Virtudes nacionais
Olavo de Carvalho - MSM
Que eu saiba, nenhuma acusação de tortura pesa ou pesou jamais contra aqueles oficiais atacados na porta do Clube Militar.
Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. Trezentos jovens insultando duas dúzias de octogenários – eis a imagem daquilo que, no Brasil de hoje, se considera um exemplo de coragem cívica.
É possível descer ainda mais baixo? É. Nenhum dos agressores se lembrou sequer de perguntar se algum daqueles velhos, a quem cobriam de cusparadas, xingamentos e ameaças, esteve pessoalmente envolvido nos episódios de tortura que lhes eram ali imputados, ou se o único crime deles não consistia em puro delito de opinião.
Que eu saiba, nenhuma acusação de tortura pesa ou pesou jamais contra aqueles oficiais atacados na porta do Clube Militar. O único acusado, o coronel Brilhante Ustra, não estava presente e foi queimado em efígie. Os outros pagaram pelo crime de achar que Ustra é inocente, que o governo militar foi melhor do que a alternativa cubana ou que as violências praticadas por aquele regime pesam menos do que as suas realizações. Por isso, e só por isso, foram chamados de assassinos e torturadores.
Não apenas a "coragem" é o nome que hoje se dá à covardia mais sórdida, mas o "senso de justiça" consiste em acusar a esmo, sem ter em conta a diferença que vai entre aplaudir um regime extinto e ter praticado crimes em nome dele.
Se o simples fato de avaliar positivamente um governo suspeito de tortura faz do cidadão um torturador, então os arruaceiros reunidos na porta do Clube Militar, bem como o seu instigador, o cineasta Sílvio Tendler, são todos torturadores, e o são em muito maior escala do que qualquer militar brasileiro, pelo apoio risonho e cúmplice que, uns mais, outros menos, por ações e omissões, têm dado a regimes incomparavelmente mais cruéis do que jamais o foi a nossa ditadura.
Essa observação aplica-se especialmente, e da maneira mais literal possível, aos militantes do PC do B, a organização mais representada naquele espetáculo. É o partido maoísta, nascido e crescido no culto a um monstro genocida, estuprador e pedófilo, campeão absoluto de assassinatos em massa, que se zangou com a URSS por achar que o governo de Moscou não era violento e cruel à altura do que o exigiam os padrões da revolução mundial.
Por todas as normas do direito internacional, a lealdade retroativa a um regime reconhecidamente genocida é crime contra a humanidade. A carga dessa culpa imensurável é a única autoridade moral com que a massa de jovens revoltadinhos se apresenta ante os oficiais das nossas Forças Armadas, acusando-os de crimes que talvez alguns de seus colegas de farda tenham cometido, mas que eles próprios jamais cometeram.
O sr. Silvio Tendler diz que sua mãe foi torturada. É possível. Mas isso dá a ele o direito de instigar uma multidão de cabeças ocas para que acusem de tortura qualquer saudosista do regime militar que encontrem pela frente? Não entende, esse pretenso intelectual, a diferença entre crime de tortura e delito de opinião?Opinião por opinião, pergunto eu: os méritos e deméritos do regime militar brasileiro já foram examinados com isenção e honestidade, em comparação com a alternativa comunista que suas pretensas vítimas lutavam para implantar no Brasil? Os brasileiros que, exilados ou por vontade própria, se colocaram a serviço dos regimes de Havana e de Pequim não se acumpliciaram com uma violência ditatorial incomparavelmente mais assassina do que aquela contra a qual agora esbravejam histericamente? Ou será que os cadáveres de cem mil cubanos, dez mil angolanos e setenta milhões de chineses, assassinados com o apoio dessa gente, pesam menos que os de algumas dezenas de terroristas brasileiros?
Havana, é verdade, fica longe, Luanda fica ainda mais longe, a China então nem se fala, e o Doi-Codi fica logo ali. Mas desde quando a gravidade dos crimes é medida pela razão inversa da distância em que foram cometidos?
Também é fato que os mortos de Cuba, de Angola e da China nunca foram manchete no Brasil, mas devemos acreditar, a sério, que a extensão do mal é determinada objetivamente pelo escarcéu jornalístico concedido a umas vítimas e negado a outras por simpatizantes ideológicos das primeiras?
Essas perguntas, bem sei, não se fazem. Não são de bom tom. Mas, na dissolução geral da própria ideia das virtudes, que senso do bom-tom poderia sobreviver num país cujo presidente se gaba, veraz ou falsamente, de haver tentado estuprar um companheiro de cela, e ainda diz ter saudades do tempo em que os meninos da sua região natal faziam sexo com cabritas e jumentas, se é que faziam mesmo e não foi ele próprio quem os inventou à imagem e semelhança da sua imaginação perversa? E será preciso lembrar que essa mesma criatura, indiciada em inquérito pelo maior esquema de corrupção de que já se teve notícia nesse país, reagiu com um sorriso cínico, alegando-se protegida não pela sua inocência, que nunca existiu, mas pela lentidão da Justiça?
Será exagero, será insulto criminoso chamar de cafajeste o homem capaz de fazer essas declarações em público? E será insana conjetura suspeitar que esses e outros tantos exemplos da cafajestada oficial, copiados por milhares de incelenças, louvados em prosa e verso por uma legião de sicofantas, repassados com orgulho do alto das cátedras, transfigurados por fim em "valores culturais" e aceitos com sorrisos de complacência entre paternal e servil pelas nossas "classes dominantes", criaram o modelo de coragem e justiça que hoje inspira os bravos agressores de anciãos?
quarta-feira, 4 de abril de 2012
A FARRA DOS SALÁRIOS
Independência desarmônica
MARIO CESAR FLORES - O Estado de S.Paulo
A independência dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, inerente à democracia e necessária ao exercício de suas atribuições, é complementada na Constituição pela harmonia entre eles. No funcionamento objetivo dos Poderes não tem havido manifestações expressivas de desarmonia, mas há uma de natureza corporativa que se eterniza: a desarmonia salarial, que situa o Judiciário, o Legislativo, o Ministério Público e algumas categorias do Executivo excepcionalmente assimétricos - no serviço público e mais ainda no universo brasileiro assalariado em geral.
O quadro anômalo inclui nuanças de difícil avaliação quanto ao certo ou errado. Mas - exemplos simbólicos - o que dizer da disparidade salarial entre motoristas que dirigem o mesmo tipo de carro, no mesmo trânsito, para juiz de tribunal superior ou senador e para autoridade do Executivo? O que explica serem os salários da base de apoio do Congresso Nacional superiores aos de categorias de instrução superior do Executivo - médicos e professores, por exemplo? A remuneração de segurança do Senado é de R$ 13.800 (mídia 14/2). O que a justifica - 22 salários mínimos - superior à de coronel do Exército? Exemplo inspirado em comentário do então presidente Lula (mídia, 27/6/2009): por que a remuneração de engenheiro que constrói uma estrada é inferior à do auditor do Tribunal de Contas da União (TCU) que fiscaliza o processo? Seria o gabinete em Brasília, mais desconfortável e insalubre?
Consciente de que a redução da desarmonia pelo aumento significativo das remunerações deixadas para trás seria incompatível com a saúde fiscal do Estado, mas propenso a deslanchar um processo corretivo, ainda que gradativo, o Executivo enviou ao Congresso, em 1989, projeto de lei que pretendia regular a matéria e esclarecer expressões constitucionais equívocas, cujas interpretações flexíveis facilitam a indução de desarmonia. Expressões como "vantagens de caráter individual e relativas à natureza e local de trabalho" e - esta particularmente complexa - "cargos com atribuições iguais, ou assemelhadas".
O projeto foi arquivado porque feria a independência dos Poderes (no caso, a corporativa, mantida incólume a funcional) e a solução praticamente não tem avançado. A Emenda Constitucional n.º 19 (1998) eclipsou o ideal isonômico do Texto Constitucional de 1988 (utópico em sua plenitude, mas ao menos referência contra distorções excessivas) e na fixação das remunerações introduziu expressões também melífluas, tais como "a natureza, o grau de responsabilidade e a complexidade dos cargos" e "as peculiaridades dos cargos", que mantêm a flexibilidade subjetiva na interpretação, respaldando a desarmonia. Reafirma que "os vencimentos dos cargos do Legislativo e do Judiciário não podem ser superiores aos pagos pelo Executivo", deixando em branco as questões: que cargos correspondem a que cargos (questão que exige regulação por lei)? Os acréscimos que alimentam a desarmonia se incluem nos vencimentos?
A emenda admite (não impõe) o estabelecimento de relação-limite entre a maior e a menor remuneração no serviço público. É improvável que esse dispositivo se concretize: porque, se instituído, o aumento no topo da pirâmide rebocaria o da base, na verdade, o de toda a pirâmide, criando uma carga fiscal inviabilizadora. Reboque justo: as "perdas da inflação", sempre citadas para justificar pleitos de revisão salarial, estendem-se a toda a pirâmide e são mais sensíveis na sua base! Ademais, o que seria exatamente a remuneração da relação-limite? Ela incluiria "para valer" a miríade de vantagens, como manda a Constituição?
Essa dúvida tem amparo num fato instigante da realidade vigente: o limite máximo da remuneração explícito na Constituição federal - o "subsídio" de ministro do Supremo Tribunal Federal, hoje cerca de 45 (!) salários mínimos -, nele "...ncluídas as vantagens pessoais e de qualquer outra natureza...", não tem obstado exceções exuberantes. A pletora de salários públicos que excedem o "limite máximo" constitucional resulta de sentenças judiciais ou de normas corporativas vistas como legais, ao amparo do direito impreciso. E a prática prossegue desinibida, apesar das críticas sensacionalizadas na mídia, logo esquecidas na permissividade complacente da sociedade.
O Brasil não comporta um quadro de salários públicos em razoável harmonia no paradigma de nível alto que hoje atende a alguns segmentos. E para que a moderação exigida pela responsabilidade fiscal seja justa é necessário compartilhá-la, é preciso, ao menos, reduzir as manifestações de desarmonia exponencial. A harmonia razoável e suportável pelo erário é um desiderato complexo e demorado, provavelmente mais hoje do que teria sido há 22 anos, porque ao longo desse tempo cresceu e se consolidou a força corporativa de categorias poderosas. O que exatamente seria ela terá de ser pensado no processo, considerados criteriosamente as qualificações e o empenho realmente exigidos pela natureza, responsabilidade, complexidade e pelas peculiaridades dos cargos (critérios do texto constitucional). É provável que o processo tenha de incluir artifícios polêmicos, como seria, por exemplo, a adoção temporária de ritmos de aumento distintos, redutores da desarmonia no longo prazo.
Sem atabalhoamento - porque na democracia não há solução mágica e o problema é, de fato, complexo -, é preciso ser desencadeado algo nesse sentido. Não será fácil rever concepções entendidas como legais e/ou já consuetudinariamente praticadas, não será fácil esclarecer preceitos que, embora supostamente devessem servir à ordem racional, acabam dando espaço corporativo subjetivo à ambiguidade indutora de desarmonia. Ocorrerão manifestações de discordância, mas a lógica da harmonia - se não a ideal, pelo menos a razoável e possível - haverá de prevalecer.
*ALMIRANTE DE ESQUADRA (REFORMADO)
MARIO CESAR FLORES - O Estado de S.Paulo
A independência dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, inerente à democracia e necessária ao exercício de suas atribuições, é complementada na Constituição pela harmonia entre eles. No funcionamento objetivo dos Poderes não tem havido manifestações expressivas de desarmonia, mas há uma de natureza corporativa que se eterniza: a desarmonia salarial, que situa o Judiciário, o Legislativo, o Ministério Público e algumas categorias do Executivo excepcionalmente assimétricos - no serviço público e mais ainda no universo brasileiro assalariado em geral.
O quadro anômalo inclui nuanças de difícil avaliação quanto ao certo ou errado. Mas - exemplos simbólicos - o que dizer da disparidade salarial entre motoristas que dirigem o mesmo tipo de carro, no mesmo trânsito, para juiz de tribunal superior ou senador e para autoridade do Executivo? O que explica serem os salários da base de apoio do Congresso Nacional superiores aos de categorias de instrução superior do Executivo - médicos e professores, por exemplo? A remuneração de segurança do Senado é de R$ 13.800 (mídia 14/2). O que a justifica - 22 salários mínimos - superior à de coronel do Exército? Exemplo inspirado em comentário do então presidente Lula (mídia, 27/6/2009): por que a remuneração de engenheiro que constrói uma estrada é inferior à do auditor do Tribunal de Contas da União (TCU) que fiscaliza o processo? Seria o gabinete em Brasília, mais desconfortável e insalubre?
Consciente de que a redução da desarmonia pelo aumento significativo das remunerações deixadas para trás seria incompatível com a saúde fiscal do Estado, mas propenso a deslanchar um processo corretivo, ainda que gradativo, o Executivo enviou ao Congresso, em 1989, projeto de lei que pretendia regular a matéria e esclarecer expressões constitucionais equívocas, cujas interpretações flexíveis facilitam a indução de desarmonia. Expressões como "vantagens de caráter individual e relativas à natureza e local de trabalho" e - esta particularmente complexa - "cargos com atribuições iguais, ou assemelhadas".
O projeto foi arquivado porque feria a independência dos Poderes (no caso, a corporativa, mantida incólume a funcional) e a solução praticamente não tem avançado. A Emenda Constitucional n.º 19 (1998) eclipsou o ideal isonômico do Texto Constitucional de 1988 (utópico em sua plenitude, mas ao menos referência contra distorções excessivas) e na fixação das remunerações introduziu expressões também melífluas, tais como "a natureza, o grau de responsabilidade e a complexidade dos cargos" e "as peculiaridades dos cargos", que mantêm a flexibilidade subjetiva na interpretação, respaldando a desarmonia. Reafirma que "os vencimentos dos cargos do Legislativo e do Judiciário não podem ser superiores aos pagos pelo Executivo", deixando em branco as questões: que cargos correspondem a que cargos (questão que exige regulação por lei)? Os acréscimos que alimentam a desarmonia se incluem nos vencimentos?
A emenda admite (não impõe) o estabelecimento de relação-limite entre a maior e a menor remuneração no serviço público. É improvável que esse dispositivo se concretize: porque, se instituído, o aumento no topo da pirâmide rebocaria o da base, na verdade, o de toda a pirâmide, criando uma carga fiscal inviabilizadora. Reboque justo: as "perdas da inflação", sempre citadas para justificar pleitos de revisão salarial, estendem-se a toda a pirâmide e são mais sensíveis na sua base! Ademais, o que seria exatamente a remuneração da relação-limite? Ela incluiria "para valer" a miríade de vantagens, como manda a Constituição?
Essa dúvida tem amparo num fato instigante da realidade vigente: o limite máximo da remuneração explícito na Constituição federal - o "subsídio" de ministro do Supremo Tribunal Federal, hoje cerca de 45 (!) salários mínimos -, nele "...ncluídas as vantagens pessoais e de qualquer outra natureza...", não tem obstado exceções exuberantes. A pletora de salários públicos que excedem o "limite máximo" constitucional resulta de sentenças judiciais ou de normas corporativas vistas como legais, ao amparo do direito impreciso. E a prática prossegue desinibida, apesar das críticas sensacionalizadas na mídia, logo esquecidas na permissividade complacente da sociedade.
O Brasil não comporta um quadro de salários públicos em razoável harmonia no paradigma de nível alto que hoje atende a alguns segmentos. E para que a moderação exigida pela responsabilidade fiscal seja justa é necessário compartilhá-la, é preciso, ao menos, reduzir as manifestações de desarmonia exponencial. A harmonia razoável e suportável pelo erário é um desiderato complexo e demorado, provavelmente mais hoje do que teria sido há 22 anos, porque ao longo desse tempo cresceu e se consolidou a força corporativa de categorias poderosas. O que exatamente seria ela terá de ser pensado no processo, considerados criteriosamente as qualificações e o empenho realmente exigidos pela natureza, responsabilidade, complexidade e pelas peculiaridades dos cargos (critérios do texto constitucional). É provável que o processo tenha de incluir artifícios polêmicos, como seria, por exemplo, a adoção temporária de ritmos de aumento distintos, redutores da desarmonia no longo prazo.
Sem atabalhoamento - porque na democracia não há solução mágica e o problema é, de fato, complexo -, é preciso ser desencadeado algo nesse sentido. Não será fácil rever concepções entendidas como legais e/ou já consuetudinariamente praticadas, não será fácil esclarecer preceitos que, embora supostamente devessem servir à ordem racional, acabam dando espaço corporativo subjetivo à ambiguidade indutora de desarmonia. Ocorrerão manifestações de discordância, mas a lógica da harmonia - se não a ideal, pelo menos a razoável e possível - haverá de prevalecer.
*ALMIRANTE DE ESQUADRA (REFORMADO)
DE VOLTA PARA O PASSADO
Adiante, para trás!
Ubiratan Jorge Iorio - IMB
O governo brasileiro anuncia uma nova política industrial, com a reformulação nas linhas de financiamento para investimento e capital de giro do Banco Nacional de Desenvolvimento, Econômico e Social (BNDES), a ampliação dos setores favorecidos (isto é, o aumento no número dos "amigos do rei"), redução das taxas de juros e maiores prazos para pagamento. A previsão de mais essa agressão aos pagadores de tributos — mascarada de "inventivos à competitividade" — é de um aumento de gastos de cerca de R$ 18 bilhões.
Leia comigo parte da matéria publicada pelo O Estado de São Paulo no dia 1º de abril (infelizmente, não é uma brincadeira com a data):
Haverá mudanças nas regras de atuação dos fundos de desenvolvimento regional para alavancar investimentos em infraestrutura. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal poderão atuar neste mercado, oferecendo empréstimos com recursos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste e do Fundo de Desenvolvimento da Amazônia. O risco das aplicações deve ser transferido do Tesouro para os bancos. As medidas, preparadas pelo ministro da Fazenda Guido Mantega, serão anunciadas amanhã pela presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. O Estado apurou que as principais alterações no BNDES serão no Revitaliza e nas linhas do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Estes programas foram criados no governo Lula para ajudar setores que enfrentavam forte concorrência de produtos importados, mas que são grandes geradores de emprego.
PSI. O governo ampliará em R$ 18 bilhões o limite de financiamento das linhas do PSI, com subvenção do Tesouro Nacional. Subirá para R$ 227 bilhões o volume de empréstimo do banco com taxas de juros subsidiadas. Esta será a quarta mudança no PSI desde o seu lançamento em julho de 2009 para enfrentar a crise internacional. As novas condições de financiamento vão valer até dezembro de 2013. Será criada, dentro do PSI, uma linha para financiar projetos estratégicos com o objetivo de reduzir o custo de obra. A nova linha terá aporte de R$ 8 bilhões com taxas de juros de 5% ao ano. Os projetos terão que ser aprovados por uma comissão interministerial.
Os juros ficarão um ponto porcentual menor na linha do PSI destinada a financiar a aquisição de máquinas e equipamentos. Para micro, pequenas e médias empresas (MPME), o custo do empréstimo cai de 6,5% para 5,5%. Para as grandes empresas, de 8,7% para 7,7% ao ano. O BNDES ampliará o limite a ser financiado. Até 100% para as empresas de menor porte e de até 90% do investimento para as grandes. A linha para as MPME passa de R$ 3 bilhões para R$ 13 bilhões. A linha para financiar a aquisição de ônibus e caminhões o juro cortado de 10% para 7,7% ao ano. O prazo será ampliado de 96 para 120 meses. O financiamento, então, será de até 100% para as MPMEs e 90% para as grandes. Para os exportadores, as taxas de juros serão de 9% para as grandes empresas e de 7% para as demais. O limite do investimento a ser financiado sobe de 90% para 100% e o prazo de pagamento será ampliado de 24 para 36 meses. Esta linha ganhará um reforço de R$ 1 bilhão. Haverá uma queda nos juros de 5% para 4% no financiamento para capital inovador. No Procaminhoneiro, para autônomos, o prazo passa de 36 para 48 meses.
Passa de R$ 100 milhões para R$ 150 milhões o volume de recursos que podem ser liberados por grupo econômico. O Revitaliza tem linhas para capital de giro, investimento e a exportação.
Uma fonte do governo informou que serão anunciadas mudanças nas linhas para exportadores por meio do Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) para ampliar as empresas com acesso aos recursos. O Banco do Brasil é o líder no mercado.
Parece o enredo de um filme de terror, mas não é. Parece uma piada de mau gosto, mas não é. Parece um retrocesso de 50/60 anos no tempo. E é! Notemos que, de acordo com o noticiário, o governo já havia liberado para a indústria nos últimos seis anos algo em torno de R$ 97,5 bilhões e, mesmo com todas essas "bondades" para os empresários amigos (leia-se "maldades" contra os consumidores e pagadores de tributos) o crescimento industrial não chega a pífios 3% ao ano.
Nos anos 50 e 60 do século passado, era forte a influência dos "estruturalistas" da Cepal, que ditavam aberrações semelhantes à que o governo brasileiro agora anuncia. É incrível como mercantilismo está de volta, com todos os seus malditos ingredientes: protecionismo, intervencionismo, dirigismo, nacionalismo, inflacionismo e outros "ismos", todos denotativos de uma absoluta ignorância do funcionamento do processo de mercado e, mais amplamente, das causas que levam as economias a crescerem de forma autossustentada.
É inacreditável que os economistas do governo ainda falem em "projetos estratégicos"! Estratégicos para quem? Podem ser para suas cabeças iluminadas, para os empresários contemplados com as benesses e para lobistas e políticos a seu serviço, mas, certamente, não têm nada de estratégico no que diz respeito aos verdadeiros empreendedores, aos pagadores de impostos (eu me recuso a usar a expressão "contribuintes") e aos consumidores. Na verdade, os verdadeiros empreendedores no conceito da Escola Austríaca serão prejudicados de saída, porque não foram escolhidos para serem favorecidos, os tributos mais cedo ou mais tarde poderão aumentar para financiar a festa e os consumidores serão obrigados a pagar mais caro por bens e serviços de qualidade inferior, pois esta é uma das consequências líquidas e certas das políticas protecionistas. Isto para não falarmos dos incentivos à corrupção que medidas desse tipo sempre acarretam.
Essas novas medidas do governo brasileiro, então, prejudicam enormemente o verdadeiro empreendedorismo e, onde quer que não exista empreendedorismo e onde quer que o arcabouço institucional prejudique a função empresarial, não existe lugar para o progresso. Mas, por incrível que pareça, nem todos pensam assim, a começar pelos economistas do governo. Prevalece uma aversão ao empreendedor, provocada por uma mistura de influências históricas, culturais e midiáticas que forjaram durante muitos anos uma mentalidade antiempresarial muito forte e não temos dúvidas de que esse é um dos fatores que prejudicam o desenvolvimento da economia desses países. Nessas sociedades, pode-se detectar uma verdadeira aversão à atividade empresarial.
E, além disso, uma ignorância absoluta dos fatores que motivam os empreendedores a investirem. A presidente do Brasil, por exemplo, só para citarmos uma pessoa importante e que diz possuir um mestrado em Economia na Unicamp, há poucos dias fez questão de demonstrar essa minha afirmativa, quando "conclamou" os empresários brasileiros a... investirem! Se isto fosse dito há 50/60 anos, ainda valeria a pena comentar, mas hoje, em 2012, sinceramente, eu me recuso a fazê-lo... Qualquer pessoa pode ser um empresário, mas apenas algumas pessoas podem ser empreendedores, porque os atributos de vontade, perspicácia, inventividade e capacidade decisória sob condições de incerteza e de assumir riscos são virtudes que a maioria dos seres humanos não possui. Fulano, por exemplo, pode ser muito inventivo, mas detestar correr riscos; ou Beltrano ter muita vontade, mas não possuir capacidade decisória.
Abrir uma empresa e mantê-la sempre voltada para atender aos interesses dos consumidores é o que garante e justifica moralmente o lucro, porque se trata de uma verdadeira aventura e, em muitos países em que o Estado parece fazer de tudo para interpor obstáculos entre os que produzem e os que consomem, é mesmo um ato de heroísmo.
O empreendedor, ao exercer sua função empresarial, deverá naturalmente ser obrigado a enfrentar os competidores que já estão estabelecidos, a dar respostas positivas para as inovações que surgirem e a lutar contra interesses já estabelecidos e que se sentirão ameaçados, o que os levará, já que sua vontade é de que tudo permaneça da maneira como está, a reagir, muitas vezes utilizando recursos não recomendados pela ética, como o de valer-se de proteções de grupos políticos que ocupam o poder. Além disso, precisa fazer com que os trabalhadores que dependem de sua iniciativa se sintam estimulados.
Definitivamente — e contrariamente ao que a maioria das pessoas pensa — qualquer obstáculo à livre iniciativa e ao empreendedorismo é, também, em empecilho ao progresso e ao desenvolvimento da economia e da sociedade.
A função empresarial e o empreendedorismo são plenamente exercidos quando o governo é limitado, quando existe respeito aos direitos de propriedade, quando as leis são boas e estáveis e quando prevalece a economia de mercado. Por isso, uma ordem social que estimule as virtudes do empreendedorismo deve estimular o florescimento desses quatro atributos.
O novo pacote do governo, nesse sentido, é um verdadeiro desastre. Um desastre de R$ 18 bilhões, que vai ser colocado nas nossas contas! Acordai, consumidor brasileiro!
Ubiratan Jorge Iorio é economista e professor de UERJ.
Ubiratan Jorge Iorio - IMB
O governo brasileiro anuncia uma nova política industrial, com a reformulação nas linhas de financiamento para investimento e capital de giro do Banco Nacional de Desenvolvimento, Econômico e Social (BNDES), a ampliação dos setores favorecidos (isto é, o aumento no número dos "amigos do rei"), redução das taxas de juros e maiores prazos para pagamento. A previsão de mais essa agressão aos pagadores de tributos — mascarada de "inventivos à competitividade" — é de um aumento de gastos de cerca de R$ 18 bilhões.
Leia comigo parte da matéria publicada pelo O Estado de São Paulo no dia 1º de abril (infelizmente, não é uma brincadeira com a data):
Haverá mudanças nas regras de atuação dos fundos de desenvolvimento regional para alavancar investimentos em infraestrutura. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal poderão atuar neste mercado, oferecendo empréstimos com recursos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste e do Fundo de Desenvolvimento da Amazônia. O risco das aplicações deve ser transferido do Tesouro para os bancos. As medidas, preparadas pelo ministro da Fazenda Guido Mantega, serão anunciadas amanhã pela presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. O Estado apurou que as principais alterações no BNDES serão no Revitaliza e nas linhas do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Estes programas foram criados no governo Lula para ajudar setores que enfrentavam forte concorrência de produtos importados, mas que são grandes geradores de emprego.
PSI. O governo ampliará em R$ 18 bilhões o limite de financiamento das linhas do PSI, com subvenção do Tesouro Nacional. Subirá para R$ 227 bilhões o volume de empréstimo do banco com taxas de juros subsidiadas. Esta será a quarta mudança no PSI desde o seu lançamento em julho de 2009 para enfrentar a crise internacional. As novas condições de financiamento vão valer até dezembro de 2013. Será criada, dentro do PSI, uma linha para financiar projetos estratégicos com o objetivo de reduzir o custo de obra. A nova linha terá aporte de R$ 8 bilhões com taxas de juros de 5% ao ano. Os projetos terão que ser aprovados por uma comissão interministerial.
Os juros ficarão um ponto porcentual menor na linha do PSI destinada a financiar a aquisição de máquinas e equipamentos. Para micro, pequenas e médias empresas (MPME), o custo do empréstimo cai de 6,5% para 5,5%. Para as grandes empresas, de 8,7% para 7,7% ao ano. O BNDES ampliará o limite a ser financiado. Até 100% para as empresas de menor porte e de até 90% do investimento para as grandes. A linha para as MPME passa de R$ 3 bilhões para R$ 13 bilhões. A linha para financiar a aquisição de ônibus e caminhões o juro cortado de 10% para 7,7% ao ano. O prazo será ampliado de 96 para 120 meses. O financiamento, então, será de até 100% para as MPMEs e 90% para as grandes. Para os exportadores, as taxas de juros serão de 9% para as grandes empresas e de 7% para as demais. O limite do investimento a ser financiado sobe de 90% para 100% e o prazo de pagamento será ampliado de 24 para 36 meses. Esta linha ganhará um reforço de R$ 1 bilhão. Haverá uma queda nos juros de 5% para 4% no financiamento para capital inovador. No Procaminhoneiro, para autônomos, o prazo passa de 36 para 48 meses.
Passa de R$ 100 milhões para R$ 150 milhões o volume de recursos que podem ser liberados por grupo econômico. O Revitaliza tem linhas para capital de giro, investimento e a exportação.
Uma fonte do governo informou que serão anunciadas mudanças nas linhas para exportadores por meio do Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) para ampliar as empresas com acesso aos recursos. O Banco do Brasil é o líder no mercado.
Parece o enredo de um filme de terror, mas não é. Parece uma piada de mau gosto, mas não é. Parece um retrocesso de 50/60 anos no tempo. E é! Notemos que, de acordo com o noticiário, o governo já havia liberado para a indústria nos últimos seis anos algo em torno de R$ 97,5 bilhões e, mesmo com todas essas "bondades" para os empresários amigos (leia-se "maldades" contra os consumidores e pagadores de tributos) o crescimento industrial não chega a pífios 3% ao ano.
Nos anos 50 e 60 do século passado, era forte a influência dos "estruturalistas" da Cepal, que ditavam aberrações semelhantes à que o governo brasileiro agora anuncia. É incrível como mercantilismo está de volta, com todos os seus malditos ingredientes: protecionismo, intervencionismo, dirigismo, nacionalismo, inflacionismo e outros "ismos", todos denotativos de uma absoluta ignorância do funcionamento do processo de mercado e, mais amplamente, das causas que levam as economias a crescerem de forma autossustentada.
É inacreditável que os economistas do governo ainda falem em "projetos estratégicos"! Estratégicos para quem? Podem ser para suas cabeças iluminadas, para os empresários contemplados com as benesses e para lobistas e políticos a seu serviço, mas, certamente, não têm nada de estratégico no que diz respeito aos verdadeiros empreendedores, aos pagadores de impostos (eu me recuso a usar a expressão "contribuintes") e aos consumidores. Na verdade, os verdadeiros empreendedores no conceito da Escola Austríaca serão prejudicados de saída, porque não foram escolhidos para serem favorecidos, os tributos mais cedo ou mais tarde poderão aumentar para financiar a festa e os consumidores serão obrigados a pagar mais caro por bens e serviços de qualidade inferior, pois esta é uma das consequências líquidas e certas das políticas protecionistas. Isto para não falarmos dos incentivos à corrupção que medidas desse tipo sempre acarretam.
Essas novas medidas do governo brasileiro, então, prejudicam enormemente o verdadeiro empreendedorismo e, onde quer que não exista empreendedorismo e onde quer que o arcabouço institucional prejudique a função empresarial, não existe lugar para o progresso. Mas, por incrível que pareça, nem todos pensam assim, a começar pelos economistas do governo. Prevalece uma aversão ao empreendedor, provocada por uma mistura de influências históricas, culturais e midiáticas que forjaram durante muitos anos uma mentalidade antiempresarial muito forte e não temos dúvidas de que esse é um dos fatores que prejudicam o desenvolvimento da economia desses países. Nessas sociedades, pode-se detectar uma verdadeira aversão à atividade empresarial.
E, além disso, uma ignorância absoluta dos fatores que motivam os empreendedores a investirem. A presidente do Brasil, por exemplo, só para citarmos uma pessoa importante e que diz possuir um mestrado em Economia na Unicamp, há poucos dias fez questão de demonstrar essa minha afirmativa, quando "conclamou" os empresários brasileiros a... investirem! Se isto fosse dito há 50/60 anos, ainda valeria a pena comentar, mas hoje, em 2012, sinceramente, eu me recuso a fazê-lo... Qualquer pessoa pode ser um empresário, mas apenas algumas pessoas podem ser empreendedores, porque os atributos de vontade, perspicácia, inventividade e capacidade decisória sob condições de incerteza e de assumir riscos são virtudes que a maioria dos seres humanos não possui. Fulano, por exemplo, pode ser muito inventivo, mas detestar correr riscos; ou Beltrano ter muita vontade, mas não possuir capacidade decisória.
Abrir uma empresa e mantê-la sempre voltada para atender aos interesses dos consumidores é o que garante e justifica moralmente o lucro, porque se trata de uma verdadeira aventura e, em muitos países em que o Estado parece fazer de tudo para interpor obstáculos entre os que produzem e os que consomem, é mesmo um ato de heroísmo.
O empreendedor, ao exercer sua função empresarial, deverá naturalmente ser obrigado a enfrentar os competidores que já estão estabelecidos, a dar respostas positivas para as inovações que surgirem e a lutar contra interesses já estabelecidos e que se sentirão ameaçados, o que os levará, já que sua vontade é de que tudo permaneça da maneira como está, a reagir, muitas vezes utilizando recursos não recomendados pela ética, como o de valer-se de proteções de grupos políticos que ocupam o poder. Além disso, precisa fazer com que os trabalhadores que dependem de sua iniciativa se sintam estimulados.
Definitivamente — e contrariamente ao que a maioria das pessoas pensa — qualquer obstáculo à livre iniciativa e ao empreendedorismo é, também, em empecilho ao progresso e ao desenvolvimento da economia e da sociedade.
A função empresarial e o empreendedorismo são plenamente exercidos quando o governo é limitado, quando existe respeito aos direitos de propriedade, quando as leis são boas e estáveis e quando prevalece a economia de mercado. Por isso, uma ordem social que estimule as virtudes do empreendedorismo deve estimular o florescimento desses quatro atributos.
O novo pacote do governo, nesse sentido, é um verdadeiro desastre. Um desastre de R$ 18 bilhões, que vai ser colocado nas nossas contas! Acordai, consumidor brasileiro!
Ubiratan Jorge Iorio é economista e professor de UERJ.
DÓRICAS
Fila que anda
DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo
Evidente está que a influência do contraventor Carlos Augusto Ramos no mundo da política não se circunscreve ao senador Demóstenes Torres nem ao DEM.
O "arco de alianças" inclui governadores e deputados do PSDB, PPS, PT, PTB e PP. Isso ao que se sabe até agora.
Entre os amigos parlamentares, pelo menos um - o líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes - já deu a seus pares, motivo para que (no mínimo) se questionem sobre a conveniência de continuarem a privar de sua convivência.
Assim como outros quatro deputados, o petebista não negou seus vínculos com o bicheiro que gosta de receber tratamento de "empresário". Mas foi além: pagou para ver se a tolerância do Parlamento na preservação do decoro é ampla ou se a intolerância para com a conduta de Demóstenes guarda certo sabor de desforra por causa do rigor ético aplicado aos colegas.
Em entrevista ao jornal O Globo, Jovair Arantes traça um autorretrato: "Sou o tipo do cara que não fica procurando se a pessoa tem problema na vida dela. Não sei se ele (Cachoeira) ganhou dinheiro em jogo, se era um negócio legal ou ilegal. Não me interessa. Não sei, não me aprofundei nem quero me aprofundar".
Afirma que procurou o "empresário", mas que não estava atrás do dinheiro dele e sim de sua influência em Goiás. "É um cara influente, isso é inegável e está provado por essa operação", diz, referindo-se à Operação Monte Carlo que acabou com a carreira de um senador e pôs o "cara influente" na cadeia.
Em suma: o líder do PTB não olha com quem anda, não liga que disso decorra uma avaliação negativa sobre quem ele (o deputado) é. Não quer saber se é correta ou não a conduta de quem lhe empresta prestígio e só falta acrescentar que tem raiva de quem sabe.
Lixa-se, portanto, para a opinião pública e para o decoro exigido de um parlamentar que, aliás, já se torna suspeito só de admitir amizades com quem tem vulgo.
Se o arrazoado do líder não é o bastante para que a Câmara não se faça de surda e abra investigação para saber até onde vão suas ligações com o homem de quem o senador Demóstenes também se dizia mero amigo para revelar-se prestador de serviços, francamente nada mais é motivo.
Fica difícil até confiar na definição do termo decoro. Segundo Houaiss, significa decência, pundonor, compostura. Pode ser que a Câmara tenha outros sinônimos que, a depender da atitude da Casa, soarão como antônimos.
Névoa seca. O PT e o governo não têm como explicar a operação casada entre a compra de lanchas (23 das 28 ainda em desuso) para o Ministério da Pesca e o pedido de doação para a seção do partido em Santa Catarina feito à empresa vendedora.
À falta de justificativa para ato que o próprio dono da Intech Boating caracteriza como uso privado do Estado "foi um pedido do ministério", diz José Antônio Galízio Neto - busca-se confundir a cena resumindo-se os fatos a uma questão de acusação ou defesa da ministra Ideli Salvatti, ex-titular da Pesca, cuja campanha para o governo do Estado recebeu aqueles recursos.
O caso não tem a ver com Ideli em particular, mas com as práticas do PT em geral. Pedir dinheiro a fornecedor do ministério não está entre as atribuições normais de um partido, cujo dever seria manter as coisas em seus devidos lugares. Separadas.
De novo, não. Queira o respeito à paciência alheia que os políticos e partidos envolvidos com o contraventor vulgo Cachoeira não comecem a atribuir suas estripulias ilícitas à falta de reforma política, alegando que o "sistema" os obriga a recorrer à busca de recursos paralelos para financiar suas campanhas.
A história sempre se repete. Mas, de tanto ser contada, já não convence. Seja pela indisposição dos partidos e dos políticos em reformar, seja pela culpa que a lei forte não tem diante do fraco de certas excelências.
DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo
Evidente está que a influência do contraventor Carlos Augusto Ramos no mundo da política não se circunscreve ao senador Demóstenes Torres nem ao DEM.
O "arco de alianças" inclui governadores e deputados do PSDB, PPS, PT, PTB e PP. Isso ao que se sabe até agora.
Entre os amigos parlamentares, pelo menos um - o líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes - já deu a seus pares, motivo para que (no mínimo) se questionem sobre a conveniência de continuarem a privar de sua convivência.
Assim como outros quatro deputados, o petebista não negou seus vínculos com o bicheiro que gosta de receber tratamento de "empresário". Mas foi além: pagou para ver se a tolerância do Parlamento na preservação do decoro é ampla ou se a intolerância para com a conduta de Demóstenes guarda certo sabor de desforra por causa do rigor ético aplicado aos colegas.
Em entrevista ao jornal O Globo, Jovair Arantes traça um autorretrato: "Sou o tipo do cara que não fica procurando se a pessoa tem problema na vida dela. Não sei se ele (Cachoeira) ganhou dinheiro em jogo, se era um negócio legal ou ilegal. Não me interessa. Não sei, não me aprofundei nem quero me aprofundar".
Afirma que procurou o "empresário", mas que não estava atrás do dinheiro dele e sim de sua influência em Goiás. "É um cara influente, isso é inegável e está provado por essa operação", diz, referindo-se à Operação Monte Carlo que acabou com a carreira de um senador e pôs o "cara influente" na cadeia.
Em suma: o líder do PTB não olha com quem anda, não liga que disso decorra uma avaliação negativa sobre quem ele (o deputado) é. Não quer saber se é correta ou não a conduta de quem lhe empresta prestígio e só falta acrescentar que tem raiva de quem sabe.
Lixa-se, portanto, para a opinião pública e para o decoro exigido de um parlamentar que, aliás, já se torna suspeito só de admitir amizades com quem tem vulgo.
Se o arrazoado do líder não é o bastante para que a Câmara não se faça de surda e abra investigação para saber até onde vão suas ligações com o homem de quem o senador Demóstenes também se dizia mero amigo para revelar-se prestador de serviços, francamente nada mais é motivo.
Fica difícil até confiar na definição do termo decoro. Segundo Houaiss, significa decência, pundonor, compostura. Pode ser que a Câmara tenha outros sinônimos que, a depender da atitude da Casa, soarão como antônimos.
Névoa seca. O PT e o governo não têm como explicar a operação casada entre a compra de lanchas (23 das 28 ainda em desuso) para o Ministério da Pesca e o pedido de doação para a seção do partido em Santa Catarina feito à empresa vendedora.
À falta de justificativa para ato que o próprio dono da Intech Boating caracteriza como uso privado do Estado "foi um pedido do ministério", diz José Antônio Galízio Neto - busca-se confundir a cena resumindo-se os fatos a uma questão de acusação ou defesa da ministra Ideli Salvatti, ex-titular da Pesca, cuja campanha para o governo do Estado recebeu aqueles recursos.
O caso não tem a ver com Ideli em particular, mas com as práticas do PT em geral. Pedir dinheiro a fornecedor do ministério não está entre as atribuições normais de um partido, cujo dever seria manter as coisas em seus devidos lugares. Separadas.
De novo, não. Queira o respeito à paciência alheia que os políticos e partidos envolvidos com o contraventor vulgo Cachoeira não comecem a atribuir suas estripulias ilícitas à falta de reforma política, alegando que o "sistema" os obriga a recorrer à busca de recursos paralelos para financiar suas campanhas.
A história sempre se repete. Mas, de tanto ser contada, já não convence. Seja pela indisposição dos partidos e dos políticos em reformar, seja pela culpa que a lei forte não tem diante do fraco de certas excelências.
O PAÍS É UM CIRCO
Concurso para gari tem questão sobre novelas e Michel Teló
LUIZ CARLOS DA CRUZ - FSP
Para trabalhar como gari em Cambé, no interior do Paraná, não basta ter o ensino básico completo. É preciso conhecer também o bordão de uma personagem do humorístico "Zorra Total" e saber o nome da atriz que interpretou Pereirão na novela global "Fina Estampa".
Essas questões fizeram parte de um concurso público que causou polêmica na semana passada ao testar conhecimentos dos candidatos sobre programas de TV e cantores populares.
A UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), responsável pela prova, elaborou também uma pergunta sobre o nome da música de Michel Teló que inspirou o craque Cristiano Ronaldo a dançar na comemoração de um gol.
As perguntas desagradaram os servidores públicos de Cambé, cidade a 385 km de Curitiba. "Vindo de uma universidade federal, é para ficar assustado", afirmou o presidente do sindicato dos servidores municipais, Carlos Aparecido de Melo. Para ele, o concurso subestimou a inteligência dos candidatos.
A cientista política Rosana Nazzari, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, disse que o teste foi uma afronta aos candidatos. "Existe uma cultura histórica no Brasil de achar que as pessoas mais pobres não têm capacidade intelectual."
Das 40 questões, dez eram relacionadas a assuntos de TV e música popular.
Em nota, a UTFPR disse que as questões sobre "temas de determinada emissora televisiva foram extraídas com base em reportagens publicadas junto à revista Veja" [sic]. As demais questões, diz a nota, eram sobre "notícias de atualidade".
LUIZ CARLOS DA CRUZ - FSP
Para trabalhar como gari em Cambé, no interior do Paraná, não basta ter o ensino básico completo. É preciso conhecer também o bordão de uma personagem do humorístico "Zorra Total" e saber o nome da atriz que interpretou Pereirão na novela global "Fina Estampa".
Essas questões fizeram parte de um concurso público que causou polêmica na semana passada ao testar conhecimentos dos candidatos sobre programas de TV e cantores populares.
A UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), responsável pela prova, elaborou também uma pergunta sobre o nome da música de Michel Teló que inspirou o craque Cristiano Ronaldo a dançar na comemoração de um gol.
As perguntas desagradaram os servidores públicos de Cambé, cidade a 385 km de Curitiba. "Vindo de uma universidade federal, é para ficar assustado", afirmou o presidente do sindicato dos servidores municipais, Carlos Aparecido de Melo. Para ele, o concurso subestimou a inteligência dos candidatos.
A cientista política Rosana Nazzari, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, disse que o teste foi uma afronta aos candidatos. "Existe uma cultura histórica no Brasil de achar que as pessoas mais pobres não têm capacidade intelectual."
Das 40 questões, dez eram relacionadas a assuntos de TV e música popular.
Em nota, a UTFPR disse que as questões sobre "temas de determinada emissora televisiva foram extraídas com base em reportagens publicadas junto à revista Veja" [sic]. As demais questões, diz a nota, eram sobre "notícias de atualidade".
VOLTANDO AO INÍCIO. MAIS UM POUCO CHEGAREMOS AO "PLANTATION"
As exportações dependem cada vez mais dos básicos
O Estado de S.Paulo
No primeiro trimestre a balança comercial, com US$ 2,440 bilhões, apresentou uma redução de 22,4% em relação ao mesmo período de 2011. As exportações, levando em conta a média por dia útil, cresceram 5,8%, enquanto as importações aumentaram 7,7%.
Esse resultado do trimestre confirma um quadro que se podia prever: o Brasil aumenta suas exportações, mas aumenta mais as importações. Isso é resultado, de um lado, de uma demanda mundial consistente de produtos básicos - US$ 24,548 bilhões, com crescimento de 5,9%; e, de outro, de um ligeiro progresso das exportações de manufaturados. Esses produtos, porém, no valor de US$ 21,5 bilhões, apresentaram aumento de 6%, enquanto os semimanufaturados, com US$ 7,6 bilhões, tiveram aumento de 2,3%.
A China continua a ser nosso melhor cliente, com US$ 7,8 bilhões - um aumento de 8,8% -, mas os Estados Unidos voltam a ter um papel importante: suas compras de produtos brasileiros somaram US$ 6,9 bilhões e acusaram aumento de 38,8%, que reflete a melhoria da economia americana. No entanto, nos dois casos, o que predomina em nossas vendas aos dois países são produtos básicos, petróleo e soja em grão, que tiveram forte aumento de preços no trimestre. É significativo, também, que nossas exportações para a União Europeia, apesar da crise, diminuíram apenas 2%, sustentadas pela compra de produtos básicos nos países europeus. Isso mostra que mais do que nunca o Brasil depende, para suas receitas no comércio exterior, de produtos básicos, com valor adicionado muito baixo.
A análise das importações nos fornece um quadro complementar da fraqueza de nossa indústria. As importações de bens de capital, no trimestre, em relação ao mesmo período de 2011, acusaram aumento de 5,9%, mas em março, em relação ao mês anterior, registra-se queda de 9,9%. Isso mostra o desinteresse das nossas empresas em investir, especialmente antes de conhecer os novos incentivos do governo. Os bens de consumo, no trimestre, representam 8,4% das importações, mas os duráveis, 10,4%. E as matérias-primas e os bens intermediários, que representam 44,2% das importações, num período de baixa produção industrial, aumentaram 4,2%.
O Brasil, que se tornou um grande produtor de petróleo, ampliou suas importações de combustíveis em 15,7%, o que indica o erro de deixar de realizar investimentos em refinarias, levando atualmente os derivados a pesar muito em nossos gastos de importação.
O Estado de S.Paulo
No primeiro trimestre a balança comercial, com US$ 2,440 bilhões, apresentou uma redução de 22,4% em relação ao mesmo período de 2011. As exportações, levando em conta a média por dia útil, cresceram 5,8%, enquanto as importações aumentaram 7,7%.
Esse resultado do trimestre confirma um quadro que se podia prever: o Brasil aumenta suas exportações, mas aumenta mais as importações. Isso é resultado, de um lado, de uma demanda mundial consistente de produtos básicos - US$ 24,548 bilhões, com crescimento de 5,9%; e, de outro, de um ligeiro progresso das exportações de manufaturados. Esses produtos, porém, no valor de US$ 21,5 bilhões, apresentaram aumento de 6%, enquanto os semimanufaturados, com US$ 7,6 bilhões, tiveram aumento de 2,3%.
A China continua a ser nosso melhor cliente, com US$ 7,8 bilhões - um aumento de 8,8% -, mas os Estados Unidos voltam a ter um papel importante: suas compras de produtos brasileiros somaram US$ 6,9 bilhões e acusaram aumento de 38,8%, que reflete a melhoria da economia americana. No entanto, nos dois casos, o que predomina em nossas vendas aos dois países são produtos básicos, petróleo e soja em grão, que tiveram forte aumento de preços no trimestre. É significativo, também, que nossas exportações para a União Europeia, apesar da crise, diminuíram apenas 2%, sustentadas pela compra de produtos básicos nos países europeus. Isso mostra que mais do que nunca o Brasil depende, para suas receitas no comércio exterior, de produtos básicos, com valor adicionado muito baixo.
A análise das importações nos fornece um quadro complementar da fraqueza de nossa indústria. As importações de bens de capital, no trimestre, em relação ao mesmo período de 2011, acusaram aumento de 5,9%, mas em março, em relação ao mês anterior, registra-se queda de 9,9%. Isso mostra o desinteresse das nossas empresas em investir, especialmente antes de conhecer os novos incentivos do governo. Os bens de consumo, no trimestre, representam 8,4% das importações, mas os duráveis, 10,4%. E as matérias-primas e os bens intermediários, que representam 44,2% das importações, num período de baixa produção industrial, aumentaram 4,2%.
O Brasil, que se tornou um grande produtor de petróleo, ampliou suas importações de combustíveis em 15,7%, o que indica o erro de deixar de realizar investimentos em refinarias, levando atualmente os derivados a pesar muito em nossos gastos de importação.
NAS COXAS, COMO SEMPRE
Pacote improvisado provoca críticas de setores do governo
Segundo assessores, medidas importantes acabaram sem destaque por terem sido incluídas de última hora
Palácio do Planalto queria dar 'volume' à cerimônia e incluiu até programa para o tratamento de câncer
VALDO CRUZ/NATUZA NERY/MÁRCIO FALCÃO - FSP
Técnicos do governo federal trabalharam até a madrugada de ontem finalizando algumas das medidas do pacote, como o novo regime para o setor automotivo.
Como de costume, a presidente Dilma Rousseff fez vários reparos a poucas horas do evento no Palácio do Planalto e, num sinal da correria, acabou assinando apenas a metade dos decretos previstos dentro do pacote. Motivo: não houve tempo de incluir o restante no roteiro da solenidade realizada ontem.
Dilma estava contrariada durante o evento, tendo distribuído broncas ao cerimonial e até ao ministro Guido Mantega (Fazenda).
Em um determinado momento, ela discutiu com ele sobre números de desoneração numa folha de papel.
Até o longo arquivo eletrônico de Power Point com as medidas, divulgado pela Fazenda, tinha erros: o secretário-executivo Nelson Barbosa teve de corrigir o valor de desonerações deste ano de R$ 4,9 bilhões para R$ 3,1 bilhões.
Auxiliares da presidente, ao fim do evento, usavam uma metáfora de mecânica para resumir a correria: a tentativa de consertar um carro em movimento.
AMONTOADO DE MEDIDAS
O plano do governo de transformar o lançamento do pacote de medidas econômicas em um evento de grande impacto acabou se revelando um erro de estratégia de marketing, na avaliação de assessores da própria presidente.
A análise foi feita reservadamente durante a solenidade de ontem no Palácio do Planalto, que reuniu mais de 400 pessoas e durou mais de duas horas.
De acordo com esses assessores, o evento poderia ter sido desmembrado em pelo menos três grandes cerimônias e ganhar, com isso, maior destaque na mídia.
Da forma como foi feito o anúncio de ontem, o pacote virou um amontoado de 21 medidas novas, velhas e de antigas promessas -incluindo até Programa Nacional de Assistência Oncológica.
A presença do programa foi a que causou maior surpresa na equipe de Dilma, que contava com seu anúncio em outra data, de preferência com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva -aproveitando o sucesso de seu tratamento contra um câncer na laringe.
'FAZER VOLUME'
Só que, de acordo com um auxiliar, o Palácio do Planalto queria "fazer volume" no lançamento de ontem.
O governo chegou a ser aconselhado, por exemplo, a anunciar em algum outro dia todas as medidas destinadas a aumentar as exportações para dar mais repercussão às novas ações de desoneração de impostos e de estímulo do investimento.
Para esses assessores, também perderam impacto medidas relacionadas ao Plano Nacional de Banda Larga e ao Programa um Computador por Aluno, projetos considerados prioritários pela própria presidente.
Pouca gente entendeu também o motivo de constar entre as medidas do pacote a famosa "guerra dos portos" -além de uma ameaça velada ao mercado de baixar novas medidas cambiais para conter a valorização do real.
Segundo assessores, medidas importantes acabaram sem destaque por terem sido incluídas de última hora
Palácio do Planalto queria dar 'volume' à cerimônia e incluiu até programa para o tratamento de câncer
VALDO CRUZ/NATUZA NERY/MÁRCIO FALCÃO - FSP
Técnicos do governo federal trabalharam até a madrugada de ontem finalizando algumas das medidas do pacote, como o novo regime para o setor automotivo.
Como de costume, a presidente Dilma Rousseff fez vários reparos a poucas horas do evento no Palácio do Planalto e, num sinal da correria, acabou assinando apenas a metade dos decretos previstos dentro do pacote. Motivo: não houve tempo de incluir o restante no roteiro da solenidade realizada ontem.
Dilma estava contrariada durante o evento, tendo distribuído broncas ao cerimonial e até ao ministro Guido Mantega (Fazenda).
Em um determinado momento, ela discutiu com ele sobre números de desoneração numa folha de papel.
Até o longo arquivo eletrônico de Power Point com as medidas, divulgado pela Fazenda, tinha erros: o secretário-executivo Nelson Barbosa teve de corrigir o valor de desonerações deste ano de R$ 4,9 bilhões para R$ 3,1 bilhões.
Auxiliares da presidente, ao fim do evento, usavam uma metáfora de mecânica para resumir a correria: a tentativa de consertar um carro em movimento.
AMONTOADO DE MEDIDAS
O plano do governo de transformar o lançamento do pacote de medidas econômicas em um evento de grande impacto acabou se revelando um erro de estratégia de marketing, na avaliação de assessores da própria presidente.
A análise foi feita reservadamente durante a solenidade de ontem no Palácio do Planalto, que reuniu mais de 400 pessoas e durou mais de duas horas.
De acordo com esses assessores, o evento poderia ter sido desmembrado em pelo menos três grandes cerimônias e ganhar, com isso, maior destaque na mídia.
Da forma como foi feito o anúncio de ontem, o pacote virou um amontoado de 21 medidas novas, velhas e de antigas promessas -incluindo até Programa Nacional de Assistência Oncológica.
A presença do programa foi a que causou maior surpresa na equipe de Dilma, que contava com seu anúncio em outra data, de preferência com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva -aproveitando o sucesso de seu tratamento contra um câncer na laringe.
'FAZER VOLUME'
Só que, de acordo com um auxiliar, o Palácio do Planalto queria "fazer volume" no lançamento de ontem.
O governo chegou a ser aconselhado, por exemplo, a anunciar em algum outro dia todas as medidas destinadas a aumentar as exportações para dar mais repercussão às novas ações de desoneração de impostos e de estímulo do investimento.
Para esses assessores, também perderam impacto medidas relacionadas ao Plano Nacional de Banda Larga e ao Programa um Computador por Aluno, projetos considerados prioritários pela própria presidente.
Pouca gente entendeu também o motivo de constar entre as medidas do pacote a famosa "guerra dos portos" -além de uma ameaça velada ao mercado de baixar novas medidas cambiais para conter a valorização do real.
O MINISTRO EVANGÉLICO E A SUA BABILÔNIA DE ESTIMAÇÃO
Pescaria fisiológica
FSP - Editorial
Já diz muito sobre a qualidade da administração pública brasileira a simples existência de um ministério voltado para a atividade da pesca, ora comandado por um senador, bispo evangélico e cantor gospel, que se declara incapaz de "colocar minhoca no anzol".
Tal inabilidade não deve, porém, ser superestimada; na realidade, é tão irrelevante quanto a própria pasta, criada pelo ex-presidente Lula para saciar apetites de comensais do petismo.
O objetivo vai sendo atendido, como atestam a própria nomeação do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) pela presidente Dilma Rousseff e o noticiário sobre a doação que o empresário José Antônio Galizio afirma ter feito, a pedido do PT, para a campanha eleitoral de 2010.
Trata-se do dono da Intech Boating, empresa que vendeu, em 2008 e 2009, 28 lanchas ao Ministério da Pesca, no valor de R$ 31 milhões.
O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou superfaturamento e outras irregularidades na operação. Entre elas, o fato comezinho de o ministério não ter poder fiscalizador, o que o levou a transferir parte das embarcações de vigilância para outros órgãos. Além disso, a empresa, pelas regras, precisaria ter produzido previamente ao menos três unidades para ser qualificada -e só havia construído uma.
Em 2010, a Intech doou, segundo o empresário, R$ 150 mil ao PT de Santa Catarina. A candidata a governadora pelo partido era a atual responsável pela pasta das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, que, derrotada, assumiu a Pesca.
Altemir Gregolin, titular do ministério à época da transação, também pertencia ao PT catarinense -e assinou ordem para a compra das últimas cinco lanchas pouco antes de deixar o cargo.
Quatro das embarcações adquiridas encontram-se paradas há um ano, sem uso, numa marina perto de Florianópolis. A Intech diz que pretende cobrar R$ 400 mil do governo pela manutenção. Já o ministério informa que pediu "um plano de trabalho para solucionar as pendências que impedem a plena utilização" das lanchas.
Diante de tantos problemas, soa até tímida a declaração do antecessor de Crivella, o ex-ministro Luiz Sérgio, de que o pedido de doação feito ao empresário teria caracterizado um "malfeito".
Tudo nessa operação, na realidade, sugere desfaçatez, fisiologismo e desperdício de dinheiro público. A começar, aliás, pela criação do Ministério da Pesca.
FSP - Editorial
Já diz muito sobre a qualidade da administração pública brasileira a simples existência de um ministério voltado para a atividade da pesca, ora comandado por um senador, bispo evangélico e cantor gospel, que se declara incapaz de "colocar minhoca no anzol".
Tal inabilidade não deve, porém, ser superestimada; na realidade, é tão irrelevante quanto a própria pasta, criada pelo ex-presidente Lula para saciar apetites de comensais do petismo.
O objetivo vai sendo atendido, como atestam a própria nomeação do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) pela presidente Dilma Rousseff e o noticiário sobre a doação que o empresário José Antônio Galizio afirma ter feito, a pedido do PT, para a campanha eleitoral de 2010.
Trata-se do dono da Intech Boating, empresa que vendeu, em 2008 e 2009, 28 lanchas ao Ministério da Pesca, no valor de R$ 31 milhões.
O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou superfaturamento e outras irregularidades na operação. Entre elas, o fato comezinho de o ministério não ter poder fiscalizador, o que o levou a transferir parte das embarcações de vigilância para outros órgãos. Além disso, a empresa, pelas regras, precisaria ter produzido previamente ao menos três unidades para ser qualificada -e só havia construído uma.
Em 2010, a Intech doou, segundo o empresário, R$ 150 mil ao PT de Santa Catarina. A candidata a governadora pelo partido era a atual responsável pela pasta das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, que, derrotada, assumiu a Pesca.
Altemir Gregolin, titular do ministério à época da transação, também pertencia ao PT catarinense -e assinou ordem para a compra das últimas cinco lanchas pouco antes de deixar o cargo.
Quatro das embarcações adquiridas encontram-se paradas há um ano, sem uso, numa marina perto de Florianópolis. A Intech diz que pretende cobrar R$ 400 mil do governo pela manutenção. Já o ministério informa que pediu "um plano de trabalho para solucionar as pendências que impedem a plena utilização" das lanchas.
Diante de tantos problemas, soa até tímida a declaração do antecessor de Crivella, o ex-ministro Luiz Sérgio, de que o pedido de doação feito ao empresário teria caracterizado um "malfeito".
Tudo nessa operação, na realidade, sugere desfaçatez, fisiologismo e desperdício de dinheiro público. A começar, aliás, pela criação do Ministério da Pesca.
ENFIM UMA BOA NOTÍCIA
Jovem da periferia de SP passa em Harvard e outras 5 universidades dos EUA
Tábata Pontes já estava estudando na USP; ela é filha de cobrador de ônibus e uma vendedora de flores
Felipe Oda, do Jornal da Tarde
Uma medalhista olímpica brasileira, vinda da rede pública de ensino, está prestes a trocar o Brasil pelos Estados Unidos. Tábata Amaral de Pontes, de 18 anos, tem mais de 30 medalhas no currículo, entre competições nacionais e internacionais de física, matemática, química e astronomia.
Agora, o leque de opções aumentou. Filha de um cobrador de ônibus e de uma vendedora de flores, moradores da periferia de São Paulo, no extremo da zona sul, Tábata foi aprovada em seis universidades norte-americanas: Harvard, Caltech, Columbia, Princeton, Yale e Pennsylvania. Ela concluiu o ensino médio no Etapa, como bolsista.
A felicidade de Tábata só não é maior porque a confirmação da aprovação em Harvard, na quinta-feira, foi recebida três dias antes do falecimento de seu pai. Por conta disso, a jovem não pôde conversar com a reportagem.
Em fevereiro, antes de conhecer os resultados das universidades americanas, Tábata disse ao JT que a experiência poderia ajudá-la a contribuir com “a educação no País”. Ela é fundadora do programa Vontade Olímpica de Aprender, (VOA) que dá aulas de matemática para alunos de colégios públicos. À época, chegou a comentar: “parece impossível passar, mas esse é o meu sonho”.
Da periferia aos Estados Unidos
FELIPE ODA - Jornal da Tarde
Aos 18 anos, Tábata Cláudia Amaral de Pontes já pode se aposentar. Ela é a rainha de competições internacionais e nacionais que pouca gente conhece: as olimpíadas de física, matemática, química e astronomia. Ganhou mais de 30 medalhas mundo afora, algumas com um gostinho especial.
Foi por causa de uma delas, por exemplo, que recebeu uma bolsa de estudos do Colégio Etapa, aos 13 anos, quando ainda estava no ensino fundamental, em uma escola pública da periferia da zona sul. Mas o problema não era apenas pagar pelos estudos.
Tábata levava muito tempo para se locomover entre a escola, na Vila Mariana, e sua casa, na Vila Missionária, região de Cidade Ademar, na zona sul. Além disso, essa era uma despesa que seus pais, uma vendedora de flores e um cobrador de ônibus, não tinham como manter.
De olho no talento da menina, a escola ofereceu moradia em um hotel próximo, alimentação, passagens e curso de inglês. Neste domingo, dia de sua formatura no ensino médio, ela deixa a escola à espera dos resultados em dez vestibulares de instituições norte-americanas, entre elas Harvard e Stanford.
E, se a carreira de atleta olímpica terminou, o talento da menina ainda pode render mais frutos. Já aprovada em Física pela Fuvest e no aguardo de respostas das universidades internacionais, ela ministra aulas de olimpíada no Etapa, para futuros competidores.
Fora da escola Tábata também serve de exemplo: ela fundou projeto social de aulas para alunos da rede pública e ainda incentivou sua mãe a retomar os estudos, concluídos no ano passado, num curso supletivo. No quarto de hotel em que vive hoje, contou ao Jornal da Tarde sobre sua trajetória nos bancos escolares.
Como começou a sua carreira olímpica?
Participei de uma olimpíada (da área de exatas) pela primeira vez em 2005. Estava na 5ª série e estudava num colégio estadual. Fiquei com a medalha de prata da primeira Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e, como premiação, ganhei um curso de matemática aos sábados no Colégio Etapa. No ano seguinte, ainda como aluna de colégio público, eu ganhei a olimpíada. Sempre tive facilidade e também gosto das matérias de exatas.
O convite para estudar no Etapa surgiu quando?
Em 2007 fui convidada para estudar lá. Mas não tinha condições de arcar com os estudos e ganhei uma bolsa integral. O convite foi um reconhecimento do meu esforço, eu acho. Mudei para o Etapa na 7ª série e demorei para me adaptar.
Como foi a mudança para uma escola particular?
Não tive dificuldades com as matérias, mas sim para me acostumar com um colégio particular. Tudo é muito diferente. No primeiro ano, fiquei deslumbrada. Tão deslumbrada que, no ano em que entrei no Etapa, acabei deixando as olimpíadas de conhecimento de lado. Imaginava que só de estar num colégio particular estava com o futuro garantido. Só voltei a pensar nas olimpíadas um ano depois, em 2008, já ambientada.
Quais foram as dificuldades com o novo colégio?
No começo, era o deslumbramento. Depois, o problema era financeiro. Gastava muito com transporte e alimentação. Também era uma rotina pesada. Saía 22h30 do Paraíso e chegava meia-noite na casa dos meus pais. Foi quando o Etapa começou a pagar um hotel próximo ao colégio para eu morar durante a semana e ajudar nos custos. Mesmo assim, ainda sofri para me acostumar com a distância dos meus pais.
Por que decidiu retomar as olimpíadas no Etapa?
Eu não fazia parte da equipe olímpica de conhecimento do Etapa. Mesmo assim, por ser medalhista pelo colégio público, fui convidada no final do ano (em 2007) para participar da confraternização da equipe. Eles vestiam uma camiseta especial e falei para o meu pai que, no próximo ano, eu também estaria vestindo aquele uniforme. Parece bobagem, mas vê-los me despertou a vontade de voltar a competir. Nesse mesmo dia, também assisti a uma palestra de um representante do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e decidi que iria estudar no exterior.
Como se preparou?
Em 2008 eu descobri as competições de física e me apaixonei. Participei de competições na Turquia, China e Polônia. Foi fácil retomar, porque nas competições você conhece muita gente bacana. É um lugar incrível para fazer amizades. Também entrei na equipe do Colégio Etapa e cumpri a promessa que tinha feito ao meu pai. Passei a estudar e treinar com eles matemática, física, química, robótica e astronomia e a dar aulas num projeto.
Qual o projeto?
Há três anos, criei o projeto VOA, Vontade Olímpica de Aprender, com amigas do Etapa. Sabe, me parecia correto retribuir as oportunidades que eu tive. Nós damos aulas aos domingos de matemática e astronomia para alunos de colégios públicos. Funciona assim: buscamos colégios públicos que queiram montar equipes de conhecimento e preparamos o grupo. Hoje, temos apoio do Rotary Clube e do Etapa. Trabalhamos com oito escolas na zona sul e cerca de 200 alunos já passaram pelo projeto.
As competições internacionais despertaram a vontade de estudar no exterior?
No dia em que assisti à palestra do representante do MIT, eu soube que queria estudar nos Estados Unidos. Mas sabia que teria dificuldade com a língua inglesa. Ex-aluna de um colégio público, meu inglês era fraco. Há dois anos, pelo Etapa, eu também consegui uma bolsa numa escola de línguas. Fiz o curso intensivo para me preparar para os exames da universidades norte-americanas. Sei que lá fora poderei combinar graduações, algo mais difícil aqui no Brasil. Quero estudar astrofísica e ciências políticas ou sociais.
Quais vestibulares você prestou lá fora?
Aguardo o resultado de Harvard, Stanford, MIT, Columbia, Yale, Dartmouth, Caltech, Princeton e Penn (University of Pennsylvania). Prestei Astrofísica e Ciências Sociais e Políticas. Parece impossível conseguir passar, mas é o meu sonho. As melhores cabeças vão estudar nessas universidades. Acho que poderei ajudar depois com a educação no País. É um sonho também.
Algumas vez você já sofreu com cobranças?
Não. Meus pais nunca me cobraram. Minha mãe terminou no ano passado o supletivo do ensino médio. Ela é vendedora de flores e decidiu voltar aos estudos com o meu incentivo. Já meu pai é cobrador de ônibus há pelo menos dez anos. Eles sempre me incentivaram, mas nunca exigiram nada. O colégio também não.
Tábata Pontes já estava estudando na USP; ela é filha de cobrador de ônibus e uma vendedora de flores
Felipe Oda, do Jornal da Tarde
Uma medalhista olímpica brasileira, vinda da rede pública de ensino, está prestes a trocar o Brasil pelos Estados Unidos. Tábata Amaral de Pontes, de 18 anos, tem mais de 30 medalhas no currículo, entre competições nacionais e internacionais de física, matemática, química e astronomia.
Agora, o leque de opções aumentou. Filha de um cobrador de ônibus e de uma vendedora de flores, moradores da periferia de São Paulo, no extremo da zona sul, Tábata foi aprovada em seis universidades norte-americanas: Harvard, Caltech, Columbia, Princeton, Yale e Pennsylvania. Ela concluiu o ensino médio no Etapa, como bolsista.
A felicidade de Tábata só não é maior porque a confirmação da aprovação em Harvard, na quinta-feira, foi recebida três dias antes do falecimento de seu pai. Por conta disso, a jovem não pôde conversar com a reportagem.
Em fevereiro, antes de conhecer os resultados das universidades americanas, Tábata disse ao JT que a experiência poderia ajudá-la a contribuir com “a educação no País”. Ela é fundadora do programa Vontade Olímpica de Aprender, (VOA) que dá aulas de matemática para alunos de colégios públicos. À época, chegou a comentar: “parece impossível passar, mas esse é o meu sonho”.
Da periferia aos Estados Unidos
FELIPE ODA - Jornal da Tarde
Aos 18 anos, Tábata Cláudia Amaral de Pontes já pode se aposentar. Ela é a rainha de competições internacionais e nacionais que pouca gente conhece: as olimpíadas de física, matemática, química e astronomia. Ganhou mais de 30 medalhas mundo afora, algumas com um gostinho especial.
Foi por causa de uma delas, por exemplo, que recebeu uma bolsa de estudos do Colégio Etapa, aos 13 anos, quando ainda estava no ensino fundamental, em uma escola pública da periferia da zona sul. Mas o problema não era apenas pagar pelos estudos.
Tábata levava muito tempo para se locomover entre a escola, na Vila Mariana, e sua casa, na Vila Missionária, região de Cidade Ademar, na zona sul. Além disso, essa era uma despesa que seus pais, uma vendedora de flores e um cobrador de ônibus, não tinham como manter.
De olho no talento da menina, a escola ofereceu moradia em um hotel próximo, alimentação, passagens e curso de inglês. Neste domingo, dia de sua formatura no ensino médio, ela deixa a escola à espera dos resultados em dez vestibulares de instituições norte-americanas, entre elas Harvard e Stanford.
E, se a carreira de atleta olímpica terminou, o talento da menina ainda pode render mais frutos. Já aprovada em Física pela Fuvest e no aguardo de respostas das universidades internacionais, ela ministra aulas de olimpíada no Etapa, para futuros competidores.
Fora da escola Tábata também serve de exemplo: ela fundou projeto social de aulas para alunos da rede pública e ainda incentivou sua mãe a retomar os estudos, concluídos no ano passado, num curso supletivo. No quarto de hotel em que vive hoje, contou ao Jornal da Tarde sobre sua trajetória nos bancos escolares.
Como começou a sua carreira olímpica?
Participei de uma olimpíada (da área de exatas) pela primeira vez em 2005. Estava na 5ª série e estudava num colégio estadual. Fiquei com a medalha de prata da primeira Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e, como premiação, ganhei um curso de matemática aos sábados no Colégio Etapa. No ano seguinte, ainda como aluna de colégio público, eu ganhei a olimpíada. Sempre tive facilidade e também gosto das matérias de exatas.
O convite para estudar no Etapa surgiu quando?
Em 2007 fui convidada para estudar lá. Mas não tinha condições de arcar com os estudos e ganhei uma bolsa integral. O convite foi um reconhecimento do meu esforço, eu acho. Mudei para o Etapa na 7ª série e demorei para me adaptar.
Como foi a mudança para uma escola particular?
Não tive dificuldades com as matérias, mas sim para me acostumar com um colégio particular. Tudo é muito diferente. No primeiro ano, fiquei deslumbrada. Tão deslumbrada que, no ano em que entrei no Etapa, acabei deixando as olimpíadas de conhecimento de lado. Imaginava que só de estar num colégio particular estava com o futuro garantido. Só voltei a pensar nas olimpíadas um ano depois, em 2008, já ambientada.
Quais foram as dificuldades com o novo colégio?
No começo, era o deslumbramento. Depois, o problema era financeiro. Gastava muito com transporte e alimentação. Também era uma rotina pesada. Saía 22h30 do Paraíso e chegava meia-noite na casa dos meus pais. Foi quando o Etapa começou a pagar um hotel próximo ao colégio para eu morar durante a semana e ajudar nos custos. Mesmo assim, ainda sofri para me acostumar com a distância dos meus pais.
Por que decidiu retomar as olimpíadas no Etapa?
Eu não fazia parte da equipe olímpica de conhecimento do Etapa. Mesmo assim, por ser medalhista pelo colégio público, fui convidada no final do ano (em 2007) para participar da confraternização da equipe. Eles vestiam uma camiseta especial e falei para o meu pai que, no próximo ano, eu também estaria vestindo aquele uniforme. Parece bobagem, mas vê-los me despertou a vontade de voltar a competir. Nesse mesmo dia, também assisti a uma palestra de um representante do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e decidi que iria estudar no exterior.
Como se preparou?
Em 2008 eu descobri as competições de física e me apaixonei. Participei de competições na Turquia, China e Polônia. Foi fácil retomar, porque nas competições você conhece muita gente bacana. É um lugar incrível para fazer amizades. Também entrei na equipe do Colégio Etapa e cumpri a promessa que tinha feito ao meu pai. Passei a estudar e treinar com eles matemática, física, química, robótica e astronomia e a dar aulas num projeto.
Qual o projeto?
Há três anos, criei o projeto VOA, Vontade Olímpica de Aprender, com amigas do Etapa. Sabe, me parecia correto retribuir as oportunidades que eu tive. Nós damos aulas aos domingos de matemática e astronomia para alunos de colégios públicos. Funciona assim: buscamos colégios públicos que queiram montar equipes de conhecimento e preparamos o grupo. Hoje, temos apoio do Rotary Clube e do Etapa. Trabalhamos com oito escolas na zona sul e cerca de 200 alunos já passaram pelo projeto.
As competições internacionais despertaram a vontade de estudar no exterior?
No dia em que assisti à palestra do representante do MIT, eu soube que queria estudar nos Estados Unidos. Mas sabia que teria dificuldade com a língua inglesa. Ex-aluna de um colégio público, meu inglês era fraco. Há dois anos, pelo Etapa, eu também consegui uma bolsa numa escola de línguas. Fiz o curso intensivo para me preparar para os exames da universidades norte-americanas. Sei que lá fora poderei combinar graduações, algo mais difícil aqui no Brasil. Quero estudar astrofísica e ciências políticas ou sociais.
Quais vestibulares você prestou lá fora?
Aguardo o resultado de Harvard, Stanford, MIT, Columbia, Yale, Dartmouth, Caltech, Princeton e Penn (University of Pennsylvania). Prestei Astrofísica e Ciências Sociais e Políticas. Parece impossível conseguir passar, mas é o meu sonho. As melhores cabeças vão estudar nessas universidades. Acho que poderei ajudar depois com a educação no País. É um sonho também.
Algumas vez você já sofreu com cobranças?
Não. Meus pais nunca me cobraram. Minha mãe terminou no ano passado o supletivo do ensino médio. Ela é vendedora de flores e decidiu voltar aos estudos com o meu incentivo. Já meu pai é cobrador de ônibus há pelo menos dez anos. Eles sempre me incentivaram, mas nunca exigiram nada. O colégio também não.
A PALHAÇADA CONTINUA E QUEM SE F*** É O POBRE I
Fim das sacolinhas prejudica os mais pobres, afirma OAB
Léo Arcoverde, Jéssica Consulim Roccella e Folha de S.Paulo/
Agora
Hoje é o último dia de distribuição gratuita de sacolinhas plásticas pelos supermercados.
Para o o presidente da Comissão de Direito e Relações de Consumo da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil), José Eduardo Tavolieri de Oliveira, os consumidores mais pobres serão prejudicados com a medida.
Anunciada no início de fevereiro, a interrupção do fornecimento gratuito das sacolinhas plásticas consta de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado entre a Apas (associação dos supermercados) e a Promotoria.
"O consumidores mais desfavorecidos, desempregados, que têm dificuldade para pagar uma conta de água ou luz, e sempre acondicionaram o lixo doméstico nas sacolinhas plásticas, agora vão acondicionar aonde? Em uma caixa de papelão?", indaga Tavolieri.
Léo Arcoverde, Jéssica Consulim Roccella e Folha de S.Paulo/
Agora
Hoje é o último dia de distribuição gratuita de sacolinhas plásticas pelos supermercados.
Para o o presidente da Comissão de Direito e Relações de Consumo da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil), José Eduardo Tavolieri de Oliveira, os consumidores mais pobres serão prejudicados com a medida.
Anunciada no início de fevereiro, a interrupção do fornecimento gratuito das sacolinhas plásticas consta de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado entre a Apas (associação dos supermercados) e a Promotoria.
"O consumidores mais desfavorecidos, desempregados, que têm dificuldade para pagar uma conta de água ou luz, e sempre acondicionaram o lixo doméstico nas sacolinhas plásticas, agora vão acondicionar aonde? Em uma caixa de papelão?", indaga Tavolieri.
A PALHAÇADA CONTINUA E QUEM SE F*** É O POBRE II
Supermercados vão dar 'sacola vaivém'
Consumidor poderá levar embalagem para casa e devolvê-la na próxima compra; sacolas plásticas acabam hoje
Associação paulista também estuda o barateamento das reutilizáveis, que têm de ser oferecidas
CLAUDIA ROLLI/TONI SCIARRETTA - FSP
A partir de hoje, o consumidor que for ao supermercado em São Paulo deverá levar sua sacola de casa. É que terminou o prazo de 60 dias acertado entre a associação de supermercados paulistas, o Procon-SP e o Ministério Público estadual para o consumidor se adaptar à mudança.
Quem se esquecer de levar a sacola de casa poderá comprar um modelo reutilizável "vaivém" e devolvê-lo na próxima compra. O consumidor poderá pegar o dinheiro de volta ou abater o valor da sacolinha "vaivém" na conta.
A alternativa deve chegar aos supermercados de São Paulo em um mês e é uma das ações em estudo pela Apas (Associação Paulista de Supermercados) em parceria com técnicos do Procon.
"Ainda não temos todos os detalhes de como será essa operação. A ideia é atender ao consumidor que já tem sacolas reutilizáveis em casa, mas esquece, na última hora, de levá às compras", diz João Galassi, presidente da Apas.
Outra ação que será feita é o barateamento das reutilizáveis. Pelo acordo feito em fevereiro, as lojas têm de oferecer até agosto ao menos um modelo de sacola retornável por R$ 0,59.
Os supermercados também reiteram o pedido ao governo de São Paulo para reduzir o ICMS para sacolas reutilizáveis e sacos de lixo produzidos com material reciclado.
Para a Plastivida (Instituto Socioambiental dos Plásticos), a redução não é "o caminho correto".
"O Estado não pode abrir mão da receita de arrecadação para justificar uma campanha feita pelos supermercados que querem substituir a sacolinha por saco de lixo", diz Miguel Bahiense, presidente da Plastivida.
RESPONSABILIDADE
Segundo o promotor José Eduardo Ismael Lutti, do Ministério Público estadual, os supermercados que continuarem distribuindo sacolinhas descartáveis poderão ser obrigados a fazer a coleta desse material.
"Pela lei de resíduos sólidos, deverão recolher essas embalagens. Quem distribuir as sacolas descartáveis está sujeito às sanções do termo de ajustamento de conduta, feito pelo setor."
SEM VENDA EM SP
Os supermercados não vão mais vender sacolinhas descartáveis biodegradáveis por R$ 0,19 cada uma.
Desde o acordo feito em fevereiro, os mercados abandonaram a ideia de vender as embalagens, bombardeadas por consumidores e opositores do fim da sacolinhas.
Depois dos supermercados, feiras livres e padarias deverão adotar a iniciativa. A negociação com as associações já está a cargo do Ministério Público de São Paulo.
"Essa é uma campanha mais ampla do que simplesmente uma sacolinha. O consumo, do jeito que está hoje, com a geração de resíduos, é insustentável. O país vai para o buraco se não mudarmos nossas atitudes", afirma o promotor.
Consumidor poderá levar embalagem para casa e devolvê-la na próxima compra; sacolas plásticas acabam hoje
Associação paulista também estuda o barateamento das reutilizáveis, que têm de ser oferecidas
CLAUDIA ROLLI/TONI SCIARRETTA - FSP
A partir de hoje, o consumidor que for ao supermercado em São Paulo deverá levar sua sacola de casa. É que terminou o prazo de 60 dias acertado entre a associação de supermercados paulistas, o Procon-SP e o Ministério Público estadual para o consumidor se adaptar à mudança.
Quem se esquecer de levar a sacola de casa poderá comprar um modelo reutilizável "vaivém" e devolvê-lo na próxima compra. O consumidor poderá pegar o dinheiro de volta ou abater o valor da sacolinha "vaivém" na conta.
A alternativa deve chegar aos supermercados de São Paulo em um mês e é uma das ações em estudo pela Apas (Associação Paulista de Supermercados) em parceria com técnicos do Procon.
"Ainda não temos todos os detalhes de como será essa operação. A ideia é atender ao consumidor que já tem sacolas reutilizáveis em casa, mas esquece, na última hora, de levá às compras", diz João Galassi, presidente da Apas.
Outra ação que será feita é o barateamento das reutilizáveis. Pelo acordo feito em fevereiro, as lojas têm de oferecer até agosto ao menos um modelo de sacola retornável por R$ 0,59.
Os supermercados também reiteram o pedido ao governo de São Paulo para reduzir o ICMS para sacolas reutilizáveis e sacos de lixo produzidos com material reciclado.
Para a Plastivida (Instituto Socioambiental dos Plásticos), a redução não é "o caminho correto".
"O Estado não pode abrir mão da receita de arrecadação para justificar uma campanha feita pelos supermercados que querem substituir a sacolinha por saco de lixo", diz Miguel Bahiense, presidente da Plastivida.
RESPONSABILIDADE
Segundo o promotor José Eduardo Ismael Lutti, do Ministério Público estadual, os supermercados que continuarem distribuindo sacolinhas descartáveis poderão ser obrigados a fazer a coleta desse material.
"Pela lei de resíduos sólidos, deverão recolher essas embalagens. Quem distribuir as sacolas descartáveis está sujeito às sanções do termo de ajustamento de conduta, feito pelo setor."
SEM VENDA EM SP
Os supermercados não vão mais vender sacolinhas descartáveis biodegradáveis por R$ 0,19 cada uma.
Desde o acordo feito em fevereiro, os mercados abandonaram a ideia de vender as embalagens, bombardeadas por consumidores e opositores do fim da sacolinhas.
Depois dos supermercados, feiras livres e padarias deverão adotar a iniciativa. A negociação com as associações já está a cargo do Ministério Público de São Paulo.
"Essa é uma campanha mais ampla do que simplesmente uma sacolinha. O consumo, do jeito que está hoje, com a geração de resíduos, é insustentável. O país vai para o buraco se não mudarmos nossas atitudes", afirma o promotor.
ENQUANTO O DEM EXPULSA OS "BANDIDOS, DELINQUENTES E VAGABUNDOS" DAS SUAS ALAS, O PT CRIA OS SEUS COM MUITO APREÇO E CARINHO
Iguais, porém diferentes
O Estado de S.Paulo - Editorial
Demóstenes Torres tropeçou no seu próprio "mensalão". Exatamente como aconteceu com o PT em 2005, depois de passar vários anos fazendo o papel de vestal, de missionário da ética e impiedoso acusador dos desencaminhados, o senador goiano foi desmascarado pela evidência irrefutável de que mantém relações promíscuas com o notório Carlinhos Cachoeira, chefão da jogatina, cujos interesses escusos tem defendido junto à administração pública. Até aí, tudo igual ao que se tem assistido na política. A diferença está no comportamento dos partidos envolvidos em escândalos. O PT nega até hoje a existência do plano urdido e executado por José Dirceu para compra de apoio parlamentar ao governo Lula e age politicamente para blindar os réus do processo que se arrasta no STF. O DEM, como já fizera no caso do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, de imediato cobrou publicamente explicações de seu filiado, num procedimento que inevitavelmente resultaria numa expulsão - que só não ocorreu porque Demóstenes se antecipou e pediu desligamento do partido.
O comportamento de Demóstenes Torres é imperdoável, principalmente pela profunda decepção que causou aos homens de bem que viam nele um denodado defensor da ética na política. Foi ele quem declarou, em 2007, na condição de relator da CPI do apagão aéreo, que "corrupção é um negócio suprapartidário" e que "os malandros estão em todos os governos" - e ele bem o sabia. Hoje, para regozijo dos corruptos, sobre Demóstenes Torres alguém poderá afirmar o mesmo que ele próprio afirmou sobre seu ex-correligionário José Roberto Arruda, forçado a renunciar ao governo do Distrito Federal por seu envolvimento no chamado "mensalão do DEM": "É um bandido, um delinquente, um vagabundo".
Os desdobramentos desse lamentável episódio nos campos da política e da Justiça são imprevisíveis num país em que o império da lei costuma ser muito relativo. O próprio Demóstenes já estaria convencido de que está "politicamente morto". Mas o fato é que, com seu condenável desvio de comportamento no exercício de um mandato que conquistou nas urnas e não soube honrar, Demóstenes Torres se revelou mais um agente - e beneficiário - da alarmante contaminação do ambiente político-institucional pela lassidão moral e ética, que vem acompanhada pela tolerância a "malfeitos" praticados por quem frequenta os círculos do poder e, consequentemente, pelo sentimento de impunidade que torna cada vez mais insaciáveis e ousados os bandidos travestidos de homens públicos.
Menos mal que a liderança do DEM se revelou mais uma vez atenta à necessidade de cortar pela raiz as ameaças a sua imagem pública, tratando de evitar que o comportamento criminoso de um de seus mais destacados líderes viesse a comprometer a credibilidade política do partido. Em acentuada decadência nos últimos anos, em termos de representatividade eleitoral, um escândalo dessas proporções poderia levar a legenda a um beco sem saída. De qualquer modo, a atitude dos democratas é exemplar, principalmente se comparada à de outros partidos, entre eles muitos dos que se aconchegam na base aliada, PT e PMDB à frente. Para esses, que como paradigma preferem os líderes que passam a mão na cabeça de seus "aloprados", parece prevalecer o princípio de que ética é uma coisa muito simples: basta não ser pego com a boca na botija.
O desmascaramento do falso moralista Demóstenes Torres sugere ainda uma reflexão relativa ao pivô do imbróglio, o notório Carlinhos Cachoeira. Há quase dez anos esse meliante se envolveu em episódio de suborno que se transformou no primeiro de uma longa série de escândalos de corrupção do governo Lula. Trata-se, portanto, de figura conhecida. No momento - mas provavelmente não por muito tempo - permanece detido por ordem da Justiça, a pedido da PF, que investiga o jogo ilegal em Goiás. Até onde terá chegado esse indivíduo, agindo com desenvoltura - e impunemente - há anos, graças a suas privilegiadas relações políticas?
O Estado de S.Paulo - Editorial
Demóstenes Torres tropeçou no seu próprio "mensalão". Exatamente como aconteceu com o PT em 2005, depois de passar vários anos fazendo o papel de vestal, de missionário da ética e impiedoso acusador dos desencaminhados, o senador goiano foi desmascarado pela evidência irrefutável de que mantém relações promíscuas com o notório Carlinhos Cachoeira, chefão da jogatina, cujos interesses escusos tem defendido junto à administração pública. Até aí, tudo igual ao que se tem assistido na política. A diferença está no comportamento dos partidos envolvidos em escândalos. O PT nega até hoje a existência do plano urdido e executado por José Dirceu para compra de apoio parlamentar ao governo Lula e age politicamente para blindar os réus do processo que se arrasta no STF. O DEM, como já fizera no caso do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, de imediato cobrou publicamente explicações de seu filiado, num procedimento que inevitavelmente resultaria numa expulsão - que só não ocorreu porque Demóstenes se antecipou e pediu desligamento do partido.
O comportamento de Demóstenes Torres é imperdoável, principalmente pela profunda decepção que causou aos homens de bem que viam nele um denodado defensor da ética na política. Foi ele quem declarou, em 2007, na condição de relator da CPI do apagão aéreo, que "corrupção é um negócio suprapartidário" e que "os malandros estão em todos os governos" - e ele bem o sabia. Hoje, para regozijo dos corruptos, sobre Demóstenes Torres alguém poderá afirmar o mesmo que ele próprio afirmou sobre seu ex-correligionário José Roberto Arruda, forçado a renunciar ao governo do Distrito Federal por seu envolvimento no chamado "mensalão do DEM": "É um bandido, um delinquente, um vagabundo".
Os desdobramentos desse lamentável episódio nos campos da política e da Justiça são imprevisíveis num país em que o império da lei costuma ser muito relativo. O próprio Demóstenes já estaria convencido de que está "politicamente morto". Mas o fato é que, com seu condenável desvio de comportamento no exercício de um mandato que conquistou nas urnas e não soube honrar, Demóstenes Torres se revelou mais um agente - e beneficiário - da alarmante contaminação do ambiente político-institucional pela lassidão moral e ética, que vem acompanhada pela tolerância a "malfeitos" praticados por quem frequenta os círculos do poder e, consequentemente, pelo sentimento de impunidade que torna cada vez mais insaciáveis e ousados os bandidos travestidos de homens públicos.
Menos mal que a liderança do DEM se revelou mais uma vez atenta à necessidade de cortar pela raiz as ameaças a sua imagem pública, tratando de evitar que o comportamento criminoso de um de seus mais destacados líderes viesse a comprometer a credibilidade política do partido. Em acentuada decadência nos últimos anos, em termos de representatividade eleitoral, um escândalo dessas proporções poderia levar a legenda a um beco sem saída. De qualquer modo, a atitude dos democratas é exemplar, principalmente se comparada à de outros partidos, entre eles muitos dos que se aconchegam na base aliada, PT e PMDB à frente. Para esses, que como paradigma preferem os líderes que passam a mão na cabeça de seus "aloprados", parece prevalecer o princípio de que ética é uma coisa muito simples: basta não ser pego com a boca na botija.
O desmascaramento do falso moralista Demóstenes Torres sugere ainda uma reflexão relativa ao pivô do imbróglio, o notório Carlinhos Cachoeira. Há quase dez anos esse meliante se envolveu em episódio de suborno que se transformou no primeiro de uma longa série de escândalos de corrupção do governo Lula. Trata-se, portanto, de figura conhecida. No momento - mas provavelmente não por muito tempo - permanece detido por ordem da Justiça, a pedido da PF, que investiga o jogo ilegal em Goiás. Até onde terá chegado esse indivíduo, agindo com desenvoltura - e impunemente - há anos, graças a suas privilegiadas relações políticas?
SAUDADES DE KADAFI
Perigo no coração da África
GILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo
A França aconselhou seus cidadãos no Mali a deixar o país. Antiga colônia francesa que se tornou independente em 1960, o Mali ocupa o sul do mais vasto deserto do mundo, o Saara. Faz fronteira ao norte com a Argélia, e ao sul com o Senegal. É um dos países mais miseráveis do planeta. Como seria diferente? O Mali não tem saída para o mar e toda sua parte norte, habitada pela mítica população dos tuaregues (os homens azuis) é constituída de areia e pedra.
Há alguns dias, um golpe de Estado derrubou o governo em Bamako. Uma junta de capitães do Exército tomou o poder. Em seguida, sob a égide do Movimento Nacional de Libertação do Azawad (MNLA), os tuaregues atacaram essa região ao norte - que consideram o berço da sua importante civilização.
Em poucos dias, os rebeldes libertaram todo o norte, ou seja, a parte saariana do país. O Mali, portanto, ficou dividido em dois. As duas cidades no deserto caíram: Gao e a fabulosa Timbuctu, onde nenhum europeu conseguiu penetrar até 1828.
Simples conflito local? Não. Os tuaregues são um povo selvagem, arisco. Sempre gostaram de se revoltar contra o governo de Bamako. Até há pouco, a paz sempre era rapidamente restabelecida graças aos "bons ofícios" do ex-presidente da Líbia, o coronel Muamar Kadafi, que se vangloriava de ser o regente dos espaços saarianos. Kadafi, aliás, treinava na Líbia "legiões" de soldados tuaregues.
Quando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) atacou a Líbia, a pedido de França e Grã-Bretanha, matando de passagem o coronel Kadafi, os soldados tuaregues do ex-ditador, bem organizados e fortemente armados, retiraram-se para o norte do Mali. E lá decidiram que estava na hora de reconquistar sua independência e recriar a antiga Azawad. Foram esses soldados aguerridos que tomaram Timbuctu esta semana.
Mas eles não foram os únicos a aproveitar o desaparecimento do governo legal do Mali. Uma outra facção de guerreiros tuaregues também entrou em ação. São homens bem diferentes. Os tuaregues de Azawad, que tomaram Timbuctu, dizem-se seculares, ao passo que os outros são islâmicos e formaram o Ansar Din (Exército da Religião) e pretendem instituir no norte do Mali a sharia, a sangrenta justiça islâmica.
Essa região norte do Mali está povoada de guerreiros: de um lado aqueles que não professam nenhuma crença, e de outro os "barbudos" do movimento Allahu Akbar (Deus é Grande). Esses homens formam uma nova geração de tuaregues seduzidos pela ideologia islâmica, em contato com a Al-Qaeda do Magreb Islâmico, responsável por sequestros e, depois de alguns meses, massacres de ocidentais.
A junta que derrubou o governo de Bamako tenta acalmar a comunidade internacional. Esta semana, prometeu que vai restabelecer a ordem constitucional, enviando emissários para conversar com os insurgentes.
Que insurgentes? Os seculares de Azawad ou os fanáticos do Ansar Din?
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
GILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo
A França aconselhou seus cidadãos no Mali a deixar o país. Antiga colônia francesa que se tornou independente em 1960, o Mali ocupa o sul do mais vasto deserto do mundo, o Saara. Faz fronteira ao norte com a Argélia, e ao sul com o Senegal. É um dos países mais miseráveis do planeta. Como seria diferente? O Mali não tem saída para o mar e toda sua parte norte, habitada pela mítica população dos tuaregues (os homens azuis) é constituída de areia e pedra.
Há alguns dias, um golpe de Estado derrubou o governo em Bamako. Uma junta de capitães do Exército tomou o poder. Em seguida, sob a égide do Movimento Nacional de Libertação do Azawad (MNLA), os tuaregues atacaram essa região ao norte - que consideram o berço da sua importante civilização.
Em poucos dias, os rebeldes libertaram todo o norte, ou seja, a parte saariana do país. O Mali, portanto, ficou dividido em dois. As duas cidades no deserto caíram: Gao e a fabulosa Timbuctu, onde nenhum europeu conseguiu penetrar até 1828.
Simples conflito local? Não. Os tuaregues são um povo selvagem, arisco. Sempre gostaram de se revoltar contra o governo de Bamako. Até há pouco, a paz sempre era rapidamente restabelecida graças aos "bons ofícios" do ex-presidente da Líbia, o coronel Muamar Kadafi, que se vangloriava de ser o regente dos espaços saarianos. Kadafi, aliás, treinava na Líbia "legiões" de soldados tuaregues.
Quando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) atacou a Líbia, a pedido de França e Grã-Bretanha, matando de passagem o coronel Kadafi, os soldados tuaregues do ex-ditador, bem organizados e fortemente armados, retiraram-se para o norte do Mali. E lá decidiram que estava na hora de reconquistar sua independência e recriar a antiga Azawad. Foram esses soldados aguerridos que tomaram Timbuctu esta semana.
Mas eles não foram os únicos a aproveitar o desaparecimento do governo legal do Mali. Uma outra facção de guerreiros tuaregues também entrou em ação. São homens bem diferentes. Os tuaregues de Azawad, que tomaram Timbuctu, dizem-se seculares, ao passo que os outros são islâmicos e formaram o Ansar Din (Exército da Religião) e pretendem instituir no norte do Mali a sharia, a sangrenta justiça islâmica.
Essa região norte do Mali está povoada de guerreiros: de um lado aqueles que não professam nenhuma crença, e de outro os "barbudos" do movimento Allahu Akbar (Deus é Grande). Esses homens formam uma nova geração de tuaregues seduzidos pela ideologia islâmica, em contato com a Al-Qaeda do Magreb Islâmico, responsável por sequestros e, depois de alguns meses, massacres de ocidentais.
A junta que derrubou o governo de Bamako tenta acalmar a comunidade internacional. Esta semana, prometeu que vai restabelecer a ordem constitucional, enviando emissários para conversar com os insurgentes.
Que insurgentes? Os seculares de Azawad ou os fanáticos do Ansar Din?
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
terça-feira, 3 de abril de 2012
ANDANDO PARA TRÁS
Governo retoma o círculo vicioso e letal do protecionismo
Controle de capitais, barreiras às importações e reserva de mercado dão o tom do que será a política econômica daqui para a frente: um perigoso retrocesso
Ana Clara Costa - VEJA
Apreensivo sobre os rumos da conjuntura econômica mundial, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse em novembro estar extremamente preocupado com a crise na Europa e cobrou uma atuação mais firme dos países da zona do euro para sanar as incertezas que pairavam sobre a região, temendo que elas alcançassem o Brasil. Ele prometeu na época que usaria todas as armas que lhe cabiam para evitar que a economia brasileira sofresse os efeitos das turbulências. Pouco tempo antes, o ministro já havia dado uma pista do que estava por vir. Anunciara em setembro o heterodoxo decreto que aumentava em 30 pontos porcentuais o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre veículos importados. Era um prenúncio do caminho arriscado que o governo estava prestes a trilhar: o do protecionismo. De lá para cá, o Planalto analisa pedidos de salvaguarda a setores diversos, como o têxtil e o vinífero; já sobretaxou os tênis de alta performance asiáticos e acaba de impor limites aos desembarques de carros mexicanos no país. A opção já se mostrou errada num passado nada distante, reservando ao Brasil ineficiências que até hoje persistem. O risco de o governo Dilma ceder a essa tentação incomoda a maioria dos especialistas no mercado e na academia, muitos dos quais testemunhas oculares do fracasso dessa opção.
Entre novembro e março, o novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), o italiano Mario Draghi, liberou nada menos que um trilhão de euros às instituições financeiras da região para garantir que cumprissem com os níveis de capital exigidos para atravessar a crise. O montante, cuja última parte saiu dos cofres do banco no início de março, serviu para tranquilizar um mercado que questionava a real capacidade de atuação do BCE. Esse fluxo de capital europeu teve dois rumos distintos: parte voltou aos cofres do próprio banco, evidenciando o medo das instituições europeias em aplicar em qualquer outro tipo de título; e parte viaja o mundo em busca de bons retornos. Nos Estados Unidos, somente a segunda fase do chamado 'afrouxamento monetário' implicou a injeção de 600 bilhões de dólares na economia internacional.
A entrada dessa montanha de dinheiro nos países emergentes, por meio do mercado financeiro, faz com que moedas como o real se apreciem ante o dólar ou o euro. Essa dinâmica, comemorada pela classe média que viaja ao exterior, é o pesadelo do momento para o Palácio do Planalto. É por isso que, desde o ano passado, o governo adotou uma sequência de medidas para conter a entrada de moeda estrangeira no país, utilizando o Imposto de Operações Financeiras (IOF) como arma. A tributação, contudo, é vista como medida paliativa, pois não impede que o Brasil continue atrativo para o investidor estrangeiro que está disposto a navegar em mares emergentes.
Por trás desse surto de preocupação com o câmbio, há duas razões que se entrelaçam: a indústria e o emprego. Com o real valorizado, os produtos industrializados brasileiros são derrotados em qualquer tipo de comparação com seus similares estrangeiros – e a crescente onda de importações é reflexo disso. Pouco competitiva, a indústria comporta-se como criança chorona de quem o brinquedo foi tomado pelo coleguinha mais forte – e esperneia para que os pais intercedam em seu favor. O governo poderia ignorar a birra, mas aí se lembra que o setor industrial emprega mais de 8 milhões de brasileiros e financia – de norte a sul – a política nacional. Mais ainda: com uma indústria em crise aguda, possíveis demissões criariam um ambiente de pessimismo e insegurança entre a população, o que poderia afetar o consumo, o PIB (a nova vedete do Planalto) e os votos. Já os sindicatos ligados ao setor industrial representam apoio político. Sem traquejo para lidar com eles, à presidente Dilma resta a decepcionante tarefa de ceder às pressões.
A esse cenário se soma a já conhecida simpatia da velha guarda petista pelo fechamento de mercado e proteção da indústria – e Dilma, neste aspecto, nunca se mostrou tão alinhada com a tradição do partido como agora. “Vamos proteger o mercado interno” tornou-se máxima tão comum quanto a “nunca antes na história deste país” proferida à exaustão por seu antecessor.
O ponto mais importante não é esquadrinhar as reais intenções da equipe econômica ao querer aplicar barreiras de importação a diversos setores da indústria – até mesmo aos menos relevantes economicamente, como a inexplicável salvaguarda ao vinho nacional que está sendo investigada pelo Ministério do Desenvolvimento e da Indústria (MDIC). O que é relevante para o país é saber que a escola Mantega está combatendo o inimigo errado.
Medidas de curto prazo para controlar o câmbio ocupam o lugar das merecidas – e há muito tempo esperadas – reformas tributária, trabalhista e política. Em vez de restringir a entrada de produtos estrangeiros, a opção de desonerar a indústria ainda é tratada com timidez por um governo que não pode se permitir um pouco de renúncia fiscal. Rever acordos bilaterais quando estes deixam de ser rentáveis, como ocorre com o caso do México, mostra as faces de um Brasil disposto a mudar as regras do jogo quando elas já não são mais úteis.
Contudo, a própria história econômica do país aponta que o protecionismo sempre foi uma escolha péssima. Dele herdou-se uma indústria automotiva sucateada até os anos 1990 (quando iniciou-se a abertura de mercado), o atraso tecnológico acarretado pela Política Nacional de Informática dos anos 1970 e um passado de hiperinflação que ainda permanece na memória da população adulta, e não foi completamente superado.
A década perdida de 1980, época em que o Brasil declarou moratória, também foi marcada pelo protecionismo. Para financiar os subsídios ao mercado fechado, o governo endividou-se no exterior ao longo de mais de três décadas para depois ver-se acuado, sem meios para pagar os juros de seu endividamento e sem uma indústria eficiente. Nas duas décadas seguintes, o país conseguiu uma segunda chance para se levantar. Pode não haver uma terceira.
Controle de capitais, barreiras às importações e reserva de mercado dão o tom do que será a política econômica daqui para a frente: um perigoso retrocesso
Ana Clara Costa - VEJA
Apreensivo sobre os rumos da conjuntura econômica mundial, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse em novembro estar extremamente preocupado com a crise na Europa e cobrou uma atuação mais firme dos países da zona do euro para sanar as incertezas que pairavam sobre a região, temendo que elas alcançassem o Brasil. Ele prometeu na época que usaria todas as armas que lhe cabiam para evitar que a economia brasileira sofresse os efeitos das turbulências. Pouco tempo antes, o ministro já havia dado uma pista do que estava por vir. Anunciara em setembro o heterodoxo decreto que aumentava em 30 pontos porcentuais o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre veículos importados. Era um prenúncio do caminho arriscado que o governo estava prestes a trilhar: o do protecionismo. De lá para cá, o Planalto analisa pedidos de salvaguarda a setores diversos, como o têxtil e o vinífero; já sobretaxou os tênis de alta performance asiáticos e acaba de impor limites aos desembarques de carros mexicanos no país. A opção já se mostrou errada num passado nada distante, reservando ao Brasil ineficiências que até hoje persistem. O risco de o governo Dilma ceder a essa tentação incomoda a maioria dos especialistas no mercado e na academia, muitos dos quais testemunhas oculares do fracasso dessa opção.
Entre novembro e março, o novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), o italiano Mario Draghi, liberou nada menos que um trilhão de euros às instituições financeiras da região para garantir que cumprissem com os níveis de capital exigidos para atravessar a crise. O montante, cuja última parte saiu dos cofres do banco no início de março, serviu para tranquilizar um mercado que questionava a real capacidade de atuação do BCE. Esse fluxo de capital europeu teve dois rumos distintos: parte voltou aos cofres do próprio banco, evidenciando o medo das instituições europeias em aplicar em qualquer outro tipo de título; e parte viaja o mundo em busca de bons retornos. Nos Estados Unidos, somente a segunda fase do chamado 'afrouxamento monetário' implicou a injeção de 600 bilhões de dólares na economia internacional.
A entrada dessa montanha de dinheiro nos países emergentes, por meio do mercado financeiro, faz com que moedas como o real se apreciem ante o dólar ou o euro. Essa dinâmica, comemorada pela classe média que viaja ao exterior, é o pesadelo do momento para o Palácio do Planalto. É por isso que, desde o ano passado, o governo adotou uma sequência de medidas para conter a entrada de moeda estrangeira no país, utilizando o Imposto de Operações Financeiras (IOF) como arma. A tributação, contudo, é vista como medida paliativa, pois não impede que o Brasil continue atrativo para o investidor estrangeiro que está disposto a navegar em mares emergentes.
Por trás desse surto de preocupação com o câmbio, há duas razões que se entrelaçam: a indústria e o emprego. Com o real valorizado, os produtos industrializados brasileiros são derrotados em qualquer tipo de comparação com seus similares estrangeiros – e a crescente onda de importações é reflexo disso. Pouco competitiva, a indústria comporta-se como criança chorona de quem o brinquedo foi tomado pelo coleguinha mais forte – e esperneia para que os pais intercedam em seu favor. O governo poderia ignorar a birra, mas aí se lembra que o setor industrial emprega mais de 8 milhões de brasileiros e financia – de norte a sul – a política nacional. Mais ainda: com uma indústria em crise aguda, possíveis demissões criariam um ambiente de pessimismo e insegurança entre a população, o que poderia afetar o consumo, o PIB (a nova vedete do Planalto) e os votos. Já os sindicatos ligados ao setor industrial representam apoio político. Sem traquejo para lidar com eles, à presidente Dilma resta a decepcionante tarefa de ceder às pressões.
A esse cenário se soma a já conhecida simpatia da velha guarda petista pelo fechamento de mercado e proteção da indústria – e Dilma, neste aspecto, nunca se mostrou tão alinhada com a tradição do partido como agora. “Vamos proteger o mercado interno” tornou-se máxima tão comum quanto a “nunca antes na história deste país” proferida à exaustão por seu antecessor.
O ponto mais importante não é esquadrinhar as reais intenções da equipe econômica ao querer aplicar barreiras de importação a diversos setores da indústria – até mesmo aos menos relevantes economicamente, como a inexplicável salvaguarda ao vinho nacional que está sendo investigada pelo Ministério do Desenvolvimento e da Indústria (MDIC). O que é relevante para o país é saber que a escola Mantega está combatendo o inimigo errado.
Medidas de curto prazo para controlar o câmbio ocupam o lugar das merecidas – e há muito tempo esperadas – reformas tributária, trabalhista e política. Em vez de restringir a entrada de produtos estrangeiros, a opção de desonerar a indústria ainda é tratada com timidez por um governo que não pode se permitir um pouco de renúncia fiscal. Rever acordos bilaterais quando estes deixam de ser rentáveis, como ocorre com o caso do México, mostra as faces de um Brasil disposto a mudar as regras do jogo quando elas já não são mais úteis.
Contudo, a própria história econômica do país aponta que o protecionismo sempre foi uma escolha péssima. Dele herdou-se uma indústria automotiva sucateada até os anos 1990 (quando iniciou-se a abertura de mercado), o atraso tecnológico acarretado pela Política Nacional de Informática dos anos 1970 e um passado de hiperinflação que ainda permanece na memória da população adulta, e não foi completamente superado.
A década perdida de 1980, época em que o Brasil declarou moratória, também foi marcada pelo protecionismo. Para financiar os subsídios ao mercado fechado, o governo endividou-se no exterior ao longo de mais de três décadas para depois ver-se acuado, sem meios para pagar os juros de seu endividamento e sem uma indústria eficiente. Nas duas décadas seguintes, o país conseguiu uma segunda chance para se levantar. Pode não haver uma terceira.
AS MULHERES SÃO FELIZES?
O abandono da mulher
Orlando Braga - MSM
“When a man says to a woman “you are free” he is at the same time saying “you are on your own.” Women’s liberation equals male abandonment. From the man’s point of view the purpose of liberating women is precisely to enable and justify abandoning women.”
(Quando um homem diz a uma mulher: “és livre”, ele está simultaneamente a dizer que “estás por tua conta”. A libertação da mulher significa o seu abandono por parte do homem. Do ponto de vista do homem, o sentido da libertação da mulher é precisamente o de permitir e justificar o abandono da mulher.)
Via The Thinking Housewife › Women’s Liberation Isn’t Liberating.
A descoberta deste blogue foi uma agradável surpresa, não porque eu esteja convencido de que as mulheres, em geral, não pensem como a autora do blogue; mas antes porque, hoje, é raro acontecer que a mulher diga o que pensa fazendo pleno uso da lógica. Aliás, o ostracização da lógica é hoje comum ao homem e à mulher.
Assistimos, hoje, a um choque de civilizações entre a cultura islâmica e a cultura ocidental. Na primeira, a mulher é, de fato, oprimida; na segunda, o homem diz à mulher: “és livre!”.
E por isso é que existe o “choque de civilizações”, porque ambas as “civilizações” estão erradas; de fato, não podemos sequer falar, num e noutro caso, de “civilizações”: são dois tipos diferentes de barbárie. Bastaria que uma das duas “civilizações” estivesse correta para que deixasse de existir um “choque de civilizações”, porque a barbárie tende naturalmente a submeter-se à civilização propriamente dita.
Se quando o homem diz à mulher: “és livre”, e se o sentido da “liberdade da mulher” é o abandono da mulher por parte do homem, em consequência são as crianças que são abandonadas pela mulher. Quebra-se, assim, o elo natural entre o homem, a mulher e as crianças.
Por isto é que a esquerda — e os libertários de direita —, ou seja, as elites, estão profundamente errados quando defendem a “libertação da mulher”: o que a esquerda realmente defende é o abandono da mulher por parte do homem. Este abandono da mulher e das crianças, por parte do homem, está bem patente na lei do “divórcio unilateral e na hora” que tem que ser urgentemente revista.
A esquerda tem que compreender, de uma vez por todas, que não vivemos em uma sociedade tribal como a dos tobriandeses, ou coisa do gênero; ou na sociedade dos nuer, em que o irmão mais velho da mãe tem um lugar mais importante do que o do pai; ou em outras culturas tribais e primitivas onde determinados homens são temporariamente considerados mulheres, ou determinadas mulheres, homens.
Nestas sociedades primitivas e de pequena escala, a lei do grupo sobrepõe-se à família nuclear. As funções do grupo, seus códigos e estatutos estão em primeiro plano. O indivíduo apaga-se diante dos sistemas formados pela tribo. Nessas sociedades primitivas, as relações são nitidamente menos individualizadas e menos personalizadas.
A família dita “nuclear” não é um acidente da História; ela é largamente maioritária através das civilizações. O triângulo mãe/pai/filho foi um avanço cultural — ou uma “diferenciação cultural”, na terminologia de Mircea Eliade.
Existe uma contradição intrínseca na esquerda quando esta defende, por um lado, a dita “libertação da mulher” — que pressupõe a valorização do indivíduo feminino — e, por outro lado, desliga a mulher da família nuclear e natural — fazendo impor a supremacia da lei do grupo.
É neste sentido que eu digo que os verdadeiros machistas da atualidade são homens de esquerda e os libertários de direita: são os que dizem à mulher: “és livre”, para que se possa, assim, justificar culturalmente o abandono da mulher.
Orlando Braga - MSM
“When a man says to a woman “you are free” he is at the same time saying “you are on your own.” Women’s liberation equals male abandonment. From the man’s point of view the purpose of liberating women is precisely to enable and justify abandoning women.”
(Quando um homem diz a uma mulher: “és livre”, ele está simultaneamente a dizer que “estás por tua conta”. A libertação da mulher significa o seu abandono por parte do homem. Do ponto de vista do homem, o sentido da libertação da mulher é precisamente o de permitir e justificar o abandono da mulher.)
Via The Thinking Housewife › Women’s Liberation Isn’t Liberating.
A descoberta deste blogue foi uma agradável surpresa, não porque eu esteja convencido de que as mulheres, em geral, não pensem como a autora do blogue; mas antes porque, hoje, é raro acontecer que a mulher diga o que pensa fazendo pleno uso da lógica. Aliás, o ostracização da lógica é hoje comum ao homem e à mulher.
Assistimos, hoje, a um choque de civilizações entre a cultura islâmica e a cultura ocidental. Na primeira, a mulher é, de fato, oprimida; na segunda, o homem diz à mulher: “és livre!”.
E por isso é que existe o “choque de civilizações”, porque ambas as “civilizações” estão erradas; de fato, não podemos sequer falar, num e noutro caso, de “civilizações”: são dois tipos diferentes de barbárie. Bastaria que uma das duas “civilizações” estivesse correta para que deixasse de existir um “choque de civilizações”, porque a barbárie tende naturalmente a submeter-se à civilização propriamente dita.
Se quando o homem diz à mulher: “és livre”, e se o sentido da “liberdade da mulher” é o abandono da mulher por parte do homem, em consequência são as crianças que são abandonadas pela mulher. Quebra-se, assim, o elo natural entre o homem, a mulher e as crianças.
Por isto é que a esquerda — e os libertários de direita —, ou seja, as elites, estão profundamente errados quando defendem a “libertação da mulher”: o que a esquerda realmente defende é o abandono da mulher por parte do homem. Este abandono da mulher e das crianças, por parte do homem, está bem patente na lei do “divórcio unilateral e na hora” que tem que ser urgentemente revista.
A esquerda tem que compreender, de uma vez por todas, que não vivemos em uma sociedade tribal como a dos tobriandeses, ou coisa do gênero; ou na sociedade dos nuer, em que o irmão mais velho da mãe tem um lugar mais importante do que o do pai; ou em outras culturas tribais e primitivas onde determinados homens são temporariamente considerados mulheres, ou determinadas mulheres, homens.
Nestas sociedades primitivas e de pequena escala, a lei do grupo sobrepõe-se à família nuclear. As funções do grupo, seus códigos e estatutos estão em primeiro plano. O indivíduo apaga-se diante dos sistemas formados pela tribo. Nessas sociedades primitivas, as relações são nitidamente menos individualizadas e menos personalizadas.
A família dita “nuclear” não é um acidente da História; ela é largamente maioritária através das civilizações. O triângulo mãe/pai/filho foi um avanço cultural — ou uma “diferenciação cultural”, na terminologia de Mircea Eliade.
Existe uma contradição intrínseca na esquerda quando esta defende, por um lado, a dita “libertação da mulher” — que pressupõe a valorização do indivíduo feminino — e, por outro lado, desliga a mulher da família nuclear e natural — fazendo impor a supremacia da lei do grupo.
É neste sentido que eu digo que os verdadeiros machistas da atualidade são homens de esquerda e os libertários de direita: são os que dizem à mulher: “és livre”, para que se possa, assim, justificar culturalmente o abandono da mulher.
"NÓIS QUÉ LEITINHO" - ERA ESPERAR DEMAIS UMA POSTURA HONESTA DO PR E DO PTB, QUE NADA MAIS SÃO DO QUE UM AJUNTAMENTO DE PILANTRAS
PR se une a PTB no Senado e volta à base do governo
Líder da sigla havia anunciado rompimento com Planalto em 14 de março, mas ao formar bloco com partido aliado afirmou não ter como continuar na oposição
Christiane Samarco, da Agência Estado
BRASÍLIA - A bancada do PR no Senado saiu da oposição e voltou para a base do governo. A operação de retorno foi articulada pelo líder do PTB no Senado, Gim Argello (DF), que anunciou no início da tarde desta terça-feira, 3, a formação de um bloco parlamentar com o PR.
PR e PTB têm juntos 12 senadores, seis de cada partido. O bloco, entretanto, que já é a terceira força política na Casa, atrás apenas do PMDB e do PT, ainda pode crescer. Estão sendo convidados a participar os dois senadores do PSD, Kátia Abreu (TO), Sérgio Petecão (AC); e o único senador do PSC, Eduardo Amorim (SE), que atualmente está licenciado por motivos de saúde.
Gim Argello, que é vice-líder do governo no Senado, será também o líder do bloco, que terá na vice-liderança o atual comandante do PR, senador Blairo Maggi (MT). Blairo rompeu com o governo, em 14 de março, inconformado com os maus tratos ao partido que, segundo ele, foi a única legenda da base que teve problemas no ministério e não pode indicar o substituto do ministro demitido pela presidente Dilma Rousseff.
Para protestar contra a "discriminação" o PR saiu da base. Agora, porém, diz que volta, porque o PTB é aliado do governo e não teria como formar o bloco sendo oposição. Ou seja, a oposição do partido ao governo durou somente 20 dias.
Gim e Blairo estiveram no final desta manhã com a ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e comunicaram à presidente Dilma a formação do bloco e o retorno do PR à tropa governista. "Foi uma conversa muito rápida, mas a presidente ficou feliz de me ver novamente lá no Planalto e propôs uma nova conversa com o partido", disse Blairo.
Líder da sigla havia anunciado rompimento com Planalto em 14 de março, mas ao formar bloco com partido aliado afirmou não ter como continuar na oposição
Christiane Samarco, da Agência Estado
BRASÍLIA - A bancada do PR no Senado saiu da oposição e voltou para a base do governo. A operação de retorno foi articulada pelo líder do PTB no Senado, Gim Argello (DF), que anunciou no início da tarde desta terça-feira, 3, a formação de um bloco parlamentar com o PR.
PR e PTB têm juntos 12 senadores, seis de cada partido. O bloco, entretanto, que já é a terceira força política na Casa, atrás apenas do PMDB e do PT, ainda pode crescer. Estão sendo convidados a participar os dois senadores do PSD, Kátia Abreu (TO), Sérgio Petecão (AC); e o único senador do PSC, Eduardo Amorim (SE), que atualmente está licenciado por motivos de saúde.
Gim Argello, que é vice-líder do governo no Senado, será também o líder do bloco, que terá na vice-liderança o atual comandante do PR, senador Blairo Maggi (MT). Blairo rompeu com o governo, em 14 de março, inconformado com os maus tratos ao partido que, segundo ele, foi a única legenda da base que teve problemas no ministério e não pode indicar o substituto do ministro demitido pela presidente Dilma Rousseff.
Para protestar contra a "discriminação" o PR saiu da base. Agora, porém, diz que volta, porque o PTB é aliado do governo e não teria como formar o bloco sendo oposição. Ou seja, a oposição do partido ao governo durou somente 20 dias.
Gim e Blairo estiveram no final desta manhã com a ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e comunicaram à presidente Dilma a formação do bloco e o retorno do PR à tropa governista. "Foi uma conversa muito rápida, mas a presidente ficou feliz de me ver novamente lá no Planalto e propôs uma nova conversa com o partido", disse Blairo.
DEMÓSTENES, ADEUS II
Desfiliação confirmada
Lauro Jardim - VEJA
Desmóstenes Torres acaba de pedir desfiliação do DEM. O emissário de Demóstenes está levando a carta neste momento a José Agripino Maia.
Demóstenes despacha com assessores no seu apartamento funcional, em Brasília, nesta manhã. Com a decisão de deixar o partido, ele se antecipa ao próximo passo que seria dado pela cúpula do DEM: anunciar o relator do processo de expulsão.
Assim como não apresentou explicações ao partido, Demóstenes ainda não decidiu o que fará nas próximas horas: se irá ao Senado, falará na tribuna ou permanecerá em silêncio.
Nas palavras de um de seus conselheiros, Demóstenes vai “digerir a desfiliação primeiro”, para depois ver o que fazer.
Lauro Jardim - VEJA
Desmóstenes Torres acaba de pedir desfiliação do DEM. O emissário de Demóstenes está levando a carta neste momento a José Agripino Maia.
Demóstenes despacha com assessores no seu apartamento funcional, em Brasília, nesta manhã. Com a decisão de deixar o partido, ele se antecipa ao próximo passo que seria dado pela cúpula do DEM: anunciar o relator do processo de expulsão.
Assim como não apresentou explicações ao partido, Demóstenes ainda não decidiu o que fará nas próximas horas: se irá ao Senado, falará na tribuna ou permanecerá em silêncio.
Nas palavras de um de seus conselheiros, Demóstenes vai “digerir a desfiliação primeiro”, para depois ver o que fazer.
ELIÂNICAS
Tratamento nada VIP
Eliane Cantanhêde - FSP
ESTOCOLMO - A história da velhinha brasileira barrada num aeroporto espanhol parece mal contada. As versões de cá, do Brasil, e de lá, da Espanha, são conflitantes.
Ela relata que viajava com uma neta, que se hospedaria com a filha e que passou três dias sem comer. A Espanha diz que ela não estava com neta nenhuma, que foi barrada porque a filha e o genro estavam ilegais no país e que ela se recusou a pegar o primeiro voo de volta, de graça, mas recebeu comida, sim.
Seja o que for, a história da velhinha "pegou" porque há vários outros relatos de excessos contra brasileiros nos aeroportos espanhóis. Isso é ruim para o viajante brasileiro, mas é péssimo para a Espanha.
O governo alega que são problemas muito pontuais, perdidos entre os milhares de brasileiros que entram sem problema, e justifica que é pressionado pela União Europeia para ser rigoroso, já que os aeroportos espanhóis estão entre as maiores portas de entrada de latino-americanos, em geral, e de brasileiros, em particular, na região.
Mas... a Espanha é um dos países mais atingidos pela crise europeia e precisa muito do turismo, que é um dos carros-chefes de sua economia: responde por cerca de 16% do PIB, quase um recorde mundial.
Logo, a Espanha tem de atrair, e não assustar turistas, e os brasileiros são os queridinhos do momento. Viajam muito e gastam muitíssimo, não é mesmo, EUA?
Não nos querem? Pois nós não queremos mais a Espanha, parecem dizer os brasucas, que têm optado mais por Portugal e pela Itália do que pela Espanha. Quem perde?
A partir de ontem, o Brasil começou a pagar na mesma moeda e retaliar em cima dos pobres turistas espanhóis, que vão voltar infelizes e contando histórias bem semelhantes à da velhinha brasileira.
Ou seja, os governos e seus agentes extrapolam e quem paga o pato são os cidadãos. Como sempre.
Eliane Cantanhêde - FSP
ESTOCOLMO - A história da velhinha brasileira barrada num aeroporto espanhol parece mal contada. As versões de cá, do Brasil, e de lá, da Espanha, são conflitantes.
Ela relata que viajava com uma neta, que se hospedaria com a filha e que passou três dias sem comer. A Espanha diz que ela não estava com neta nenhuma, que foi barrada porque a filha e o genro estavam ilegais no país e que ela se recusou a pegar o primeiro voo de volta, de graça, mas recebeu comida, sim.
Seja o que for, a história da velhinha "pegou" porque há vários outros relatos de excessos contra brasileiros nos aeroportos espanhóis. Isso é ruim para o viajante brasileiro, mas é péssimo para a Espanha.
O governo alega que são problemas muito pontuais, perdidos entre os milhares de brasileiros que entram sem problema, e justifica que é pressionado pela União Europeia para ser rigoroso, já que os aeroportos espanhóis estão entre as maiores portas de entrada de latino-americanos, em geral, e de brasileiros, em particular, na região.
Mas... a Espanha é um dos países mais atingidos pela crise europeia e precisa muito do turismo, que é um dos carros-chefes de sua economia: responde por cerca de 16% do PIB, quase um recorde mundial.
Logo, a Espanha tem de atrair, e não assustar turistas, e os brasileiros são os queridinhos do momento. Viajam muito e gastam muitíssimo, não é mesmo, EUA?
Não nos querem? Pois nós não queremos mais a Espanha, parecem dizer os brasucas, que têm optado mais por Portugal e pela Itália do que pela Espanha. Quem perde?
A partir de ontem, o Brasil começou a pagar na mesma moeda e retaliar em cima dos pobres turistas espanhóis, que vão voltar infelizes e contando histórias bem semelhantes à da velhinha brasileira.
Ou seja, os governos e seus agentes extrapolam e quem paga o pato são os cidadãos. Como sempre.
O PARAÍSO DOS PETISTAS NÃO PODE SOBREVIVER SEM O CAPITALISMO
A dependência de Cuba
FSP - Editorial
O fracasso do planejamento econômico central em Cuba parece ter sido, afinal, reconhecido até pelos chefes da ditadura. Pragmático, Raúl Castro dá curso a uma abertura à iniciativa privada e aos investimentos externos.
O objetivo é dar algum dinamismo à economia cubana, ao mesmo tempo em que se preserva inalterada a ordem política. É improvável, porém, que essa reforma "chinesa" encontre ali sucesso similar ao obtido, por exemplo, pelo Vietnã.
O país do Sudeste Asiático, ainda sob domínio do Partido Comunista, foi citado como exemplo bem-sucedido de abertura para o mercado por Pavel Alejandro Vidal, da Universidade de Havana, em entrevista a esta Folha.
Desde meados dos anos 1980, dirigentes vietnamitas têm estimulado a instalação de empresas manufatureiras. A partir da década de 1990, o produto do país cresceu, em vários anos, a velocidades comparáveis às da China.
O economista cubano aponta, no entanto, o limite imposto às expectativas dos irmãos Castro.
Há uma questão de geografia econômica: o Vietnã está na Ásia; Cuba, na América Latina. A economia vietnamita se insere na divisão da produção de manufaturas do leste asiático. Sua mão de obra barata estimula investimentos em indústrias baseadas no uso intensivo do trabalho, que se deslocam para lá desde a China, onde o salário dos operários tem crescido. Os principais parceiros comerciais do Vietnã são a própria China, o Japão e a Coreia do Sul.
Cuba, de sua parte, está isolada, entre outras razões, por força do injustificável embargo imposto pelos EUA. Depende agudamente da Venezuela de Hugo Chávez.
O petróleo, comprado em condições facilitadas do parceiro sul-americano, ressalta Vidal, representa metade das importações cubanas. Em contrapartida, a ilha exporta o serviço de mais de 30 mil médicos para socorrer a "revolução bolivariana" de Chávez.
Se o caudilho venezuelano deixar o poder, por qualquer razão, Cuba perderia seu favor e receita anual de US$ 6 bilhões -o triplo do que lhe traz o turismo. O impacto seria catastrófico, como o da decadência do comunismo, que extinguiu a ajuda da União Soviética.
Apesar da retórica reformista, Cuba reincide num erro. Raúl e Fidel Castro se mostraram lentos até aqui na reação à derrocada soviética e, em lugar de acelerar a volta da economia de mercado, atrelaram o destino do país ao de um líder estrangeiro de futuro incerto.
FSP - Editorial
O fracasso do planejamento econômico central em Cuba parece ter sido, afinal, reconhecido até pelos chefes da ditadura. Pragmático, Raúl Castro dá curso a uma abertura à iniciativa privada e aos investimentos externos.
O objetivo é dar algum dinamismo à economia cubana, ao mesmo tempo em que se preserva inalterada a ordem política. É improvável, porém, que essa reforma "chinesa" encontre ali sucesso similar ao obtido, por exemplo, pelo Vietnã.
O país do Sudeste Asiático, ainda sob domínio do Partido Comunista, foi citado como exemplo bem-sucedido de abertura para o mercado por Pavel Alejandro Vidal, da Universidade de Havana, em entrevista a esta Folha.
Desde meados dos anos 1980, dirigentes vietnamitas têm estimulado a instalação de empresas manufatureiras. A partir da década de 1990, o produto do país cresceu, em vários anos, a velocidades comparáveis às da China.
O economista cubano aponta, no entanto, o limite imposto às expectativas dos irmãos Castro.
Há uma questão de geografia econômica: o Vietnã está na Ásia; Cuba, na América Latina. A economia vietnamita se insere na divisão da produção de manufaturas do leste asiático. Sua mão de obra barata estimula investimentos em indústrias baseadas no uso intensivo do trabalho, que se deslocam para lá desde a China, onde o salário dos operários tem crescido. Os principais parceiros comerciais do Vietnã são a própria China, o Japão e a Coreia do Sul.
Cuba, de sua parte, está isolada, entre outras razões, por força do injustificável embargo imposto pelos EUA. Depende agudamente da Venezuela de Hugo Chávez.
O petróleo, comprado em condições facilitadas do parceiro sul-americano, ressalta Vidal, representa metade das importações cubanas. Em contrapartida, a ilha exporta o serviço de mais de 30 mil médicos para socorrer a "revolução bolivariana" de Chávez.
Se o caudilho venezuelano deixar o poder, por qualquer razão, Cuba perderia seu favor e receita anual de US$ 6 bilhões -o triplo do que lhe traz o turismo. O impacto seria catastrófico, como o da decadência do comunismo, que extinguiu a ajuda da União Soviética.
Apesar da retórica reformista, Cuba reincide num erro. Raúl e Fidel Castro se mostraram lentos até aqui na reação à derrocada soviética e, em lugar de acelerar a volta da economia de mercado, atrelaram o destino do país ao de um líder estrangeiro de futuro incerto.
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