores para políticos conservadores está se provando um fracasso econômico.
Um enorme sifão de dinheiro
Até agora, Merkel vinha anunciando as “oportunidades de exportação, desenvolvimento, tecnologia e empregos” do setor ambiental. Mas agora, até os membros de sua própria equipe estão chamando o setor de enorme sifão de dinheiro.
Novos números divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica pró-indústria Renânia Vestfália (RWI) só acrescentaram lenha na fogueira. Os especialistas calcularam os custos adicionais para os consumidores após um número recorde de sistemas solares serem conectados à rede em dezembro. Sob a Lei de Energia Renovável da Alemanha, cada novo sistema tem direito a 20 anos de subsídios. Uma montanha de obrigações futuras está começando a tomar forma diante dos olhos dos consumidores.
De acordo com o RWI, os sistemas de energia solar conectados à rede em 2011 custarão aos consumidores de eletricidade cerca de $ 18 bilhões de euros em subsídios nos próximos 20 anos. “A demanda por subsídios está crescendo sem parar”, diz o especialista do RWI, Manuel Frondel. Se todos os compromissos de subsídios até agora forem somados, “já excedemos o nível dos $ 100 bilhões de euros”, acrescenta.
O RWI também estima que a taxa de energia verde sobre as contas de eletricidade volte a aumentar em breve. Atualmente, está em 3,59 centavos de euro por kilowatt-hora de eletricidade, um número que o governo alemão tinha prometido manter em 3,5 centavos. Mas com os mais recentes desdobramentos, o especialista do RWI prevê que a taxa em breve aumente para 4,7 centavos por kilowatt-hora. Para a família média, isso significaria uma carga adicional de cerca de $ 200 euros por ano, em adição ao atual custo da eletricidade. A energia solar tem o potencial de se tornar o mais caro erro da política ambiental alemã. O economista berlinense Georg Erdmann, membro do grupo de monitoramento da transição de energia nomeado pela chanceler, vê a expansão da energia solar como uma ameaça ao programa de eliminação da energia nuclear.
“Um boom extremo e até excessivo” da energia solar
Outra voz crítica, do Conselho Consultivo do Ambiente, argumenta que dinheiro demais está sendo investido na energia solar. “A energia solar recentemente experimentou nada menos do que um boom extremo e até excessivo”, diz o especialista em meio ambiente Olav Hohmenyer, observando que isso ameaça a aceitação da energia renovável mesmo antes da transição de energia ter começado de verdade.
Lobistas solares gostam de cegar o público com números impressionantes sobre a capacidade da energia solar. Por exemplo, eles dizem que os sistemas instalados podem gerar uma produção nominal de mais de 20 gigawatts, ou o dobro da energia que está atualmente sendo produzida pelas usinas nucleares remanescentes da Alemanha.
Isso, porém, é pura teoria. Os sistemas de energia solar só podem operar em sua capacidade máxima quando otimamente expostos aos raios solares (1.000 watts por metro quadrado), a um ângulo ótimo (48,2 graus) e na temperatura ideal do módulo (25 graus Celsius) –em outras palavras, sob condições que quase nunca existem fora do laboratório.
Uma estrutura dupla cara e desnecessária
De fato, todos os sistemas de energia solar combinados produzem menos eletricidade do que duas usinas nucleares juntas. E mesmo esse número é exagerado, porque a energia solar em um país relativamente nublado como a Alemanha tem que ser duplicada com usinas elétricas de reserva. Isso leva a uma estrutura dupla cara e basicamente desnecessária. Os números indicam que o desempenho máximo dos sistemas de energia solar são facilmente mal compreendidos, segundo um relatório da Sociedade Física Alemã. “Essencialmente”, o relatório conclui, “a energia solar não pode substituir mais usinas nucleares”.
Na Alemanha, a tecnologia solar de longe é a mais ineficiente entre as fontes de energia renováveis e é a que recebe mais subsídios. Cerca de 56% de todos os subsídios para a energia verde vão para sistemas de energia solar, que produzem apenas 21% da energia subsidiada.
As relações são inversas para a energia eólica. Pelo mesmo custo, o vento fornece ao menos cinco vezes mais eletricidade que os sistemas solares; as usinas hidroelétricas geram seis vezes mais, e até as usinas de biomassa são três vezes mais eficientes que as solares. Por causa da fraca geração de eletricidade, a produção de energia solar também economiza pouco no sentido de emissões de dióxido de carbono nocivas, especialmente se comparada com outros programas possíveis de subsídio. Para evitar uma tonelada de emissões de CO2, pode-se gastar 5 euros isolando o telhado termicamente de um antigo prédio, investir $ 20 euros em uma nova usina de gás ou afundar $ 500 em um novo sistema de energia solar.
O benefício ao clima é o mesmo nos três casos. “Do ponto de vista do clima, todo sistema solar é um mau investimento”, diz Joachim Weimann, economista ambiental da cidade da Alemanha oriental de Magdeburg. Hans-Werner Sinn, do Instituto Ifo de Munique para Pesquisa Econômica, chama a energia solar de “desperdício de dinheiro às custas da proteção climática”.
Por um tempo, parecia que pelo menos a indústria solar alemã estava se beneficiando dos generosos subsídios. Mas o milagre econômico verde tornou-se uma bolha de subsídios, ao menos no caso da indústria solar.
Fatia cada vez menor do setor de energia solar
Em 2004, a Alemanha detinha 69% do mercado mundial de painéis solares. Em 2011, tinha caído para 20%. A antiga gigante da indústria Solarworld, de Bonn, está em dificuldades. A Solon e a Solar Millennium, que eram consideradas empresas modelo, pararam de funcionar. A Schott Solar fechou uma fábrica que estava produzindo células solares em Alzenau, perto de Frankfurt, eliminando 276 empregos e perdendo 16 milhões de subsídios do governo no processo.
Os competidores chineses oferecem sistemas de qualidade equivalente por preços significativamente inferiores. Parece que os subsídios tornaram os fabricantes alemães letárgicos. Eles investem apenas 2 a 3% da renda em pesquisa e desenvolvimento, enquanto a indústria automobilística investe em média 6%, e a biomedicina, 30%.
O ministro da fazenda, Rösler, quer limitar os subsídios para sistemas de energia solar. Em sua proposta, a expansão seria limitada a 1.000 megawatts neste ano ou 6.500 a menos do que no ano passado. A proposta defendida pelo Conselho Alemão de Especialistas em Economia vai além.
Os economistas querem eliminar os subsídios da energia solar da Lei de Energia Renovável. Eles argumentam que os fornecedores de energia devem ter que satisfazer uma quota de eletricidade verde, mas sem especificar o que devem fazer para atender a quota. Isso estimularia uma competição para gerar a melhor tecnologia.
De acordo com os especialistas, a vantagem sobre o atual sistema é óbvia: o dinheiro não seria mais investido em locais onde os subsídios mais altos são pagos, e sim onde a maior parte da eletricidade verde pode ser gerada.
Traduzido do alemão por Christopher Sultan e do inglês por Deborah Weinberg
Tradutor: Deborah Weinberg
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