quarta-feira, 1 de agosto de 2012
LAWRENCE FERLINGHETTI - JUNKMAN'S OBBLIGATO (PART 05)
Let us arise and go now
into the interior dark night
of the soul’s still bowery
and find ourselves anew
where subways stall and wait
under the River.
Cross over
into full puzzlement.
South Ferry will not run forever.
They are cutting out the Bay ferries
but it is still not too late
to get lost in Oakland.
Washington has not yet toppled
from his horse.
There is still time to goose him
and go
leaving our income tax form behind
and our waterproof wristwatch with it
staggering blind after alleycats
under Brooklyn’s Bridge
blown statues in baggy pants
our tincan cries and garbage voices
trailing.
Junk for sale!
SISTEMA DE COTAS
Samba da cotista doida
MARCOS AUGUSTO GONÇALVES - FSP
SÃO PAULO - Morena ruiva, morena jambo, branca melada, branca morena, alva escura, clarinha, pálida, branquiça, agalegada, averme lhada, bugrezinha escura, quase-negra, mista... Essas são algumas das mais de 130 cores de pele autodeclaradas pela população em 1976, em pesquisa organizada pelo IBGE. Diante de tanta variedade, o instituto acabou por consolidar o uso do feioso termo "pardo" para rotular -e empobrecer- a festa de semitons da miscigenação brasileira.Desconhecia o levantamento, que me foi revelado pela artista Adriana Varejão, com quem conversei para uma reportagem da revista "Serafina". Ela prepara um trabalho baseado nessa variedade cromática e poética que emergiu da pesquisa.
Percorrer a curiosa lista de tonalidades faz pensar sobre a opção política de setores da esquerda e do governo petista de usar a polarização branco x negro como espelho da divisão social no país. Como muitos já bem argumentaram, as cotas raciais são uma contrafação fora de lugar das duvidosas políticas conservadoras norte-americanas, que trouxeram algum benefício para a classe média negra e nada fizeram para promover os mais pobres.
No Brasil, parece mais adequado compensar o desfavorecimento socioeconômico -e não "racial". A institucionalização do racismo não é a melhor ideia se a ideia é justamente eliminá-lo. Ou será que não é?
Agora, o Congresso nos ameaça com o bizarro projeto da deputada Nice Lobão (PSD-MA). Prevê que metade das vagas das universidades federais seja repartida entre negros, pardos e indígenas na mesma proporção demográfica constatada pelo IBGE. E tal contingente, para se beneficiar, terá de ter feito seus estudos em escolas públicas.
É o samba da cotista doida. Grosseira falta de compreensão sobre o papel da universidade e das políticas compensatórias. Melhor criar logo uma loteria federal de diplomas. A megassena universitária!
LAWRENCE FERLINGHETTI - JUNKMAN'S OBBLIGATO (PART 04)
Let us arise and go now
under the city
where ashcans roll
and reappear in putrid clothes
as the uncrowned underground kings
of subway men’s rooms.
Let us feed the pigeons
at the City Hall
urging them to do their duty
in the Mayor’s office.
Hurry up please it’s time.
The end is coming.
Flash floods
Disasters in the sun
Dogs unleashed
Sister in the street
her brassiere backwards.
PADRES PEDÓFILOS DEVEM IR PARA A CADEIA. SEM POSSIBILIDADE DE PERDÃO
"Monstros de batina" precisam saber que podem acabar na prisão
Jorge Ramos - UOL
Jorge Ramos - UOL
- Tim Shaffer/ReutersMonsenhor William Lynn, o primeiro padre católico na história dos EUA a ser condenado por encobrir agressores sexuais dentro da Igreja
Monsenhor William Lynn passará pelo menos três anos na prisão. É onde ele deveria estar desde sempre. É um criminoso: permitiu que outro sacerdote abusasse sexualmente de um menino de 10 anos. Como disse a juíza do caso, M. Teresa Sarmina, monsenhor Lynn protegeu "monstros de batina".
É a primeira vez na história dos EUA que um padre católico é condenado por encobrir agressores sexuais dentro da igreja. Em vez de denunciá-los ou entregá-los à polícia, Lynn mudava esses sacerdotes de paróquia ou simplesmente fazia vista grossa.
Entre 1992 e 2004 Lynn foi o encarregado de investigar acusações de casos de abuso dentro da arquidiocese da Filadélfia e nunca --nunca-- se pôs do lado das vítimas. Quando apresentavam acusações contra padres da paróquia, preferia esconder os crimes. Por isso vai para a prisão.
Lynn expôs muitos meninos a ser violentados sexualmente. Mas, concretamente, foi considerado culpado por encobrir os crimes de um padre: Edward Avery. Avery passou seis meses em um centro psiquiátrico da igreja em 1993 depois de uma acusação de abuso sexual. Mas, depois, Lynn o mandou viver em um reitorado --com acesso a crianças e violando as recomendações dos médicos. A decisão teve consequências terríveis. Em 1999 Avery obrigou um coroinha de 10 anos a ter sexo oral com ele. Avery reconheceu seu crime e poderá passar até cinco anos em uma prisão.
Embora uma sentença de encarceramento seja incomum quando se trata de um sacerdote, abster-se de fazer o correto não o é. O que monsenhor Lynn fez é a mesma coisa que fazem muitos líderes da Igreja Católica em todo o mundo --encobrem sacerdotes pedófilos ao longo dos anos e, ao ficarem em silêncio diante desses crimes, se transformaram em cúmplices dos mesmos.
Tal silêncio é endêmico na igreja em todos os níveis, inclusive chegando ao Vaticano, onde ainda permanecem sem resposta muitas perguntas sobre o que o papa Bento 16 fez ou deixou de fazer sobre Marcial Maciel, o padre mexicano fundador dos Legionários de Cristo. Depois da morte de Maciel, em 2008, os Legionários admitiram que Maciel havia abusado sexualmente de seminaristas e que era pai de vários filhos.
O papa, então cardeal Ratzinger, foi o encarregado da Congregação da Doutrina da Fé de 1981 a 2005 e sua responsabilidade era exatamente investigar os casos de abuso sexual dentro da igreja. A seu escritório chegaram todos os documentos que comprovavam os crimes sexuais de Maciel. Mas ele nada fez.
Ratzinger obedeceu ao então papa João Paulo 2º --o principal encobridor de Maciel-- ou decidiu ocultar seus crimes? Seja como for, colocou-se do lado dos criminosos e não das vítimas. O comportamento do atual papa Bento 16 foi idêntico ao de monsenhor Lynn. A diferença é que Bento 16 nunca terá de responder a essas acusações, nunca terá de prestar contas de seu silêncio.
Sei que é incômodo falar disso, mas é preciso fazê-lo. Recebo muitas mensagens e tuítes perguntando por que insisto em falar sobre esse tema. E creio que devo dar uma explicação. Em primeiro lugar é uma questão jornalística: é nossa obrigação denunciar os abusos de poder, onde quer que ocorram. Mas também é uma questão pessoal.
Quando eu era menino, na escola do Centro Escolar del Lago (antes Colégio Tepeyac) no Estado do México, havia três padres beneditinos que nos agrediam, humilhavam e intimidavam. Vários estudantes sofremos seus abusos de autoridade durante os cursos primário, secundário e preparatório.
Esses sacerdotes nos batiam brutalmente com solas de sapatos (que chamavam de "neolaitazos"), nos puxavam pelas costeletas até nos levantar do chão e criaram um clima prejudicial de medo e repressão na escola. Com eles mesmos tínhamos de nos confessar às sextas-feiras.
Suponho que meus companheiros e eu tivemos sorte de não sofrer abusos sexuais, como ocorreu em outras escolas e paróquias. O abuso físico e mental foi constante, aberto e até elogiado por esses supostos educadores religiosos. Nasci católico, mas lá, de golpe em golpe e de ameaça em ameaça, deixei de sê-lo. Muito cedo aprendi que não queria fazer parte do mesmo grupo a que pertenciam esses três sacerdotes. Muitos professores e pais de família sabiam o que acontecia na escola --as surras, os abusos físicos, as humilhações públicas, as ameaças sádicas--, mas ninguém saiu em nossa defesa. Ninguém.
Por isso, hoje, quando nos inteiramos de outros abusos por parte de religiosos católicos, não devemos ficar calados. Especialmente na América Latina, onde poucos se atrevem a questionar os padres. Esse silêncio é cúmplice e promove mais abusos.
A prisão de monsenhor Lynn é bem-vinda e necessária, mas tardia e insuficiente. Os "monstros de batina" e seus cúmplices não devem se sentir seguros em lugar nenhum. Embora nos falem sobre o céu, têm de saber que sua próxima parada pode ser a prisão.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes GonçalvesDÓRICAS
Falsa dicotomia
DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo
Demandas em favor de um julgamento no qual o Supremo Tribunal Federal leve em conta a opinião do público sobre o caso do mensalão têm tanta validade factual quanto cobranças por um exame exclusivamente "técnico" do processo.
As duas alegações se igualam em impropriedade e implicam juízo prévio de valor: os advogados da oitiva social querem a condenação dos réus e os defensores da tecnicalidade reivindicam a absolvição.
Nada contra juízos e valores, mas no que tange ao julgamento com início marcado para amanhã ambas as posições são inócuas. Expressam correntes de pensamento, mas disso não passam porque na ação penal não estão em jogo costumes, vontades, avanços ou retrocessos sociais, mas a realidade tal como a veem o Código Penal e a Constituição.
Em falta de substância podem ser comparadas às recentes petições de advogados ao Tribunal Superior Eleitoral para tentar adiar o julgamento para data distante de período eleitoral ou para instar o TSE a examinar "com atenção" o uso do assunto nas propagandas obrigatórias no rádio e na televisão.
Por essa ótica a Justiça teria obrigação de olhar o quadro da perspectiva dos eventuais prejudicados ou beneficiados e tratar o mensalão como um tabu, pautando-se pelas conveniências e inconveniências eleitorais das forças políticas envolvidas em disputas de poder.
A se aceitar essa argumentação não se poderia deixar de aplicar a ela o princípio da isonomia que levaria a Justiça à absurda situação de estabelecer a seguinte regra: questões polêmicas relacionadas a partidos e a políticos não podem ser julgadas em anos eleitorais, só na entressafra.
Ano sim, ano não a agenda judicial estaria interditada a fim de que não houvesse "judicialização da política" nem "politização da Justiça". Ainda que o resultado impusesse retardamentos e tornasse o Judiciário mais lento do que já é.
Sem contar que afastar julgamentos das eleições implica a adoção de conceito semelhante a marcá-los propositadamente em épocas de campanha. Aí troca-se apenas o sinal, mas não se tem uma solução. Pelo simples fato de que não há nada a solucionar nem condicionantes a discutir.
Do mesmo modo não há dicotomia entre julgamento "técnico" e julgamento "político" a não ser na cabeça de uma animada arquibancada que, seja qual for o resultado, sairá decepcionada porque as coisas são como são e não como os torcedores gostariam que fosse.
A diferenciação correta a ser feita diz respeito à maneira como cada ministro verá os fatos: se a partir da ação isolada de cada réu ou se examinará o contexto de um esquema articulado de corrupção em que cada um deles cumpriu um papel na execução de um projeto comum, mediante práticas criminosas.
Meia volta. Réus distantes do palco, governo sob a imposição do toque de silêncio, ex-presidente Lula calado, sindicatos e movimentos sociais recolhidos, PT acuado.
Na véspera do julgamento do mensalão, o cenário em nada lembra as anunciadas batalhas em prol do "desmonte da farsa" e em tudo remete ao temor reverencial do exame público, diário e prolongado do conteúdo dos autos.
No caso dos réus, os advogados alegam que a presença não é praxe. Mas há uma justificativa mais objetiva para as ausências: nenhum deles, notadamente os políticos, quer aparecer na televisão durante as sessões em que será repetida uma narrativa de acusações que por si desmontam a versão de que há sete anos nada houve no Brasil além de uma ardilosa conspiração contra o governo baseada em invencionices da oposição.
Assim é. Por enquanto ninguém se habilitou, mas daqui a pouco aparece alguém para dizer que julgamentos, assim como CPIs, sabe-se como começam, mas nunca como terminam.
Como se não fosse tudo na vida assim. Ou o leitor e a leitora sabem como terminará hoje seu dia?
DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo
Demandas em favor de um julgamento no qual o Supremo Tribunal Federal leve em conta a opinião do público sobre o caso do mensalão têm tanta validade factual quanto cobranças por um exame exclusivamente "técnico" do processo.
As duas alegações se igualam em impropriedade e implicam juízo prévio de valor: os advogados da oitiva social querem a condenação dos réus e os defensores da tecnicalidade reivindicam a absolvição.
Nada contra juízos e valores, mas no que tange ao julgamento com início marcado para amanhã ambas as posições são inócuas. Expressam correntes de pensamento, mas disso não passam porque na ação penal não estão em jogo costumes, vontades, avanços ou retrocessos sociais, mas a realidade tal como a veem o Código Penal e a Constituição.
Em falta de substância podem ser comparadas às recentes petições de advogados ao Tribunal Superior Eleitoral para tentar adiar o julgamento para data distante de período eleitoral ou para instar o TSE a examinar "com atenção" o uso do assunto nas propagandas obrigatórias no rádio e na televisão.
Por essa ótica a Justiça teria obrigação de olhar o quadro da perspectiva dos eventuais prejudicados ou beneficiados e tratar o mensalão como um tabu, pautando-se pelas conveniências e inconveniências eleitorais das forças políticas envolvidas em disputas de poder.
A se aceitar essa argumentação não se poderia deixar de aplicar a ela o princípio da isonomia que levaria a Justiça à absurda situação de estabelecer a seguinte regra: questões polêmicas relacionadas a partidos e a políticos não podem ser julgadas em anos eleitorais, só na entressafra.
Ano sim, ano não a agenda judicial estaria interditada a fim de que não houvesse "judicialização da política" nem "politização da Justiça". Ainda que o resultado impusesse retardamentos e tornasse o Judiciário mais lento do que já é.
Sem contar que afastar julgamentos das eleições implica a adoção de conceito semelhante a marcá-los propositadamente em épocas de campanha. Aí troca-se apenas o sinal, mas não se tem uma solução. Pelo simples fato de que não há nada a solucionar nem condicionantes a discutir.
Do mesmo modo não há dicotomia entre julgamento "técnico" e julgamento "político" a não ser na cabeça de uma animada arquibancada que, seja qual for o resultado, sairá decepcionada porque as coisas são como são e não como os torcedores gostariam que fosse.
A diferenciação correta a ser feita diz respeito à maneira como cada ministro verá os fatos: se a partir da ação isolada de cada réu ou se examinará o contexto de um esquema articulado de corrupção em que cada um deles cumpriu um papel na execução de um projeto comum, mediante práticas criminosas.
Meia volta. Réus distantes do palco, governo sob a imposição do toque de silêncio, ex-presidente Lula calado, sindicatos e movimentos sociais recolhidos, PT acuado.
Na véspera do julgamento do mensalão, o cenário em nada lembra as anunciadas batalhas em prol do "desmonte da farsa" e em tudo remete ao temor reverencial do exame público, diário e prolongado do conteúdo dos autos.
No caso dos réus, os advogados alegam que a presença não é praxe. Mas há uma justificativa mais objetiva para as ausências: nenhum deles, notadamente os políticos, quer aparecer na televisão durante as sessões em que será repetida uma narrativa de acusações que por si desmontam a versão de que há sete anos nada houve no Brasil além de uma ardilosa conspiração contra o governo baseada em invencionices da oposição.
Assim é. Por enquanto ninguém se habilitou, mas daqui a pouco aparece alguém para dizer que julgamentos, assim como CPIs, sabe-se como começam, mas nunca como terminam.
Como se não fosse tudo na vida assim. Ou o leitor e a leitora sabem como terminará hoje seu dia?
INDIÃO "CHERADO" PARECE QUE NÃO GOSTA DE COCA-COLA, SÓ DAQUELA OUTRA COCA, PRODUZIDA PELO SEU PAÍS
Bolívia anuncia falência do McDonald's e expulsa a Coca-Cola de seu território
Segundo chanceler, decisão faz parte das celebrações do fim do calendário maia
Opera Mundi
Como resultado da oposição de Evo Morales ao que seu governo chama de imposições gastronômicas norte-americanas, McDonald’s e Coca-Cola encerrarão todas as suas atividades na Bolívia até o final deste ano.
Se, de um lado, a rede de fast foods McDonald’s anunciou sua falência após “14 anos de tentativas infrutíferas de se instalar na cultura local”, de outro, a Coca-Cola foi formalmente expulsa do território e terá até o próximo dia 21 de dezembro para encerrar totalmente sua operação.
De acordo com o ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuanca, a decisão “estará em sintonia com o fim do calendário maia e fará parte das celebrações do fim do capitalismo e do início da cultura da vida”.
Ao lado do presidente Evo Morales, o chanceler acrescentou que "o dia 21 de dezembro de 2012 marca o fim do egoísmo e da divisão”. Por essa razão “o 21 de dezembro tem que ser o fim da Coca Cola e o começo do mocochinche (refresco de pêssego)”.
Além de critérios culturais, o governo também recorreu a questões de saúde pública, alegando que a Coca Cola, bem como a maioria dos refrigerantes industrializados, contém diversas substâncias capazes de gerar infartos e câncer.
Com a falência dos oito restaurantes que existiam no país, a Bolivia se tornará a segunda nação latino-americana a não possuir unidades do McDonald's e o primeiro país do mundo onde a companhia foi obrigada a fechar por conta de mais de uma década de contabilidade negativa. O primeiro país a extinguir a maior rede de fast-foods do mundo no continente foi Cuba.
A disputa entre Morales e Coca-Cola começou nos primeiros meses de 2010, quando o presidente anunciou o lançamento de uma bebida totalmente boliviana, a Coca-Colla. O projeto tinha como objetivo legitimar o consumo da folha de coca.
No que diz respeito ao caso do McDonald's, o modelo produtivista dos fast-foods nunca prosperou na Bolívia. No país, são muito fortes rituais gastronômicos que vão desde a decisão do que as famílias irão comer até o preparo conjunto dos alimentos.
ISRAEL ESTÁ PREOCUPADO COM O DESTINO DAS ARMAS QUÍMICAS NA SÍRIA APÓS A QUEDA DE ASSAD
A linha vermelha de Israel: Destino das armas químicas sírias pode provocar uma guerra
Ronen Bergman, Juliane Von Mittelstaedt, Matthias Schepp e Holger Stark - Der Spiegel
Enquanto a batalha contra os rebeldes sírios chega a um novo estágio, Israel está preocupado com a possibilidade do presidente Assad usar seu vasto arsenal de armas químicas contra seu próprio povo e vizinhos –ou até mesmo dar parte dele ao Hizbollah. Apesar de muitos especialistas considerarem isso improvável, Israel está avaliando se ataca ou não.
O pequeno vilarejo de Buqata fica localizado no lado israelense da fronteira que se estende pelas Colinas de Golan. Daqui, é possível ver uma grande extensão do território sírio. Bem no pé da colina fica Jubata al Khashab, uma cidade a apenas 55 quilômetros a sudoeste de Damasco, a capital da Síria.
Todo dia, centenas de israelenses preocupados se reúnem ao longo do arame farpado na fronteira e usam binóculos para espiar seus vizinhos em Jubata al Khashab, que recentemente foram alvo de fogo de artilharia. Nuvens espessas de fumaça se erguiam dos prédios de apartamento dali.
A guerra está próxima e, sempre que um ditador árabe cai, a ansiedade se espalha por Israel: será que a queda do tirano arrastará o Estado judeu e talvez toda a região para o caos? Esse medo já existia em 2003, quando os Estados Unidos e seus aliados atacaram o Iraque e derrubaram Saddam Hussein. A história foi semelhante com a queda do líder líbio, Muammar Gaddafi e, até certo ponto, com a queda do presidente do Egito, Hosni Mubarak. Agora, esse medo foi reaceso.
Na última quinta-feira, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, viu o governante sírio, Bashar Assad, a caminho da queda e considerou que preparativos para uma “nova era” estavam em andamento. Mas o regime em Damasco anunciou batalhas decisivas na luta contra os rebeldes –em Aleppo, a maior cidade do país, próxima da fronteira turca.
Na semana passada, Assad posicionou milhares de soldados no norte para retomar essa cidade de 2 milhões de habitantes, onde 5.500 oponentes do regime estariam entrincheirados. Uma batalha decisiva em Aleppo, um antigo centro de comércio e cuja cidade velha é um Patrimônio da Humanidade da Unesco? Victoria Nuland, a porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, alertou posteriormente contra um “massacre” iminente.
Cenários horríveis
Aleppo fica a cerca de 400 quilômetros das Colinas de Golan, mas os israelenses reforçaram as barreiras na fronteira nos últimos dias e enviaram soldados adicionais para a área. Eles também temem que uma onda de refugiados atravesse pela fronteira para Israel.
“Nós podemos ver os combates daqui, os morteiros; nós podemos ouvir os ecos das balas da batalha entre o exército sírio e os grupos rebeldes. A 200 metros ao sul nós podemos ver a ONU, e 800 metros a oeste há a cerca da fronteira. Isso mostra o quanto a desintegração do regime está longe de abstrata; ela é real e está chegando cada vez mais perto.” Foi assim que o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, descreveu recentemente a situação. Ele disse que Israel precisa estar preparado para cada cenário.
Em Jerusalém, é possível imaginar vários deles. Por exemplo, um cenário de horror no qual terroristas poderiam atacar Israel com foguetes, inclusive das Colinas de Golan, em meio ao caos geral. Mas os líderes militares estão ainda mais preocupados com as armas químicas do regime sírio. Elas poderiam ser levadas para o Líbano pelo Hizbollah ou cair nas mãos de terroristas na Síria. Ou, como último recurso, Assad poderia lançar mísseis armados com gás venenoso contra Israel, assim como contra a Jordânia e a Turquia.
Por outro lado, vendo que a Síria não fez nenhum disparo contra Israel em três décadas, por que o país recorreria agora ao uso de armas químicas? De fato, especialistas em Jerusalém são incrivelmente unânimes em sua avaliação de que um ataque direto é improvável. Mas isso não impediu Israel de realizar exercícios de simulação de ataque com gás venenoso em Haifa, e o número de israelenses pegando máscaras de gás nos centros de distribuição quase dobrou nos últimos dias.
Há um medo profundo da reação irracional dos déspotas sempre que a sobrevivência deles está ameaçada. Armas químicas já foram usadas inescrupulosamente na região em mais de uma ocasião. Nos anos 60, o Egito usou bombas com gás venenoso durante a intervenção do Cairo na guerra civil do Iêmen. E nos anos 80, Saddam Hussein usou gás venenoso contra soldados iranianos durante a Guerra Irã-Iraque –e matou um grande número de sua própria população.
“Assim que o Hizbollah botar suas mãos em armas químicas, alguém os ensinará como usá-las”, diz Isaac Ben Israel, o ex-chefe do departamento de pesquisa das forças armadas israelenses. “Os iranianos e os sírios já os ensinaram como lançar mísseis de longo alcance.”
Uma enorme infraestrutura de armas químicas
Também é provável que os americanos e seus aliados estejam se preparando para proteger os mísseis, gases venenosos e sistemas de armas modernas no caso de um colapso do regime Assad. Em maio, sob liderança americana, 12 mil soldados de 19 países treinaram na Jordânia para uma missão conjunta. Essa força certamente seria pequena demais em caso de uma operação militar plena na Síria. Segundo um estudo interno do Pentágono, 75 mil soldados seriam necessários apenas para colocar os depósitos de armas químicas sob controle.
Os depósitos de armas químicas estão entre os locais mais protegidos de toda a Síria. O exército de Assad controla barreiras nas estradas de acesso quilômetros antes dos portões, e os próprios depósitos são protegidos por dois anéis de cercas protetoras e guardas. Os soldados responsáveis pela proteção dessas instalações estão entre os apoiadores mais leais do regime. Uma das instalações fica a nordeste de Damasco, outra perto de Homs, e uma terceira –onde o agente nervoso VX, sarin e tabun são supostamente fabricados– fica localizada perto de Hama.
As duas principais instalações ficam nas cidades de Masyaf e al Safir, no norte da Síria, onde munições químicas são produzidas e mísseis Scud e rampas de lançamento ficam posicionados. Segundo o “Jane’s Intelligence Review”, uma revista britânica voltada para assuntos de segurança global, o Irã ajuda os sírios em várias dessas instalações. As instalações de produção e armazenamento são operadas pelo Centro de Estudos Científicos e Pesquisa, que emprega mais de 10 mil pessoas. Os relatórios sobre a extensão do arsenal químico variam muito, mas estimativas conservadoras obtidas pelo governo alemão o colocam em aproximadamente 1.000 toneladas.
Localizado em um vale a cerca de 20 quilômetros a sudeste de Aleppo, o complexo de Al Safir seria a maior e mais importante instalação de armas químicas de toda a Síria. Três instalações de produção operam em uma área que cobre cinco quilômetros quadrados. Al Safir não é uma base militar comum. Em seus cantos no nordeste e no noroeste, ela é protegida por mísseis antiaéreos de fabricação russa, que supostamente oferecem ampla proteção contra ataques aéreos. Uma foto por satélite de 2008 revela as posições das instalações de radar e rampas de lançamento.
Conexões russo-sírias
A Síria provavelmente começou a produzir armas químicas nos anos 80. A ideia original era empregá-las em caso de uma guerra com Israel. Posteriormente, a intenção passou a ser de usar as armas apenas para dissuasão.
Elas consistiam inicialmente de bombas cheias com gás sarin e projetadas para serem jogadas por aviões. Ogivas para mísseis Scud também foram posteriormente desenvolvidas, e agora acredita-se que a Síria tenha cerca de 700 dessas armas. Segundo fontes da inteligência israelense, grande parte da perícia veio da União Soviética e da antiga Tchecoslováquia, mas empresas privadas do Japão e da Europa Ocidental também teriam ajudado os sírios.
Em meados dos anos 90, a Síria supostamente conseguiu fabricar o VX –o agente nervoso mais tóxico de todos. Um russo teve um papel importante aqui: o general Anatoly Kuntsevich, o homem que o ex-presidente russo Boris Yeltson nomeou nos anos 90 como conselheiro nos esforços para eliminação de armas químicas.
Moscou é a maior aliada da Síria desde os anos 60. Até o colapso da União Soviética, o Kremlin forneceu ao seu Estado satélite no Oriente Médio armas convencionais no valor de cerca de US$ 26 bilhões, incluindo aeronaves, tanques e mísseis Scud.
Moscou sempre negou categoricamente que Damasco também recebeu armas químicas. “A União Soviética não costumava exportar armas de destruição em massa para o exterior ou armas químicas”, diz Igor Korotchenko, presidente do Conselho Público do Ministério da Defesa e editor-chefe da revista “National Defense”.
Mas em 1963, logo após o Partido Baath socialista tomar o poder em Damasco, o Kremlin lançou um abrangente programa de treinamento. Mais de 50 mil estudantes sírio frequentariam as universidades soviéticas, incluindo 9.500 que estudaram em academias militares
Nos anos 90, os russos ainda posicionavam agentes de inteligência nas Colinas de Golan e no norte da Síria. Kuntsevich, o emissário de Yeltsin, entrou no país em várias ocasiões durante esse período. O especialista em armas químicas supostamente estabeleceu conexões com importantes membros do regime sírio, recebeu grande quantidade de dinheiro deles e, em troca, forneceu detalhes sobre como fabricar o VX. Ele também teria enviado 800 litros de produtos químicos para a Síria, necessários para a produção do gás venenoso.
Os esforços israelenses para atrapalhar a produção de armas químicas
Os israelenses estavam preocupados. Mas em 3 de abril de 2002, Kuntsevich –um ganhador do Prêmio Lenin e, mais recentemente, um funcionário do Instituto Zelinsky de Química Orgânica, em Moscou– morreu em um voo de Damasco para Moscou. As circunstâncias de sua morte permanecem misteriosas, juntamente com a inscrição em sua lápide no Cemitério Troyekurovskoye, no oeste de Moscou, onde a data de sua morte está marcada como sendo 29 de março.
A morte de Kuntsevich é tão obscura quanto a morte de Yuri Ivanov. O vice-chefe da GRU, o serviço de inteligência militar estrangeira da Rússia, morreu em meados de 2010, supostamente após um acidente enquanto nadava na Síria.
Há especulação de que o Mossad, o serviço de inteligência estrangeira de Israel, pode ter estado por trás das mortes de ambos os homens. Além disso, um dossiê confidencial da CIA compilado durante os últimos anos da vida de Kuntsevich chega à conclusão alarmante de que a Síria conseguiu produzir grandes quantidades de armas químicas.
Também permanece um mistério o que aconteceu em 25 de julho de 2007, no depósito de armas químicas de Al Safir. Naquele dia, um acidente ocorreu na linha de produção dos componentes para o gás venenoso, uma instalação construída em conjunto pelos sírios e pelos norte-coreanos. Um dos canos de abastecimento da instalação estourou –e em questão de segundos toda a instalação estava em chamas. A explosão foi tamanha que as portas foram arrancadas do prédio, fazendo o gás escapar e se espalhar por todo o complexo. A explosão teria matado 15 sírios e 10 engenheiros iranianos que estariam no local no momento.
Investigações conduzidas por uma equipe nomeada por Assad concluíram que o incidente deve ter sido resultado de um ato de sabotagem. Um ministro israelense descreveu posteriormente de modo irônico que a explosão de Al Safir foi um “acidente maravilhoso”.
Até então, os israelenses achavam que sabiam mais ou menos a extensão dos esforços da Síria para produção de armas químicas. Mas em fevereiro de 2010, a linha vermelha foi atravessada pela primeira vez, quando a inteligência israelense avistou um comboio de caminhões que partiu de Al Safir e cruzou a fronteira para o Líbano.
Os israelenses presumiram que se tratava de uma carga de componentes de mísseis Scud destinada ao Hizbollah. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi orientado a lançar ataques aéreos contra o comboio. Apesar de ter decidido contra isso, ele repassou a informação aos americanos. Em 1º de março, o embaixador sírio em Washington foi convocado ao Departamento de Estado americano, onde foi deixado claro para ele que, devido ao risco real de guerra, os Estados Unidos esperavam que a Síria evitasse armar o Hizbollah.
Caso o Hizbollah já conte com sistemas de armas não convencionais posicionados na vizinha Síria há algum tempo para protegê-lo de ataques israelenses, então seria aconselhável ao mundo permanecer vigilante. De fato, abandonar essas armas porque a linha de fornecimento pela Síria provavelmente seria cortada representaria uma grande perda para a organização terrorista. No momento em que Assad for derrubado, o Hizbollah e a Guarda Revolucionária Iraniana provavelmente optariam por transportar essas armas para o Líbano. Isso, por sua vez, seria um motivo para Israel ir à guerra
Protegendo as armas químicas
Diante dessas circunstâncias, não causa surpresa que os serviços de inteligência israelenses estejam monitorando atentamente cada movimento em torno das instalações conhecidas de armas químicas sírias, como a de Al Safir.
Poucas semanas atrás, eles notaram que o exército sírio começou a evacuar um de seus depósitos de armas químicas em um campo de aviação militar perto de Homs. Caminhões vazios entraram no depósito e foram carregados. Parecia que todo o estoque estava sendo transferido para outro lugar. Segundo conclusões da Bundesnachrichtendienst (BND), a agência de inteligência estrangeira da Alemanha, VX e sarin foram transferidos durante o transporte.
Todavia, não há sinais de que Assad pretende usar gás venenoso no atual conflito militar. Em vez disso, há muitos indícios de que o regime está transferindo essas armas arriscadas para a região deserta no leste. Essa suposição também é apoiada pelo fato de o governo ter reforçado enormemente as medidas de segurança em todas as instalações militares, substituído alguns dos destacamentos militares e colocado alauitas leais ao regime em posições-chave.
Mas o debate foi alimentado pelos relatos que o Mossad enviou para vários parceiros semanas atrás, incluindo o governo alemão. O Mossad alertou que o Hizbollah pode já estar de posse de algumas partes do arsenal químico, e argumenta que Assad enviou as entregas iniciais ao Líbano por caminhão como uma espécie de apólice de seguro.
A notícia causou sensação no mundo dos serviços de inteligência –mas provavelmente não é verdadeira. Qualquer um que pretenda usar gás venenoso altamente avançado precisa de especialistas treinados e sistemas de lançamento. Até agora, não há sinais de que o Hizbollah possui essas capacidades ou de rampas de lançamento de Scuds no Líbano.
E do ponto de vista político, os motivos para não praticar tamanha transferência de tecnologia superam os benefícios esperados. Assad estaria usando sua carta mais forte e talvez a última; ele armaria o líder do Hizbollah, Hassan Nasrallah, que há muito se emancipou da influência de Damasco –sem saber se o Hizbollah agiria de acordo com os interesses do ditador. Já ficou dolorosamente aparente que a milícia xiita está mantendo um perfil incrivelmente discreto diante da luta de Assad pela sobrevivência. Se, quando e como Nasrallah usaria as armas químicas é incalculável –até mesmo para Assad.
Cruzando a linha para a guerra
Enquanto isso, há relatos de inteligência circulando por todas as capitais da Europa dizendo que os sírios já prepararam parte de seu gás venenoso para uso. Segundo esses relatos, armas químicas individuais estão sendo preparadas para combate, restando apenas montá-las nos sistemas de lançamento, como um míssil Scud ou uma aeronave especial de transporte militar. Mas ninguém pode dizer quão críveis ou confiáveis são esses vários relatórios de inteligência.
O ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, e o primeiro-ministro Netanyahu reafirmaram na semana passada que seria um “casus belli” se armas químicas caíssem nas mãos do Hizbollah. Ao dizer que nem Israel e nem os Estados Unidos poderiam aceitar isso, Netanyahu confirmou indiretamente a especulação de que os Estados Unidos poderiam dar a Israel carta branca para atacar um comboio do Hizbollah transportando armas químicas da Síria para o Líbano.
“Se tivermos informação de que o Hizbollah ou a Al Qaeda estão prestes a botar as mãos em armas não convencionais, nós não pouparemos esforços para impedir isso”, acrescenta Danny Yatom, um ex-chefe do Mossad. Ele acrescenta que até mesmo ataques aéreos contra depósitos de armas não estão descartados se o Hizbollah estiver prestes a botar suas mãos em gás venenoso.
Isso foi confirmado na semana passada por um alto oficial em Jerusalém: “Se os sírios prepararem seus mísseis, os armarem com ogivas químicas ou os deixarem para o Hizbollah, isso seria visto como um motivo para atacar a Síria –mesmo que levasse à guerra. Um país precisa manter suas linhas vermelhas”.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Ronen Bergman, Juliane Von Mittelstaedt, Matthias Schepp e Holger Stark - Der Spiegel
Enquanto a batalha contra os rebeldes sírios chega a um novo estágio, Israel está preocupado com a possibilidade do presidente Assad usar seu vasto arsenal de armas químicas contra seu próprio povo e vizinhos –ou até mesmo dar parte dele ao Hizbollah. Apesar de muitos especialistas considerarem isso improvável, Israel está avaliando se ataca ou não.
O pequeno vilarejo de Buqata fica localizado no lado israelense da fronteira que se estende pelas Colinas de Golan. Daqui, é possível ver uma grande extensão do território sírio. Bem no pé da colina fica Jubata al Khashab, uma cidade a apenas 55 quilômetros a sudoeste de Damasco, a capital da Síria.
Todo dia, centenas de israelenses preocupados se reúnem ao longo do arame farpado na fronteira e usam binóculos para espiar seus vizinhos em Jubata al Khashab, que recentemente foram alvo de fogo de artilharia. Nuvens espessas de fumaça se erguiam dos prédios de apartamento dali.
A guerra está próxima e, sempre que um ditador árabe cai, a ansiedade se espalha por Israel: será que a queda do tirano arrastará o Estado judeu e talvez toda a região para o caos? Esse medo já existia em 2003, quando os Estados Unidos e seus aliados atacaram o Iraque e derrubaram Saddam Hussein. A história foi semelhante com a queda do líder líbio, Muammar Gaddafi e, até certo ponto, com a queda do presidente do Egito, Hosni Mubarak. Agora, esse medo foi reaceso.
Na última quinta-feira, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, viu o governante sírio, Bashar Assad, a caminho da queda e considerou que preparativos para uma “nova era” estavam em andamento. Mas o regime em Damasco anunciou batalhas decisivas na luta contra os rebeldes –em Aleppo, a maior cidade do país, próxima da fronteira turca.
Na semana passada, Assad posicionou milhares de soldados no norte para retomar essa cidade de 2 milhões de habitantes, onde 5.500 oponentes do regime estariam entrincheirados. Uma batalha decisiva em Aleppo, um antigo centro de comércio e cuja cidade velha é um Patrimônio da Humanidade da Unesco? Victoria Nuland, a porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, alertou posteriormente contra um “massacre” iminente.
Cenários horríveis
Aleppo fica a cerca de 400 quilômetros das Colinas de Golan, mas os israelenses reforçaram as barreiras na fronteira nos últimos dias e enviaram soldados adicionais para a área. Eles também temem que uma onda de refugiados atravesse pela fronteira para Israel.
“Nós podemos ver os combates daqui, os morteiros; nós podemos ouvir os ecos das balas da batalha entre o exército sírio e os grupos rebeldes. A 200 metros ao sul nós podemos ver a ONU, e 800 metros a oeste há a cerca da fronteira. Isso mostra o quanto a desintegração do regime está longe de abstrata; ela é real e está chegando cada vez mais perto.” Foi assim que o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, descreveu recentemente a situação. Ele disse que Israel precisa estar preparado para cada cenário.
Em Jerusalém, é possível imaginar vários deles. Por exemplo, um cenário de horror no qual terroristas poderiam atacar Israel com foguetes, inclusive das Colinas de Golan, em meio ao caos geral. Mas os líderes militares estão ainda mais preocupados com as armas químicas do regime sírio. Elas poderiam ser levadas para o Líbano pelo Hizbollah ou cair nas mãos de terroristas na Síria. Ou, como último recurso, Assad poderia lançar mísseis armados com gás venenoso contra Israel, assim como contra a Jordânia e a Turquia.
Por outro lado, vendo que a Síria não fez nenhum disparo contra Israel em três décadas, por que o país recorreria agora ao uso de armas químicas? De fato, especialistas em Jerusalém são incrivelmente unânimes em sua avaliação de que um ataque direto é improvável. Mas isso não impediu Israel de realizar exercícios de simulação de ataque com gás venenoso em Haifa, e o número de israelenses pegando máscaras de gás nos centros de distribuição quase dobrou nos últimos dias.
Há um medo profundo da reação irracional dos déspotas sempre que a sobrevivência deles está ameaçada. Armas químicas já foram usadas inescrupulosamente na região em mais de uma ocasião. Nos anos 60, o Egito usou bombas com gás venenoso durante a intervenção do Cairo na guerra civil do Iêmen. E nos anos 80, Saddam Hussein usou gás venenoso contra soldados iranianos durante a Guerra Irã-Iraque –e matou um grande número de sua própria população.
“Assim que o Hizbollah botar suas mãos em armas químicas, alguém os ensinará como usá-las”, diz Isaac Ben Israel, o ex-chefe do departamento de pesquisa das forças armadas israelenses. “Os iranianos e os sírios já os ensinaram como lançar mísseis de longo alcance.”
Uma enorme infraestrutura de armas químicas
Também é provável que os americanos e seus aliados estejam se preparando para proteger os mísseis, gases venenosos e sistemas de armas modernas no caso de um colapso do regime Assad. Em maio, sob liderança americana, 12 mil soldados de 19 países treinaram na Jordânia para uma missão conjunta. Essa força certamente seria pequena demais em caso de uma operação militar plena na Síria. Segundo um estudo interno do Pentágono, 75 mil soldados seriam necessários apenas para colocar os depósitos de armas químicas sob controle.
Os depósitos de armas químicas estão entre os locais mais protegidos de toda a Síria. O exército de Assad controla barreiras nas estradas de acesso quilômetros antes dos portões, e os próprios depósitos são protegidos por dois anéis de cercas protetoras e guardas. Os soldados responsáveis pela proteção dessas instalações estão entre os apoiadores mais leais do regime. Uma das instalações fica a nordeste de Damasco, outra perto de Homs, e uma terceira –onde o agente nervoso VX, sarin e tabun são supostamente fabricados– fica localizada perto de Hama.
As duas principais instalações ficam nas cidades de Masyaf e al Safir, no norte da Síria, onde munições químicas são produzidas e mísseis Scud e rampas de lançamento ficam posicionados. Segundo o “Jane’s Intelligence Review”, uma revista britânica voltada para assuntos de segurança global, o Irã ajuda os sírios em várias dessas instalações. As instalações de produção e armazenamento são operadas pelo Centro de Estudos Científicos e Pesquisa, que emprega mais de 10 mil pessoas. Os relatórios sobre a extensão do arsenal químico variam muito, mas estimativas conservadoras obtidas pelo governo alemão o colocam em aproximadamente 1.000 toneladas.
Localizado em um vale a cerca de 20 quilômetros a sudeste de Aleppo, o complexo de Al Safir seria a maior e mais importante instalação de armas químicas de toda a Síria. Três instalações de produção operam em uma área que cobre cinco quilômetros quadrados. Al Safir não é uma base militar comum. Em seus cantos no nordeste e no noroeste, ela é protegida por mísseis antiaéreos de fabricação russa, que supostamente oferecem ampla proteção contra ataques aéreos. Uma foto por satélite de 2008 revela as posições das instalações de radar e rampas de lançamento.
Conexões russo-sírias
A Síria provavelmente começou a produzir armas químicas nos anos 80. A ideia original era empregá-las em caso de uma guerra com Israel. Posteriormente, a intenção passou a ser de usar as armas apenas para dissuasão.
Elas consistiam inicialmente de bombas cheias com gás sarin e projetadas para serem jogadas por aviões. Ogivas para mísseis Scud também foram posteriormente desenvolvidas, e agora acredita-se que a Síria tenha cerca de 700 dessas armas. Segundo fontes da inteligência israelense, grande parte da perícia veio da União Soviética e da antiga Tchecoslováquia, mas empresas privadas do Japão e da Europa Ocidental também teriam ajudado os sírios.
Em meados dos anos 90, a Síria supostamente conseguiu fabricar o VX –o agente nervoso mais tóxico de todos. Um russo teve um papel importante aqui: o general Anatoly Kuntsevich, o homem que o ex-presidente russo Boris Yeltson nomeou nos anos 90 como conselheiro nos esforços para eliminação de armas químicas.
Moscou é a maior aliada da Síria desde os anos 60. Até o colapso da União Soviética, o Kremlin forneceu ao seu Estado satélite no Oriente Médio armas convencionais no valor de cerca de US$ 26 bilhões, incluindo aeronaves, tanques e mísseis Scud.
Moscou sempre negou categoricamente que Damasco também recebeu armas químicas. “A União Soviética não costumava exportar armas de destruição em massa para o exterior ou armas químicas”, diz Igor Korotchenko, presidente do Conselho Público do Ministério da Defesa e editor-chefe da revista “National Defense”.
Mas em 1963, logo após o Partido Baath socialista tomar o poder em Damasco, o Kremlin lançou um abrangente programa de treinamento. Mais de 50 mil estudantes sírio frequentariam as universidades soviéticas, incluindo 9.500 que estudaram em academias militares
Nos anos 90, os russos ainda posicionavam agentes de inteligência nas Colinas de Golan e no norte da Síria. Kuntsevich, o emissário de Yeltsin, entrou no país em várias ocasiões durante esse período. O especialista em armas químicas supostamente estabeleceu conexões com importantes membros do regime sírio, recebeu grande quantidade de dinheiro deles e, em troca, forneceu detalhes sobre como fabricar o VX. Ele também teria enviado 800 litros de produtos químicos para a Síria, necessários para a produção do gás venenoso.
Os esforços israelenses para atrapalhar a produção de armas químicas
Os israelenses estavam preocupados. Mas em 3 de abril de 2002, Kuntsevich –um ganhador do Prêmio Lenin e, mais recentemente, um funcionário do Instituto Zelinsky de Química Orgânica, em Moscou– morreu em um voo de Damasco para Moscou. As circunstâncias de sua morte permanecem misteriosas, juntamente com a inscrição em sua lápide no Cemitério Troyekurovskoye, no oeste de Moscou, onde a data de sua morte está marcada como sendo 29 de março.
A morte de Kuntsevich é tão obscura quanto a morte de Yuri Ivanov. O vice-chefe da GRU, o serviço de inteligência militar estrangeira da Rússia, morreu em meados de 2010, supostamente após um acidente enquanto nadava na Síria.
Há especulação de que o Mossad, o serviço de inteligência estrangeira de Israel, pode ter estado por trás das mortes de ambos os homens. Além disso, um dossiê confidencial da CIA compilado durante os últimos anos da vida de Kuntsevich chega à conclusão alarmante de que a Síria conseguiu produzir grandes quantidades de armas químicas.
Também permanece um mistério o que aconteceu em 25 de julho de 2007, no depósito de armas químicas de Al Safir. Naquele dia, um acidente ocorreu na linha de produção dos componentes para o gás venenoso, uma instalação construída em conjunto pelos sírios e pelos norte-coreanos. Um dos canos de abastecimento da instalação estourou –e em questão de segundos toda a instalação estava em chamas. A explosão foi tamanha que as portas foram arrancadas do prédio, fazendo o gás escapar e se espalhar por todo o complexo. A explosão teria matado 15 sírios e 10 engenheiros iranianos que estariam no local no momento.
Investigações conduzidas por uma equipe nomeada por Assad concluíram que o incidente deve ter sido resultado de um ato de sabotagem. Um ministro israelense descreveu posteriormente de modo irônico que a explosão de Al Safir foi um “acidente maravilhoso”.
Até então, os israelenses achavam que sabiam mais ou menos a extensão dos esforços da Síria para produção de armas químicas. Mas em fevereiro de 2010, a linha vermelha foi atravessada pela primeira vez, quando a inteligência israelense avistou um comboio de caminhões que partiu de Al Safir e cruzou a fronteira para o Líbano.
Os israelenses presumiram que se tratava de uma carga de componentes de mísseis Scud destinada ao Hizbollah. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi orientado a lançar ataques aéreos contra o comboio. Apesar de ter decidido contra isso, ele repassou a informação aos americanos. Em 1º de março, o embaixador sírio em Washington foi convocado ao Departamento de Estado americano, onde foi deixado claro para ele que, devido ao risco real de guerra, os Estados Unidos esperavam que a Síria evitasse armar o Hizbollah.
Caso o Hizbollah já conte com sistemas de armas não convencionais posicionados na vizinha Síria há algum tempo para protegê-lo de ataques israelenses, então seria aconselhável ao mundo permanecer vigilante. De fato, abandonar essas armas porque a linha de fornecimento pela Síria provavelmente seria cortada representaria uma grande perda para a organização terrorista. No momento em que Assad for derrubado, o Hizbollah e a Guarda Revolucionária Iraniana provavelmente optariam por transportar essas armas para o Líbano. Isso, por sua vez, seria um motivo para Israel ir à guerra
Protegendo as armas químicas
Diante dessas circunstâncias, não causa surpresa que os serviços de inteligência israelenses estejam monitorando atentamente cada movimento em torno das instalações conhecidas de armas químicas sírias, como a de Al Safir.
Poucas semanas atrás, eles notaram que o exército sírio começou a evacuar um de seus depósitos de armas químicas em um campo de aviação militar perto de Homs. Caminhões vazios entraram no depósito e foram carregados. Parecia que todo o estoque estava sendo transferido para outro lugar. Segundo conclusões da Bundesnachrichtendienst (BND), a agência de inteligência estrangeira da Alemanha, VX e sarin foram transferidos durante o transporte.
Todavia, não há sinais de que Assad pretende usar gás venenoso no atual conflito militar. Em vez disso, há muitos indícios de que o regime está transferindo essas armas arriscadas para a região deserta no leste. Essa suposição também é apoiada pelo fato de o governo ter reforçado enormemente as medidas de segurança em todas as instalações militares, substituído alguns dos destacamentos militares e colocado alauitas leais ao regime em posições-chave.
Mas o debate foi alimentado pelos relatos que o Mossad enviou para vários parceiros semanas atrás, incluindo o governo alemão. O Mossad alertou que o Hizbollah pode já estar de posse de algumas partes do arsenal químico, e argumenta que Assad enviou as entregas iniciais ao Líbano por caminhão como uma espécie de apólice de seguro.
A notícia causou sensação no mundo dos serviços de inteligência –mas provavelmente não é verdadeira. Qualquer um que pretenda usar gás venenoso altamente avançado precisa de especialistas treinados e sistemas de lançamento. Até agora, não há sinais de que o Hizbollah possui essas capacidades ou de rampas de lançamento de Scuds no Líbano.
E do ponto de vista político, os motivos para não praticar tamanha transferência de tecnologia superam os benefícios esperados. Assad estaria usando sua carta mais forte e talvez a última; ele armaria o líder do Hizbollah, Hassan Nasrallah, que há muito se emancipou da influência de Damasco –sem saber se o Hizbollah agiria de acordo com os interesses do ditador. Já ficou dolorosamente aparente que a milícia xiita está mantendo um perfil incrivelmente discreto diante da luta de Assad pela sobrevivência. Se, quando e como Nasrallah usaria as armas químicas é incalculável –até mesmo para Assad.
Cruzando a linha para a guerra
Enquanto isso, há relatos de inteligência circulando por todas as capitais da Europa dizendo que os sírios já prepararam parte de seu gás venenoso para uso. Segundo esses relatos, armas químicas individuais estão sendo preparadas para combate, restando apenas montá-las nos sistemas de lançamento, como um míssil Scud ou uma aeronave especial de transporte militar. Mas ninguém pode dizer quão críveis ou confiáveis são esses vários relatórios de inteligência.
O ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, e o primeiro-ministro Netanyahu reafirmaram na semana passada que seria um “casus belli” se armas químicas caíssem nas mãos do Hizbollah. Ao dizer que nem Israel e nem os Estados Unidos poderiam aceitar isso, Netanyahu confirmou indiretamente a especulação de que os Estados Unidos poderiam dar a Israel carta branca para atacar um comboio do Hizbollah transportando armas químicas da Síria para o Líbano.
“Se tivermos informação de que o Hizbollah ou a Al Qaeda estão prestes a botar as mãos em armas não convencionais, nós não pouparemos esforços para impedir isso”, acrescenta Danny Yatom, um ex-chefe do Mossad. Ele acrescenta que até mesmo ataques aéreos contra depósitos de armas não estão descartados se o Hizbollah estiver prestes a botar suas mãos em gás venenoso.
Isso foi confirmado na semana passada por um alto oficial em Jerusalém: “Se os sírios prepararem seus mísseis, os armarem com ogivas químicas ou os deixarem para o Hizbollah, isso seria visto como um motivo para atacar a Síria –mesmo que levasse à guerra. Um país precisa manter suas linhas vermelhas”.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
EUA AUMENTAM A PRESSÃO CONTRA O IRÃ
Obama amplia sanções contra bancos que ajudam Irã
Laura MacInnis, Roberta Rampton e Samson Reiny - Reuters
O presidente norte-americano, Barack Obama, anunciou novas sanções dos Estados Unidos nesta terça-feira contra bancos estrangeiros que ajudam o Irã a vender o seu petróleo, um esforço que, segundo ele, aumentará a pressão sobre o país por não cumprir suas obrigações nucleares internacionais.
A decisão de Obama, tomada por ordem executiva, acontece antes de uma votação no Congresso de novas sanções destinadas a limitar a receita iraniana proveniente do petróleo.
Obama tem sido criticado por seu rival eleitoral, o republicano Mitt Romney, por não conseguir agir com firmeza suficiente para impedir o Irã de conseguir desenvolver uma arma nuclear.
Em comunicado, Obama disse que os Estados Unidos permaneciam comprometidos em encontrar uma solução diplomática para o impasse com o Irã, mas que também continuavam dispostos a "responsabilizar o governo iraniano por suas ações".
"Se o governo iraniano continuar desafiando, não há dúvidas de que os Estados Unidos e nossos parceiros continuarão a impor mais sanções", ele disse.
As novas sanções têm como alvo bancos estrangeiros que fazem transações com o petróleo iraniano ou conduzem grandes operações da Companhia Nacional de Petróleo Iraniano ou a Companhia Naftiran Intertrade, duas importantes empresas do setor.
A ordem também atinge o banco chinês Bank of Kunlun e o iraquiano Elaf Islamic Bank por fornecer serviços a bancos iranianos.
As novas medidas ajudarão a limitar os esforços do Irã de escapar das sanções dos Estados Unidos, disse Mark Dubowitz, diretor do grupo sem fins lucrativos Fundação para a Defesa de Democracias, que defende sanções mais duras contra a República Islâmica.
Mas ele afirmou que mais medidas são necessárias para incomodar o setor de energia do Irã e para forçar países a diminuir suas compras de petróleo iraniano.
Laura MacInnis, Roberta Rampton e Samson Reiny - Reuters
O presidente norte-americano, Barack Obama, anunciou novas sanções dos Estados Unidos nesta terça-feira contra bancos estrangeiros que ajudam o Irã a vender o seu petróleo, um esforço que, segundo ele, aumentará a pressão sobre o país por não cumprir suas obrigações nucleares internacionais.
A decisão de Obama, tomada por ordem executiva, acontece antes de uma votação no Congresso de novas sanções destinadas a limitar a receita iraniana proveniente do petróleo.
Obama tem sido criticado por seu rival eleitoral, o republicano Mitt Romney, por não conseguir agir com firmeza suficiente para impedir o Irã de conseguir desenvolver uma arma nuclear.
Em comunicado, Obama disse que os Estados Unidos permaneciam comprometidos em encontrar uma solução diplomática para o impasse com o Irã, mas que também continuavam dispostos a "responsabilizar o governo iraniano por suas ações".
"Se o governo iraniano continuar desafiando, não há dúvidas de que os Estados Unidos e nossos parceiros continuarão a impor mais sanções", ele disse.
As novas sanções têm como alvo bancos estrangeiros que fazem transações com o petróleo iraniano ou conduzem grandes operações da Companhia Nacional de Petróleo Iraniano ou a Companhia Naftiran Intertrade, duas importantes empresas do setor.
A ordem também atinge o banco chinês Bank of Kunlun e o iraquiano Elaf Islamic Bank por fornecer serviços a bancos iranianos.
As novas medidas ajudarão a limitar os esforços do Irã de escapar das sanções dos Estados Unidos, disse Mark Dubowitz, diretor do grupo sem fins lucrativos Fundação para a Defesa de Democracias, que defende sanções mais duras contra a República Islâmica.
Mas ele afirmou que mais medidas são necessárias para incomodar o setor de energia do Irã e para forçar países a diminuir suas compras de petróleo iraniano.
RÚSSIA: GRUPO PUNK CAUSA PROBLEMA POLÍTICO-RELIGIOSO PARA PUTIN RESOLVER
Julgamento de mulheres de grupo punk se transforma em causa contra o laicismo na Rússia
Pilar Bonet - El Pais
Na última segunda-feira (30) começou o polêmico processo contra três integrantes do grupo musical Pussy Riot, acusadas de atentado ao pudor e de ofender os sentimentos religiosos dos ortodoxos por sua incursão provocadora na catedral do Cristo Salvador, em Moscou.
Na manhã de 21 de fevereiro, com o rosto coberto por gorros com buracos e vestidas com roupas chamativas, Nadia Tolokonnikova, Maria Alekhina e Yekaterina Samutsevich subiram ao altar e entoaram versos contra Vladimir Putin e sua relação com a Igreja Ortodoxa russa.
As garotas não chegaram a conectar a guitarra elétrica e o alto-falante que levaram. Em sua aventura fugaz, mal articularam meia estrofe. As pessoas as ouviram dizer: "Mãe de Deus, expulse Putin" e também "Mãe de Deus, torne-se feminista". E repetir: "merda, merda, merda de Deus". Esta última frase aparentemente se referia à hierarquia da maior confissão religiosa do país, por suas atividades comerciais e seu apoio a Putin. A Igreja Ortodoxa tem uma posição mais ativa na vida política da Rússia desde que Kiril chegou ao patriarcado.
As pessoas que estavam no templo --entre elas a limpadora de cera dos candelabros, um vigilante de uma empresa de segurança, um seminarista encarregado do altar e um fiel que entrou para comprar um objeto de culto-- neutralizaram as Pussy Riot e as expulsaram depois de retirar suas máscaras, como relatam os depoimentos colhidos na ata de acusação. O texto afirma que as mulheres agiram de forma organizada e premeditada, movidas pelo ódio religioso, e infligiram "grandes sofrimentos" aos fiéis. A acusação fala em "blasfêmia", "sacrilégio" e "ataque ao caráter sacramental do segredo eclesiástico", termos que, segundo Marketing Feigin, o advogado das Pussy Riot, não estão identificados no Código Penal da Federação Russa, que oficialmente é um Estado laico.
"A ata de acusação reflete uma realidade política, e não jurídica nem penal", indica Feigin. "Todas as invocações à esfera metafísica, religiosa e moral são tentativas artificiais de forçar a existência de crime, mas é preciso saber um pouco de religião e filosofia para conseguir um texto convincente", opina. Feigin diz que o juiz rejeitou 35 testemunhas que ele havia proposto, entre elas o patriarca Kiril. As testemunhas de acusação são exatamente a limpadora, o vigilante e o seminarista, e todos se dizem cristãos fervorosos e informam que foram batizados e, em alguns casos, guardam o jejum. Feigin afirma que não deram importância ao incidente e depois mudaram repentinamente de opinião.
No início de março, as três mulheres (uma filósofa, uma jornalista e uma fotógrafa, todas feministas, segundo Feigin) foram detidas e estão presas à espera do julgamento. Poderão ser condenadas a um máximo de sete anos de prisão. O incidente pode ser resolvido com uma multa, uma detenção ou uma pena de trabalhos sociais, mas se transformou em uma disputa entre o sistema representado por Putin e os defensores do Estado laico.
Feigin acredita que Putin pessoalmente está na origem da severidade empregada com elas. A Justiça russa é muito dependente do poder político quando se trata dos interesses do Kremlin. Petr Verzilov, o marido de Tolokonnikova, afirma que lhe negaram cinco vezes autorização para que sua filha Guera, de 4 anos, visitasse sua mãe. As Pussy Riot foram declaradas prisioneiras de consciência pela Anistia Internacional.
O processo transcorre no tribunal Khamovnichesky de Moscou, o mesmo lugar onde foi processado o magnata Mikhail Khodorkovski. "O petroleiro havia rompido um pacto com o Kremlin e havia dinheiro e interesses materiais no meio. As Pussy não têm dinheiro, mas tocaram um ponto delicado no esquema de Putin", salienta Feigin. "De forma paranoica, Putin interpreta uma apelação à virgem na igreja como um desafio pessoal. Neste caso é uma prova do desenvolvimento do autoritarismo na Rússia", declara o advogado. Em Berlim, em março, Putin pediu perdão ao clero e aos fiéis pela ação das garotas e declarou: "Espero que isso não volte a acontecer". De nada serviram os apelos assinados por personagens do mundo da cultura e fiéis ortodoxos para que se relaxe o tratamento severo que as mulheres recebem. Muitos dos signatários condenam seu comportamento do ponto de vista moral e o julgam provocativo, inadequado e de mau gosto.
Em uma entrevista, as Pussy Riot afirmaram que respeitam as religiões, entre elas a ortodoxa, e que por isso rejeitam a "suja utilização da grande filosofia cristã". Jogando com as palavras "khram" (igreja) e "sram" (merda), afirmam que a igreja de Cristo Salvador é na realidade a "merda do Cristo Salvador". Não se trata da "casa de Deus, senão do escritório da Igreja Ortodoxa russa". Esse templo "não se parece com um lugar de vida espiritual, e sim com um centro de negócios, com salas de banquetes que são alugadas, uma lavanderia e um estacionamento de automóveis vigiado", afirmavam. Em abril, o patriarca Kiril mostrou a força da ortodoxia diante do liberalismo e levou às ruas 65 mil pessoas, "em defesa da fé, dos santuários profanados e da igreja".
As mulheres poderiam ter sido julgadas por um crime menor, mas a Justiça escolheu um considerado grave, o que permitiu prendê-las de imediato e enviá-las para uma prisão remota se forem declaradas culpadas. As repercussões do caso chegaram longe.
Petr Verzilov, que junto com Tolokonnikova foi um dos fundadores do grupo artístico Voina (dedicado à arte provocativa), declara que o conjunto americano de punk Antiflag dará um show em Berlim dedicado às Pussy Riot.
As rimas da discórdia foram traduzidas para vários idiomas e dizem assim: "Mãe de Deus, virgem, expulse Putin / expulse Putin, expulse Putin / batina negra, galões dourados / todos os fiéis se arrastam para fazer uma reverência / nos céus há um fantasma da liberdade / o orgulho gay foi preso e enviado à Sibéria / o chefe do KGB, seu santo chefe / leva os que protestam vigiados ao calabouço / para não ofender sua santidade, as mulheres devem parir e amar / [vocês são] a merda, merda, merda de Deus.".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Pilar Bonet - El Pais
Na última segunda-feira (30) começou o polêmico processo contra três integrantes do grupo musical Pussy Riot, acusadas de atentado ao pudor e de ofender os sentimentos religiosos dos ortodoxos por sua incursão provocadora na catedral do Cristo Salvador, em Moscou.
Na manhã de 21 de fevereiro, com o rosto coberto por gorros com buracos e vestidas com roupas chamativas, Nadia Tolokonnikova, Maria Alekhina e Yekaterina Samutsevich subiram ao altar e entoaram versos contra Vladimir Putin e sua relação com a Igreja Ortodoxa russa.
As garotas não chegaram a conectar a guitarra elétrica e o alto-falante que levaram. Em sua aventura fugaz, mal articularam meia estrofe. As pessoas as ouviram dizer: "Mãe de Deus, expulse Putin" e também "Mãe de Deus, torne-se feminista". E repetir: "merda, merda, merda de Deus". Esta última frase aparentemente se referia à hierarquia da maior confissão religiosa do país, por suas atividades comerciais e seu apoio a Putin. A Igreja Ortodoxa tem uma posição mais ativa na vida política da Rússia desde que Kiril chegou ao patriarcado.
As pessoas que estavam no templo --entre elas a limpadora de cera dos candelabros, um vigilante de uma empresa de segurança, um seminarista encarregado do altar e um fiel que entrou para comprar um objeto de culto-- neutralizaram as Pussy Riot e as expulsaram depois de retirar suas máscaras, como relatam os depoimentos colhidos na ata de acusação. O texto afirma que as mulheres agiram de forma organizada e premeditada, movidas pelo ódio religioso, e infligiram "grandes sofrimentos" aos fiéis. A acusação fala em "blasfêmia", "sacrilégio" e "ataque ao caráter sacramental do segredo eclesiástico", termos que, segundo Marketing Feigin, o advogado das Pussy Riot, não estão identificados no Código Penal da Federação Russa, que oficialmente é um Estado laico.
"A ata de acusação reflete uma realidade política, e não jurídica nem penal", indica Feigin. "Todas as invocações à esfera metafísica, religiosa e moral são tentativas artificiais de forçar a existência de crime, mas é preciso saber um pouco de religião e filosofia para conseguir um texto convincente", opina. Feigin diz que o juiz rejeitou 35 testemunhas que ele havia proposto, entre elas o patriarca Kiril. As testemunhas de acusação são exatamente a limpadora, o vigilante e o seminarista, e todos se dizem cristãos fervorosos e informam que foram batizados e, em alguns casos, guardam o jejum. Feigin afirma que não deram importância ao incidente e depois mudaram repentinamente de opinião.
No início de março, as três mulheres (uma filósofa, uma jornalista e uma fotógrafa, todas feministas, segundo Feigin) foram detidas e estão presas à espera do julgamento. Poderão ser condenadas a um máximo de sete anos de prisão. O incidente pode ser resolvido com uma multa, uma detenção ou uma pena de trabalhos sociais, mas se transformou em uma disputa entre o sistema representado por Putin e os defensores do Estado laico.
Feigin acredita que Putin pessoalmente está na origem da severidade empregada com elas. A Justiça russa é muito dependente do poder político quando se trata dos interesses do Kremlin. Petr Verzilov, o marido de Tolokonnikova, afirma que lhe negaram cinco vezes autorização para que sua filha Guera, de 4 anos, visitasse sua mãe. As Pussy Riot foram declaradas prisioneiras de consciência pela Anistia Internacional.
O processo transcorre no tribunal Khamovnichesky de Moscou, o mesmo lugar onde foi processado o magnata Mikhail Khodorkovski. "O petroleiro havia rompido um pacto com o Kremlin e havia dinheiro e interesses materiais no meio. As Pussy não têm dinheiro, mas tocaram um ponto delicado no esquema de Putin", salienta Feigin. "De forma paranoica, Putin interpreta uma apelação à virgem na igreja como um desafio pessoal. Neste caso é uma prova do desenvolvimento do autoritarismo na Rússia", declara o advogado. Em Berlim, em março, Putin pediu perdão ao clero e aos fiéis pela ação das garotas e declarou: "Espero que isso não volte a acontecer". De nada serviram os apelos assinados por personagens do mundo da cultura e fiéis ortodoxos para que se relaxe o tratamento severo que as mulheres recebem. Muitos dos signatários condenam seu comportamento do ponto de vista moral e o julgam provocativo, inadequado e de mau gosto.
Em uma entrevista, as Pussy Riot afirmaram que respeitam as religiões, entre elas a ortodoxa, e que por isso rejeitam a "suja utilização da grande filosofia cristã". Jogando com as palavras "khram" (igreja) e "sram" (merda), afirmam que a igreja de Cristo Salvador é na realidade a "merda do Cristo Salvador". Não se trata da "casa de Deus, senão do escritório da Igreja Ortodoxa russa". Esse templo "não se parece com um lugar de vida espiritual, e sim com um centro de negócios, com salas de banquetes que são alugadas, uma lavanderia e um estacionamento de automóveis vigiado", afirmavam. Em abril, o patriarca Kiril mostrou a força da ortodoxia diante do liberalismo e levou às ruas 65 mil pessoas, "em defesa da fé, dos santuários profanados e da igreja".
As mulheres poderiam ter sido julgadas por um crime menor, mas a Justiça escolheu um considerado grave, o que permitiu prendê-las de imediato e enviá-las para uma prisão remota se forem declaradas culpadas. As repercussões do caso chegaram longe.
Petr Verzilov, que junto com Tolokonnikova foi um dos fundadores do grupo artístico Voina (dedicado à arte provocativa), declara que o conjunto americano de punk Antiflag dará um show em Berlim dedicado às Pussy Riot.
As rimas da discórdia foram traduzidas para vários idiomas e dizem assim: "Mãe de Deus, virgem, expulse Putin / expulse Putin, expulse Putin / batina negra, galões dourados / todos os fiéis se arrastam para fazer uma reverência / nos céus há um fantasma da liberdade / o orgulho gay foi preso e enviado à Sibéria / o chefe do KGB, seu santo chefe / leva os que protestam vigiados ao calabouço / para não ofender sua santidade, as mulheres devem parir e amar / [vocês são] a merda, merda, merda de Deus.".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
França queria a Grande Síria dividida em Cinco Estados
Gustavo Chacra - OESP
A idéia da França, quando colonizou a Síria e o Líbano, era a construção de cinco Estados. Um deles seria para os cristãos, onde hoje está o Líbano. Os druzos teriam uma nação em uma área ao redor das colinas do Golã. Os alauítas ficariam com a costa mediterrânea. Damasco seria o quarto Estado e Aleppo, o quinto.
No fim, apenas o primeiro obteve sucesso. Ou, pelo menos, existe como Estado nação com uma divisão sectária de poder na qual o presidente e metade do Parlamento são cristãos, embora, segundo estimativas, somando todas as denominações, esta religião represente cerca de 40% do total. Os demais quatro foram unificados como Síria.
Com a eclosão da guerra civil síria, começaram as especulações de balcanização do país, com novas subdivisões, similares às dos imperialistas franceses no pós Grande Guerra. Ainda é cedo para dizer se isso ocorrerá. Mas parece claro que os opositores demorarão muito tempo para conquistar bastiões alauítas em Latakia e nas montanhas da encosta no Mediterrâneo.
Gustavo Chacra - OESP
A idéia da França, quando colonizou a Síria e o Líbano, era a construção de cinco Estados. Um deles seria para os cristãos, onde hoje está o Líbano. Os druzos teriam uma nação em uma área ao redor das colinas do Golã. Os alauítas ficariam com a costa mediterrânea. Damasco seria o quarto Estado e Aleppo, o quinto.
No fim, apenas o primeiro obteve sucesso. Ou, pelo menos, existe como Estado nação com uma divisão sectária de poder na qual o presidente e metade do Parlamento são cristãos, embora, segundo estimativas, somando todas as denominações, esta religião represente cerca de 40% do total. Os demais quatro foram unificados como Síria.
Com a eclosão da guerra civil síria, começaram as especulações de balcanização do país, com novas subdivisões, similares às dos imperialistas franceses no pós Grande Guerra. Ainda é cedo para dizer se isso ocorrerá. Mas parece claro que os opositores demorarão muito tempo para conquistar bastiões alauítas em Latakia e nas montanhas da encosta no Mediterrâneo.
PSICOPATA IRANIANO ESTÁ ENVOLVIDO EM UMA SÉRIE DE ESCÂNDALOS ENVOLVENDO HOMENS DE SUA CONFIANÇA
No Irã, dois casos atingem negativamente o presidente Ahmadinejad
Rick Gladstone e Christine Hauser - NYTO presidente Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, sofreu embaraços em duas decisões na Justiça na segunda-feira (30/7), no que analistas iranianos chamaram de possível sinal de maior isolamento em seu último ano no cargo.
Quatro pessoas foram condenadas à morte em um escândalo de desvio de US$ 2,6 bilhões (em torno de R$ 5,2 bilhões), que foi indiretamente ligado ao principal assessor de Ahmadinejad e durante seu governo. As sentenças, divulgadas pela Agência de Notícias da República Islâmica, foram as primeiras dadas aos 39 condenados no escândalo, que vinha revoltando o Irã desde que foi descoberto, no ano passado.
A Justiça não identificou os quatro réus condenados, que têm direito a recurso, mas os analistas iranianos disseram que muitas pessoas implicadas na fraude estavam ligadas a funcionários nomeados por Ahmadinejad.
No segundo caso, a Suprema Corte determinou a demissão de Saeed Mortazavi do cargo de diretor-executivo do Fundo de Segurança Social, que administra a assistência social no Irã. Ele foi promotor de Teerã, muito criticado pelos dissidentes por seu papel na repressão das manifestações que irromperam após a reeleição suspeita em junho de 2009.
Quando um comitê parlamentar investigou os abusos após as eleições, há dois anos, concluiu que Mortazavi foi o responsável pela tortura e morte de ao menos três manifestantes, inclusive o filho de um alto funcionário, em um centro de detenção famoso.
Em uma afronta aos legisladores, Ahmadinejad reagiu promovendo Mortazavi, que fazia parte do círculo interno do presidente.
Não ficou claro se a decisão da Justiça terá influência sobre o processo criminal de Mortazavi, que sempre negou as acusações parlamentares do comitê. Mas sua demissão foi claramente uma censura a Ahmadinejad.
“Realmente, virou o patinho feio”, disse Hadi Ghaemi, diretor-executivo da Campanha Internacional de Direitos Humanos no Irã, um grupo baseado em Nova York. “As sentenças, o caso de fraude sendo investigado com tanta publicidade, assim como a censura de Mortazavi, são indicadores de que haverá mais”.
No que pareceu uma possível retaliação vazada por elementos pró-Ahmadinejad, o advogado-geral de Teerã teria dito, segundo Agência de Notícias da República Islâmica na segunda-feira que Mohammad Javad Larijani, membro da poderosa família conservadora que se opõe a Ahmadinejad, poderá ser processado por fraude imobiliária nos próximos dias. Um dos irmãos de Larijani, Sadegh, é chefe do judiciário em Irã, tornando tal revelação ainda mais embaraçosa.
Ahmadinejad já teve forte apoio do aiatolá Ali Khamenei, supremo líder do país. Os dois tiveram uma briga pública no ano passado, que levou a especulações sobre uma cisão, e desde então houve inúmeros ataques a Ahmadinejad por membros do Parlamento e clérigos influentes buscando prejudica-lo.
Para confrontar a pressão internacional sobre o programa nuclear do Irã, os líderes do Irã procuraram apresentar uma imagem pública de união e colocaram de lado suas diferenças. Khamenei indicou que quer que Ahmadinejad permaneça até o fim do mandato, que expira em junho.
Ahmadinejad não foi acusado de envolvimento no caso de desvio de dinheiro. Mas a extensão da corrupção foi particularmente nociva para Khamenei, que certa vez exortou os promotores a encontrarem os responsáveis e “cortarem as mãos” dos culpados.
Segundo a imprensa estatal, o principal promotor do caso, Gholam Hossein Mohseni-Ejei, disse que além dos quatro réus condenados à morte, dois foram condenados à prisão perpétua e os outros receberam sentenças de até 25 anos.
Os primeiros sinais de corrupção foram revelados em setembro no Banco Melli, o maior banco comercial do Irã, e culminaram com o julgamento, que começou em fevereiro. As autoridades disseram que o escândalo tinha expandido e passou a envolver o uso de documentos falsos para obter crédito de pelo menos sete bancos estatais e privados do Irã. O dinheiro foi usado por quatro anos para comprar empresas estatais, disseram.
Os oponentes de Ahmadinejad no Parlamento associaram o caso ao seu antigo chefe da casa civil, Esfandiar Rahim Mashaei, e a outros que tinham relacionamentos com o principal suspeito, Mahsarid Amir-Mansour Khosravi, proprietário de pelo menos 34 empresas. Mohseni-Ejei disse que Khosravi confessou na prisão e passou a cooperar com as autoridades.
Os nomes dos outros suspeitos não foram divulgados, mas incluem gerentes de filiais do banco e uma série de funcionários acusados de aceitar suborno.
A agência de notícias Fars divulgou que as autoridades haviam pedido que o Canadá extraditasse um suspeito no caso, Mahmoud Reza Khavari, ex-diretor do Banco Melli, que fugiu em setembro quando estourou o escândalo. O Irã não tem tratado de extradição com o Canadá, onde Khavari tem uma casa desde 2005 e dupla cidadania.
A mídia iraniana informou que Khavari havia renunciado no ano passado em uma carta ao ministro das finanças, Shamseddin Hosseini, na qual pedia perdão de Khamenei. Hosseini, aliado do presidente iraniano, aceitou a renúncia, mas foi criticado por isso.
Tradutor: Deborah Weinberg
Rick Gladstone e Christine Hauser - NYTO presidente Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, sofreu embaraços em duas decisões na Justiça na segunda-feira (30/7), no que analistas iranianos chamaram de possível sinal de maior isolamento em seu último ano no cargo.
Quatro pessoas foram condenadas à morte em um escândalo de desvio de US$ 2,6 bilhões (em torno de R$ 5,2 bilhões), que foi indiretamente ligado ao principal assessor de Ahmadinejad e durante seu governo. As sentenças, divulgadas pela Agência de Notícias da República Islâmica, foram as primeiras dadas aos 39 condenados no escândalo, que vinha revoltando o Irã desde que foi descoberto, no ano passado.
A Justiça não identificou os quatro réus condenados, que têm direito a recurso, mas os analistas iranianos disseram que muitas pessoas implicadas na fraude estavam ligadas a funcionários nomeados por Ahmadinejad.
No segundo caso, a Suprema Corte determinou a demissão de Saeed Mortazavi do cargo de diretor-executivo do Fundo de Segurança Social, que administra a assistência social no Irã. Ele foi promotor de Teerã, muito criticado pelos dissidentes por seu papel na repressão das manifestações que irromperam após a reeleição suspeita em junho de 2009.
Quando um comitê parlamentar investigou os abusos após as eleições, há dois anos, concluiu que Mortazavi foi o responsável pela tortura e morte de ao menos três manifestantes, inclusive o filho de um alto funcionário, em um centro de detenção famoso.
Em uma afronta aos legisladores, Ahmadinejad reagiu promovendo Mortazavi, que fazia parte do círculo interno do presidente.
Não ficou claro se a decisão da Justiça terá influência sobre o processo criminal de Mortazavi, que sempre negou as acusações parlamentares do comitê. Mas sua demissão foi claramente uma censura a Ahmadinejad.
“Realmente, virou o patinho feio”, disse Hadi Ghaemi, diretor-executivo da Campanha Internacional de Direitos Humanos no Irã, um grupo baseado em Nova York. “As sentenças, o caso de fraude sendo investigado com tanta publicidade, assim como a censura de Mortazavi, são indicadores de que haverá mais”.
No que pareceu uma possível retaliação vazada por elementos pró-Ahmadinejad, o advogado-geral de Teerã teria dito, segundo Agência de Notícias da República Islâmica na segunda-feira que Mohammad Javad Larijani, membro da poderosa família conservadora que se opõe a Ahmadinejad, poderá ser processado por fraude imobiliária nos próximos dias. Um dos irmãos de Larijani, Sadegh, é chefe do judiciário em Irã, tornando tal revelação ainda mais embaraçosa.
Ahmadinejad já teve forte apoio do aiatolá Ali Khamenei, supremo líder do país. Os dois tiveram uma briga pública no ano passado, que levou a especulações sobre uma cisão, e desde então houve inúmeros ataques a Ahmadinejad por membros do Parlamento e clérigos influentes buscando prejudica-lo.
Para confrontar a pressão internacional sobre o programa nuclear do Irã, os líderes do Irã procuraram apresentar uma imagem pública de união e colocaram de lado suas diferenças. Khamenei indicou que quer que Ahmadinejad permaneça até o fim do mandato, que expira em junho.
Ahmadinejad não foi acusado de envolvimento no caso de desvio de dinheiro. Mas a extensão da corrupção foi particularmente nociva para Khamenei, que certa vez exortou os promotores a encontrarem os responsáveis e “cortarem as mãos” dos culpados.
Segundo a imprensa estatal, o principal promotor do caso, Gholam Hossein Mohseni-Ejei, disse que além dos quatro réus condenados à morte, dois foram condenados à prisão perpétua e os outros receberam sentenças de até 25 anos.
Os primeiros sinais de corrupção foram revelados em setembro no Banco Melli, o maior banco comercial do Irã, e culminaram com o julgamento, que começou em fevereiro. As autoridades disseram que o escândalo tinha expandido e passou a envolver o uso de documentos falsos para obter crédito de pelo menos sete bancos estatais e privados do Irã. O dinheiro foi usado por quatro anos para comprar empresas estatais, disseram.
Os oponentes de Ahmadinejad no Parlamento associaram o caso ao seu antigo chefe da casa civil, Esfandiar Rahim Mashaei, e a outros que tinham relacionamentos com o principal suspeito, Mahsarid Amir-Mansour Khosravi, proprietário de pelo menos 34 empresas. Mohseni-Ejei disse que Khosravi confessou na prisão e passou a cooperar com as autoridades.
Os nomes dos outros suspeitos não foram divulgados, mas incluem gerentes de filiais do banco e uma série de funcionários acusados de aceitar suborno.
A agência de notícias Fars divulgou que as autoridades haviam pedido que o Canadá extraditasse um suspeito no caso, Mahmoud Reza Khavari, ex-diretor do Banco Melli, que fugiu em setembro quando estourou o escândalo. O Irã não tem tratado de extradição com o Canadá, onde Khavari tem uma casa desde 2005 e dupla cidadania.
A mídia iraniana informou que Khavari havia renunciado no ano passado em uma carta ao ministro das finanças, Shamseddin Hosseini, na qual pedia perdão de Khamenei. Hosseini, aliado do presidente iraniano, aceitou a renúncia, mas foi criticado por isso.
Tradutor: Deborah Weinberg
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