Oposição abandona primeira reunião de diálogo convocada por Morales em seis anos
Mabel Azcui - El País
Os principais partidos de oposição abandonaram na segunda-feira (16) o presidente da Bolívia, Evo Morales, minutos depois de seu discurso de abertura da reunião que convocou, pela primeira vez desde sua chegada ao governo, há seis anos, para "trabalhar juntos na construção de uma nova Bolívia".
Morales mencionou as dúvidas que tinha sobre o convite ao diálogo. "Espero não me ter enganado ao convocá-los", disse. Pouco antes reconheceu que a política boliviana "não é mais como antes. Quando eu era dirigente [sindical], os políticos eram vistos como farsantes, criminosos, mas estamos mudando. É preciso entender que a política é a responsabilidade pelo povo e [é necessário buscar formas] de atender melhor ao povo".
As dúvidas do presidente boliviano se somaram à suspeita dos adversários, e em poucos minutos as 17 representações políticas se reduziram a 13, com a saída dos delegados dos quatro partidos que têm assentos na Assembleia Legislativa: o ex-aliado governista Movimento Sem Medo (MSM), Unidade Nacional (UN), Convergência Nacional (CN) e Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Os partidos que ficaram são reconhecidos pelo Órgão Eleitoral Plurinacional, mas sua capacidade de influência política é pequena.
Os pontos de discrepância entre o governo e seus adversários políticos estão relacionados à agenda. O governo deseja reforçar as políticas macroeconômicas com base nas conclusões da chamada Cúpula Social, enquanto os partidos de oposição pretendem a análise da conjuntura política em assuntos como os direitos humanos, a perseguição dos opositores e dissidentes do regime, o conflito social, a segurança, o emprego e a anunciada revisão da lei que proíbe a construção de uma estrada através de um parque nacional.
O estopim foi a discrepância sobre a presença dos meios de comunicação na sala de reuniões. O presidente Morales dispensou os comunicadores e câmeras para começar um trabalho técnico. Os opositores pediram que a mídia ficasse para testemunhar o desenvolvimento das conversas.
"Não podemos discutir às costas da comunidade. Temos de fazê-lo de frente para o povo", insistiu o chefe do MSM, Juan del Granado. Já na rua, disse que o fundo do convite é "legitimar um governo desgastado".
"Com todo o respeito, presidente, eu vim discutir politicamente, e não um trabalho técnico, para isso lhe mandaria um técnico", afirmou Johnny Torrez, chefe do MSM, pouco antes de abandonar a sala de reuniões da vice-presidência. Em declarações aos jornalistas, Torrez explicou que seu objetivo era "saber se o Estado de direito será respeitado, se os presos políticos continuarão na prisão, se continuarão derrubando governadores e prefeitos de oposição".
A cientista política María Teresa Zegada considera que esse "tropeço" governamental é fruto dos "erros processuais do convite, que reforçaram a suspeita dos partidos de oposição". Eles viram na convocação ao diálogo uma tentativa do governo de manipular e mostrar à população o consenso obtido supostamente em uma nova agenda política.
Zegada acredita que houve ambiguidade na proposta oficial. A isto soma-se que as conclusões da Cúpula Social ficaram deslegitimadas devido às grandes ausências de setores representativos como a Central Operária Boliviana e as matrizes das organizações indígenas de terras altas e de terras baixas. A Cúpula Social reuniu cerca de 500 delegados de organizações sindicais que sob a direção do governo aprovaram cerca de 70 projetos de lei que serão levados à Assembleia Legislativa.
O constitucionalista Carlos Cordero está convencido de que a convocação presidencial ao diálogo está mostrando ao mundo um governante conciliador.
"É um êxito político. O presidente nunca se reuniu com seus adversários. Ao contrário, os perseguiu, condenou e agora, quando mostra uma abertura, os partidos políticos são os que fracassam porque refletem o desconcerto e a divisão", declarou Cordero.
Segundo o analista, o ocorrido confirmou que "não há uma liderança política capaz de aglutinar toda a oposição, nem têm argumentos claros e se desperdiçou uma grande oportunidade de contribuir para esse longo processo de mudança na Bolívia".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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