segunda-feira, 2 de julho de 2012

EIKE BATISTA, QUEM DIRIA...

Eike nunca cumpre o que promete, diz ex-sócio
Geólogo João Carlos Cavalcanti, que apresentou a mineração ao bilionário, conta ao site de VEJA por que está movendo um processo contra ele e afirma que não se surpreende com o fato de as empresas X não darem resultado
Ana Clara Costa - VEJA
O geólogo baiano João Carlos Cavalcanti foi, por duas vezes, sócio de Eike Batista. A primeira, no início dos anos 1990, quando tentaram implantar um projeto de abastecimento de água mineral, que fracassou. A segunda, e derradeira, ocorreu no início de 2000, quando montaram o embrião da MMX. Eike prometeu investimentos que, de acordo com Cavalcanti (mais conhecido por J.C.), não tinha a intenção de cumprir. Por isso, o homem mais rico do Brasil carrega nas costas um processo de 22 milhões de reais movido pelo ex-sócio. “Não tenho nada contra ele. Só quero que me pague”, diz o geólogo, cuja fortuna estimada pelo mercado em mais de 2 bilhões de reais foi conseguida graças a sua habilidade em encontrar jazidas de minério Brasil afora.
Apesar de antagonistas, ambos guardam semelhanças: o misticismo, o gosto pela aventura, um relacionamento estreito com o PT e o apreço pelo luxo – tanto Eike quanto J.C. ostentam mansões, jatinhos e Ferraris. “A diferença é que eu cumpro o que prometo. O Eike não cumpre nada”, diz o empresário. O faro para os negócios também os une. J.C. criou e vendeu diversas empresas ligadas à mineração, como a Bahia Mineração, a Sul Americana de Metais e a GME4. Foi sócio de Daniel Dantas nesta última e o considera um empresário “que cumpre o que promete”. Além disso, detém participação no grupo Votorantim – empresa que considera a mais séria do país.
Recentemente, em mais uma de suas mirabolantes descobertas, desvendou uma jazida de neodímio na Bahia – que é um dos 17 elementos que compõem o grupo de minerais chamado terras raras, utilizadas na fabricação de aparelhos de alta tecnologia. A descoberta é a primeira do Brasil e, segundo J.C., o território guarda a mesma capacidade de exploração que a região de Batou, na China – atualmente o local onde estão 97% das terras raras do mundo. A capacidade total da jazida pode chegar a 28 milhões de toneladas, na avaliação do geólogo. Se o potencial se concretizar, ele calcula que o valor da reserva pode chegar a 8,4 bilhões de dólares – um patrimônio digno de um bilionário da Forbes. “Mas a Forbes já não me interessa”, diz.
Durante a entrevista, concedida na noite desta quinta-feira, Cavalcanti comparou Eike a "um meninão" que precisa botar a culpa em alguém sempre que um negócio seu não vai bem. "O Paulo Mendonça será a bola da vez, sobretudo depois dessa queda nos preços das ações. Aconteceu algo parecido com o Rodolfo Landim. Ele o contrariou, quis aparecer mais que o Eike, começou a falar demais e foi detonado. Já o Paulo, até pouco tempo atrás, era chamado pelo Eike de Mr. Oil. Não creio que continue assim", disparou. Naquela mesma hora, o conselho de administração da OGX enviava fato relevante ao mercado para comunicar a derrocada de Mendonça, que até então presidia a petroleira.
Como o senhor conheceu Eike Batista?
Conheci o Eike há muito tempo, com ele me dando um cheque pré-datado. Estava desenvolvendo uma pesquisa na região amazônica para a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e ele estava envolvido com a exploração de ouro por lá. Quando ele quebrou, quis entrar no segmento de abastecimento público de cidades e criou a empresa Água Certa. A intenção do Eike era criar uma rede de abastecimento de água mineral. Como eu já tinha trabalhado com isso na Brahma, antes da compra da Antarctica, ele me convidou para montarmos esse projeto juntos. A ideia era criar campos de abastecimento de água mineral em todo o Brasil. E eu descobri para ele onde estavam as jazidas de água.
Por que o projeto não deu certo?
A parte de licitações se mostrou mais complicada do que esperávamos. Além disso, as estatais de saneamento não queriam abrir espaço para essa iniciativa e ele acabou se desfazendo do negócio.
Quando vocês se desentenderam?
Em 2002, descobri uma jazida de minério de ferro em Caetité, na Bahia. O Eike ficou sabendo e me procurou. Para explorar essa área, montamos em sociedade a IRX, que veio a ser o embrião da MMX. Ele detinha 80% do negócio e eu, 20%. Nosso plano previa um alto investimento em pesquisa antes de começar a explorar, mas ele não cumpriu isso. Como era majoritário, tinha de investir algo em torno de 10 milhões de dólares. Mas como o Eike não coloca dinheiro próprio em coisa nenhuma, ficou me enrolando, até que em 2005 o Ministério de Minas e Energia (MME) acabou retirando a licença de pesquisa das terras. Perdemos a jazida. Se ele tivesse cumprido o que prometeu, a exploração teria me rendido cerca de 200 milhões de dólares.
Se o objetivo de Eike era ter uma mineradora, por que optou por não explorá-la?
Ele usou argumentos furados, como, por exemplo, de que não havia infraestrutura para escoar o minério. Ora, quando Carajás foi descoberta, também não havia uma logística adequada. No entanto, quando seu potencial foi conhecido, o governo militar construiu a ferrovia Norte-Sul para viabilizar o projeto. Ninguém investe em infraestrutura antes de conhecer o potencial do minério. Tanto que, no caso da MMX, também não havia logística. Eles estão construindo. Mas até agora, não saiu de lá nem um quilo de minério.
O senhor acompanhou o início da OGX?
Sim. Acompanhei desde o início, pois foi na mesma época em que eu ficava muito no escritório dele. Ele pegou relatórios do governo federal, de estatais, como a CPRM, reorganizou-os, mudou a capa, traduziu e foi para o Canadá apresentá-los a fundos de pensão. Com base naquilo, conseguiu levantar 500 milhões de dólares e voltou ao Brasil para participar dos leilões da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Com esse dinheiro, ele conseguiu arrematar as jazidas marginais da Petrobras.
Aquilo que a ANP colocou em leilão não era bom. Não eram as melhores jazidas. Mas ele soube valorizar isso. Trouxe os melhores executivos da Petrobras, a começar pelo Rodolfo Landim, que entendia tudo de perfuração. Vi muitos grandes nomes passarem por lá. Quando ficava sabendo que um profissional estava se destacando no mercado, Eike mandava trazer para a OGX pagando muito bem. Por outro lado, quando o cara não dava o resultado que ele esperava, ele humilhava, colocava apelido, e tudo mais. Parece um meninão.
O senhor acredita que seja possível extrair os tais 5 mil barris/dia dos poços da OGX, conforme a última previsão da empresa?
É possível que sim. Nenhum poço que veio da Petrobras deve render mais que isso. Se a capacidade fosse de 40 mil barris/dia, como ele disse no início, por que a Petrobras iria se desfazer? Não faz sentido. O Eike nunca mexeu com isso antes, não sabe como funciona e pegou jazida com pouca capacidade. Agora ele solta fato relevante para informar cada cheiro de gás que ele sente nos poços.
Por que nenhum investidor contestou os dados dos projetos do Eike, como essa capacidade de 40 mil barris/dia, por exemplo?
Isso é porque ele é o queridinho do investidor estrangeiro. Ele tem cara de alemão, fala cinco línguas e é muito cativante. E tem um paizão, que é o senhor Eliezer Batista. Esse sim é um grande homem, um superdotado. Além disso, o Eike é um baita marqueteiro que vendia enciclopédia na Alemanha. E um cara que consegue vender enciclopédia, vende qualquer coisa. Não dá para negar que é muito esperto e consegue conquistar o investidor, o governo, todo mundo. Ele arrematou o terno do Lula em um leilão em São Paulo e, no dia seguinte, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) liberou 150 milhões de reais para que reformasse o Hotel Glória. Ele consegue o que quer.
Mas, teoricamente, quem entende do mercado de óleo e gás não deveria saber dos riscos de uma empreitada como essa? Como ninguém desconfiou da capacidade de um poço descartado pela Petrobras?
Pois é, deveria. O problema é que os banqueiros e o mercado financeiro não entendem de petróleo. Não há geólogos trabalhando como analistas, nem engenheiros de minas. Há economistas que não entendem nada desse setor e não acertam nada. Eles entendem de números, indicadores, mas não sabem como as coisas funcionam realmente.
O senhor tem raiva do Eike?
Não, não tenho nada contra ele. Só quero que me pague os 22 milhões de reais que me deve.
Acredita que ele vai recuperar a credibilidade junto ao investidor?
Não sei. Acho difícil. A única coisa que ele produz realmente hoje é um macarrão muito bom no Mister Lam, um restaurante chinês que ele abriu, onde também há um camarão maravilhoso. Encontrei-o lá há um ou dois anos, antes de entrar com a ação na Justiça. Conversamos e ele me disse que ia ultrapassar o Bill Gates. Mas não vai. Acho que o universo vai começar a dar o troco nele. Ele precisa ser mais simples, menos arrogante, prometer menos, ajudar mais. Tanto o Bill Gates quanto o Carlos Slim, o Lakshmi Mittal e o Warren Buffett são homens simples, que dedicam um bom tempo e dinheiro à filantropia. O que o Eike faz? Que hospital ele construiu? O que retribuiu para a sociedade?
O senhor também foi sócio de outro executivo conhecido, Daniel Dantas, do Banco Opportunity. Ele e Eike Batista possuem traços em comum?
Não há comparação. O Daniel Dantas cumpre tudo o que promete. Em todos os negócios que fiz com ele, sempre cumpriu. É um sujeito discreto, reservado e inteligentíssimo. É um dos maiores criadores de gado do país e vai começar a produzir minério em 2014, explorando jazidas no Piauí.

O GOVERNO PETISTA É VÍTIMA (?) DOS PORCOS QUE ELE MESMO CEVOU

As investidas da tigrada
O Estado de S.Paulo - Editorial
É a velha história. Para se vingar do governo que resiste a dar-lhes as verbas, os cargos e a "participação" nas decisões que vivem exigindo, políticos nominalmente aliados da presidente Dilma Rousseff tratam de emplacar projetos nas áreas mais diversas, cujo traço comum é inflar o gasto público. De quebra, fazem bonito para as suas clientelas em potencial - os interesses organizados que se beneficiarão dos gastos.
O que há de novo na presente temporada de caça ao tesouro, que beira o frenesi por ser este um ano eleitoral, é que na dianteira das sortidas está o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, do mesmo PT de Dilma. Com companheiros assim, ela não precisa de adversários que deem curso a "aventuras fiscais", como disse, ou tenham "a soberba de achar que podemos brincar à beira do precipício" - a crise externa a que também o País é vulnerável.
Na própria cúpula do PT, Maia é criticado por seu "apetite de gafanhoto", noticiou o jornal Valor. O seu grupo ambicionava uma diretoria da Petrobrás, uma vice-presidência do Banco do Brasil e a presidência do fundo previdenciário da instituição, o Previ. Mas são enxames que atacam o erário. Na terça-feira, uma comissão da Câmara aprovou proposta que eleva a 10% do PIB, ao longo de dez anos, o dispêndio nacional com a educação. Atualmente é a metade disso. O impacto previsto quando a meta for alcançada é da ordem de R$ 230 bilhões por ano. O governo precisará mobilizar governadores e prefeitos para derrubar a extravagância no Senado.
No dia seguinte, o Planalto teve de despachar às pressas ao Congresso o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e a sua colega de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, para sustar outra brincadeira à borda do abismo, endossada por Marco Maia. Apesar de apelos em contrário, ele havia mantido na ordem do dia o projeto que reduz de 42 para 30 horas a jornada semanal de trabalho dos profissionais de enfermagem. A redução acarretaria um gasto extra de R$ 7,2 bilhões anuais. A custo, a votação acabou adiada.
Outra bomba desativada - temporariamente - foi a votação da proposta que acaba com o fator previdenciário no cálculo das aposentadorias pelo INSS. A regra aumenta a permanência na ativa do trabalhador que pretenda obter o teto do benefício. O fator é um remendo, mas a sua abolição, desacompanhada de uma reforma da Previdência, engordará o déficit do sistema, ao provocar uma corrida às aposentadorias. Maia havia incluído a matéria na pauta da sessão de quarta-feira. O governo ficou de apresentar uma alternativa para ir a plenário em agosto.
As ameaças se multiplicam. As pragas poderão devastar até mesmo o arranjo institucional envolvendo as finanças dos Três Poderes. Na última semana, passou em surdina numa comissão especial da Câmara um projeto de emenda constitucional que acaba com o teto salarial no serviço público em todos os níveis da Federação. Atualmente, o teto é fixado pelo governo. Na mesma linha do "liberou geral", a Comissão de Finanças da Casa acaba de endossar a enormidade, aprovando duas emendas à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que subtraem poderes do Executivo, de modo a permitir o aumento de despesas sem a sua autorização.
Em um caso, Judiciário e Legislativo ficam autorizados a incluir no Orçamento da União gastos com aumentos salariais de seus membros. Os valores mencionados no texto representarão em 2013 um acréscimo de R$ 9,3 bilhões nos gastos de custeio da máquina, à revelia do Planalto. A segunda emenda à LDO cria um fundo de R$ 1 bilhão para projetos do Congresso e da Justiça sem previsão orçamentária.
Essas aberrações não estão fadadas a se consumar. A gastança sem teto, por exemplo, dependerá do apoio de 60% dos deputados e senadores em duas votações, conforme o rito regimental para a aprovação de emendas constitucionais. Mas o seu bloqueio exigirá da presidente da República mais do que exortações aos parlamentares sobre o imperativo do realismo numa conjuntura internacional adversa e duradoura. Parcelas da base aliada pouco se importam com os efeitos das "aventuras fiscais" que promovem. A ver como - ou se - Dilma conseguirá domar a tigrada.

A CRISE FINANCEIRA ESTÁ DEVASTANDO A ESPANHA

Com a crise do euro, cidade espanhola está a um passo da falência
Walter Mayr - Der Spiegel
Índice de desemprego em La Línea, uma cidade espanhola vizinha ao próspero território britânico de Gibraltar, chega a 40%
Muitos lugares na Espanha estão sofrendo com a crise do euro, mas poucos foram tão duramente atingidos quanto La Línea, uma cidade espanhola vizinha ao próspero território britânico de Gibraltar. Com a cidade em vias da falência, muitos moradores passaram a se dedicar ao contrabando para ganhar dinheiro.
Os moradores de La Línea de la Concepción estão partindo, como ratos que deixam o navio.
Eles estão cruzando a fronteira aos milhares desde cedo de manhã, primeiro as empregadas domésticas, babás e operários da construção civil; depois, os contrabandistas. Todos querem sair da Espanha, pelo menos por algumas horas. Há trabalho do outro lado da fronteira, no território britânico de Gibraltar, e o trabalho traz a esperança de uma vida melhor.
Cerca de 11h da manhã, no que promete ser um dia quente do início do verão, o trânsito do lado espanhol já se estende da fronteira, pela estrada costeira até a prefeitura. Ali, a prefeita Gemma Araujo está tentando manter o forte, em seu escritório no segundo andar, que tem uma vista para a caravana de pessoas indo trabalhar. Araujo tem 33 anos, é socialista e a primeira mulher no cargo. Não é exatamente o papel mais gratificante na Espanha. "Um tsunami" de crise atingiu La Línea, diz Araujo, e a situação é mais séria do que nunca. "Nossa cidade não está falida, mas quase".
A prefeitura não conseguiu pagar seus funcionários em oito dos últimos nove meses. Nesta manhã, a prefeita encontrou um aviso na frente da porta do escritório dela com uma demanda clara: "Pague ou renuncie". A casa dela foi alvo de ataques com ovos e cercada por manifestantes, e uma multidão botou fogo no carro da secretária dela.
Cidade sem lei
La Línea já tinha chegado às manchetes nos anos 80 e 90, durante o governo socialista dos predecessores da Arajujo, quando foi chamada de "cidade sem lei". Nessa época, traficantes, contrabandistas e outros criminosos ganhavam a vida nesta cidade da Andalusia. Os conservadores chegaram ao poder em 1995, com membros do populista Grupo Independiente Liberal (GIL) e, principalmente, políticos do Partido do Povo, de centro-direita. A calma retornou a cidade por um tempo.
Mas as contas não pagas daqueles dias acabaram se tornando um problema, diz Araujo. O número de pessoas empregadas pela prefeitura dobrou durante o governo conservador. Dezenas de policiais, 24 advogados e oito psicólogos, assim como consultores e amigos leais, todos ganharam empregos. De acordo com certos registros, alguns dos funcionários da prefeitura estavam ganhando 90.000 euros (em torno de R$ 225.000) por ano, sem dedicação exclusiva. Em 15 anos, a cidade tinha aumentado sua dívida em mais de cem vezes.
A cidade foi pilhada à luz do dia e ninguém se responsabilizou
Pouco antes dela entrar no cargo, no início de 2011, "caminhões de documentos foram queimados. Nós fotografamos", diz a prefeita. As dívidas se acumularam com o tempo, diz Araujo quase com prazer, já que o partido dela estava na oposição na época. Havia "120 milhões de euros em dívidas com empresas privadas, 45 milhões de euros em multas não pagas e 39 milhões de euros em dívidas com o sistema de seguridade social, de contribuições dos funcionários não recolhidas".
Essa dívida, diz Araujo, é a razão pela qual o governo nacional agora está se recusando a enviar à cidade os 15 milhões de euros anuais dos impostos. Então, a prefeitura de La Línea não consegue mais pagar os salários. La Línea, uma cidade com 65.000 habitantes, agora tem uma dívida per capita de quase 3.000 de euros - é a mais alta da Espanha, depois de Madri.
O desemprego em La Línea está em torno de 40%. Em comparação, o desemprego oficial na Alemanha é de 6,7%, enquanto a média de toda a Europa, que inclui os ditos países problemas, como Romênia e Bulgária, está atualmente em 10,3%. A Espanha, contudo, está com 24,4% de desemprego no país, e a comunidade autônoma de Andalusia está na frente. A pior província dentro da Andalusia é Cadiz, que inclui La Línea.
Ressaca após a festa
Será que o destino de única cidade pode servir de exemplo que reflete a crise em todo o país, como se fosse uma bactéria isolada sob o microscópio? Em uma crise que é tão severa que ameaça a existência contínua do euro, se não da União Europeia como um todo?
Na Espanha, diferentemente da Grécia e da Itália, a razão entre dívida e PIB é relativamente baixa. A dívida privada, contudo, é substancial, o que explica os atuais problemas dos bancos espanhóis. O primeiro-ministro conservador, Mariano Rajoy, no cargo desde dezembro, agora está sendo urgentemente aconselhado a tirar vantagem de um pacote de resgate europeu com condições de empréstimo privilegiadas, para que possa gastar mais dinheiro no que é verdadeiramente importante: combater o desemprego e fazer a economia voltar a andar.
Mas e se as verdadeiras raízes da situação da Espanha não estiverem no radar dos especialistas financeiros mundiais? E se não forem apenas os custos dos empréstimos nos mercados de capital que estão dificultando uma melhora rápida, mas também razões estruturais e históricas? Um passeio por La Línea revela um país que ainda parece estar se recuperando de um período de intensa intoxicação.
O incorporador multimilionário de La Línea que se enforcou, deixando para trás prédios não concluídos em pontos importantes, é emblemático da crise espanhola. Os prédios são lembretes silenciosos de uma época em que o crédito barato alimentou a ilusão que todos na Espanha poderiam ter seu imóvel próprio. "Não apenas compramos casas e apartamentos à prestação", diz a autora Elisabeth Iborra, com um toque de amargura. "As pessoas também tinham o direito de ter os móveis certos".
O retrato da crise também inclui uma rivalidade antiga entre as "duas Espanhas", a da esquerda e a da direita. Suas atitudes praticamente irreconciliáveis tornam difícil alcançar os acordos necessários para combater a crise. Se a esquerda está no poder na cidade (La Línea) e na região (Andalusia), mas não na província (Cadiz) e não em Madri, a política vira um funil duplamente entupido, quando nada sai pelo buraco.
Oeste Selvagem sem o ouro
Finalmente, o retrato da crise inclui a diferença de prosperidade. Na Espanha, o Norte carrega uma cruz pelo Sul. No caso da La Línea, uma das razões é que 85% dos jovens desempregados não têm treinamento profissional; mais de um em cada três desempregados não terminou o ensino médio; e o maior empregador, a prefeitura, não está pagando os salários. O fato que muitas pessoas "preferem fazer 200 euros por dia contrabandeando cigarros do que 400 por mês como trabalhadores sem qualificação em um supermercado" não torna as coisas mais fáceis, como disse um policial da Guarda Civil na fronteira.
A prefeita Araujo mantém a linha do partido e não culpa os indivíduos. Em março, durante uma cerimônia na capital provinciana de Cadiz, ela abordou o rei Juan Carlos e deu-lhe uma carta. Nela, explicou o "drama social" em La Línea e as "verdadeiras tragédias" que as famílias dos funcionários da cidade enfrentam sem renda e pediu ajuda.
O monarca passou a carta para seu assistente e foi caçar elefantes em Botsuana, onde famosamente fraturou a bacia. Em La Línea, eles nunca mais tiveram notícias do rei, e tudo permaneceu igual.
Algumas partes da região parecem as cidades fantasmas do Oeste Selvagem, depois da partida dos garimpeiros. Quando cinco carros de polícia de sirenes ligadas aparecem à luz do dia para uma batida no distrito portuário de La Atunara, um ponto favorito de traficantes de tabaco e drogas, os moradores enchem as ruas e silenciosamente fazem uma falange hostil para a polícia.
E quando os paramédicos do tribunal tiram uma mulher sem teto quase morta do Audi confiscado que ela chama de casa, não é porque os transeuntes alertaram os serviços de emergência. É porque os assistentes sociais que estavam distribuindo frango assado aos necessitados no centro deserto da cidade tarde da noite conseguiram chamar uma ambulância em tempo.
"O traseiro da Europa"
La Línea é mais animada de manhã. Ou pelo menos é animada na frente do bar onde as matuteras estão preparando-se para cruzar a fronteira. As matuteras são contrabandistas que trazem cigarros baratos do território britânico a centenas de metros de distância. Mulheres obesas prevalecem entre as contrabandistas, porque é mais fácil para elas esconderem alguns pacotes de cigarros em várias partes do corpo sem serem notadas.
As mulheres partem para a fronteira. As mais experientes usam sua identidade pendurada no pescoço, para que não tenham que procurá-la toda vez que cruzam a fronteira. Cada pessoa pode trazer um pacote de cigarros. As que não são revistadas e registradas trocam de roupa no lado espanhol e voltam para Gibraltar.
Isso ajuda a explicar porque tem uma fila tão grande na frente do quiosque "Parody", uma barraca discreta do lado britânico da fronteira de arame farpado. Um total de 25,90 euros é pago por um pacote de Marlboro. Então os contrabandistas cruzam novamente a fronteira, passando pelos agentes alfandegários espanhóis, que não são motivados. Eles lucram 4 euros por pacote. Os operadores dos quiosques do lado espanhol, que venderão os cigarros depois, ganham outros 6 euros. O preço de venda seria ainda 9 euros mais caro, mas o preço de venda não importa mais em La Línea, onde cinco das várias lojas de cigarro faliram.
O que mais há para contrabandear? La Línea não tem fábricas, não tem pontos turísticos nem hotéis de luxo em praias brancas. "Somos o traseiro da Europa", diz um morador.
Mas a economia paralela ainda é uma atração. Famílias inteiras da Andalusia fazem excursões de final de semana para La Línea, diz um tenente da Guardia Civil. "Eles vêm de Sevilha ou Jerez de manhã, enchem o tanque com gasolina barata em Gibraltar e comem a comida que trouxeram em vasilhames plásticos. Depois eles atravessam a fronteira em grupos de cinco e trazem de volta cigarros, até fazerem 300 euros de lucro. Isso é o suficiente para viverem mais uma semana em casa".
"Estávamos no caminho errado"
Os moradores locais estão acostumados a buscar outras fontes de alimentos. Por exemplo, eles visitam o quintal da igreja San Pio X. Ali, o Padre Rafael Pinto dirige o programa de alimentos Caritas de La Línea. Nesta manhã, há uma van de entrega no quintal cheia de feijão branco e leite em caixa. O programa também oferece frutas e arroz, brinquedos, sapatos e roupas.
O Caritas já fornece assistência regular para 500 famílias em La Línea, e os números continuam a crescer. Eles também incluem funcionários da prefeitura. Em alguns casos, o Caritas até paga o aluguel e a conta de luz. Em geral, cada obstáculo e desafio também é uma oportunidade, disse o Padre Rafael. "Talvez esta crise nos ajude a compreender que estivemos no caminho errado nos últimos anos e que é hora de dar a volta. Na Espanha, tudo girava em torno de ter e não de ser. Os valores cristãos deram lugar ao consumismo".
Cidadãos afetados e voluntários em La Línea dizem que as coisas estão degringolando rapidamente. Primeiro, as pessoas perdem o emprego, ou mantêm o emprego, mas perdem o salário, como no caso dos funcionários da prefeitura. Depois, seus carros são apreendidos, seus telefones celulares são desconectados e sua eletricidade, desligada. Para a maior parte das pessoas, o pagamento das prestações da casa é sua destruição. Se as famílias não se ajudassem entre si, mais pessoas teriam perdido suas casas há muito tempo.
No albergue Hogar Betania, que também é dirigido pela Caritas, todas as 14 vagas estão tomadas. As pessoas sem sorte são trazidas, tratadas e alimentadas. Elas devem voltar a andar com as próprias pernas após um ano. "A crise acelerou muito o declínio social", diz Begoña Arana, diretora do albergue. 'Em 2011, já tínhamos 575 homens e 105 mulheres sem teto em La Línea. Ainda assim, teremos que fechar esse albergue no final de junho, a não ser que haja um milagre. O novo governo socialista de Andaluzia não está mais enviando dinheiro."
"Eles não levantam um dedo depois de duas da tarde"
Do outro lado da rua, na filial local do Ministério do Trabalho, homens e mulheres estão fazendo fila para tirar documentos certificando que são destituídos e, portanto, têm direito à assistência. Há trabalhadores de colarinho branco na fila. Uma secretária que chegou a La Línea do centro da Espanha anos atrás mal pode esconder sua consternação com as condições do Sul. "Estamos vivendo em um país que os servidores públicos não podem ser despedidos, mas tampouco recebem".
Isso é verdade, até certo ponto. A maior parte dos servidores públicos ainda está empregada, mas como seu trabalho é de apenas algumas horas por dia, não são muito populares entre as pessoas comuns. Por exemplo, o pessoal do departamento de segurança social de La Línea está comendo e bebendo alegremente no restaurante de frutos do mar "Hermanos Tomilleros", às 15h. O garçom olha para eles de cara feia e diz: "Eles não levantam um dedo depois de duas da tarde. Isso é a Espanha".
Outra coisa típica da Espanha foi a dificuldade para a saída das procissões tradicionais magníficas conduzidas durante a Páscoa neste ano. Dos 111 policiais em La Línea, primeiro 32 e, no início da semana da Páscoa, 52 estavam em licença -quase metade de toda a força policial.
De seu escritório com ar condicionado, José Luis Landero Mateos fica de olho nas pessoas em La Línea que estão em pior situação que os servidores públicos. As câmeras de vigilância enviam imagens das salas de espera lotadas nos centros de emprego na rua Saragossa diretamente para a tela do computador dele.
Landero Mateos é diretor da agência. Quando não está tomando café ou fora do escritório para reuniões importantes, ele se dispõe a falar da situação em sua cidade, desde que as perguntas sejam submetidas previamente por escrito. "Tivemos 10.820 pessoas desempregadas no mês passado", diz o diretor desanimado. "Este é um dado histórico. Muitos estão tão desesperados que ficam agradecidos por ter alguém que os ouça".
Um bom vizinho
Talvez tenham decidido por cinismo colocar duas esculturas metálicas de Don Quixote e Sancho Panza, as figuras literárias do romance de Cervantes, no saguão da prefeitura de La Línea. A prefeita Araujo, de qualquer forma, é forçada a passar pelas duas figuras tristes todos os dias.
Neste dia, o motorista dela a leva para o outro lado da fronteira para Gibraltar no último carro oficial que resta. Uma visita a Gibraltar, diz Araujo, "é uma visita a um bom vizinho". Também é uma breve excursão a um mundo diferente, apesar de ela não dizer isso. É um mundo com um índice de crescimento de 6% e uma das mais altas taxas de geração de valor per capita do mundo.
A avenida Winston Churchill vai do aeroporto de Gibraltar, onde pousam voos de Londres e Manchester, até o centro de Gibraltar, passando por dezenas de fachadas com bandeiras e retratos da rainha Elizabeth 2ª. Mais de 10.000 espanhóis, menos da metade deles com permissão de trabalho, pegam essa rota durante a semana -pela manhã e à tarde. É a estrada que atravessam para ganhar a vida.
Um deles, um oficial da Guarda Civil, tem um segundo emprego como jardineiro de um médico em Gibraltar. Outros são empregados domésticos de residências de luxo na área em torno da Marina Queensway Quay: os multimilionários da indústria de jogos online.
Antes de fazerem sua visita ocasional à sede da empresa em Gibraltar, voando de Londres ou Tel Aviv, seus pisos são encerados e suas geladeiras estocadas nos apartamentos e casas -por empregados que cruzam a fronteira de La Línea para garantir que tudo esteja em ordem. Os trabalhadores ganham cerca de $ 8 euros por hora, mas não têm renda quando os proprietários das casas de luxo estão fora.
Ajuda aos animais
Nem mesmo em Nova York, entre o Central Park e o Bronx, os ricos e os pobres estão tão próximos quanto em Gibraltar. Ruth Parasol, atualmente a mulher mais rica de Gibraltar, começou do nada na indústria de sexo por telefone e pornografia na internet e se tornou a fundadora da Party Gaming Plc. Com o marido, Parasol hoje controla uma fortuna estimada em 700 milhões de libras.
Parasol dedica uma pequena quantia do seu dinheiro para ajudar a zona do euro ou, mais precisamente, a cidade vizinha de La Línea. Sua obra caridade, Bonita, atualmente está patrocinando a construção de um novo parquinho do outro lado da fronteira, no parque Reina Sofia, onde dormem algumas pessoas sem teto. A obra também fornece fundos para o atendimento de animais abandonados em La Línea.
O governador da rainha em Gibraltar, Fabian Picardo, está em seu escritório, decorado com a bandeira do Reino Unido. "Mesmo que tudo esteja ruindo à nossa volta", diz ele, o modelo de Gibraltar sobreviverá, com "um mercado de trabalho aberto e a coexistência pacífica de povos e religiões". Ele também tem sérias preocupações, contudo, com o bem estar da vizinha Espanha.
Se a Espanha sair da UE, o que eu espero que não aconteça, as consequências serão dramáticas -não apenas para nós aqui em Gibraltar, mas para a Europa como um todo".
Tradutor: Deborah Weinberg

domingo, 1 de julho de 2012

QUEEN - THE SHOW MUST GO ON

PROCURA-SE UMA "PERSEGUIDA" CABELUDA

Púbis retrô
Tutty Vasques - OESP
A TV Globo procura uma dublê de púbis para as cenas de nu frontal de Juliana Paes em ‘Gabriela’, já que não havia depilação a laser na Ilhéus dos anos 1920.
Cláudia Ohana já disse que não topa!

JUSTIÇA PORCA ENVERGONHA A NAÇÃO

Jurisprudência
Tutty Vasques - OESP
Ao liberar irmão de José Genoíno das acusações de improbidade administrativa, o Superior Tribunal de Justiça praticamente sentenciou a descriminalização do dólar na cueca.
Tramoias petistas orientam o Itamarati
Percival Puggina - MSM
O Itamarati vem sendo dirigido como braço da Secretaria de Relações Internacionais do PT.
É nisso que dá confiar coisas sérias ao comando de moleques. O que aconteceu nessa vergonhosa reunião de Mendoza vai entrar para a história da diplomacia brasileira como coroamento de um período em que o Itamarati esteve a serviço das idiossincrasias ideológicas de um partido. Quanto descaramento! Numa mesma conferência do Mercosul, suspendeu-se o país-membro Paraguai (cujo senado vetava o ingresso da Venezuela no bloco) e admitiu-se como país-membro a Venezuela. Sai aquele como punição por haver afastado o camarada Lugo e acolhe-se este baluarte da democracia continental que é o camarada Chávez. Doravante, teremos o Mercosul acaudilhado, patrulhado por um Simón Bolívar de ópera bufa, inimigo figadal do livre comércio. Todos sabemos: não é a Venezuela nem são os venezuelanos que entram. Quem entra é Hugo Chávez.
Se existe área de ação do governo onde o PT faz o que bem entende é nas nossas relações internacionais. Não há gesto, declaração, evento, pacto que não reflita a nostalgia dos tempos de política estudantil daqueles que hoje comandam o país. Quando as coisas não vão tão mal, as estratégias parecem secundaristas; quando é para nos rachar a cara de vergonha, o estilo piora e lembra conchavos e bastidores de congresso da UNE.
O Itamarati vem sendo dirigido como braço da Secretaria de Relações Internacionais do PT, a serviço de seus alinhamentos automáticos. Colocamo-nos - é a nação que vai junto - ao lado de qualquer Estado ou organização política que puxe para a canhota e chute o balde de tudo que esteja do outro lado. Quando essas coisas começaram, já vai para dez anos, pareciam arroubos de aprendizes entusiasmados. Hoje, tais comportamentos institucionalizaram-se. Nossas relações internacionais deixaram de ser questões de Estado para se tornarem assuntos do governo (o que já seria grave) conduzidas pelos gostos e desgostos da sigla que dirigente. Política internacional não é assunto para partido.
O que afirmo nada tem a ver com meus sentimentos em relação ao petismo. Não se trata, aqui, de simpatia ou antipatia. É a política externa brasileira que não pode ficar sujeita às antipatias e simpatias da legenda governante, ora essa! Mesmo no contexto da maçaroca institucional que fazemos ao fundir Estado e governo, entregando-os a uma mesma pessoa, o aparelhamento partidário e a instrumentalização ideológica do Itamarati nunca fizeram parte da nossa tradição.
Agora, constrangidos, vemos nosso país prestar-se para a patacoada de Mendoza, onde voltamos a intervir em questão interna de uma nação do bloco; onde proclamamos que a camaradagem com Lugo é mais sólida do que nossa amizade e parceria com o povo paraguaio; e onde evidenciamos que a suspensão do Paraguai foi uma tramoia a serviço não do Mercosul, mas do PT, da Unasul, do Foro de São Paulo e dos delírios chavistas.

MÉDICO X MECÂNICO

Hora trabalhada de mecânico já custa o dobro da de médico
RICARDO RIBEIRO - FSP
A evolução da tecnologia nos carros está exigindo profissionais cada vez mais preparados para a manutenção.
De acordo com o Cesvi (centro de segurança viária), o número médio de componentes eletrônicos em um sedã médio passou de oito, em 2002, para 21, neste ano.
"A tecnologia proporciona conforto, segurança e economia de combustível, mas é preciso saber lidar com ela na hora do reparo", diz Almir Fernandes da Costa, diretor de operações do Cesvi.
Segundo o Sindirepa-SP (sindicato da indústria de reparação de veículos) um mecânico recebe, em média, R$ 88 por hora. O valor dobra quando o profissional é especialista em injeção eletrônica.
Em alguns casos, é mais do que recebe um médico, por exemplo. Segundo a pesquisa Bolsa de Salários, do Datafolha, um clínico geral ganha, em média, R$ 45 por hora.
"A remuneração dos médicos está defasada há anos e na rede pública o salário é ainda menor", diz João Paulo Cechinel, diretor do Simesp (sindicato dos médicos).
A APM (Associação Paulista de Medicina) diz que planos de saúde pagam cerca de R$ 35 por consulta médica.
Para Gilberto Martinez de Oliveira, gerente de pós-venda da concessionária Sorana, o mecânico, hoje, não pode só mexer com graxa. "Precisa entender de mecatrônica e saber operar aparelhos de diagnóstico computadorizados."
Na equipe de Oliveira, além de profissionais com cursos técnicos tradicionais, há dois com curso superior -um deles foi promovido a consultor técnico depois de concluir a pós-graduação.
SERVIÇO "PREMIUM
"O piso é R$ 868, mas, com a falta de mão de obra especializada, há mecânicos que chegam a ganhar R$ 3.000", diz Antonio Carlos Fiola, presidente do Sindirepa.
Nas marcas "premium" a exigência é ainda maior. Mecânicos passam por treinamentos no exterior.
Na oficina da Ferrari, reparadores precisam ter conhecimento da língua italiana e, de preferência, experiência em competições automobilísticas.
PADRÃO ALEMÃO
Mecânico qualificado e certificado pela Mercedes recebe salário de até R$ 7.000. Toda oficina autorizada, pelo estatuto da empresa, precisa ter pelo menos um técnico com essas qualificações. Concessionárias da marca alemã cobram R$ 200 a hora do mecânico, valor similar ao de outras marcas de luxo.
O golpe do Mercosul e do Foro de São Paulo
Graça Salgueiro - MSM
Articulistas de opinião brasileiros que só reconheciam o Paraguai como o país da muamba e da falsificação, hoje falam como grandes conhecedores do que se passa no país vizinho com uma intimidade e um respeito hipócrita que só merecem desprezo.
Como era previsível, o ex-bispo Fernando Lugo, conhecido como “pai da pátria” por seus incontáveis filhos ilegítimos ainda quando era bispo, foi defenestrado do cargo de presidente da República do Paraguai, após um legítimo e constitucional julgamento político.
Fernando Lugo foi o candidato do Foro de São Paulo (FSP) e, como tal, tinha uma plataforma política estabelecida pelos ditames dos encontros anuais. Em seu mandato, a primeira providência foi romper o acordo sobre Itaipú obrigando o Brasil a pagar pela energia consumida, ferindo de morte o contrato feito na época de sua criação. Como todo comunista apátrida, o então presidente Lula advogou pelo seu camarada do FSP em detrimento dos direitos legais e prejuízos brasileiros.
Após conhecer o resultado do julgamento, Lugo faz uma declaração pública aceitando sua destituição. Dias depois, insuflado pelos camaradas do FSP, alega não ter tido direito à defesa, afirma ter sido "vítima de um golpe de Estado" e cria um ministério paralelo.
Adepto da malfadada “teologia da libertação”, Lugo levou esses quatro anos de mandato governando apenas para seus camaradas de ideologia, os “Carperos” (Acampados - similares ao MST brasileiro) e os terroristas do Exército do Povo Paraguaio (EPP). O EPP surgiu na década dos 70-80 e se havia extinguido, porém não totalmente. Seus cabeças vivem hoje como anistiados políticos no Brasil, e daqui do território nacional brasileiro coordenaram, junto com as FARC, o seqüestro e assassinato de Cecilia Cubas, filha do ex-presidente Raúl Cubas. Com Lugo na presidência esses bandos terroristas se fortaleceram pois, em vez de combatê-los, oferecia-lhes total apoio, impunidade e apadrinhamento, levando a população ao caos e à insegurança com seus novos atos de terrorismo e bandidagem.
No último dia 15 de junho, as Forças de Segurança foram vítimas de uma emboscada, quando Lugo as enviou para resolver um conflito com ditos “carperos” totalmente desarmadas. Ao tentar uma negociação, os policiais foram atacados com tiros deixando de imediato 6 deles mortos. O restante pediu reforço e no confronto 11 agressores foram mortos, deixando ao final mais 30 feridos. Lugo não foi ao velório de nenhum deles mas imediatamente determinou que se desse assistência às famílias dos que assassinaram os policiais. O encarregado de cumprir fielmente a traiçoeira operação, determinada por Lugo, ascendeu ao posto de Comandante da Polícia Nacional.
E isto foi a gota d’água para causar revolta na população paraguaia que, respeitando o que reza a Carta Magna, o Congresso realizou uma sessão ordinária, garantindo-lhe o devido processo (Leiam aqui o “Libelo Acusatório” na íntegra), onde por maioria absoluta Lugo foi destituído do cargo por “mal desempenho de suas funções”, sentença que ele aceitou de imediato mas, insuflado pelos camaradas do Foro de São Paulo da Venezuela, Argentina, Bolívia, Equador, Uruguai e Brasil, passou a chamar de “golpe de Estado”.
Os países-membros do Mercosul reuniram-se na Argentina entre os dias 25 e 29 de junho e, ferindo os procedimentos legais e o devido processo (sem dar direito de ampla defesa), decidiram não permitir a participação do Paraguai no encontro, uma vez que não reconhecem o novo governo. Entretanto, esta decisão foi tomada em conjunto com países “convidados” que não têm direito a voz nem voto, como Chile e Venezuela. E qual era o objetivo que jazia por trás desta decisão? Como se sabe, o Paraguai era, até o momento, o único país a se opor ao ingresso da Venezuela no bloco pois, com sobradas razões, alegava que lá não existe democracia. Pois bem, sem o Paraguai nesse encontro a Venezuela foi admitida oficialmente e passou a fazer parte do Mercosul! Era isso o que desejava esta organização desde sempre e eles sim, acabam de dar um golpe na democracia!
Sinto em relação a este caso a mesma repugnância que senti no caso de Honduras, pois articulistas de opinião brasileiros que só reconheciam o Paraguai como o país da muamba e da falsificação, hoje falam como grandes conhecedores do que se passa no país vizinho com uma intimidade e um respeito hipócrita que só merecem desprezo. O Paraguai é um país pequeno e pobre mas sua gente é patriota e majoritariamente católica, como o novo presidente Federico Franco. Seus parlamentares sabem o que é honra, dignidade e respeito às leis, daí terem tomado esta atitude absolutamente constitucional. Ademais, os que hoje clamam para que se faça o mesmo no Brasil esquecem - ou desconhecem - que em nossa Carta Magna não existe um artigo dizendo que se poderá destituir o presidente por “mal desempenho de suas funções”. Reforme-se a Constituição, aprenda-se a votar em gente decente antes de ficar invejando aqueles que antes eram vistos como escória da região.
Escrito originalmente para o Jornal Inconfidência de Minas Gerais

A ARTE DE LUIS ROYO

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MOONSPELL - NIGHT ETERNAL

SÉRIE GRANDES CAPAS: BOYS AND GIRLS - BRYAN FERRY (1985)


By Cream

APRENDER INGLÊS PELA INTERNET?

Aprender um idioma na web exige dedicação extra
Oferta de cursos de línguas estrangeiras cresce no Brasil, mas os especialistas alertam: métodos não servem a todos os interessados
Renata Honorato - VEJA
Em 2008, apenas 42 instituições brasileiras ofereciam cursos on-line livres (aqueles que não dependem de aval do Ministério da Educação), segundo a Associação Brasileira de Ensino a Distância. De acordo com o último levantamento da Abed, em 2010, o número praticamente dobrou, chegando a 82 cursos na internet. O ensino de idiomas também fez parte dessa evolução, acompanhada pelo crescimento do número de alunos. A Englishtown, uma das escolas mais tradicionais do segmento de ensino virtual, registrou em apenas um ano um aumento de 50% no número de estudantes, que agora chega a 150.000. O rival Portal Educação, que oferece cursos de inglês e espanhol, tinha pouco mais de 17.000 alunos no ano passado e espera fechar 2012 com 40.000. O mercado é tão animador que atrai escolas do exterior. No iníco deste ano, a OpenEnglish, escola de inglês on-line fundada na Venezuela, iniciou suas operações por aqui: já atraiu 3.000 alunos. A expectativa da companhia, segundo Andrés Moreno, presidente da OpenEnglish, é superar os 10.000 estudantes até o fim de 2012. A expansão da startup para o Brasil chamou a atenção de fundos americanos, que investiram 40 milhões de dólares para ver o negócio crescer.
Os cursos variam de escola para escola, mas seguem basicamente dois padrões: no primeiro, as aulas contam exclusivamente com recursos de áudio; no outro, a ferramenta é a videoconferência. Nos dois casos, as aulas são realizadas em tempo real por um grupo de cinco ou seis alunos acompanhados por um professor. Em geral, professores que ministram as aulas de nível básico são brasileiros, enquanto os tutores de níveis avançados são nativos da língua estrangeira (ingleses, americanos, espanhóis etc.).
A exemplo do que acontece com os demais cursos de ensino a distância, as aulas de idiomas on-line não escapam de uma indagação: é possível aprender um novo idioma por meio de aulas virtuais? Depende, respondem os especialistas. A mudança da aula presencial para a virtual não se faz sem exigências extras. Para a linguista Anna Maria Grammatico Carmagnani, da Universidade de São Paulo, que há anos estuda a transposição de livros didáticos para meios digitais, a modalidade on-line é mais indicada para quem busca aperfeiçoar a língua estrangeira do que para os iniciantes. "É preciso que a pessoa já tenha alguma bagagem. O aprendizado de um idioma requer um método específico, um caminho para acessar a nova língua: quem tem pouco ou nenhum conhecimento sobre ela carece desse método. A mediação da internet neste caso não ajuda muito."
A especialista acrescenta que os cursos on-line exigem livros e demais conteúdos de apoio especialmente produzidos para esse fim. "As novas plataformas requerem um material diferenciado e desenvolvido especificamente para aquele meio. Assim como os livros e apostilas fazem o melhor uso do papel, os recursos da internet, como vídeo, fóruns e interatividade, têm seu próprio potencial", diz. A simples transposição do papel para a internet, portanto, produz resultados mais pobres. Alguns cursos de fato procuram fazer bom uso dos recursos eletrônicos. É o caso de ferramentas motivacionais, que estabelecem objetivos e avaliam o desempenho dos alunos. A medição de performance, como é batizado o recurso na OpenEnglish, por exemplo, apresenta os dados em gráficos, o que ajuda os estudantes a acompanhar sua própria evolução.
Há ainda outro fator a ser levado em conta, acrescenta Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais e estudiosa do uso da tecnologia no ensino de línguas estrangeiras. Para a especialista, a grande vantagem dos cursos on-line é a flexibilidade. "O aluno pode estudar no horário que lhe convier", diz. Mas a oferta é também uma armadilha. "Só os muito disciplinados conseguem ir adiante nesse tipo de esquema. Ou seja, a eficácia do curso depende muito do aluno."
Estratégias – As escolas tentam contornar esses obstáculos, alimentando as atividades extra-classe, por exemplo. Segundo Julio De Angeli, vice-presidente da Englishtown, a escola mantém um fórum por meio do qual os alunos de toda a rede (que inclui escolas da sueca EF, espalhadas em 120 países) trocam experiências. "Focamos no uso da língua no cotidiano e por isso achamos importante que os alunos mantenham contato mesmo fora do ambiente escolar", explica.

A Englishtown promove ainda encontros presenciais, onde os alunos podem exercitar o que aprenderam nas aulas. Um serviço de call center também é colocado à disposição dos estudantes para que eles possam tirar dúvidas sobre lições ou planos de estudo. As aulas acontecem 24 horas por dia, sete dias por semana, em áudio (grupo) ou vídeo (particular): o aluno só precisa escolher o horário mais adequado. Para passar de nível é preciso atingir a média sete.
A OpenEnglish, que atua em 25 países, tenta emplacar no mercado um formato alternativo de aula virtual. Ao conectar-se na rede, o aluno pode, é claro, unir-se a uma turma compatível com seu nível de domínio do idioma estrangeiro. Mas ele também pode procurar um grupo virtual de alunos e professor que discutam um tema de seu interesse, seja ele cinema, negócios ou futebol. "Um consultor da escola entre em contato com o estudante e investiga suas preferências. A cada duas semanas ele volta a ligar para motivá-lo e identificar suas dificuldades", diz Pupo Neto, CEO da OpenEnglish no Brasil. "O objetivo disso é evitar um fenômeno recorrente no estudo a distância: o aluno sentir-se sozinho. Essa abordagem pode fazer a diferença no aprendizado dele."
Muitos setores da economia e de nossas vidas têm sofrido mudanças por causa da tecnologia. É inevitável, então, que esses avanços cheguem também à educação. Não há dúvidas de que a internet desempenha um papel importante no processo de aprendizado de uma língua estrangeira. O que aprendemos com isso:
1. Motivação: algumas pessoas têm o privilégio de contar com os melhores professores e as melhores ferramentas e, ainda assim, não aprendem o idioma. Outras aprendem a língua, a despeito da falta de recursos. A tecnologia é, portanto, irrelevante se não existir uma motivação por parte do próprio aluno
2. Há muitas evidências de que em algumas culturas a interação social no ambiente de aprendizado é imprescindível. Para esses grupos, a experiência on-line pode não ser suficiente nesse processo – ainda que ela seja complementada por sistemas de videoconferência ou outras formas de interação virtual
3. Os melhores cursos de inglês sabem como tirar vantagem do crescimento da conectividade social, oferecendo oportunidades para o aprendizado colaborativo, colocando os alunos em contanto com outros estudantes e abrindo um caminho para o diálogo e para a discussão através da internet. Esses são aspectos essenciais no processo de ensino
As classes médias na berlinda
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO - O Estado de S.Paulo
Desde abril até agora viajei bastante, saindo e voltando ao Brasil. Fui aos Emirados Árabes, ao México, ao Japão, à China e, na semana passada, ainda fui a Buenos Aires. Sempre participando de seminários ou fazendo conferências. Lia, naturalmente, os jornais locais que tinham edição em inglês. Por toda parte, um assunto dominante: a crise econômica. Em alguns países, mesmo com regimes políticos muito diferentes, como China e Brasil ou Argentina, alguma preocupação com a corrupção. Nessa mesmice, li com prazer em Buenos Aires, no La Nación, um artigo de Marcos Aguines, O orgulho da classe média, reproduzido no dia seguinte em O Globo.
Aguines desacredita da visão, que predominava nos círculos de esquerda, de que a classe média - a pequena burguesia, como era chamada - seria a Geni da História. Fascinados pelo papel revolucionário e liberador da revolução proletária e, mais tarde, pelo ímpeto das massas ascendentes, os ideólogos de esquerda - e não só eles, pois a moda pegou - não viam mais do que atraso e mesquinhez na classe média, os "desvios" pequeno-burgueses e a tibiez que lhe tiravam o ímpeto para transformar a sociedade. Provavelmente, em certas conjunturas históricas, especialmente na velha Europa, era assim que as classes médias agiam. Basta ler os romances de Balzac como Eugénie Grandet ou O Pai Goriot para sentir que essas camadas ficavam apequenadas, mesquinhas, diante da burguesia vitoriosa ou da nobreza decadente aliada à mesma. Entretanto, terá sido essa a posição das classes médias nas Américas e nos países de imigração?
Dou a palavra a Aguines: na Argentina, tanto no campo como nas cidades, as classes médias se expandiram e começaram a construir valores que deram suporte para três culturas, "a cultura do trabalho, a cultura do esforço e a cultura da honestidade". O mesmo, acrescento, terá ocorrido na Austrália ou no Canadá e, de outra maneira, nos Estados Unidos. E no caso brasileiro, terá sido distinto? Esmagadas entre a escravidão e o senhorio rural, agraciadas aqui e ali com algum título não hereditário durante o Império, as classes médias urbanas, compostas por profissionais liberais, funcionários públicos, militares, professores e poucas categorias urbanas mais, no que se iriam apoiar para manter as distinções e realizar algo na vida? Basicamente, na escola e nos valores familiares que levam ao trabalho. Tudo com muito esforço.
Com a chegada dos imigrantes, à medida que estes, motivados pelas necessidades de trabalhar, "faziam a América", do mesmo modo se incorporaram às classes médias trilhando os caminhos do estudo e buscando ostentar a "boa moral". No percurso dessa camada de imigrantes se viu a formação de algo que poderia se aproximar de uma "burguesia pequena", ou pequena burguesia: sua base econômica, em maior número do que no caso das populações brasileiras mais antigas, provinha de um pequeno negócio. Ainda assim sua inserção na sociedade e sua gradação social eram dadas pelas mesmas virtudes das antigas classes médias, a valorização do trabalho, o estudo "para subir na vida", a honestidade.
A própria base operária brasileira, a camada dos trabalhadores, usando outros instrumentos de ascensão social, como os sindicatos, e mantendo o ideal de trabalhar por conta própria, não fugiu deste padrão: escola-trabalho-decência. Obviamente, quando a sociedade se massifica, quando os meios de comunicação, TV à frente e, agora, a internet, dão os compassos da dança, o quadro é menos nítido. Já não se vê com clareza que valores guiam as chamadas classes médias emergentes. Mesmo que haja exagero na insistência com que se repete que milhões e milhões de brasileiros estão ingressando nas "novas classes médias", pois por enquanto se trata de novas categorias de renda, mais do que propriamente de uma nova "classe social", a transformação da renda em classe é questão de tempo: esta vai se formando. Seus membros pouco a pouco irão frequentar escolas razoáveis, criar uma teia de relações com acesso aos mesmos clubes e gozar das mesmas facilidades de recreação, trajar-se mais ou menos de modo igual (o que já ocorre), desenvolver uma cultura de trabalho qualificado e, de novo, comportar-se valorizando a decência e a honestidade.
Como se comportarão essas classes emergentes na política, quando se transformarem numa categoria social com características, anseios e valores próprios? É provável que se juntem, nas formas de comportamento e nos valores, às classes médias preexistentes. Estas, no momento, se sentem um tanto desconectadas da instituição que, sem ser a única, lhes abrigou e deu influência: o governo, o Estado. Justamente porque a política vem sendo percebida cada vez mais como um jogo de vale-tudo, onde a moral conta menos do que o resultado.
É hora, por isso mesmo, de reforçar, e não de menosprezar, os valores fundamentais ditos "de classe média" - estudo, trabalho, honestidade. Valores culturais não se impõem por lei, são modelos de conduta aos quais se juntam sentimentos positivos. Só a exemplaridade e a repetição enaltecida deles (na escola, na família, na mídia e na vida pública) vão aos poucos inculcando na mentalidade geral as formas que definem o que é bom, o que é ruim. Minha aposta é a de acreditar, como crê Aguines, que a velha e boa classe média, que já contribuiu para a formação da nação, ainda pode ter papel relevante e será capaz de contagiar com seus valores as camadas emergentes, pois estas a eles já são predispostas: melhoraram a renda com esforço e trabalho.
É certo que o descaso em nossa vida pública pelos valores básicos das classes médias diminui as chances de que eles venham a prevalecer. Há oportunidades, entretanto, para reforçá-los. O julgamento do mensalão é uma delas. Seja qual for o resultado, se o Supremo Tribunal Federal se comportar institucionalmente, sem medo de condenar ou de absolver, desde que explicando o porquê e sendo transparente, pode ajudar a demarcar os limites do inaceitável. Nem só de pão vive o homem. A decência e a honestidade são partes da vida. Convém reforçar os comportamentos que se inspiram nelas.

ELIÂNICAS


Ajoelhado no milho
Eliane Cantanhêde - FSP
BRASÍLIA - Ponto para a diplomacia brasileira, que acalmou o Planalto, fechou com o uruguaio Mujica, baixou a bola de Cristina Kirchner e impediu que a turma de Chávez incendiasse o Paraguai.
Prevaleceu a proposta brasileira de reação à queda de Fernando Lugo, como dito aqui: uma "ação pedagógica", para evitar novas deposições-relâmpago, e um "isolamento calculado". Punição política, sim; sanções econômicas, não.
O país foi suspenso do Mercosul e da Unasul, mas continua beneficiário da TEC, a tarifa comum, e dos acordos, das obras, dos investimentos e dos financiamentos do BNDES. Ajoelhou no milho, mas não foi expulso da sala nem da escola.
Sai o Paraguai temporariamente, entra a Venezuela permanentemente no Mercosul, encerrando uma novela que se arrastava desde 2006 porque o Congresso paraguaio se negava a votar -ironicamente, cobrando democracia da Venezuela.
Incluindo o parceiro suspenso, o bloco passa a ter 12,7 milhões de quilômetros quadrados e mais de 260 milhões de consumidores. Ganha em densidade econômica o que poderia perder em credibilidade
política. Chávez, aliás, anda muito envolvido com os seus problemas internos, sem tempo e energia para criar problemas externos.
Vai-se discutir por um bom tempo se o que houve no Paraguai foi ou não golpe, mas a realidade costuma ter uma dinâmica bem diferente da retórica, da teoria, da ideologia.
Na prática, Lugo perdeu as condições de governabilidade e só voltaria "por milagre", como ele próprio admitiu. O Partido Liberal vai comandar a transição, e o Colorado -enraizado na máquina, nas instituições e na sociedade paraguaias, depois de 61 anos no poder- é o favorito nas eleições de 2013.
Os quase quatro anos do ex-bispo Lugo foram um parêntesis, quase uma ilusão. O jogo bruto da política não comporta ilusões nem iludidos.

GOVERNO PETISTA COLOCA O BRASIL NAS MÃOS DO MENTECAPTO CANCEROSO BOLIVARIANO

Más notícias

FSP - Editorial
Rigor do Mercosul vale para Paraguai, mas não para Venezuela, que deve trazer a mentalidade antimercado de Hugo Chávez para o bloco
Num excessivo protesto contra o impeachment do presidente paraguaio, os demais membros do Mercosul -Brasil, Argentina e Uruguai- suspenderam a participação do parceiro no bloco até que o país eleja seu próximo mandatário, em abril de 2013.
O impedimento parlamentar de Fernando Lugo atropelou o direito de defesa e os limites do razoável, mas se ateve ao estipulado pela Constituição democrática do Paraguai. Ao excesso da suspensão, os membros do Mercosul acrescentaram a inclusão da Venezuela como sócia efetiva do bloco.
Aprovada pelos demais países, sua admissão dependia do Senado paraguaio. Torna-se agora fato consumado, ainda que o Paraguai não tenha sido expulso, mas suspenso. Caso repila a Venezuela ao retornar, será revertida a decisão, já que o Mercosul delibera por consenso?
Dois pesos, duas medidas. O rigor empregado contra a pressa do impeachment paraguaio é desmentido pela complacência perante a escalada autoritária na Venezuela.
Ali, sim, sob aparências de formalidade democrática, um mesmo dirigente governa há 13 anos, a tutelar o Congresso e o Judiciário, a intimidar adversários, a cercear a imprensa, utilizando todos os recursos do Estado para perenizar seu poder pessoal.
A inclusão da Venezuela adicionará problemas ao já problemático funcionamento do Mercosul.
O bloco deveria ser uma zona de livre-comércio, na qual ficariam suprimidas barreiras e tarifas entre os países-membros. Com o tempo, evoluiria para uma união aduaneira, em que estariam obrigados a manter a mesma política comercial em relação a qualquer outro país.
Sendo união aduaneira desde o início, o Mercosul crivou-se de exceções a proteger este ou aquele setor econômico influente em cada país associado. A pretexto de que o bloco seria estratégico a longo prazo, o Brasil pagou o maior preço em concessões.
No Mercosul a Venezuela terá poder de veto sobre acordos comerciais dos colegas com terceiros. E o regime do presidente Hugo Chávez não se resume à velha inclinação de sacrificar o cerne da democracia -o direito ao dissenso- no altar das maiorias plebiscitárias.
Reincide nas crendices econômicas da esquerda mais rudimentar, hostil ao empreendimento privado e à segurança jurídica dos contratos, avessa aos fundamentos do próprio comércio. Más notícias para o Mercosul.
A nota patética coube ao Itamaraty, que exibiu desinformação amadorística sobre a política paraguaia para depois secundar, alegando conter, a diplomacia atrabiliária ditada pelas agruras domésticas da presidente Cristina Kirchner.

A DECADÊNCIA DO ENSINO NA ALEMANHA PREOCUPA


Metade dos estudantes alemães desconhece que Hitler foi um ditador, revela pesquisa
Um terço dos jovens entre 15 e 16 anos o considera “defensor dos direitos humanos”
João Novaes - Opera Mundi
A divulgação de um estudo realizado entre milhares de estudantes de cinco regiões da Alemanha revelou resultados que chocaram a opinião pública do país e que colocaram em dúvida critérios do sistema educacional local. Segundo a pesquisa intitulada “A última vitória das ditaduras?”, metade dos entrevistados não sabia que Adolf Hitler foi um ditador, enquanto um terço achava que ele era um “protetor dos direitos humanos”.
Outro resultado que chamou atenção é que 40% desses estudantes não sabiam diferenciar entre as noções de “democracia” e “ditadura”. A resposta mais comum assinalada por quatro entre dez entrevistados foi: “é tudo a mesma coisa”. Realizada sob forma de questionário, o estudo foi divulgado pelos jornais locais nesta sexta-feira (29/06).
Um dos realizadores do estudo, o professor de Ciências Políticas da Universidade Livre de Berlim, Klaus Schroeder, considerou o resultado chocante. “Talvez a solução seja aumentar as aulas de História Contemporânea em detrimento ao estudo de outras épocas”, disse ele ao jornal italiano Corriere della Sera.
Outra solução apontada por Schroeder seria utilizar métodos mais modernos e alternativos de estudo da História, como aumentar a frequência de visitas de delegações estudantis a antigos campos de concentração, que hoje servem como memoriais. Essas mudanças, na opinião de Schroeder, reforçariam entre os jovens as noções do que considera “valores-chave” de nossa época, como liberdade, direitos humanos, pluralismo e Estado de direito.
“Esses estudantes não têm qualquer consciência política e não possuem qualquer ideia de conceitos como ‘liberdade de expressão’ ou ‘direitos humanos’”, afirmou Schroeder.
O estudo abordou 7.400 estudantes alemães entre 15 e 16 anos. Cerca de dois mil desses entrevistados visitavam memoriais de guerra na Alemanha quando foram abordados.

A MORTE TRÁGICA DE UM ROMENO EXPÕE A DURA VIDA DOS IMIGRANTES DO LESTE EUROPEU NA ALEMANHA

Morte de romeno revela dificuldades dos trabalhadores estrangeiros na Alemanha
Bruno Schrep - Der Spiegel
Um jovem trabalhador romeno morreu recentemente quando ficou preso num contêiner do qual tentava roubar roupas. Sua morte foi trágica, e sua vida difícil é comum para dezenas de milhares de trabalhadores do Leste Europeu.
Dois pedestres que iam para o trabalho numa manhã congelante de fevereiro fizeram uma descoberta terrível – duas pernas humanas para fora de um contêiner de roupas usadas no bairro de Oststadt em Hanover.
Um homem estava preso no contêiner, de cabeça para baixo, preso na abertura de uma tampa de metal parcialmente fechada. Ele havia parado de respirar e seus membros estavam congelados. Os bombeiros precisaram de equipamento especial para retirar o corpo sem vida. A autópsia revelou que ele morreu sufocado.
Poucas pessoas em Hanover conhecem o homem que morreu, o trabalhador romeno Kristian Serban, solteiro, de 23 anos. Ele morreu enquanto tentava roubar roupas usadas do contêiner.
Para a Promotoria pública, o caso foi resolvido rapidamente. Como aparentemente não havia uma terceira parte envolvida em sua morte, o caso foi imediatamente arquivado e tratado como se não fosse nada além de um acidente trágico. Mas a morte miserável do jovem romeno, que perdeu sua vida por causa de poucas peças de roupas usadas, enfatiza a situação dos trabalhadores migrantes da Bulgária, Romênia, Eslováquia, República Tcheca e Eslovênia.
Dezenas de milhares de homens e mulheres do Leste Europeu trabalham como se fossem escravos só na Alemanha. Eles trabalham na construção civil, limpando cozinhas de restaurantes, colhendo aspargos e maçãs no interior. Algumas jovens mulheres até vendem seus corpos na prostituição. Muitos trabalham sem as permissões de trabalho necessárias, recebem salários miseráveis e vivem em moradias precárias. Entretanto, eles preferem a vida na Alemanha às condições miseráveis em seus países natais.
Um plano assustador
Dos cerca de 14 mil desempregados de Galati, a cidade natal de Kristian Serban ao longo do rio Danúbio, mais de 10 mil não recebem nenhum benefício do governo. Aqueles que conseguem encontrar trabalho em um dos grandes moinhos de aço que marcam o horizonte da cidade são relativamente sortudos. O pai de Kristian tem um emprego num dos moinhos, mas seu pagamento mensal de cerca de apenas 150 euros (US$ 188), junto com o dinheiro que sua mulher ganha como cozinheira, mal dá para sustentar a família de quatro pessoas, especialmente porque a irmã de 17 anos de Kristian ainda está na escola e não contribui com a renda familiar.
Kristian teve que assumir responsabilidades cedo na vida e abandonou seu sonho de estudar engenharia elétrica. Logo que terminou a escola, era tempo de ganhar dinheiro e a construção foi a melhor opção. Mas, embora ele fosse um trabalhador habilidoso e com vontade, ganhava menos do que seu pai. Kristian, que entregava a maior parte de seu salário à família, não podia comprar nada das coisas que os jovens costumam desejar, como um telefone celular, roupas da moda e um carro.
Seu plano para se mudar para o oeste assustou seus pais. Eles precisavam do dinheiro, mas também temiam que seu único filho, um jovem tímido que não falava nenhuma língua estrangeira e que sempre morou em casa, não tinha as características necessárias para se dar bem em outro país.
Seu único conforto foi que o filho teria um contato com o Leste Europeu, seu tio Pachel Serban. Ele sabia se virar na Itália e dizia que havia dinheiro suficiente para ganhar por lá, afugentando os medos do irmão. “Prometa-nos que você cuidará bem dele”, disse o pai de Kristian, implorando. “Eu prometo”, respondeu o irmão.
Enquanto trabalhavam colhendo azeitonas na Toscana, os dois romenos conheceram M., um empresário italiano que seria seu futuro empregador. M. é casado com uma mulher alemã e se orgulha de sua reputação de self-made man. Além da plantação de oliveiras na Itália, ele é dono de vários prédios na Alemanha. Ele poderia usar homens capazes, como os dois que colhiam azeitonas.
Um emprego em Hanover
M. é dono de um grande prédio de apartamentos em Hanover, um antigo hotel que precisa urgentemente de reforma. Com um acordo selado por um aperto de mão, os dois romenos concordaram em trabalhar para M. na Alemanha e deixaram a Itália no outono de 2011.
Kristian e seu tio batalhavam desde a manhã até a noite. Eles remendavam canos velhos, retiravam vasos sanitários quebrados, demoliam paredes de gesso, construíam novas, instalavam piso e arrastavam grandes sacos de cimento. Eles engoliam muita poeira no processo, e todas as noites estavam completamente exaustos.
Seu empregador M. não é um explorador clássico. Ele dá uma mão e faz qualquer tipo de trabalho. Ele toma café-da-manhã com os trabalhadores, compra café para eles, trata-os pelo primeiro nome e paga em dia. Ele gostava especialmente de Kristian, que era trabalhador e prestativo. “Ele era como um filho para mim”, lembra-se M. Mas ele também está ciente das vantagens de empregar trabalhadores romenos. M. não paga contribuições sociais ou seguros, e sabe perfeitamente bem que os salários para os trabalhadores alemães são bem mais altos.
Os dois nunca haviam tirado um visto de trabalho, com o qual os trabalhadores como eles podem trabalhar na Alemanha, pelo menos na teoria. Na realidade, entretanto, os vistos para este tipo de trabalho só são cedidos sob condições específicas. Uma é que os empregadores devem considerar primeiro empregar alemães com qualificações similares.
Para evitar problemas, o empregador M. faz com que cada um de seus trabalhadores estrangeiros assine um certificado e se registrem nas autoridades como empreiteiros independentes. Mas essa independência não é nada mais do que uma farsa. Os empreiteiros independentes encontram suas próprias obras, trabalham para vários empregadores diferentes e têm escolha. Os dois romenos, por outro lado, trabalham apenas para M., então, na verdade, são de fato empregados e não empreiteiros independentes.
Sentindo-se isolado
Os dois romenos levavam uma existência deprimente, trabalhando, comendo, dormindo e voltando para o trabalho novamente. Kristian dividia um pequeno quarto com seu tio e mandava a maior parte de seu pagamento para sua família. Para atender às expectativas de todos, ele trabalhava algumas noites lavando pratos num restaurante italiano que M. havia arrendado para outro italiano.
“Eu ainda me sinto mal quando penso naquele menino”, admite a filha de M. “Ele era como eu, trabalhava feito louco e ainda sustentava seus pais”, diz a garota de 23 anos. “Eu, por outro lado, gasto o dinheiro dos meus pais e posso estudar”. Uma vez, ela foi ao zoológico com os romenos. Foi uma experiência especial para Kristian.
Ele passava a maior parte de seu tempo livre assistindo à televisão com o tio. Bebia cerveja de vez em quando, mas só um ou dois copos, porque tinha uma baixa tolerância. Ele dificilmente falava uma palavra de alemão, então raramente se aventurava sozinho pela cidade, embora às vezes fosse a uma discoteca de público romeno. Embora quisesse ter uma namorada, ele não conheceu nenhuma garota na discoteca.
Para as pessoas de fora, o jovem magro parecia introvertido, quase inibido. Ele aparentemente se sentia isolado num mundo que não compreendia e onde não era compreendido. Ele passou a confiar em Sari Catalan, um alemão de origem turca que é dono de um quiosque a algumas quadras de distância, e seu vizinho italiano Marcel, um garçom numa sorveteria. Com gestos e com o pouco de alemão que falava, ele às vezes contava ao dono do quiosque, onde comprava cerveja de vez em quando, sobre sua vida. Às vezes assistia futebol na TV com Marcel, que mora no andar de cima, ou ia a um dos bares próximos com ele.
O rapaz de 23 anos dificilmente se permitia gastar. Ele guardava todo o dinheiro que não era destinado à família. Ele dizia a seu chefe que queria comprar um apartamento na Romênia um dia, mesmo que levasse outros 20 anos. Kristian comprava suas roupas numa rede de lojas baratas. Numa ocasião, ele perguntou a Marcel onde podia comprar sapatos baratos. Mas no fim decidiu não ir à loja de descontos com Marcel. “Ele provavelmente não quis gastar o dinheiro”, diz Marcel hoje.
Um método perigoso
Muitos vizinhos dos prédios próximos em Oststadt, trabalhadores migrantes como Kristian, vivem vidas similarmente modestas. Entre eles há búlgaros, croatas e poloneses, bem como indianos e paquistaneses, mas o que todos têm em comum é que vivem da forma mais frugal possível para que possam enviar dinheiro para casa.
O contêiner grande e cinzento para doação de roupas usadas que fica ao ar livre, cheio de camisas, calças, casacos e sapatos velhos, costuma ser usado pela comunidade de imigrantes. O contêiner é equipado com um mecanismo anti-furto, mas acrobatas espertos conseguem passar pelo mecanismo. O próprio Kristian já havia conseguido alcançar dentro do contêiner algumas vezes.
O princípio é fácil: quando a parte designada a aceitar roupas é pressionada para cima, uma fresta de cerca de 20 centímetros é criada – espaço suficiente para alcançar dentro do contêiner e puxar peças de roupas, que normalmente são embrulhadas em sacolas plásticas. A técnica requer concentração, um bom controle físico e uma constituição magra.
Uma semana antes da tragédia, Kristian e seu tio sentiram em primeira mão como este método era perigoso. No caminho para casa, eles ouviram um barulho forte e gritos desesperados de ajuda vindo do contêiner. Um trabalhador magro, também romeno, havia escorregado para dentro do contêiner de aço ao tentar roubar algumas roupas e estava preso do lado de dentro sem conseguir respirar. Quando seus colegas romenos conseguiram tirá-lo de lá, o ladrão mal sucedido tremia de choque.
As temperaturas estavam bem abaixo de zero na quinta-feira, 9 de fevereiro. Kristian parecia deprimido naquele dia e mal conversava. Sua mãe estava no hospital, e a situação financeira da família estava mais tensa do que o normal. Kristian colocou 500 euros no bolso, com a intenção de enviá-los para a Romênia.
Depois do trabalho, ele bebeu mais cerveja do que o normal, na espera de esquecer seus problemas. De repente, ele parecia alegre e aventureiro. Tentou convencer seu tio a sair para beber mais, mas o tio estava cansado. No final, seu vizinho Marcel foi com ele até o bar. No Spectacle, um tradicional pub alemão, o econômico Kristian comprou pela primeira vez uma cerveja para seu amigo. Ele riu muito e pareceu aliviado. Entretanto, mal conseguia ficar parado, bebeu rapidamente e saiu do bar de repente. Seu amigo Marcel decidiu ficar. Era pouco antes da meia-noite.
Preso no contêiner
O dono do quiosque, Sari Catalan, foi aparentemente a última pessoa a ver o jovem romeno vivo. Kristian comprou mais quatro garrafas de cerveja para levar, colocou-as numa sacola plástica e sacudiu a mão de Atalan várias vezes, quase eufórico. Catalan ficou surpreso com o fato de seu cliente só estar usando um suéter fino numa noite tão fria, e perguntou: “Ei, garoto, você não está congelando?” Nesse ponto, a temperatura já havia caído para 13 graus negativos.
O contêiner ficava a apenas 50 metros dali. Ninguém sabe o que Kristian tentou tirar do contêiner. Talvez um pesado casaco de inverno porque ele havia perdido o seu? Sapatos velhos porque ele não queria gastar dinheiro num par novo? Roupas fortes para trabalhar uma vez que as suas estava gastas e sujas?
Está claro, entretanto, que o jovem de 23 anos perdeu o equilíbrio, ficou preso e não conseguiu sair. Na manhã seguinte, os bombeiros encontraram o saco plástico com as garrafas de cerveja na calçada perto dele. O dinheiro para sua mãe continuava no bolso do homem morto.
Quando o tio ligou para o irmão para contar sobre a morte do filho, o pai gritou: “Por que você não cuidou dele? Você prometeu!” O corpo do filho foi colocado num caixão de zinco e levado de carro fúnebre por 2.000 quilômetros até a Romênia. Seu empregador, M., pagou parte dos custos do transporte, porque os pais não podiam arcar com as despesas. Os empregados do restaurante italiano onde Kristian lavava pratos coletaram dinheiro para o enterro. Mais de 400 pessoas foram ao velório em Galati.
A prefeitura de Hanover ordenou que o contêiner no qual Kristian Serban morreu fosse removido do local. De acordo com um porta-voz da prefeitura, ele foi removido “em reverência ao rapaz”.
A obra no prédio de apartamentos do empresário italiano M., que foi brevemente interrompida depois da morte de Kristian, foi retomada com força total. O tio de Kristian, Pachel Serban, já encontrou um substituto para seu sobrinho morto, trazendo outro parente da Romênia para a Alemanha.
Tradutor: Eloise De Vylder

EUROPA: ALÉM DO FRACASSO ECONÔMICO, A HUMLHAÇÃO

Resgate de países como Grécia potencializa sentimento de humilhação de seus cidadãos
José María Ridao - El Pais
O empobrecimento súbito de economias europeias frágeis, como é o caso da Grécia, ameaça criar um clima na região similar ao da década de 30
O jornalista do "The Guardian" fez a pergunta recordando que, na Grécia, as mães não têm acesso às parteiras nem os doentes aos remédios, e a diretor geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, respondeu dando como exemplo a Nigéria. Falou das crianças da escola modesta de uma aldeia que recebem duas horas diárias de aula, compartilham as carteiras entre três alunos e, apesar disso, são conscientes da importância de ir para a escola. "Estas crianças não saem da minha cabeça", confessou Lagarde, esforçando-se apenas em dissimular o sarcasmo, "porque precisam de mais ajuda que as pessoas em Atenas".
Os motivos pelos quais Lagarde respondeu com palavras tão ácidas aparecem pouco depois na entrevista, e obedecem a uma lógica que deveria ser levada em consideração se tivesse sido expressada de outro modo. Lagarde se mostrava preocupada com as dimensões da fraude fiscal na Grécia, insistindo que os gregos deveriam assumir a necessidade de pagar corretamente os impostos. Por outro lado, reconhecia que o Fundo não deve impor condições mais suaves aos países ricos que aos pobres para conceder ajuda.
As reações às declarações de Lagarde não demoraram, e praticamente todas disseram que havia sido um erro. Ninguém, entretanto, ofereceu argumentos precisos do porquê era um erro. A esquerda francesa se limitou a recordar que o estatuto do Fundo exime seus funcionários de pagar impostos a partir de certo nível, inclusive a diretora geral. Mas o caráter pessoal desta crítica contribuía para abafar outra com um fundo político mais relevante: o sarcasmo de Lagarde jogava sal na ferida que os gregos queriam fazer constar nas eleições de 6 de maio, votando nos partidos contrários ao plano de austeridade exigido pela troika (composta pela Comissão, o Banco Central Europeu e o próprio Fundo).
Uma coisa era que, incapaz de financiar-se por si mesmo nos mercados de capitais, o Estado grego se vira obrigado a compactuar com um drástico plano de austeridade que o afundou na miséria; outra que, além disso, humilhou o país e a todos seus cidadãos acusando-os de fraude e corrupção como fez Lagarde.
A reação dos gregos nas eleições de maio trouxe à tona o fato de que a intervenção é mais do que um simples mecanismo financeiro nas mãos da União; é também um estigma moral, uma letra escarlate, como no romance de Nathaniel Hawthorne, as economias europeias mais fortes podem impor às mais fracas a expiação de seus pecados. Durante os anos em que a Grécia sofre intervenção, os dados econômicos só pioraram. A seguridade social está arruinada, até o ponto em que, de fato, as mães não têm acesso a parteiras e os doentes não têm remédios. Mas, além disso, o desemprego alcançou 22% da população ativa e 50% dos jovens.
Nem sequer a consolidação fiscal, o objetivo que a Alemanha de Merkel declarou tão arrebatadoramente urgente e irrenunciável – primeiro com o apoio de Sarkozy, e agora praticamente sozinha – parece estar mais certa. O que a Grécia corta em gastos sociais ou em salários de funcionários, deve usar para financiar a dívida, alimentando o mesmo círculo vicioso, exatamente o mesmo, que a obrigou a solicitar ajuda europeia. Com um efeito colateral cujas consequências serão sentidas por muitos anos: a estrutura do gasto público ultrapassa a condição de injusta e pouco distributiva para se transformar diretamente em aberrante, porque compromete por uma ou várias gerações o futuro da Grécia sem resolver seus problemas presentes.
As razões pelas quais Sarkozy apoiou uma política de austeridade até a morte como a que se segue na Grécia carecem de sentido desde o momento em que seu sucessor no Eliseu, François Hollande, encabeça dentro da União os tímidos movimentos para encontrar uma alternativa. Mas as razões pelas quais a Alemanha o faz continuam dando lugar à especulação. Não porque Angela Merkel ou o diretor do Bundesbank, Jens Weidmann, não as reiterem com clareza tanto em declarações à imprensa como nas reuniões comunitárias ou internacionais das quais participam.
"O governo alemão desconfia que os países da eurozona em dificuldades façam ou precisam fazer se não sentirem a corda no pescoço", afirma Maurici lucena, economista e ex-alto funcionário do governo socialista na Espanha. "Talvez tenha razão, mas é uma estratégia perigosa". O perigo está no que poderia provocar a ruptura do euro apesar do resultado das eleições gregas, nas quais a única coisa que ficou clara é que o novo governo respeitará o plano de ajuste, mas não que o plano vá dar melhores resultados do que até agora. "O paradigma econômico mudou", conclui Lucena. "Os europeus fazemos parte de uma união monetária, e a sensação de humilhação que a intervenção provoca vem do fato de que não estamos conscientes da nova situação."
Se a intervenção implica humilhação, se se transformou na letra escarlate que as economias mais fracas da eurozona podem se ver obrigadas a suportar, é porque foi se confundindo com a ameaça, com a corda no pescoço de que fala Lucena, para conjurar a desconfiança da Alemanha em relação a alguns membros da União. Esta desconfiança, por si só, não é precisamente um gesto amistoso entre sócios que aspiram a integração política e sonharam em algumas ocasiões com uma Europa federal.
Mas traduzida em uma alternativa definitiva entre a política de austeridade até a morte ou a cessão da gestão econômica à troika abandona o terreno dos gestos e entra no da ação, além disso empreendida em aberta contradição com os procedimentos seguidos pela construção europeia desde seu início. A união monetária, que era o principal sucesso desses procedimentos, desses mecanismos inovadores de decisão arduamente tecidos nos tratados para formar a vontade política comum dos 27, transformou-se numa ratoeira na qual o critério dos mais fortes se impõe de fato sobre os mais fracos.
"A intervenção implica uma desvalorização interna", afirma Jorge Fabra, promotor do Economistas Frente à Crise, uma associação que, seguindo o exemplo de um movimento semelhante surgido na França antes das últimas eleições presidenciais, pretende combater a política de austeridade até a morte imposta pela Alemanha. Para Fabra e os Economistas Frente à Crise, existe alternativas de política econômica que não se consideram porque, na verdade, a União é hoje o cenário de uma luta entre quem quer aprofundar o modelo de convivência social que o Estado de bem-estar social europeu representa e quem propõe desmantelá-lo, ou pelo menos reduzi-lo.
Desvalorização interna, segundo Fabra, significa "privatizar serviços públicos e cortar os gastos sociais", coincidindo com uma conjuntura que os tornam mais necessários do que nunca. A humilhação que enfrentam os países forçados a escolher entre a política de austeridade até a morte e a intervenção procede de que ambas as opções vêm impostas de fora e comprometem por igual a todas as forças políticas tradicionais, privando de valor as preferências que os cidadãos expressam nas urnas. O europeísmo da social-democracia se volta contra si mesmo, e os conservadores, por sua vez, veem-se transbordados pelos partidos populistas e de extrema direita.
Na década de 30 do século passado, as desvalorizações competitivas buscavam deliberadamente provocar a ruína do vizinho em benefício próprio. Não se pode dizer que este seja o objetivo da política de austeridade até a morte imposta sob a ameaça da intervenção. Mas, sim, a consequência inevitável das diferenças abismais que suportam os Estados da eurozona para financiar sua dívida, sujeitados a aplicar esta única política.
Merkel alega em seu favor que há uma década, quando a maior parte dos países da eurozona se entregou à festa que criou a bolha financeira, os alemães assumiram a política de austeridade que agora pedem ao resto dos parceiros e que acabaram dando os resultados que estão à vista. Ninguém duvida da autoridade moral que os governos alemães ganharam para se fazerem escutar na gestão da crise, mas cabe se perguntar se não estarão perdendo-a ao manter a moeda única à beira do abismo e consentir o empobrecimento súbito das economias mais frágeis da eurozona.
Primeiro, porque, de acordo com a expressão de Fabra que ilustra a mesma preocupação de Lucena, "pode-se produzir acidentes", já que não é a mesma coisa perseguir a consolidação fiscal no contexto econômico da época e no de agora, nem é indiferente o ritmo que se quer imprimir a ela. Segundo, porque a política de austeridade até a morte está desencadeando processos econômicos e políticos nos países com dificuldades para financiar sua dívida, dos quais a Alemanha não pode ignorar. Nem pelo interesse da Europa, nem por seu próprio.
"A política de reduzir a Alemanha à servidão durante uma geração, de aviltar a vida de milhões de seres humanos e de privar toda uma nação de felicidade", escreveu Keynes em 1919, "seria odiosa e detestável, embora seja possível, ainda que fosse possível, ainda que nos enriquecesse, ainda que não semeasse a decadência de toda a vida civilizada da Europa". Apesar das advertências, as potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial optaram por seguir reclamando à Alemanha as reparações contempladas na literalidade do Tratado de Versalhes, deixando a seus governos sem margem para adotar outra política econômica que a que lhes era imposta de fora.
O sentimento de humilhação que se apoderou dos alemães não é diferente do que está começando a se forjar agora entre alguns europeus, por mais que as situações de partida não sejam comparáveis, e o papel de algumas potências tenha invertido. A Grécia é um país pequeno, não uma potência mundial como a que era a Alemanha, e se dá por certo que as consequências políticas desencadeadas pelas decisões econômicas para combater a crise não podem representar uma ameaça. Mas depois da Grécia, caíram a Irlanda e Portugal, e pode ser que num prazo breve a Espanha os siga e quem sabe a Itália, confirmando que a política de austeridade até a morte não dá resultados ou não o faz à velocidade necessária. Nem sequer para conjurar a ameaça da intervenção.
Em "A Letra Escarlate", de Nathaniel Hawthorne, Hester Prynne é condenada por um tribunal público a levar sobre as roupas uma marca que recorda seu pecado durante a vida inteira. Só que o homem com quem ela foi infiel a seu marido era Dimmensdale, um reverendo de conduta até então exemplar que se manteve silencioso e indiferente ao sofrimento de Hester Prynne enquanto esta tentava sobreviver estigmatizada na sociedade puritana da Inglaterra do século 17. Dimmendale se acreditou a salvo do escândalo, mas ao passar o tempo, a mesma marca que Hester teve que levar sobre suas roupas, a mesma letra escarlate que arruinou sua vida por haver pecado, começou a se desenhar sobre a pele do reverendo.
Tradutor: Eloise De Vylder