sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

ECONOMIA MODIFICA A CORRENTE IMIGRATÓRIA NA AL

Mudanças dos destinos de imigração modificam a América Latina
Damien Cave - NYT
Novo complexo residencial é construído em Santa Maria Atzompa, no México, para receber o fluxo migratório
Ao olharem para a cidade, os habitantes antigos veem recém-chegados por todos os lados: jovens mexicanos que trabalham na construção civil e provocam a queda dos salários, filhos dos novos trabalhadores que lotam as escolas e até mesmo os novos negócios – lojas, restaurantes e casas de strip-tease – surgem em estradas que antigamente eram escuras e sem movimento.
Esse é um choque que pode ser familiar em incontáveis cidades estadunidenses que enfrentam os problemas provocados pela imigração, mas esta é uma vila pré-colonial mexicana próxima a Oaxaca, e que está repleta de migrantes do próprio México. Entretanto, essa onda de migração provoca não só sorrisos, mas também caretas.
“Antes da chegada de toda essa gente, tudo aqui era muito tranquilo”, reclama Marcelino Juarez, 61, um artesão que vende as suas peças no mercado de cerâmica local. “Eles não trazem nenhum benefício para cá, mas apenas complicações”.
Em todo o México e em grande parte da América Latina, os velhos padrões migratórios estão mudando. Os indivíduos inquietos e nômades estão agora se deslocando para uma gama mais ampla de cidades e países da região, provocando tensões entre antigos e novos moradores, fazendo com que se intensifique a pressão pela geração de empregos e obrigando nações a reformularem as suas leis de imigração, em alguns casos para encorajar essa tendência.
Os Estados Unidos simplesmente não são mais o polo de atração que eram no passado. As prisões na fronteira sudoeste dos Estados Unidos caíram em 2011 para o patamar mais baixo desde 1972, confirmando que a imigração ilegal, especialmente aquela oriunda do México, atingiu aquilo que os especialistas descrevem atualmente como sendo uma pausa significativa ou o marco do fim de uma era.
Mas o que está havendo é uma mudança de direção, e não do volume migratório. Segundo o censo mexicano, em 2010 havia quase dois milhões de mexicanos a mais vivendo fora das suas cidades natais do que uma década antes. Os especialistas dizem que a movimentação da população migrante também se manteve constante, ou até mesmo aumentou, nos últimos anos na Guatemala, em El Salvador, no Peru e em outros países latino-americanos que são centros tradicionais produtores de imigrantes.
O que ocorre é que os migrantes não estão mais seguindo para onde costumavam ir.
Os mexicanos, por exemplo, estão evitando cada vez mais os Estados Unidos e a região fronteiriça, bem como a sua própria capital, e têm se deslocado para cidades menores e mais seguras como Merida, Oaxaca e Queretaro. Os especialistas dizem que os guatemaltecos, que antes cruzavam o território mexicano no seu trajeto para os Estados Unidos, agora também passaram a se estabelecer no México.
Ao sul, a força de atração exercida pelo Chile, pela Argentina e pelo Brasil sobre os imigrantes também tem aumentado. A Organização Internacional para a Imigração relata que a população de imigrantes bolivianos na Argentina cresceu 48% desde 2001 (chegando a 345 mil), e que as populações paraguaias e peruanas no país aumentaram com uma rapidez ainda maior.
Todo esse movimento migratório está remodelando a região, fazendo com que ela se pareça mais com um polo de atração de imigrantes do que em uma espécie de bússola migratória que aponta para o norte. Com todas as mudanças, como por exemplo as plantações de mamão dos agricultores bolivianos na Argentina, a recentemente descoberta da exploração de trabalhadores ilegais no Chile e os conflitos com os governos municipais do sul do México, essa migração intrarregional na América Latina virou um desafio e uma surpresa promissora para uma área do planeta cuja relevância para a questão da imigração dizia respeito a quantas pessoas partiam para os Estados Unidos.
“É como se observássemos um rio mudando de curso”, diz Gabino Cue Monteagudo, o governador de Oaxaca. “Isso é o processo de desenvolvimento. É algo inevitável”.
Para os Estados Unidos, essa alteração significa que há menos imigrantes cruzando a fronteira ilegalmente e que provavelmente haverá mais discussões no sentido de determinar se ainda faz sentido aumentar o orçamento para o combate à imigração ilegal.
Mas o maior impacto está sendo sentido em cidades que crescem rapidamente, como Santa Maria Atzompa, onde milhares de famílias, em sua maioria pobres e oriundas da zona rural, decidiram tentar a sorte. “No caso desta cidade e da área a ela adjacente, o crescimento tem sido rápido, bárbaro e anárquico”, afirma Jorge Hernandez-Diaz, um sociólogo da Universidade Autônoma de Benito Juarez de Oaxaca.
Ele diz que, uma geração atrás, a estrada que vai de Oaxaca até a praça central de Atzompa cortava apenas campos de cultivo e fazendas. Em 1990 o município tinha uma população de 5.781 habitantes. Agora, esta pequena área encontra-se tomada por um labirinto de estradas de chão sem saída, novos estabelecimentos comerciais e milhares de casas dos mais diversos padrões de construção e de qualidade.
Os moradores dizem que o boom populacional acelerou-se por volta de 2006, quando as oportunidades nos Estados Unidos diminuíram e os perigos e os custos para cruzar a fronteira tornaram-se proibitivos em meio à violência do narcotráfico e ao aumento da vigilância na região fronteiriça. Atualmente mais de 27 mil pessoas moram em Atzompa, segundo o censo de 2010, e os novos moradores não param de chegar.
Outros polos regionais estão experimentando um crescimento similar. De fato, enquanto que a população da Cidade do México estabilizou-se e a imigração para os Estados Unidos diminuiu, as regiões costeiras e as áreas não urbanas do país tiveram um aumento populacional.
Isso se deve em parte às iniciativas do governo mexicano no sentido de decentralizar o desenvolvimento, frequentemente com o fornecimento de incentivos a empresas internacionais. Por exemplo, no mês passado, a Nissan anunciou que construirá uma fábrica na cidade de Aguascalientes, na região central do país. De acordo com os especialistas, aqui no Estado de Oaxaca o êxodo rural foi também um produto das reformas agrárias de 1992 que, juntamente com o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), fez com que ficasse mais difícil para os agricultores sobreviver com o seu trabalho e tornou mais fácil para eles vender as terras.
Também na América do Sul, os acordos de livre comércio contribuíram para que houvesse mais deslocamento regional, da mesma forma que o crescimento constante das economias da região e as novas leis encorajando a migração ou protegendo os direitos dos imigrantes na Argentina, no Uruguai, no México, no Equador e em outros países.
Os avanços tecnológicos (especialmente o acesso à telefonia celular) e a melhoria da infraestrutura (sobremaneira a construção de melhores estradas) também fizeram com que ficasse mais fácil descobrir e obter novos empregos em novos lugares, estimulando o impulso individual clássico no sentido de buscar uma melhoria do padrão de vida sem que se tenha que enfrentar os obstáculos e os perigos cada vez maiores associados à jornada para o norte.
“O fator importante foi não só a economia, mas também a cultura e o acesso a mais informações”, diz Juan Artola, diretor da Organização Internacional para Migração na América do Sul. “A migração intra-regional aumentou bastante na última década e isso é muito importante devido às mudanças por ela provocadas”.
Dando continuidade à urbanização e expandindo essa tendência, os migrantes fazem atualmente com que a América Latina seja mais integrada e metropolitana, dizem os demógrafos e especialistas da região. Hoje em dia, cerca de 77% dos mexicanos vivem em áreas urbanas, contra 665 em 1980.
Isso faz com que seja mais fácil e barato fornecer serviços, incluindo atendimento médico, água potável e eletricidade, dizem as autoridades governamentais. Para os migrantes, a educação parece ser o principal fator de atração. São raras as escolas que oferecem mais do que a educação secundária nas cidades da região de montanhas deste Estado pobre, e muitos jovens dizem ter vindo para cá para estudar ou porque um parente veio antes para frequentar a escola.
Gabriel Hernandez, 21, diz que quatro dos seus irmãos chegaram dez anos atrás para estudar. Alguns concluíram os estudos, outros não, mas a família abriu uma mercearia no ano passado, e nela vende produtos da sua cidade natal, que fica nas montanhas ao norte.
Hernandez e vários outros novos moradores de Atzompa, que vieram não só de Oaxaca, mas também de Veracruz, da Cidade do México e outros locais, dizem estar felizes com a situação.
Javier Espiritu, 36, um homem rechonchudo e que está coberto de tinta na carpintaria que abriu no mês passado, diz não ter planos de se mudar novamente. Os negócios andam bem, mas os motivos dele não são apenas de ordem econômica. Ele veio para cá com a mulher e dois filhos, o que é raro no caso dos imigrantes que entram nos Estados Unidos ilegalmente. E, ao contrário dos seus dois irmãos mais velhos, que fizeram a jornada uma década atrás, ele vai duas vezes por ano até a sua vila natal, que fica a seis horas de viagem na direção sul.
“Quando a minha mãe precisa de alguma coisa, ela me liga”, diz ele. “Ir para outros Estados ou para os Estados Unidos é muito complicado. Imagine se eu tentasse levar toda a minha família para lá”.
Porém, conforme descobriram muitos norte-americanos que vivem em comunidades que receberam uma grande quantidade de imigrantes, a chegada dos novos moradores significa novos problemas. A pobreza em Atzompa continua alta. Em frente à carpintaria de Espiritu há um centro de tratamento de viciados em drogas; casas de strip-tease prometem “bellas chicas” e moradores antigos reclamam do fato de haver atualmente na cidade uma quantidade muito grande de jovens com valores culturais diferentes.
“Eles não são daqui”, diz Juarez, o artesão, explicando a atual divisão social na cidade.
Atzompa parece ter chegado a um ponto de ruptura. Cue diz que a urbanização é uma das principais prioridades deste governo, mas é bem evidente que ele está encontrando dificuldades para acompanhar o crescimento populacional. São poucas as estradas pavimentadas em Atzompa, e a principal escola de segundo grau, construída para atender a cerca de 120 alunos, tem atualmente quase 700. As aulas de educação física são ministradas em estradas de chão próximas à escola.
Os problemas geraram um grande conflito em relação ao governo e à cultura. Antigamente Atzompa era uma vila rural simples, governada segundo o sistema de “usos e costumes” comunitários, no qual os direitos cívicos só dizem respeito às pessoas que participam do governo, às que desempenham trabalhos comunitários ou que às que nasceram na comunidade. Mas à medida que o números de migrantes passou a superar o de velhos moradores nos últimos anos, os recém-chegados começaram a reclamar de que estavam pagando impostos para receber em troca poucos serviços.
No ano passado, a comunidade chegou a um impasse. Quando acabou o mandato do prefeito, um administrador estadual assumiu o cargo. Agora a legislatura estadual terá que decidir se preservará os “usos e costumes” ou se estabelecerá aquele tipo sistema partidário que está em vigor na maior parte do México.
Enquanto isso, a economia de Atzompa tem mudado, nem sempre para melhor. Os trabalhadores da construção civil dizem que o aumento da competição provocou uma queda salarial de US$ 14 por dia, há cinco anos, para os atuais US$ 11, enquanto que os preços dos terrenos dobraram, chegando a quase US$ 7.200.
Dentro da carpintaria de Espiritu, é esse o tipo de assunto discutido e isso é um sinal dos problemas que estão por vir. “Com toda essa urbanização, existe muito trabalho, mas o que acontecerá quando isso acabar?”, questiona Sergio Morales, que veio para encomendar uma porta para a sua casa.
Segundo ele, uma possibilidade otimista é que o atual declínio da emigração para os Estados Unidos leve os mexicanos a estudar, trabalhar e construir gradualmente negócios aqui, em vez de seguirem para o vizinho do norte em busca de salários mais altos. “Veja só esse cara”, diz Morales, apontando para Espiritu. “Ele vem fazendo isso há anos”.
Novas pesquisas feitas pela Universidade da Califórnia em San Diego indicam que a maioria dos migrantes internos estão atualmente se deslocando para áreas mais próximas às suas cidades natais, em vez de seguirem para os Estados mais próximos à fronteira com os Estados Unidos ou para a capital do México. Somente uma em cada cinco pessoas que deixou a vila de San Miguel Tlacotepec, no norte, entre 2001 e 2011, permaneceu no Estado de Oaxaca, segundo a pesquisa da universidade, que se baseou em entrevistas com todos os moradores do lugarejo. Entre 1997 e 2007, essa proporção foi de uma entre cada dez pessoas.
Porém, conforme demonstram os novos padrões migratórios, a movimentação de pessoas – da mesma forma que a de capital – é fluida e pode mudar. Muitos jovens mexicanos estão apostando que um maior nível educacional lhes permitirá obter melhores empregos no México nos próximos anos.
“Mas, neste momento, as aspirações deles são maiores do que as oportunidades”, adverte David Fitzgerald, demógrafo da Universidade da Califórnia em San Diego.
Resta saber se o México será capaz de corrigir essa disparidade, de forma que possa aproveitar esse novo capital humano qualificado. Caso isso não ocorra, esses jovens poderão decidir novamente seguir em massa para os Estados Unidos.
“Esse é o nosso grande desafio”, diz Cue. “Nós precisamos encontrar empregos para todos esses jovens que estão estudando”.

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