quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O POVO QUE NASCEU PARA A SERVIDÃO

Um ano após retorno, Baby Doc tem vida de rei em Porto Príncipe
Acusado de crimes contra a Humanidade, ex-ditador ainda é venerado por muitos haitianos
Do Washington Post
PORTO PRÍNCIPE - Para um ex-ditador acusado de crimes contra a Humanidade, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, até que leva uma vida boa em Porto Príncipe, para onde retornou após 25 anos de exílio na França.
Apesar de tecnicamente estar em prisão domiciliar, o ex-presidente (1971-1986) almoça com admiradores em elegantes bistrôs de Petionville, no subúrbio da capital, onde pode ser visto comendo um poulet creole. Sua saúde antes delibitada melhorou o suficiente para que possa tomar um vinho tinto.
Seu retrato ainda é vendido nas ruas.
Baby Doc deu uma palestra no mês passado numa universidade de Gonaives. A aparição foi classificada pelo reitor como "totalmente inconcebível" - os estudantes vibraram.
Na semana passada, ele foi, escoltado pela polícia, à cerimônia organizada pelo governo para lembrar os dois anos do devastador terremoto de 2010. O público, que incluía o presidente Michel Martelly e o ex-presidente americano Bill Clinton, se levantou para saudá-lo.
Jean-Claude Duvalier está de volta ao Haiti e é muito provável que nunca seja julgado pelos crimes de que é acusado por supostas vítimas e por grupos de direitos humanos: desaparições, detenções ilegais, intimidação, tortura e execução de jornalistas, ativistas e adversários políticos.
- Eu não acredito no que estou vendo - disse Boby Duval, que passou nove meses, na década de 1970, na prisão de For Dimanche, uma das três que formavam o chamado "triângulo da morte" na era Duvalier - pai e filho, Papa Doc e Baby Doc - e dos Tontons Macoutes, a milícia particular do clã que controlava o Haiti com violência e intimidação.
Duval hoje tem escolinhas de futebol para crianças de favelas haitianas. Quando entrou na prisão, era um atleta vigoroso. Quando saiu, tinha apenas 45 quilos.
- Em Fort Dimanche, eles não matavam você: deixavam que morresse de fome - conta. - Eu vi pessoas morrerem de fome e nunca se sabia quem seria o próximo.
Após a volta de Baby Doc, em janeiro de 2011, três acusações foram apresentadas contra ele: apropriação indébita de fundos públicos, violação de direitos humanos e crimes contra a Humanidade.
Apesar de as gerações mais velhas tremerem ao lembrar dos crimes da era Duvalier, muitos haitianos ainda olham com nostalgia para os tempos de um Haiti mais próspero, quando turistas não tinham medo e o país era o maior fabricante mundial de bolas de beisebol.
Mais de 60% dos haitianos têm menos de 25 anos, ou seja, não viveram o governo Baby Doc e conhecem o período apenas através do que ouvem dos mais velhos.
- Ele será liberado de todas as acusações - disse o advogado de Baby Doc, Reynold Georges. - Eles não têm prova de nada.
Questionado sobre se Duvalier, hoje com 60 anos, realmente planeja voltar à política, o advogado resume:
- Se ele ele decidir tentar a Presidência, será um candidato legítimo, e se for adiante, será eleito.

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