domingo, 15 de janeiro de 2012

IRÃ ESTÁ NUM BECO SEM SAÍDA: TODOS OS PAÍSES DECENTES VIRARAM-LHE AS COSTAS

Iranianos sofrem com sanções ocidentais
Medidas em represália a violações de direitos e ao programa nuclear elevam dificuldades da população a níveis nunca vistos
Preço da gasolina é multiplicado por 4, e o do pão triplica; tanto o Ocidente quanto o governo são criticados
SAMY ADGHIRNI - FSP
Sanções comerciais e financeiras afetam a vida dos iranianos há mais de 30 anos. Mas as últimas medidas contra Teerã elevam as dificuldades no dia a dia da população a nível jamais visto.
Do pessoal ao profissional, os iranianos pagam caro pela hostilidade entre Teerã e as potências ocidentais, que buscam sufocar a economia do Irã em represália ao seu programa nuclear e a violações de direitos humanos.
Desde que a ONU fechou o cerco contra bancos iranianos, em 2010, o preço do pão triplicou e a gasolina foi multiplicada por quatro. Empresas têm dificuldade para pagar fornecedores e receber investimento externo.
Sem poder modernizar sua estrutura, as petroleiras que sustentam as finanças nacionais produzem menos. A assistência da China, que ignora as sanções, não é suficiente, e o resultado é menos liquidez em moeda estrangeira e negócios desacelerados.
Com entrada de capitais em queda, o governo teve que cortar subsídios a serviços, o que levou à disparada da inflação. Analistas dizem que os US$ 40 mensais em "cash" que o regime passou a fornecer em troca a cada adulto não compensam a perda.
O desemprego está oficialmente em 14,6%, mas a taxa real é tida como bem maior.
"Agora o problema não é a repressão, mas o bolso", diz o cabeleireiro N.K, 38. "As pessoas estão tensas, e isso é visível no trânsito, onde há cada vez mais brigas."
A crise se nota também nos canteiros de obras parados.Hospitais e universidades usam equipamento ultrapassado, devido aos entraves para importar alta tecnologia.
Proibidas de renovar a velha frota e até mesmo de comprar peças de reposição, as empresas aéreas estão entre as mais perigosas do mundo.
O quadro se agravou com as novas sanções dos EUA, que pela primeira vez visam o Banco Central do Irã, receptor do dinheiro do petróleo e epicentro da economia.
A medida levará seis meses até entrar totalmente em vigor, mas já desregulou as finanças do Irã. A moeda local, o rial, desvalorizou-se 20%, gerando um rombo nas contas externas das empresas e minando o poder de compra.
Segundo analistas, o governo orquestrou a desvalorização para reduzir artificialmente o valor da dívida pública, agravada pela falta de entrada de capitais estrangeiros.
O presidente Mahmoud Ahmadinejad recentemente admitiu pela primeira vez que as sanções estão prejudicando o país. Resumindo o sentimento de muitos iranianos, o estudante H.R, 22, critica o governo pela intransigência que levou às punições.
"Até apoio o programa nuclear civil, mas o preço que pagamos pelo tom de constante confrontação não vale a pena". Mas critica também o Ocidente, que "deveria entender que as sanções só prejudicam cidadãos comuns."
O banqueiro M.A, 35, está pessimista. "Sou pago para achar maneiras de contornar as sanções, mas ficou difícil depois que pegaram o Banco Central. Está ruim para todo mundo, e isso é só o começo".

Medidas não são únicas causas dos problemas, diz pesquisador
FSP
As novas sanções americanas ao Irã ainda não entraram em vigor, mas já causam pânico na população iraniana, que corre para se desfazer de seus bens por temer que se desvalorizem.
O impacto psicológico é diagnosticado pelo pesquisador iraniano-americano Kevan Harris, da Universidade Johns Hopkins (Baltimore, nos Estados Unidos), especialista em política econômica do Irã.
Ele concedeu entrevista à Folha por e-mail.
Folha - Qual a situação da economia iraniana?
Kevan Harris - A situação geral não é boa. A melhor notícia para a população no último ano é que ela estava recebendo dinheiro vivo do governo. Apesar de parte desse dinheiro ir para atividades especulativas, acho que os pagamentos em espécie serviram para aumentar o padrão de vida da população.
Mas, se esses pagamentos perderem seu valor, o que já está acontecendo com a queda do rial, então as pessoas enfrentarão alta de preços sem o amparo dos subsídios para energia e alimentação que existiam antigamente.
Todos os maus indicadores são causados diretamente pelas sanções?
Diretamente, não. Há vários níveis de sanções, a maioria delas impostas pelos EUA. Sanções sobre transações financeiras vêm aumentando o preço dos produtos trazidos do exterior, enquanto os anúncios mais recentes causaram pânico no mercado de divisas. Portanto, anúncios de sanções tendem a desestabilizar um mercado doméstico já bastante incerto.
Qual o maior efeito das últimas sanções ao Irã?
O maior efeito parece ser o efeito psicológico nas pessoas, que acham que seus bens serão desvalorizados e agora correm para transferir seu capital para outro tipo de bens.
O país pode chegar ao ponto de se tornar economicamente inviável?
Inviável para quem? A vida pode ficar mais difícil para muita gente, sim, mas a guerra, econômica ou de outra forma, sempre gera possibilidade de benefícios. É provável que os iranianos de Dubai estejam faturando.
Qual a chance de a escalada com o Ocidente gerar um conflito militar?
Tomara que Obama perceba que uma guerra afundaria o mundo na recessão e o faria perder a eleição. Mas Washington não é um lugar onde os bons argumentos tendem a prevalecer. A situação é mais perigosa hoje do que nas conversas sobre guerra em 2005-2006.

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