Turcos na Alemanha temem assassinatos motivados por racismo
Jens Witte - Der Spiegel
Imigrantes turcos na Alemanha perderam a fé no Estado alemão devido a uma série de assassinatos supostamente cometidos pela célula terrorista neonazista de Zwickau, conforme revela um novo estudo. Três quartos das pessoas entrevistadas durante a pesquisa disseram temer que ocorram mais assassinatos com motivações racistas
Revelações sobre uma série de assassinatos supostamente cometidos por membros da célula neonazista de Zwickau, que se acredita ter matado nove pessoas de origem turca e grega entre 2000 e 2006, chocaram a Alemanha. Mas o que pensam as cerca de 2,5 milhões de pessoas de ascendência turca na Alemanha a respeito desses assassinatos, e como foi que os crimes modificaram a opinião delas sobre a Alemanha?
Para responder a essa questão, pesquisadores do Centro de Pesquisas sobre Migração e Políticas da Universidade Hacettepe, em Ancara, o instituto teuto-turco de pesquisas de imigração SEK-POL e o instituto berlinense de pesquisa Data4U realizaram um estudo conjunto – e chegaram a conclusões preocupantes. Eles descobriram que os imigrantes turcos na Alemanha perderam grande parte da confiança que tinham no Estado alemão, e que a maioria desses imigrantes teme que sejam perpetrados mais assassinatos com motivação racista.
Entre os dias 5 e 15 de dezembro, os autores do estudo entrevistaram uma amostra representativa de 1.058 indivíduos de ascendência turca e com idades superiores a 14 anos que moram na Alemanha. Mais da metade dos entrevistados – 55% - acredita que os terroristas de extrema direita foram protegidos ou até mesmo apoiados pelo Estado alemão. Cerca de um terço deles está até mesmo convencido de que houve um “apoio extremo” do Estado aos neonazistas de Zwickau. Somente 21% dos indivíduos ouvidos acreditam que os assassinos não contaram com apoio do governo.
A desconfiança considerável dos imigrantes em relação ao Estado alemão se baseia em grande parte no fato de os assassinatos terem sido cometidos durante um período tão longo, explicam os autores do estudo. “Os turcos geralmente associam a Alemanha à ordem, à organização e a instituições policiais altamente eficientes”, afirma Murat Erdogan, diretor do Centro de Pesquisas sobre Imigração e Política da Universidade Hacettepe. “Por esse motivo, muitos deles não conseguem entender como foi que os perpetradores desses assassinatos não foram descobertos durante mais de dez anos”.
A desconfiança foi provocada também pelas revelações feitas pela mídia sobre erros e deslizes cometidos pelas autoridades durante as investigações. Por exemplo, há relatos de que a Agência de Proteção à Constituição, a agência de inteligência interna da Alemanha, mantinha o grupo sob vigilância, sem ter no entanto tomado nenhuma providência para coibir a ação dos terroristas. “O fato de fato de, a princípio, a investigação dos assassinatos ter se baseado na premissa de que os assassinos estariam vinculados a uma “perigosa organização mafiosa turca” na Alemanha também influenciou os resultados da pesquisa”, explica Erdogan.
Um total de 87% dos entrevistados disse estar acompanhando as notícias sobre a série de assassinatos supostamente cometidos pela extrema direita, e a maioria deles obtém as informações sobre o caso junto à mídia turca. As autoridades alemãs poderiam se consolar um pouco com o fato de a pesquisa ter mostrado que a grande maioria dos imigrantes turcos – 78% - acredita que os assassinatos foram excessos cometidos por uma minoria radical, e não vincula os crimes à sociedade alemã como um todo. Menos de 7% acreditam que “grandes parcelas da população alemã” têm responsabilidade pelos assassinatos. “Eu não esperava que os resultados fossem tão claros assim”, afirma Erdogan.
Perda de confiança
A polícia acredita que os neonazistas Uwe Böhnhardt e Uwe Mundlos, que foram encontrados mortos em um veículo de passeio em Eisenach, no dia 4 de novembro, foram os principais perpetradores de assassinatos da célula de Zwickau. O único membro da célula que sobreviveu, Beate Zschäpe, encontra-se atualmente detido, mas recusa-se a conversar com os investigadores. As autoridades policiais acreditam que os três tenham criado um grupo terrorista autodenominado Clandestinidade Nacional Socialista (NSU, na sigla em alemão). O grupo teria sido responsável pelos assassinatos de nove pequenos empresários de ascendência turca e grega entre 2000 e 2006. Além disso, eles teriam também matado uma policial em Heilbronn, em 2007. A célula é suspeita de ter perpetrado ataques a bomba em 2001 e em 2004 na cidade de Colônia.
O trio foi para a clandestinidade em 1998 e conseguiu permanecer impune durante quase 14 anos, ainda que os investigadores tivessem obtido informações sobre a localização dos seus membros em diversas ocasiões, e apesar do fato de o grupo se comunicar com integrantes do universo neonazista, que se encontra fortemente infiltrado por informantes da agência de inteligência interna.
Dois terços dos entrevistados durante o estudo acreditam que políticos alemães procuraram abafar o caso e ocultar as informações relativas aos assassinatos. Menos da metade dos imigrantes turcos considera o pedido de desculpas feito pelo parlamento alemão, o Bundestag, uma manifestação convincente de arrependimento por parte do Estado alemão.
Cerca de três quartos dos entrevistados disseram temer a ocorrência de mais assassinatos de motivação racista na Alemanha, e quase 40% nutrem preocupações concretas quanto à possibilidade de que eles ou outras pessoas que eles conhecem possam ser vítimas de assassinatos similares perpetrados por neonazistas. Entretanto, o estudo revela que a reação à série de assassinatos entre os imigrantes turcos é caracterizada mais por pesar (74%) do que por medo (8%), segundo os autores do estudo.
Os resultados do estudo indicam também que a maioria dos turcos não permitirá que a série de assassinatos influencie os seus planos de vida. Mais de três quartos dos entrevistados disseram que se sentem bem integrados à sociedade alemã e que desejam permanecer no país no longo prazo. Somente 4% dos entrevistados disseram ter certeza de que desejam retornar à Turquia devido aos assassinatos.
“Eu considero esses números muito promissores”, diz Erdogan. “Os imigrantes turcos estão se revelando calmos e maduros, e provando que se tornaram uma parte integral da Alemanha”.
Tradutor: UOL
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