sábado, 14 de janeiro de 2012

IRÃ - ERA UMA VEZ UM PAÍS

Análise: indústria petrolífera iraniana está em declínio desde 1979
Fernando Gualdoni - El País
A indústria petrolífera do Irã, que representa 80% das exportações do país e mais da metade de suas receitas (cerca de 58 bilhões de euros), está em declínio desde a revolução dos aiatolás em 1979 e da guerra com o Iraque (1980-88).
Embora durante os períodos do moderado Mohammed Khatami (1997-2005) o setor tenha recuperado certo ímpeto, o aumento foi passageiro. E, depois da imposição de sanções por parte do Ocidente no verão de 2010, a situação foi piorando, a ponto de o Irã ter de importar gasolina para consumo próprio, apesar das nove refinarias com que conta e de estar entre os quatro países do mundo com maiores reservas comprovadas de petróleo e gás.
De todas as reservas, 50% se encontram em seis grandes jazidas situadas no oeste do país. Em geral o petróleo iraniano é de qualidade média, o que significa que é adequado para produzir gasolina e diesel para automóveis e outros produtos destilados de alto valor agregado. O setor está nas mãos do governo e não é permitido o investimento estrangeiro direto, mas sim a associação entre o Estado e empresas estrangeiras em projetos concretos. Boa parte da indústria está nas mãos da Guarda Revolucionária Islâmica (pasdaran), o corpo de elite do exército iraniano.
Até a revolução, o Irã produzia mais de 6 milhões de barris diários, e desde então nunca superou os 4 milhões. A aliança forjada com a Venezuela de Hugo Chávez há mais de uma década no seio da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) permitiu que Teerã mantivesse nos limites a produção petrolífera do cartel para forçar o aumento dos preços e manter as receitas com as vendas de petróleo, apesar da queda da extração, durante muito tempo. Entretanto, a disciplina do grupo se rompeu em meados de 2011, quando o Irã não pôde impedir que Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos aumentassem a produção, a pedido do Ocidente, para conter a escalada de preços.
Diante da pressão dos EUA e da Europa e das diferenças com seus parceiros da Opep, Teerã concentrou esforços em aumentar as vendas para as grandes economias asiáticas. China, Japão, Índia e Coreia do Sul são hoje os maiores importadores de cru iraniano, mas tudo indica que esses países buscarão outros fornecedores diante do aumento da pressão americana para que deixem de comprar de Teerã. A asfixia financeira e comercial imposta por Washington já havia tornado quase inviáveis as vendas por Teerã.
Durante 2011 o país persa foi praticamente impossibilitado de cobrar por suas vendas. Primeiro o banco central indiano deixou de transferir os pagamentos e mais tarde se interromperam as operações com entidades da Turquia e Emirados Árabes. Recentemente alguns compradores pagaram suas contas através do banco Gazprombank, filial da gigante energética russa. Moscou é em princípio o último aliado quase incondicional que resta ao governo do presidente Mahmud Ahmadinejad.
Diante da impossibilidade cada vez maior para o regime de burlar as sanções para tirar partido de seus recursos, Teerã divulgou a ideia de que estaria disposta a bloquear o estreito de Ormuz em reação à pressão do Ocidente.
Pela passagem marítima, que em sua parte mais estreita tem apenas cerca de 37 quilômetros, são transportados 17 milhões de barris de petróleo cru por dia, 35% de todo o petróleo que se transporta por mar e 20% de todo o que é comercializado no mundo. Isso sem contar as remessas de gás natural liquefeito. Cerca de 70 milhões de toneladas desse produto passaram por Ormuz entre janeiro e outubro de 2011.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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