segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

JAPÃO

Ilha japonesa oferece exemplo de como não reconstruir após tsunami
Martin Fackler - NYT
Na noite de 12 de julho de 1993, a remota ilha de Okushiri foi destruída por um imenso terremoto que hoje parece ter sido um aviso assustador do desastre ainda maior que atingiu o nordeste do Japão em março. Os moradores ainda se lembram com horror como uma parede de água negra e borbulhante surgiu da escuridão para consumir comunidades inteiras, deixando quase 200 mortos.
Na meia década seguinte, o governo japonês reconstruiu a ilha, erguendo paredes de concreto de 10 metros em longas extensões da costa, fazendo com que ela pareça mais uma fortaleza do que um centro de pesca. Os projetos de construção no valor de 1 bilhão de dólares incluíram não só as pesadas defesas contra ondas, mas também bairros inteiros construídos em terreno mais alto e alguns monumentos, como um memorial futurístico do tsunami no valor de US$ 15 milhões com um painel de mosaicos de vidro para cada vítima.
Mas hoje, à medida que o Japão inicia uma reconstrução de uma década e US$ 300 bilhões na costa nordeste, Okushiri se transformou numa espécie de exemplo do que não fazer. Em vez de restaurar o vibrante passado da ilha, muitos moradores dizem hoje que os gastos desenfreados de US$ 1 bilhão podem ter ajudado a matar o seu renascimento.
A reconstrução trouxe uma onda de empregos bem pagos na construção civil, dizem os moradores. Mas este foi o problema: acostumados a salários mais altos, muitos dos jovens remanescentes se recusaram a voltar à vida dura de sobreviver do mar, e deixaram a ilha em busca de trabalho assalariado em outros lugares.
Isso acelerou a redução da população que acontece aqui e na maior parte do Japão rural, à medida que as pessoas, principalmente os jovens, são atraídas para as cidades. O número de moradores da ilha caiu mais rápido do que em outras áreas rurais, dizem especialistas, caindo de 4.679 quando o tsunami atingiu a ilha para 3.160 no ano passado.
“Nós não usamos muito dinheiro de reconstrução para investir em novas indústrias para manter os jovens aqui”, disse Takami Shinmura, 58, prefeito do único vilarejo de Okushiri, que leva mesmo nome que a ilha. “Nós nos arrependemos disso agora.”
Desde o tsunami em março, centenas de oficiais de governos locais nas áreas afetadas, bem como a mídia nacional, foram para Okushiri, uma ilha com cerca de duas vezes o tamanho de Manhattan, em busca de lições de sua reconstrução.
Mas a mensagem de Okushiri não parece fazer uma diferença. O país está se movendo por uma onda de simpatia nacional pelos desabrigados pelo último desastre, mesmo que alguns japoneses questionem silenciosamente se faz sentido começar uma reconstrução cara de comunidades que estava diminuindo bem antes do terremoto de 2011.
Os quilômetros de largos muros contra as ondas dão aos portos de pesca por trás deles o ar de pequenas cidades em castelos medievais, e os pescadores só conseguem chegar ao mar passando por pesados portões de aço.
O boom da construção criou outros elefantes brancos. O porto pesqueiro de Aonae, parte da cidade de Okushiri, tem um refúgio para tsunami de US$ 35 milhões e que pode abrigar 2 mil pessoas, três vezes a população de Aonae. O refúgio, uma plataforma alta onde as pessoas podem subir para escapar das ondas, parece uma imensa mesa de concreto que cobre os barcos e docas embaixo.
Yasumitsu Watanabe, chefe da cooperativa de pescadores de Aonae, disse que foi falta de visão imaginar que a ilha pudesse voltar à sua economia original, baseada na pesca. Pior que isso, o número de abalones, o molusco que é a base da economia da ilha, nunca se recuperou do tsunami, que danificou seu habitat nas águas rasas.
O número de pescadores na ilha caiu de cerca de 750 na época do tsunami para menos de 200, disse ele.
“Precisamos de uma nova fonte de empregos”, disse ele. “Só a pesca não é mais suficiente.”
Watanabe disse que gostaria que a ilha tivesse construído abrigos onde os peixes e moluscos pudessem ser criados. Outros dizem que Okurushi poderia ter usado o dinheiro do governo para construir fábricas para processar os peixes pegos no local, que agora são enviados para outros lugares, ou que tivesse alimentado o turismo na ilha de paisagens na maior parte pristinas, que tem apenas um hotel moderno.
Os gastos excessivos da reconstrução na verdade tornaram esse tipo de diversificação mais difícil, dizem funcionários da ilha. Além de usar fundos do governo, Okushiri emprestou mais de US$ 60 milhões para seus próprios projetos de construção, um fardo financeiro que a cidade só terminará de pagar em 2027. Isso obrigou a postergar melhorias necessárias, como substituir a velha sede da prefeitura, de madeira, com 56 anos de idade, que pode ser considerada um perigo durante terremotos.
“Não temos mais reservas, só dívidas”, disse o prefeito, Shinmura. “Tohoku deveria aprender com a nossa experiência”, acrescentou ele, referindo-se à região nordeste, atingida pelo terremoto e o tsunami no ano passado.
As amargas experiências de Okushiri fizeram com que alguns analistas em Tóquio propusessem abordagens radicalmente diferentes para reconstruir o nordeste. Yutaka Okada, um economista do Instituto de Pesquisa Mizuho, disse que o Japão pode se sair melhor se simplesmente der somas de dinheiro substanciais para as vítimas do último tsunami. Alguns podem colocar o dinheiro no bolso e ir embora, diz ele, mas outros o usarão para abrir novas empresas, o tipo de inovação no setor privado que costuma faltar no Japão.
“O setor privado terá soluções melhores do que simplesmente construir elefantes brancos”, disse Okada.
Em Okushiri, o fim do boom da reconstrução forçou esse tipo de empreendimento. Para encontrar novas formas de ganhar dinheiro, a maior construtora de Okushiri, Ebihara Kensetsu, expandiu-se para outros ramos, comprando o único hotel turístico, vendendo água mineral engarrafada e abrindo a primeira produtora de vinhos da ilha.
“Não podemos mais depender tanto do governo central”, disse o presidente da companhia, Takashi Ebihara. “Isso é verdade não só aqui, mas em Tohoku e em toda parte.”
Tradutor: Eloise De Vylder

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