Pirataria marítima contribui para o desenvolvimento da Somália
Natalia Junquera - El País
"Não é que estejamos repartindo milhões de dólares entre três pessoas", respondeu o chefe pirata Abshir Boyah quando lhe perguntaram o que fazia com todo o dinheiro que ganhava com os sequestros. A frase está incluída em um polêmico relatório do prestigioso grupo de pensadores britânico Chatham House, que analisa o impacto econômico da pirataria na Somália. O documento conclui que a atividade está trazendo estabilidade e desenvolvimento ao país. Ela reduziu a inflação, deu emprego, aumentou os salários dos somalis e fortaleceu sua moeda. "Uma estratégia militar para erradicar a pirataria poderia prejudicar seriamente o desenvolvimento local", afirma a autora da análise, Anja Shortland, professora nas Universidades de Brunel, Oxford e Escola de Economia de Londres.
O relatório se baseia em entrevistas de campo, dados do mercado local e em imagens por satélite nas quais se vê, por exemplo, que as localidades com maior presença pirata têm luz. Faturam entre US$ 690 mil e 3 milhões por resgate, com um recorde de US$ 9 milhões em 2010. No total, nesse ano faturaram cerca de US$ 70 milhões. Parte do dinheiro fica no país.
Os piratas dão postos de trabalho e pagam bem. Os salários dos somalis são mais altos nas regiões onde a indústria pirata se instalou. Em cada sequestro intervêm em média cem pessoas. As diretamente envolvidas no assalto no mar são aproximadamente 50. O restante trabalha em terra. São cuidadores (quando, para evitar que outros clãs ou forças navais arrebatem os reféns, os escondem em povoados locais), agricultores, cozinheiros e comerciantes que facilitam tudo que é necessário para a alimentação de piratas e sequestrados.
A ONU estima que 40% das receitas da pirataria serviram em 2010 para financiar o emprego local. Desses 40%, 30% ficavam para os piratas diretamente envolvidos no sequestro; 10% iam a presentes e subornos para a população local; os outros 50%, para patrocinadores e financiadores estrangeiros.
É verdade, lembra o relatório, que os piratas não se privam dos caprichos próprios do criminoso em grande escala e investem parte de seus ganhos em "importar carros esportivos e drogas". Mas na Somália há uma profunda cultura de compartilhar. Na verdade, um provérbio somali diz: "O homem que tem 150 cabras enquanto seus parentes não têm nenhuma é pobre". Os piratas parecem convencidos da obrigação moral ou da conveniência de investir parte de seus ganhos entre seus conterrâneos.
Contribuíram para reduzir a inflação, acrescenta o relatório. "Os dados mostram que o preço do arroz baixou porque, contra todos os prognósticos, estão trazendo 'estabilidade' e garantindo o abastecimento. O crescimento de sua indústria (e de suas necessidades) os obrigou a facilitar canais aos provedores. Por exemplo, os piratas estão comprando caminhões para transportar mercadoria.
O relatório explica que aproximadamente um terço do dinheiro obtido nos resgates (e pago em dólares) se transforma em moeda local. "Essa injeção de dólares americanos serviu para valorizá-la."
O preço do gado de qualidade, que na Somália é mais um bem de investimento que de consumo - os somalis comem basicamente bode -, isto é, que dedicam à exportação, também aumentou nas zonas onde os piratas operam, beneficiando os criadores locais.
A Somália é um dos países mais pobres do mundo. Por isso quase não se vê de noite nas imagens por satélite. Não tem luz. As únicas cidades do país nas quais o consumo de eletricidade está aumentando são Garowe e Bosasso. Garowe é "o coração" das tribos piratas e Bosasso seu principal porto de importação, aonde chegam os sofisticados aparelhos de comunicações, os motores para suas lanchas rápidas e as armas.
Em Garowe vivem (e gastam) muitos piratas. "É fácil identificá-los por seus carros de luxo e seus vícios caríssimos, como as drogas", diz o relatório. As imagens por satélite dessa cidade mostravam em 2002 muito poucos carros. Na imagem de 2009 se vê um número significativo de casas em bairros residenciais com um veículo à porta.
Calcula-se que o custo da pirataria por ano, incluindo as medidas para combatê-la - mais de 30 países têm barcos de guerra na região - situa-se entre US$ 7 bilhões e 12 bilhões, enquanto os resgates somam cerca de US$ 250 milhões. "Substituir essa fonte de renda por uma combinação de forças de segurança financiadas com fundos estrangeiros e ajuda ao desenvolvimento seria consideravelmente mais barato que continuar com o atual 'status quo'", conclui o relatório.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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