quinta-feira, 6 de julho de 2017

Michel ficando ou Michel saindo, governo só em 2019
Heloísa Chagas - Blog do Noblat
Esta semana a República passou a operar de vez no modo salve-se quem puder. Já vimos isso e sabemos que, nessas horas, raramente sobra um bote, ou mesmo um colete salva-vidas, para o resto do Brasil.
A Polícia Rodoviária paralisa atividades porque o dinheiro acabou, mesma razão pela qual está suspensa a emissão de passaportes. O aumento do Bolsa Família foi cancelado, os postos do Farmácia Popular nas periferias estão sendo fechados, a cada dia mais balas perdidas acertam crianças, grávidas e bebês, e o financiamento do Fies terá regras mais duras.
A vida real segue e demanda providências urgentes do poder público, mas as energias do governo e do Congresso estão voltadas para a própria sobrevivência.
O que se discute em Brasília, e mobiliza corações e mentes, é a lei da gravidade política, segundo a qual quanto mais demorar, pior para Michel Temer.
A oposição quer esticar a discussão e deixar para agosto a votação da denúncia contra o presidente por corrupção no plenário da Câmara porque ainda não tem os 342 votos necessários para afastá-lo do cargo.
O Planalto, que até há poucos dias jactava-se de sua poderosa base de 400 deputados, tampouco tem hoje segurança em relação aos números. Não conseguiu fechar ainda nem os 34 votos de que precisa na CCJ, luta para garantir 172 apoios ou ausências no plenário e sabe que, no seu caso, o relógio corre ao contrário.
É por isso que a agenda presidencial está lotada de políticos, numa média de trinta por dia, a porta do cofre das verbas das emendas parlamentares foi escancarada, e a caneta das nomeações anda cheia de tinta. Sem falar nas concessões a setores diversos que têm votos na Câmara e no estica-e-puxa em torno da lei orçamentária que será votada.
Vai ficar mesmo muito caro manter Michel Temer no plenário, e não só pelos gastos que colocam em xeque o ajuste fiscal, mas também pelas contas da credibilidade, da confiança e da própria governabilidade, que podem acabar zeradas.
Dependendo do que se faz para vencer, vitórias às vezes têm sabor de derrotas. Se conseguisse enterrar a denúncia num passeio no plenário da Câmara, com ampla e consagradora maioria, Temer sairia fortalecido para seguir em frente e até aprovar reformas como a da Previdência. Não é o que parece que vai acontecer. Se vencer com ausências e outros truques, será porque o outro lado não teve 342 votos - o que não quer dizer que o governo os tenha.
A própria exposição às acusações de corrupção contra ele e seu governo pode levar Michel Temer a sair dessa operação machucado e desgastado a ponto de não lhe restar grande coisa a fazer a não ser empurrar as coisas com a barriga até outubro de 2018.
E se Michel for derrotado e afastado?
Até poucos dias atrás, a hipótese era para lá de remota. Agora, nem tanto. Mas o afastamento do presidente dificilmente abrirá caminho para um governo capaz de tocar uma agenda de reformas ou, mais importante, de governar e dar respostas ao país no âmbito da vida real. Não haveria nem tempo.
Durante o hipotético afastamento para o julgamento no STF, Rodrigo Maia assumiria interinamente - e, portanto, com pouca força. Se, em caso de renúncia ou condenação, houver eleição indireta, ele ou qualquer outro teria um mandato de meses, sem legitimidade para implementar políticas e tomar medidas fortes - até porque a campanha eleitoral estará em curso.
Tudo indica que chegamos àquele ponto em que, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Michel ficando ou Michel saindo, dificilmente teremos governo de verdade até a eleição de 2018.
O que interessa agora é tentar adivinhar qual o impacto disso na vida real e seu efeito sobre o já péssimo humor do distinto público em relação a autoridades e políticos. Afinal, esse povo meio apático e desencantado não está indo para as ruas hoje, mas vai votar em 2018.

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