segunda-feira, 3 de julho de 2017


O estudo da História é fundamental para compreendermos a situação em que vivemos e para termos alguma noção dos cenários que teremos de enfrentar no futuro ou até, eventualmente, que podemos vir a despoletar. A grande dificuldade no estudo da História é, para muitos, saber como abordar uma quantidade inabarcável de material. Contudo, mesmo antes de começarmos as leituras, já carregamos uma série de ideias feitas, que podemos tomar por simples bom senso, e que podem adulterar todo o nosso entendimento da História. Muitos debates intelectuais são ganhos à partida pela esquerda não por esta acreditar nestas ideias mas por saber usar a crença que os seus adversários têm nelas.


A História só pode ser feita com algum distanciamento temporal?

Parece uma questão de senso comum dizer que a História não deve ser elaborada em cima dos eventos e que deve ser dado tempo para que as paixões associadas aos eventos não toldem o entendimento dos historiadores, que ao mesmo tempo ficam também com um maior acervo de documentação, podendo julgar as coisas com maior critério e isenção. Contudo, também poderíamos argumentar em sentido contrário: a História elaborada com grande afastamento temporal é uma farsa, porque vai ser escrita por pessoas que nada conheceram dos sentimentos e intenções dos envolvidos nos eventos, projectando outros totalmente imaginários no seu lugar; além disso, o “historiador do futuro” não vai ficar com mais documentação sobre os eventos mas com menos, porque muita coisa vai se perder de forma acidental ou devido ocultação deliberada.
As duas posições expressas acima são igualmente frágeis e denotam um problema insuperável da historiografia, que tem por objecto algo que não se pode reproduzir em laboratório para observação detalhada. Pode-se dizer que a teoria favorável ao “maior distanciamento temporal” tem um índice de aceitação mais elevado, nem que seja pelo interesse da classe dos historiadores e da própria “geração actual”. A quem calha vivenciar o presente cabe também o privilégio fugaz de afirmar que aquele é o momento adequado para avaliar todo o passado, cujos representantes não podem se levantar e contestar essa pretensão. Mas, aceitando esta “teoria”, qual é o distanciamento temporal adequado para começar a fazer-se História adequadamente? Alguns falam de séculos, outros de apenas alguns anos, pelo que se vê que se trata de uma questão de conveniência. Empiricamente, pode considerar-se que existe um afastamento suficiente quando já não há grande disputa sobre os factos e a sua interpretação. Mas isto não quer dizer que se tenha chegado a um maior grau de certeza, pode apenas ter se chegado a um estado de mentira confortável. A ausência de disputa pode se ter dado por inúmeros motivos, desinteresse, boicotes, e não necessariamente por um “progresso da razão”.
Mas vejamos mais atentamente alguns pontos envolvidos nesta questão.
A não ser que acreditemos que a História é composta de factos impessoais, que “usam” as pessoas e que, por isso, não têm qualquer noção do que lhes está a acontecer, temos de ver a História como um conjunto de eventos motivados por intenções e que os intervenientes tinham um certo entendimento das situações em que se encontravam. As fontes mais próximas são essenciais para conhecer estas coisas, caso contrário, o que as pessoas queriam e como viam as coisas terá que ser adivinhado. Claro é possível fazer análises psicológicas séculos mais tarde que descortinem as intenções dos envolvidos com mais acuidade do que aquilo que os próprios envolvidos poderiam perceber neles mesmos, mas só é possível fazer isso com base em fontes próximas.
Em geral, os trabalhos historiográficos mais próximos dos eventos têm maior probabilidade de captar as intenções e a auto-avaliação da situação do que estudos posteriores, que podem até já nem ter essa pretensão, estando mais preocupados em enquadrar o passado dentro de problemáticas “actuais” (o que em si não é um erro, desde que seja explicitado). Mas há dois pormenores. Primeiro, a historiografia mais antiga pode tomar as intenções e o contexto como uma coisa tão óbvia que não acha necessário explicitar estes pontos, o que coloca um problema para quem vem mais tarde e não entende o contexto. Segundo, os historiadores, antigos e modernos, podem usar os discursos justificativos dos personagens históricos como se estes correspondessem totalmente às suas intenções, quando pode não ser nada assim. Isto aqui já bate nos limites do entendimento histórico estrito, que fica coxo quando não se entendem motivações políticas, religiosas, afectuosas, psicológicas, entre outras, subjacentes aos acontecimentos.
Temos também a questão da quantidade e da qualidade dos factos. Também não é óbvio quem está melhor colocado sobre isto, se os observadores próprios ou se os mais distantes. Há civilizações que se perderam e nem sequer conseguimos decifrar a sua linguagem. Por outro lado, diz-se que sabemos hoje mais sobre os romanos do que eles sabiam de si mesmos. Os investigadores criminais realçam que é fundamental a recolha de indícios nas horas seguintes ao crime ou estes irão perder-se. Por outro lado, há crimes cuja falsa autoria só se descobre décadas mais tarde. Tudo depende do tipo de elementos em causa, de perdas ou descobertas acidentais, da competência de investigadores e assim por diante.
Existe também a questão da distinção entre História e jornalismo. Na falta de outros argumentos, é possível sempre dizer que não faz sentido a História debruçar-se sobre acontecimentos recentes porque essa é a função do jornalismo (incluindo crónicas já alguma reflexão). Assim, no máximo poderíamos apenas fazer uma História do próprio jornalismo. Embora estas duas actividades tenham alguns pontos de contacto, também apresentam enfoques distintos, pelo que não se excluem mutuamente e podem abordar os mesmos eventos. O jornalismo debruça-se sobre os eventos mais recentes, por regra. O jornalista pode tentar enquadrá-los numa moldura temporal mais ampla e numa certa estrutura conceptual e, assim, aproxima-se da História. Contudo, o jornalista tem um tempo bastante limitado para fazer isso. Esse tempo em falta é aquilo que é dado ao historiador, que tem também a vantagem de poder escolher assuntos bastante afastados no tempo. Mas nada impede que o historiador deite o olhar sobre acontecimentos relativamente recentes. Na realidade, o sonho de qualquer historiador seria poder averiguar os eventos remotos com a quantidade de informação que o jornalismo tem à sua disposição. Claro que falta ao historiador, ao analisar ao presente, saber o que vem a seguir e que, supostamente, dá o sentido aos eventos. Mas este conhecimento do “consequente” é também uma fonte de inúmeros erros de avaliação histórica, na linha do pensamento hegeliano de que “se aconteceu é porque tinha de acontecer”. Se abordamos a História assim, de forma mecânica, ela não nos serve para nada. Talvez o mais caricato em relação a este ponto é que, quando passamos para o jornalismo puro, poucos colocam em dúvida certas “análises do momento”. Quem não se lembra dos vaticínios de que Obama iria trazer a “paz universal” e de que Trump era a certeza da guerra mundial, do fascismo e assim por diante. Ou seja, o jornalismo pretende ser absolutamente certo quando faz previsões de alcance histórico a partir de acontecimentos do momento, mas o historiador, garantem-nos, não pode abordar esse material sem estar fadado a se iludir.
A partir das considerações anteriores, podemos tirar algumas conclusões de carácter mais prático. Se quisermos estudar em profundidade um certo período histórico ou alguma questão histórica específica – e isto também é válido para a filosofia e para as ciências sociais -, o procedimento básico deve ser a leitura de todo o material relevante a respeito, desde o mais remoto até ao mais recente. Até há algum tempo atrás, isto seria uma coisa tão óbvia que se tornava irrelevante dizê-la, mas hoje há universidades que nem sequer aceitam trabalhos citando obras “antigas” (ou seja, que tenham mais de 5 ou dez anos). Podemos até esboçar uma defesa desta “censura temporal”: caso os alunos leiam trabalhos antigos, podem ser levados a uma data de erros que já foram impugnados pela pesquisa mais actual. Claro que isto pode acontecer, mas o oposto é igualmente possível, e a toda a hora aparecem “novas descobertas” que, afinal, já estavam impugnadas com grande antecedência, mas ninguém se deu ao trabalho de averiguar isso. A ideia de que os novos trabalhos em qualquer área, aos menos os melhores, transcendem e abarcam os anteriores é obviamente utópica, mas é uma mentira confortável para professores e alunos preguiçosos.
Note-se que as leituras não têm necessariamente de ser feitas do mais antigo para o mais recente, embora isso tenha algumas vantagens. Pode ser mais proveitoso começar a ler as obras mais antigas em paralelo com outras mais recentes que tenham grande poder de enquadramento e possam explicar alguns pormenores cujo desconhecimento torna difícil a compreensão das obras pretéritas. Está implícito aqui um trabalho prévio de fazer a lista das obras relevantes em conjunto com leituras inspeccionais.
O que é de extrema importância no processo de leituras é notar os hiatos, a introdução de novos pontos de vista em substituição de outros, por vezes sem qualquer justificação. As novas perspectivas podem até ser mais interessantes, mas a mudança de rumo pode ser um sinal de que algumas coisas deixaram de ser percebidas, mas também pode ter havido uma intenção deliberada de esconder certas coisas. O importante não é fazer logo um julgamento sobre o que pode ter ocorrido para essas mudanças de rumo terem ocorrido mas absorver as várias contribuições e deixar que as tensões entre perspectivas se acumulem, o que por si pode ser suficiente para que uma explicação apareça.


A História é escrita pelos vencedores?

Dizer que a História é escrita pelos vencedores pode ter um grande efeito quando é acompanhado de alguns exemplos avulsos que parecem confirmar isso (qual é a teoria que não é assim?), mas tomada como uma teoria geral não diz quase nada. Afinal, o que se entende por vencedores? E a frase pretende dizer que a História não tem qualquer objectividade mas é apenas um conjunto de acções de propaganda? Se a frase for tomada em sentido absoluto, ela acaba por ser auto-contraditória. Com efeito, o sujeito apenas consegue concluir que a História é escrita pelos vencedores se tiver algum conhecimento objectivo da História para ter algum efeito de contraste, pelo que vai ter de admitir que existe uma parte da História não limitada à propaganda.
Assim, o pomposo adágio de que “a História é escrita pelos vencedores” limita-se a afirmar que na História existe um certo coeficiente de propaganda por parte dos povos e regimes que tiveram algum ascendente em alguma época. Mas quem é que não sabe disto? A questão é saber qual o peso da propaganda dos vencedores face aos trabalhos de carácter mais objectivo e aos escritos dos perdedores. Além do mais, um autor pode misturar de forma propositada ou inconsciente as várias perspectivas. Heródoto foi acusado durante muito tempo de ser partidário e impreciso, mas o seu trabalho é muito mais objectivo do pode parecer à primeira vista. Tucídides mostrou-se sobretudo interessado em conhecer os motivos profundo da Guerra do Peloponeso, apesar de ser do lado “perdedor”. Por outro lado, muita da historiografia anglo-saxónica até hoje assume de forma mais ou menos explícita a crença na superioridade dos povos de língua inglesa, o que não impugna esses trabalhos mas obriga-nos a vê-los com alguma cautela, especialmente quando se referem ao mundo católico. Também, grande parte da historiografia do séc. XX foi influenciada pelo “ódio do Ocidente a si mesmo”, pelo que é o “vencedor” a dar voz ao “perdedor” em nome da “ojectividade”..
Além disso, os chamados “perdedores” podem dedicar-se à História por vários motivos. Por exemplo, a historiografia em Portugal desenvolveu-se muito no séc. XIX, com nomes como Alexandre Herculano e Oliveira Martins, precisamente quando começava o declínio português. A História para eles acabou por ser como que um passo ao lado, porque eles acabaram por ser marcados, no final, pela desilusão. Noutra situação, houve uma espécie de esforço conjugado dos historiadores fora do Ocidente, do lado “perdedor”, para reescrever a História do mundo como uma tragédia provocada pelo homem branco e pelo cristianismo, e que depois também foi replicada por muitos desses homens brancos. O resultado é que os “perdedores” ganharam um direito de retribuição, que actualmente estão a reclamar de forma veemente.
No ponto anterior, a conclusão prática apontava para uma necessidade de alargar a base temporal de autores a explorar. Neste ponto, penso ser evidente que o alargamento deve ser “horizontal”, olhando para autores com diversos pontos de vista, sejam “vencedores”, “perdedores” ou “neutros”. Isto não quer dizer que a verdade esteja numa média destas perspectivas, por vezes pode estar quase toda num lado. E por vezes não dá para tirar grandes conclusões, mas o importante é perceber as tensões entre os pontos de vistas e entender como eles podem nos ter induzido a aceitar certos “factos” e interpretações sem haver uma justificação para isso.


A História irá me absolver?

A 16 de Outubro de 1923, Fidel Castro, perante a iminência de ser condenado em tribunal, pensou mais adiante e declarou: “La historia me absolverá”. Desde então, personalidades como Lula da Silva repetiram a mesma frase como forma de tentarem sair de situações aflitivas, fazendo uso simultaneamente da vitimização e da profecia. Mas por que motivo uma afirmação como esta, que podia ser vista apenas como uma frase de circunstância, tem um efeito desarmante nos adversários? Só pode ser porque o seu conteúdo tem algo implícito para além daquilo que está imediatamente óbvio e que deixa os ouvintes paralisados.
Depois da discussão dos dois pontos anteriores, não é difícil perceber o que está em causa. Quando se repete vezes sem conta que a História é escrita pelos vencedores, isso cria um clima favorável à vitimização contra os supostos poderes dominantes (ainda que o envolvido faça parte dos poderosos). É como quem diz: “Estão a julgar-me? Vocês têm o poder de decretar o certo e o errado que sirvam os vossos propósitos”. No fundo, é a ideia de Trasímaco, na República: “a justiça é a conviniência do mais forte”. Por outro lado, mesmo o sujeito sob o qual recaem as evidência de prevericação mais evidentes pode sempre apelar subrepticiamente para o argumento de que a verdade só aparece na História ao fim de algumas décadas: “O que vos parece evidente aos vossos olhos, será evidentemente falso quando olhado desde o futuro”.
Contudo, isto só funciona se não for explicitado desta forma, aproveitando-se de alguns raciocínios automáticos e sentimentos associados, que as pessoas adquiriram passivamente à custa de ouvirem as mesmas coisas repetidas inúmeras vezes. Se tornarmos o implícito explícito, imediatamente surge uma questão: por que motivo tem tanta certeza o acusado de que a História o absolverá? Tanto poderá acontecer isto como o seu oposto. Trata-se de um caso de bluff, em que o sujeito apela ao julgamento da História, sabendo que os ouvintes ficam paralisados por não saberem qual seria o veredicto hipotético, e ele preenche o vazio proclamando a sua própria absolvição. Mas o truque não está propriamente em fazer a pessoa acreditar na futura absolvição mas em deixá-la na dúvida e, com isso, desviar a atenção para o julgamento presente, no qual já podem ter sido apresentadas provas irrefutáveis.
Mas o sujeito que diz que a História o irá absolver também faz uma ameaça velada. É como se, em meias palavras, dissesse: “Vocês agora têm poder para julgar-me, mas daqui a algum tempo, eu e os meus amigos estaremos no poder e quem vai ser julgado serão vocês, e serão encostados ao paredão e fuzilados”.


A História encerra as polémicas e fecha as interpretações?

Este ponto é como que uma divisão do primeiro mas com um enfoque um pouco diferente. Se a História só pode, segundo algumas pessoas, ser produzida com veracidade e isenção a partir de um certo afastamento temporal, fica sub-entendido que, quando isso acontece, as discussões ficam encerradas ou perto disso. À conta desta crença, já vi vários intelectuais de direita conceder foros de verdade a quase toda a visão da História defendida e até criada pela esquerda. Consideram que apenas as últimas décadas ainda estão em aberto, aquelas que não se deu o “afastamento suficiente”. Parece-lhes impossível que grupos enormes de académicos tenha dedicado horas infindáveis a produzir fraude atrás de fraude e acreditam que a repetição destas confirma a sua verdade.
Ao mesmo tempo que aceita isto, a direita bem comportada nega a si mesma o direito de rever a História, e o revisionismo passa a ser um privilégio dos grupos revolucionários. Aleksandr Dugin não teve qualquer problema em rever a História inteira para que esta se encaixasse na sua teoria da guerra dos continentes. Assim, ele vê a guerra entre Roma e Cartago apenas como mais um episódio na luta permanente entre potências terrestres e potências marítimas.
O revisionismo histórico pode ser uma coisa abjecta, como mostra o exemplo de alguns marxistas, mas isso não implica abdicar totalmente de fazer revisões da História, desde que sejam feita segundo critérios de veracidade. Mas nem sequer há uma grande necessidade de fazer este trabalho, porque existe uma enorme bibliografia sobre os mais diversos pontos. O que é necessário é passar por cima do bloqueio feito pelos jornalistas culturais, que nos querem fazer crer que existem apenas uns quantos autores respeitáveis, sugerindo que tudo o resto deve ser evitado a todo o custo.

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