Crise financeira ajuda extrema direita, personificada em Marine Le Pen, na França
Miguel Mora - El País
Um terço dos franceses comunga com a receita da Frente Nacional: xenofobia, protecionismo e volta ao franco
Faltam cem dias para o primeiro turno das eleições presidenciais na França, e os sociólogos desenham um país dividido em três e muito assustado com a crise. As pesquisas afirmam que Marine Le Pen, candidata da Frente Nacional (FN), pisa nos calcanhares de Nicolas Sarkozy. A extrema-direita cresceu até 21,5% em intenções de voto, contra 23,5% do presidente e 27% do socialista François Hollande. Uma pesquisa mais ampla, publicada pelo jornal "Le Monde", mostra outros sintomas da ascensão da mulher que "normalizou" a mensagem racista e ultranacionalista da FN. A hipótese de que a extrema-direita chegue ao segundo turno, como já fez em 2002, parece cada vez menos exótica.
A pesquisa da TNS Sofres deixa claro que o discurso da Frente Nacional foi calando durante o último ano entre uma massa crescente de pessoas: 31% dos franceses se declaram "de acordo" com suas ideias. Nove pontos a mais que um ano atrás. E entre os menores de 35 anos a adesão subiu 17 pontos: de 11% para 28%. Os dados são melhores que nove anos atrás, quando Jean-Marie Le Pen chegou ao segundo turno e sucumbiu a Chirac porque a esquerda votou com o nariz tapado.
Embora a maioria (53%) ainda acredite que a FN representa "um perigo", os que se declaram completamente contra passaram de 70% em 1999 para 35% hoje, o nível mais baixo da história. Stéphane Rozès, professor de ciência política na Alta Escola de Comércio de Paris, não acredita que haja "razões específicas" para os jovens apoiarem Le Pen, senão uma "atitude geral de identificação" promovida por algumas mudanças fundamentais no ideário da FN.
"As razões do crescimento são duas. Primeiro, Marine Le Pen abraçou as ideias de República e de laicidade para atacar os imigrantes", explica Rozès. "Enquanto seu pai denegria a República e o laicismo, ela os defende. Em segundo lugar, incorporou a ideia do protecionismo nacional contra uma UE que não protege mais seus países. As fronteiras são, para ela e seus eleitores, ao mesmo tempo simbólicas, econômicas e sociais. São um símbolo, porque definem a identidade francesa. E são socioeconômicas porque descartam os imigrantes. Isso calou no imaginário coletivo."
Marine Le Pen apresentou na quinta-feira (12) seu programa. Pontual e profissional, foi a primeira dos 15 candidatos a fazê-lo. Muito solta, direta e clara, melhorou a imagem de marca de seu pai, um homem tosco, inculto e irascível. A seus duros traços femininos e sua estatura espigada ("tenho as pernas mais compridas que Sarkozy", disse ao ser perguntada por sua aproximação nas pesquisas), a presidente da FN somou um programa mais moderno e vendável, adaptado à crise europeia atual e que parece atraente inclusive para os jovens antissistema.
Seu socialismo étnico, como o batizou o cientista político Dominique Reynié, oferece uma vantagem nestes tempos de medo e indefinição ao estilo Rajoy: é a receita mais concreta das que são oferecidas aos eleitores. Le Pen parece ter todas as certezas sobre o euro (abandoná-lo para voltar ao franco e pôr a máquina de dinheiro a funcionar), sobre a Europa (frear a integração), sobre os bancos (fazê-los pagar pela crise) e sobre a globalização (enfrentá-la com mais protecionismo).
Poucos candidatos se atrevem a tanto e, incomodados por sua capacidade de atrair votos entre os operários (40% de apoio) e os agricultores franceses (41%), se perguntam como contra-atacar esse perigo. Sem entrar em acordo. Martine Aubry propõe não falar dela para não fazer seu jogo, ou lembrar que lá onde a FN governou (Toulon ou Vitrolles), o resultado foi corrupção e desvios de dinheiro. Hollande considera necessário lembrar a "violência social e a vingança etnicista" de seu projeto. O centrista François Bayrou critica seu ânimo "antirrepublicano" e a UMP começou a quantificar o custo das medidas que Le Pen promove para mostrar que levariam o país à ruína.
Com a recessão à espreita e o desemprego em níveis recorde, na sexta-feira chegou o rebaixamento do triplo A, e Le Pen demorou apenas meia hora para aparecer na televisão para dizer que a austeridade só conduz a isso, que estamos diante do princípio do fim do euro e que morreu o mito do "presidente protetor". Trinta segundos, três ideias, tac tac tac. Segundo "Le Monde", o perigo de Madame Le Pen é que ela "encarna a síndrome da crise francesa que paralisa os outros candidatos".
Embora nenhum cientista político pense (ainda) que possa ganhar as eleições, sua carreira é a que tem mais percurso. A impopularidade de Sarkozy vai além, ao ponto de que ontem Jean-Marie Le Pen prognosticou que não se candidatará. Hollande parece ter tocado o teto, e o avanço de Bayrou tira votos do centro. Rozès acredita que se os dois favoritos "não conseguirem estruturar o debate, Le Pen se colará no segundo turno contra Hollande, obterá 35% dos votos e a partir daí será a chefe da nova direita". Mas não descarta uma final Sarkozy-Le Pen: "Ela tira votos da direita, mas também da esquerda". Muitos franceses, porém, rejeitam sua proposta principal, sair do euro e voltar ao franco: 61%. Mas a campanha ainda não começou. E se Sarkozy continuar soçobrando e a crise europeia recrudescer, talvez isso acabe de convencer mais alguns.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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