Apesar de tudo
Merval Pereira - O Globo
Como a vitória do senador Renan Calheiros era tida como inevitável, o importante é entender por que uma candidatura tão polêmica, para dizer o mínimo, que pode levar o Congresso a um enfrentamento com o Supremo Tribunal Federal, teve passagem tão fácil entre seus pares.
A primeira constatação é que a oposição ao que ele representa ficou abaixo do prometido aos organizadores da anticandidatura de Pedro Taques, do PDT.
Ele recebeu 18 votos quando estava apoiado, teoricamente, pelos votos da oposição (11 do PSDB e 4 do DEM) e mais o dissidente PDT (5 votos), o PSB (4 votos), um do PSOL e pelo menos dois votos dissidentes do PMDB, de Pedro Simon e Jarbas Vasconcellos. Se contarmos os dois votos em branco e os dois nulos como expressões contrárias à candidatura oficial, teríamos um total de 22 votos, quando deveria haver no mínimo 27.
Os votos em branco e nulos, aliás, são expressão concreta de como o corporativismo controla a Casa, pois, mesmo no voto secreto, esses quatro senadores não tiveram a coragem de votar no opositor. Pode ser até que tenham combinado com Renan Calheiros votar dessa maneira para deixar claro que não votariam contra ele.
Outra questão a ser analisada é como os senadores não têm qualquer tipo de preocupação com as manifestações da opinião pública. Uma das explicações possíveis é que, dos eleitores de ontem, nada menos que 21 eram suplentes sem voto, isto é, sem nenhuma ligação direta com o eleitorado.
O senador Lobão Filho, por exemplo, suplente do pai, o ministro Edison Lobão, fez uma defesa da candidatura de Renan Calheiros que, se ocorresse diante de um plenário sério, teria sido um desastre. Lembrou que a última vestal do Senado fora o ex-senador Demóstenes Torres, tragado pelas denúncias de corrupção.
Com isso, Lobão queria defender Renan, mas só fez chamar a atenção para o que meu amigo Márcio Moreira Alves, meu antecessor neste espaço, chamava de “moral homogênea” do PMDB, mote que foi usado pelo deputado Chico Alencar, do PSOL, para criticar a outra candidatura do partido à presidência da Câmara.
Como se sabe, também o deputado Henrique Alves está sendo alvo de diversas denúncias e nem por isso deixará de ser eleito. Um abaixo-assinado na internet, de movimentos da sociedade civil, arregimentou mais de 300 mil assinaturas contra a indicação de Renan Calheiros, mas não houve repercussão interna.
Vários manifestantes apareceram em Brasília, mas também não mexeram com a tendência dos senadores-eleitores, motivados por interesses outros que não os da sociedade. As candidaturas do PMDB acabaram se transformando em motivos de luta política para a base governista, especialmente para o PT, que passou a tratá-las como fundamentais para o projeto governista.
Não houve dissidências no PT, que assumiu Renan como um companheiro que está sendo atacado por uma “ofensiva midiática”, como definiu o ex-ministro José Dirceu, condenado por corrupção passiva e formação de quadrilha pelo STF.
Renan foi elevado à condição de grande personagem da História brasileira, que estaria sendo atacado por ser da base da presidente Dilma. As denúncias do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contra ele passaram a ser tratadas como parte do mesmo complô moralista que estaria sendo montado contra o governo popular petista.
O verdadeiro samba do crioulo doido leva a que certas confusões sejam feitas.
Dirceu disse, por exemplo, que os movimentos que levaram Jânio Quadros, os militares e Fernando Collor ao poder tinham a mesma base pseudomoralista que agora se volta contra Renan Calheiros e o governo Dilma. Mas, na mesma votação, ontem, o antigo “caçador de marajás”, o hoje senador Fernando Collor, estava do lado do governo, criticando o procurador-geral e defendendo seu companheiro Calheiros.
O fato é que o senador Renan Calheiros foi denunciado por peculato e falsidade ideológica, e pode vir a se tornar réu de um processo no Supremo Tribunal Federal. A manutenção de sua candidatura nessas condições é uma clara confrontação com o Supremo, que pode gerar uma crise política perfeitamente evitável se o PMDB tivesse apresentado outro nome para representá-lo na presidência do Senado, como sugeriu o senador Aécio Neves, ao mesmo tempo garantindo o apoio do PSDB ao critério da proporcionalidade, mas assumindo uma posição claramente contrária à candidatura de Renan.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Oposição também deu aval a Renan, mas outra crise virá
VERA MAGALHÃES - FSP
Renan Calheiros esperou até a undécima hora para lançar oficialmente sua candidatura à presidência do Senado. Ignorou discursos pedindo para desistir do posto.
Manteve silêncio olímpico e sorriu diante dos [poucos] colegas que subiram ao plenário para condenar sua volta ao comando da Casa. No discurso depois de já eleito, ignorou a denúncia do Ministério Público Federal, esmiuçada pelo site da revista "Época" horas antes, e preferiu falar em transparência e modernização da Casa e fazer uma defesa inflamada da liberdade de imprensa.
Por quê? Simples: porque ele sabia desde sempre que seria eleito por uma margem consagradora de votos. E, de novo, por quê? Porque os que votaram nele protegidos pelo escrutínio secreto sabem dos favores que deviam ao alagoano, chamado de "Mandacaru" pelos colegas pela pele grossa e espinhenta.
O governador tucano Marconi Perillo explicitou o dilema ao se mudar para Brasília na última semana pedindo votos para Renan -seu desafeto na crise de 2007, mas que articulou a derrubada do relatório final da CPI do Cachoeira, que pedia o indiciamento de Perillo, no ano passado.
Assim como Perillo, senadores de PSDB, DEM e PSB, que em público se rebelaram contra a recondução de Renan, em privado foram confrontados com anotações em seu nome na caderneta dos favores. E deram ao "despachante" da Casa uma vitória consagradora, com mais votos que a eleição anterior.
O aval suprapartidário vai garantir a Renan fôlego para enfrentar as críticas até que o STF se pronuncie sobre a denúncia do procurador-geral, Roberto Gurgel. Atarefado com os embargos do mensalão e a pauta congestionada, o Supremo deve levar alguns meses para decidir se torna réu o terceiro nome na linha sucessória do país.
Quando isso ocorrer, nem a camaradagem evitará que o Senado viva nova crise institucional, com consequências também para a presidente Dilma Rousseff, que lavou as mãos na eleição de ontem.
VERA MAGALHÃES - FSP
Renan Calheiros esperou até a undécima hora para lançar oficialmente sua candidatura à presidência do Senado. Ignorou discursos pedindo para desistir do posto.
Manteve silêncio olímpico e sorriu diante dos [poucos] colegas que subiram ao plenário para condenar sua volta ao comando da Casa. No discurso depois de já eleito, ignorou a denúncia do Ministério Público Federal, esmiuçada pelo site da revista "Época" horas antes, e preferiu falar em transparência e modernização da Casa e fazer uma defesa inflamada da liberdade de imprensa.
Por quê? Simples: porque ele sabia desde sempre que seria eleito por uma margem consagradora de votos. E, de novo, por quê? Porque os que votaram nele protegidos pelo escrutínio secreto sabem dos favores que deviam ao alagoano, chamado de "Mandacaru" pelos colegas pela pele grossa e espinhenta.
O governador tucano Marconi Perillo explicitou o dilema ao se mudar para Brasília na última semana pedindo votos para Renan -seu desafeto na crise de 2007, mas que articulou a derrubada do relatório final da CPI do Cachoeira, que pedia o indiciamento de Perillo, no ano passado.
Assim como Perillo, senadores de PSDB, DEM e PSB, que em público se rebelaram contra a recondução de Renan, em privado foram confrontados com anotações em seu nome na caderneta dos favores. E deram ao "despachante" da Casa uma vitória consagradora, com mais votos que a eleição anterior.
O aval suprapartidário vai garantir a Renan fôlego para enfrentar as críticas até que o STF se pronuncie sobre a denúncia do procurador-geral, Roberto Gurgel. Atarefado com os embargos do mensalão e a pauta congestionada, o Supremo deve levar alguns meses para decidir se torna réu o terceiro nome na linha sucessória do país.
Quando isso ocorrer, nem a camaradagem evitará que o Senado viva nova crise institucional, com consequências também para a presidente Dilma Rousseff, que lavou as mãos na eleição de ontem.
Não é guerra, mas parece
Miguel Reale Júnior - OESP
Em recente pesquisa, 90% dos paulistanos consideraram a cidade de São Paulo
insegura e revelaram medo. A violência passou a ser um componente do cotidiano.
Na sociedade globalizada, graças aos meios de comunicação a percepção da
violência prescinde da experiência pessoal, generalizando o sentimento de
intranquilidade no meio social.
Dados demonstram - tendo sempre por referência o número de homicídios por 100 mil habitantes - que passamos de 11,7 homicídios em 1980 para 25 na década de 90. Na mesma época, o índice em países vizinhos como Argentina, Paraguai, Chile era de 5 homicídios. Na Inglaterra e na França, apenas 1.
Em 2000 registraram-se 26,7 homicídios e a década terminou com número próximo ao de seu início: 26,2. De 2004 a 2007 foram assassinadas mais pessoas no Brasil do que todas as mortas nos 12 principais conflitos armados pelo mundo afora. Esses números, todavia, indicam os homicídios cometidos, mas não a agressividade voltada para a destruição da vida, pois as estatísticas desconsideram as ações frustradas visando a matar.
Estudo de Júlio Waiselfisz, do Instituto Sangari, traz o Mapa da Violência no Brasil na década de 2000-2010. No início dessa década, Estados que ostentavam níveis moderados apresentaram crescimento severo, como Alagoas, Pará ou Bahia. Por outro lado, a maior parte dos Estados que lideravam as estatísticas tiveram quedas significativas, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Comparando as taxas de homicídios de 2000 e de 2010, verifica-se que houve intensa mobilidade da criminalidade, com a interiorização do crime, diante do incremento do número de homicídios nas cidades com cerca de 100 mil habitantes.
No Estado do Rio de Janeiro alcançou-se em 2010 uma redução de 48,6% no número de homicídios, em São Paulo houve uma diminuição de 67,5%. Enquanto isso, a Bahia sofreu aumento dos casos, com acréscimo de 303%, e o Pará apresentou crescimento de 252%.
A grande sensação de insegurança dos paulistanos exige que se façam ponderações. São Paulo apresentou ao longo do tempo formas variadas de violência contra a pessoa. Para sociólogos do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, em 1980 cerca de 30% dos homicídios noticiados pela imprensa na cidade decorriam de atos de linchamento, principalmente, executados em frente à sede de órgãos estatais, em demonstração cabal de desconfiança e de afronta ao poder constituído.
A partir de 1985 adicionou-se outra modalidade de violência, consistente no homicídio praticado por grupos de extermínio.
Na década de 90 nova forma de violência contra a pessoa passou a prevalecer: a chacina. Em 1999 houve 75 chacinas, com 257 mortos. A ação homicida não se limita a uma determinada pessoa. Rompidos são todos os interditos e, se preciso, vitimam-se crianças, mulheres e idosos. Ou seja, todos, indistintamente, os que estejam ao lado do alvo desejado. A chacina revela grau elevado de desprezo à vida, explicável apenas diante da imensa desorganização social na periferia das cidades e da ausência do poder público.
As chacinas passaram a ser cuidadosamente investigadas, descobrindo-se os autores, em geral assassinos de aluguel, muitas vezes policiais a serviço de mandantes que agiam por motivo irrelevante. Caiu, então, a incidência da chacina.
Hoje a atmosfera de insegurança é grande, malgrado ter havido significativa diminuição da criminalidade, como antes sinalizado. Mas vale verificar alguns números: no terceiro trimestre de 1999 ocorreram mais de 3 mil assassinatos e mais de 2 mil tentativas, mas, em 2011 o terceiro trimestre registrou "apenas" 1.055 homicídios e 1.261 tentativas. É certo, contudo, que recrudesceu o número de homicídios no terceiro semestre de 2012, com aumento de 10% dos casos. Em outubro de 2102 o fenômeno foi mais grave: houve 150 homicídios e 160 tentativas na cidade de São Paulo, enquanto, no mesmo mês de 2011, foram 78 homicídios e 102 tentativas. A chacina também retornou: no ano passado houve 27 casos, tendo sido apurada a autoria de apenas um.
Há outro dado relevante: no terceiro trimestre de 2011 foram mortas pela Polícia Militar (PM), em confronto, 92 pessoas, mas no mesmo trimestre de 2012 morreram por ação da PM 140 pessoas no Estado de São Paulo. Policiais, em especial fora de serviço, também foram mortos. Criou-se um clima de guerra que pode explicar a sensação de insegurança atual.
A volta da chacina pode decorrer da falta de apuração pela Polícia Civil. A crescente violência policial é fruto de descontrole sobre a tropa de policiais militares. Esses são fatores em parte explicativos do aumento dos homicídios. Assim, age com acerto o novo secretário da Segurança ao pretender modernizar, com trabalho de inteligência, o Departamento de Homicídios e ao proibir que vítimas de confronto com a PM sejam levadas ao hospital pelos policiais, visando a preservar a cena do fato.
O palco da violência, a realidade dura das periferias, porém, pouco mudou. Assim, é relevante que se implantem, em conjunto com as secretarias da área social, políticas de transformação e de humanização da periferia das cidades médias e grandes. Algumas dessas medidas: dinamizar os Centros de Integração do Cidadão, levando a Justiça ao povo, com juízes, promotores, defensores públicos e policiais perto e a serviço da população pobre; realizar mutirões para orientação jurídica e mediação de conflitos; criar centros de convivência e de cultura; organizar a prática de esportes; integrar a escola à comunidade; garantir a presença de médicos nos postos de saúde e determinar o fechamento de bares a partir das 22 horas, quando mais grassa a violência.
Só a ação integrada de diversos setores pode minimizar o quadro trágico da violência, que nos joga no Terceiro Mundo, com índices de criminalidade superados, na América, apenas pela Colômbia.
* ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, FOI MINISTRO DA JUSTIÇA
Dados demonstram - tendo sempre por referência o número de homicídios por 100 mil habitantes - que passamos de 11,7 homicídios em 1980 para 25 na década de 90. Na mesma época, o índice em países vizinhos como Argentina, Paraguai, Chile era de 5 homicídios. Na Inglaterra e na França, apenas 1.
Em 2000 registraram-se 26,7 homicídios e a década terminou com número próximo ao de seu início: 26,2. De 2004 a 2007 foram assassinadas mais pessoas no Brasil do que todas as mortas nos 12 principais conflitos armados pelo mundo afora. Esses números, todavia, indicam os homicídios cometidos, mas não a agressividade voltada para a destruição da vida, pois as estatísticas desconsideram as ações frustradas visando a matar.
Estudo de Júlio Waiselfisz, do Instituto Sangari, traz o Mapa da Violência no Brasil na década de 2000-2010. No início dessa década, Estados que ostentavam níveis moderados apresentaram crescimento severo, como Alagoas, Pará ou Bahia. Por outro lado, a maior parte dos Estados que lideravam as estatísticas tiveram quedas significativas, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Comparando as taxas de homicídios de 2000 e de 2010, verifica-se que houve intensa mobilidade da criminalidade, com a interiorização do crime, diante do incremento do número de homicídios nas cidades com cerca de 100 mil habitantes.
No Estado do Rio de Janeiro alcançou-se em 2010 uma redução de 48,6% no número de homicídios, em São Paulo houve uma diminuição de 67,5%. Enquanto isso, a Bahia sofreu aumento dos casos, com acréscimo de 303%, e o Pará apresentou crescimento de 252%.
A grande sensação de insegurança dos paulistanos exige que se façam ponderações. São Paulo apresentou ao longo do tempo formas variadas de violência contra a pessoa. Para sociólogos do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, em 1980 cerca de 30% dos homicídios noticiados pela imprensa na cidade decorriam de atos de linchamento, principalmente, executados em frente à sede de órgãos estatais, em demonstração cabal de desconfiança e de afronta ao poder constituído.
A partir de 1985 adicionou-se outra modalidade de violência, consistente no homicídio praticado por grupos de extermínio.
Na década de 90 nova forma de violência contra a pessoa passou a prevalecer: a chacina. Em 1999 houve 75 chacinas, com 257 mortos. A ação homicida não se limita a uma determinada pessoa. Rompidos são todos os interditos e, se preciso, vitimam-se crianças, mulheres e idosos. Ou seja, todos, indistintamente, os que estejam ao lado do alvo desejado. A chacina revela grau elevado de desprezo à vida, explicável apenas diante da imensa desorganização social na periferia das cidades e da ausência do poder público.
As chacinas passaram a ser cuidadosamente investigadas, descobrindo-se os autores, em geral assassinos de aluguel, muitas vezes policiais a serviço de mandantes que agiam por motivo irrelevante. Caiu, então, a incidência da chacina.
Hoje a atmosfera de insegurança é grande, malgrado ter havido significativa diminuição da criminalidade, como antes sinalizado. Mas vale verificar alguns números: no terceiro trimestre de 1999 ocorreram mais de 3 mil assassinatos e mais de 2 mil tentativas, mas, em 2011 o terceiro trimestre registrou "apenas" 1.055 homicídios e 1.261 tentativas. É certo, contudo, que recrudesceu o número de homicídios no terceiro semestre de 2012, com aumento de 10% dos casos. Em outubro de 2102 o fenômeno foi mais grave: houve 150 homicídios e 160 tentativas na cidade de São Paulo, enquanto, no mesmo mês de 2011, foram 78 homicídios e 102 tentativas. A chacina também retornou: no ano passado houve 27 casos, tendo sido apurada a autoria de apenas um.
Há outro dado relevante: no terceiro trimestre de 2011 foram mortas pela Polícia Militar (PM), em confronto, 92 pessoas, mas no mesmo trimestre de 2012 morreram por ação da PM 140 pessoas no Estado de São Paulo. Policiais, em especial fora de serviço, também foram mortos. Criou-se um clima de guerra que pode explicar a sensação de insegurança atual.
A volta da chacina pode decorrer da falta de apuração pela Polícia Civil. A crescente violência policial é fruto de descontrole sobre a tropa de policiais militares. Esses são fatores em parte explicativos do aumento dos homicídios. Assim, age com acerto o novo secretário da Segurança ao pretender modernizar, com trabalho de inteligência, o Departamento de Homicídios e ao proibir que vítimas de confronto com a PM sejam levadas ao hospital pelos policiais, visando a preservar a cena do fato.
O palco da violência, a realidade dura das periferias, porém, pouco mudou. Assim, é relevante que se implantem, em conjunto com as secretarias da área social, políticas de transformação e de humanização da periferia das cidades médias e grandes. Algumas dessas medidas: dinamizar os Centros de Integração do Cidadão, levando a Justiça ao povo, com juízes, promotores, defensores públicos e policiais perto e a serviço da população pobre; realizar mutirões para orientação jurídica e mediação de conflitos; criar centros de convivência e de cultura; organizar a prática de esportes; integrar a escola à comunidade; garantir a presença de médicos nos postos de saúde e determinar o fechamento de bares a partir das 22 horas, quando mais grassa a violência.
Só a ação integrada de diversos setores pode minimizar o quadro trágico da violência, que nos joga no Terceiro Mundo, com índices de criminalidade superados, na América, apenas pela Colômbia.
* ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, FOI MINISTRO DA JUSTIÇA
Trapaça tarifária-eleitoral
O Estado de S.Paulo
Mais do que simplesmente usar outra vez de maneira inescrupulosa os
mecanismos da contabilidade criativa - de que vem lançando mão com frequência
cada vez maior para tentar encobrir sua inapetência política para limitar seus
gastos às receitas que legitimamente tem auferido -, o que o governo do PT fez
para anunciar a redução das tarifas de energia elétrica foi enganar o consumidor
e comprometer programas de administrações futuras.
Por meio de complexa manobra contábil-financeira, legal, mas ardilosa, o subsídio implícito na redução tarifária - estimado em R$ 8,46 bilhões em 2013 e em valor semelhante em 2014 - não será fornecido diretamente pelo Tesouro Nacional, o que deixa a impressão enganosa de que não terá custos fiscais, mas implicará o comprometimento antecipado de receitas futuras. Os benefícios que a presidente Dilma Rousseff oferece no presente, para alcançar popularidade que lhe assegure boa posição na disputa eleitoral de 2014, somente serão pagos depois que ela deixar o poder - mesmo que seja reeleita.
Ninguém é contra a redução das tarifas de energia elétrica. Mas, para alcançar esse objetivo, o governo agiu atabalhoadamente e impôs ao setor um programa de renovação de concessões que implicou a redução compulsória das tarifas. Dadas as exigência econômico-financeiras implícitas nas regras para renovar suas concessões, que vencem a partir de 2015, empresas controladas por governos estaduais desistiram da renovação.
Sem a participação dessas empresas, não seria alcançada a redução tarifária média de 16,2% para consumidores residenciais e de até 28% para a indústria nas condições anunciadas pela presidente em setembro do ano passado, quando se conheceram as normas para a renovação das concessões que vencem nos próximos anos. Com as empresas estaduais, a parte da redução tarifária que caberia ao Tesouro foi estimada em R$ 3,3 bilhões.
A política energética do governo vem sendo severamente criticada, por causa da frequência dos apagões. O atraso na definição de grandes obras de geração hidrelétrica, o descompasso entre essas obras, quando executadas, e as de transmissão de energia - que gera situações absurdas como a de uma usina entrar em operação e não poder despachar a energia gerada porque as obras dos linhões estão atrasadas - e, em consequência, o maior uso da geração termoelétrica para compensar a perda de capacidade das hidrelétricas em razão do baixo nível de suas represas igualmente alimentaram as críticas.
Trata-se de um setor pelo qual a presidente tem interesse especial, pois, antes de chefiar a Casa Civil, foi ministra de Minas e Energia na gestão Lula.
Em resposta às críticas cada vez mais fortes, e estimuladas pela redução da capacidade das hidrelétricas em razão da estiagem do ano passado e pelas dificuldades para o cumprimento da promessa de redução de tarifas, a presidente anunciou, num rompante característico de seu modo de agir quando irritada, redução ainda maior do que a prometida, mesmo em condições mais difíceis. A queda será de 18% para as residências e de até 32% para as indústrias.
Como tem feito com o superávit primário, também neste caso o governo Dilma utilizou manobras contábeis. A Itaipu Binacional tem uma dívida com a União, contraída para a construção da usina. Essa dívida vem sendo paga em parcelas anuais, de cerca de R$ 4 bilhões, e vence em 2023. O que o governo fez foi antecipar o pagamento de parcelas, por meio da venda desses créditos ao BNDES. O dinheiro recebido é transferido para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que subsidia a tarifa.
Trata-se de uma antecipação de receitas. Na década de 1990, esse tipo de operação levou à quebra dos bancos estaduais, entre os quais o Banespa, e à desorganização das finanças dos Estados, só recompostas por meio de ampla renegociação de suas dívidas e, posteriormente, pela edição da Lei de Responsabilidade Fiscal. Imaginava-se que essa prática não mais fizesse parte do arsenal de espertezas dos gestores de dinheiro público.
Por meio de complexa manobra contábil-financeira, legal, mas ardilosa, o subsídio implícito na redução tarifária - estimado em R$ 8,46 bilhões em 2013 e em valor semelhante em 2014 - não será fornecido diretamente pelo Tesouro Nacional, o que deixa a impressão enganosa de que não terá custos fiscais, mas implicará o comprometimento antecipado de receitas futuras. Os benefícios que a presidente Dilma Rousseff oferece no presente, para alcançar popularidade que lhe assegure boa posição na disputa eleitoral de 2014, somente serão pagos depois que ela deixar o poder - mesmo que seja reeleita.
Ninguém é contra a redução das tarifas de energia elétrica. Mas, para alcançar esse objetivo, o governo agiu atabalhoadamente e impôs ao setor um programa de renovação de concessões que implicou a redução compulsória das tarifas. Dadas as exigência econômico-financeiras implícitas nas regras para renovar suas concessões, que vencem a partir de 2015, empresas controladas por governos estaduais desistiram da renovação.
Sem a participação dessas empresas, não seria alcançada a redução tarifária média de 16,2% para consumidores residenciais e de até 28% para a indústria nas condições anunciadas pela presidente em setembro do ano passado, quando se conheceram as normas para a renovação das concessões que vencem nos próximos anos. Com as empresas estaduais, a parte da redução tarifária que caberia ao Tesouro foi estimada em R$ 3,3 bilhões.
A política energética do governo vem sendo severamente criticada, por causa da frequência dos apagões. O atraso na definição de grandes obras de geração hidrelétrica, o descompasso entre essas obras, quando executadas, e as de transmissão de energia - que gera situações absurdas como a de uma usina entrar em operação e não poder despachar a energia gerada porque as obras dos linhões estão atrasadas - e, em consequência, o maior uso da geração termoelétrica para compensar a perda de capacidade das hidrelétricas em razão do baixo nível de suas represas igualmente alimentaram as críticas.
Trata-se de um setor pelo qual a presidente tem interesse especial, pois, antes de chefiar a Casa Civil, foi ministra de Minas e Energia na gestão Lula.
Em resposta às críticas cada vez mais fortes, e estimuladas pela redução da capacidade das hidrelétricas em razão da estiagem do ano passado e pelas dificuldades para o cumprimento da promessa de redução de tarifas, a presidente anunciou, num rompante característico de seu modo de agir quando irritada, redução ainda maior do que a prometida, mesmo em condições mais difíceis. A queda será de 18% para as residências e de até 32% para as indústrias.
Como tem feito com o superávit primário, também neste caso o governo Dilma utilizou manobras contábeis. A Itaipu Binacional tem uma dívida com a União, contraída para a construção da usina. Essa dívida vem sendo paga em parcelas anuais, de cerca de R$ 4 bilhões, e vence em 2023. O que o governo fez foi antecipar o pagamento de parcelas, por meio da venda desses créditos ao BNDES. O dinheiro recebido é transferido para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que subsidia a tarifa.
Trata-se de uma antecipação de receitas. Na década de 1990, esse tipo de operação levou à quebra dos bancos estaduais, entre os quais o Banespa, e à desorganização das finanças dos Estados, só recompostas por meio de ampla renegociação de suas dívidas e, posteriormente, pela edição da Lei de Responsabilidade Fiscal. Imaginava-se que essa prática não mais fizesse parte do arsenal de espertezas dos gestores de dinheiro público.
Lula orienta Dilma a defender plano do PT
O ex-presidente Lula aconselhou sua sucessora, Dilma Rousseff, a entrar de cabeça na política de defender o projeto do PT neste ano.
Em encontro reservado, combinaram uma agenda de viagens conjunta para mostrar união. Segundo a Folha apurou, o objetivo é eliminar boatos de distanciamento e desfazer rumores de que será o petista, não ela, o candidato à Presidência em 2014.
A reunião ocorreu na sexta-feira retrasada em São Paulo. Também participaram o marqueteiro João Santana, o ex-ministro Franklin Martins, o presidente do PT, Rui Falcão, e o ministro da Educação, Alozio Mercadante.
Todos fizeram um "forte reconhecimento" ao pronunciamento da presidente em rede nacional do dia 23. No discurso, ela não só anunciou a redução média de 20% na tarifa de energia elétrica como atacou a oposição de forma dura, porém indireta.
No encontro de São Paulo, Lula e os demais sugeriram que o Planalto invista nesse embate e que reforce sua comunicação institucional.
No caso da conta de luz, consideram a medida um dos principais ativos eleitorais de Dilma e, portanto, uma das maiores fraquezas do PSDB -Estados governados por tucanos não aderiram à regra, que permitiu a renovação das concessões de energia com tarifas mais baixas.
Para um interlocutor presidencial, o embate sobre a conta de luz será um novo "Bolsa Família". Trata-se de uma alusão a críticas da oposição feitas no passado ao programa social que se tornou um dos trunfos de Lula.
Este, aliás, aproveitou a conversa para falar da necessidade de Dilma soltar mais o governo, após críticas de que ela centraliza muito a gestão e dialoga pouco com setores da sociedade.
Segundo o ex-presidente, sucessora deve entrar de cabeça na política de defesa do projeto do partido neste ano
Os dois combinaram uma agenda de viagens para demonstrar união mútua e desfazer boatos de distanciamento
NATUZA NERY - FSPOs dois combinaram uma agenda de viagens para demonstrar união mútua e desfazer boatos de distanciamento
O ex-presidente Lula aconselhou sua sucessora, Dilma Rousseff, a entrar de cabeça na política de defender o projeto do PT neste ano.
Em encontro reservado, combinaram uma agenda de viagens conjunta para mostrar união. Segundo a Folha apurou, o objetivo é eliminar boatos de distanciamento e desfazer rumores de que será o petista, não ela, o candidato à Presidência em 2014.
A reunião ocorreu na sexta-feira retrasada em São Paulo. Também participaram o marqueteiro João Santana, o ex-ministro Franklin Martins, o presidente do PT, Rui Falcão, e o ministro da Educação, Alozio Mercadante.
Todos fizeram um "forte reconhecimento" ao pronunciamento da presidente em rede nacional do dia 23. No discurso, ela não só anunciou a redução média de 20% na tarifa de energia elétrica como atacou a oposição de forma dura, porém indireta.
No encontro de São Paulo, Lula e os demais sugeriram que o Planalto invista nesse embate e que reforce sua comunicação institucional.
No caso da conta de luz, consideram a medida um dos principais ativos eleitorais de Dilma e, portanto, uma das maiores fraquezas do PSDB -Estados governados por tucanos não aderiram à regra, que permitiu a renovação das concessões de energia com tarifas mais baixas.
Para um interlocutor presidencial, o embate sobre a conta de luz será um novo "Bolsa Família". Trata-se de uma alusão a críticas da oposição feitas no passado ao programa social que se tornou um dos trunfos de Lula.
Este, aliás, aproveitou a conversa para falar da necessidade de Dilma soltar mais o governo, após críticas de que ela centraliza muito a gestão e dialoga pouco com setores da sociedade.
Ai, indústria
Celso Ming - O Estado de S.Paulo
Depois de um ano de renúncias fiscais (redução ou isenção de impostos), da
ordem de R$ 40 bilhões, de derrubada dos juros, de uma desvalorização cambial
(queda das cotações do dólar) de 20% e de R$ 37 bilhões em créditos do BNDES, a
indústria teve, em 2012, um desempenho frustrante: queda da produção de 2,7%,
como ontem mostrou o IBGE.
Mas não é recomendável olhar apenas para o que passou. É preciso olhar à frente do para-brisa. Mas por aí também as coisas não entusiasmam. Ainda não estão disponíveis estatísticas sobre a evolução do investimento, mas já se sabe que também foi decepcionante. A produção física da indústria de máquinas (bens de capital), por exemplo, caiu 11,8% em relação a 2011 e a importação (em dólares) aumentou apenas 1,5%.
Esses números do setor de máquinas e equipamentos dizem muito. Mostram uma indústria desestimulada. Se investiu e investe pouco, não pode mesmo acenar com aumentos de produção nos próximos meses.
Os resultados e os prognósticos ruins deveriam servir ao menos para que o governo Dilma comece a perceber que há algo errado nessa política de puxadinhos empreendida ao longo de 2012. E, no entanto, os administradores da Economia entendem o contrário. Acham que estão produzindo grande reviravolta estrutural no sistema produtivo. É só ter um pouco de paciência e esperar pelos resultados, dizem.
Alguns analistas ainda imaginavam que esse discurso se destinava a compor uma espécie de jogo do contente - coisa que, em geral, quem está no governo costuma fazer. Infelizmente, não é isso. Eles creem mesmo em que mudaram tudo e que a virada gloriosa está próxima.
Um dos setores do governo que começaram a apresentar outro diagnóstico, embora tardiamente, é o Banco Central. Acaba de advertir que o problema da economia não é falta de demanda, mas falta de oferta. Os incentivos ao consumo geraram antecipação de compras, mais importação e calotes generalizados: "A inadimplência e o comprometimento da renda explicam esse comportamento errático da indústria", afirmou ontem o economista André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE - afinal, também ligado ao governo.
Mas nem tudo está perdido. O governo Dilma passou a dar sinais de ter entendido que, por exemplo, precisa ter uma política de combustíveis. Ou seja, começa a admitir que até agora não teve. O último reajuste da gasolina e do diesel só trouxe descontentamento. O consumidor acha que está sendo punido por pagar mais; a Petrobrás continua sangrando, porque paga pelo importado mais do que recebe no mercado interno e perde capacidade de investimento; o setor do açúcar e do álcool, por sua vez, vai desmilinguindo, à medida que os preços achatados da gasolina lhe fazem competição desleal. E o Brasil, festejado como promessa global do biocombustível, passou a importar etanol.
Se está mudando no setor dos combustíveis, o governo Dilma pode também corrigir os rumos de sua política econômica, a tempo de relançar todo o setor produtivo - e não só a indústria.
Mas não é recomendável olhar apenas para o que passou. É preciso olhar à frente do para-brisa. Mas por aí também as coisas não entusiasmam. Ainda não estão disponíveis estatísticas sobre a evolução do investimento, mas já se sabe que também foi decepcionante. A produção física da indústria de máquinas (bens de capital), por exemplo, caiu 11,8% em relação a 2011 e a importação (em dólares) aumentou apenas 1,5%.
Esses números do setor de máquinas e equipamentos dizem muito. Mostram uma indústria desestimulada. Se investiu e investe pouco, não pode mesmo acenar com aumentos de produção nos próximos meses.
Os resultados e os prognósticos ruins deveriam servir ao menos para que o governo Dilma comece a perceber que há algo errado nessa política de puxadinhos empreendida ao longo de 2012. E, no entanto, os administradores da Economia entendem o contrário. Acham que estão produzindo grande reviravolta estrutural no sistema produtivo. É só ter um pouco de paciência e esperar pelos resultados, dizem.
Alguns analistas ainda imaginavam que esse discurso se destinava a compor uma espécie de jogo do contente - coisa que, em geral, quem está no governo costuma fazer. Infelizmente, não é isso. Eles creem mesmo em que mudaram tudo e que a virada gloriosa está próxima.
Um dos setores do governo que começaram a apresentar outro diagnóstico, embora tardiamente, é o Banco Central. Acaba de advertir que o problema da economia não é falta de demanda, mas falta de oferta. Os incentivos ao consumo geraram antecipação de compras, mais importação e calotes generalizados: "A inadimplência e o comprometimento da renda explicam esse comportamento errático da indústria", afirmou ontem o economista André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE - afinal, também ligado ao governo.
Mas nem tudo está perdido. O governo Dilma passou a dar sinais de ter entendido que, por exemplo, precisa ter uma política de combustíveis. Ou seja, começa a admitir que até agora não teve. O último reajuste da gasolina e do diesel só trouxe descontentamento. O consumidor acha que está sendo punido por pagar mais; a Petrobrás continua sangrando, porque paga pelo importado mais do que recebe no mercado interno e perde capacidade de investimento; o setor do açúcar e do álcool, por sua vez, vai desmilinguindo, à medida que os preços achatados da gasolina lhe fazem competição desleal. E o Brasil, festejado como promessa global do biocombustível, passou a importar etanol.
Se está mudando no setor dos combustíveis, o governo Dilma pode também corrigir os rumos de sua política econômica, a tempo de relançar todo o setor produtivo - e não só a indústria.
Defensor da ética!
O Estado de S.Paulo
Renan Calheiros é presidente do Senado Federal. A Casa está de joelhos.
Cinquenta e seis senadores renderam-se aos interesses subalternos do caciquismo
político que transformou o Congresso Nacional no mais desprestigiado poder da
República. Cumpriu-se, de resto, mais uma etapa importante da consolidação do
projeto de poder do lulopetismo. Mais uma vez, os detentores da hegemonia
política no plano federal demonstraram sua habilidade em usar a mão do gato para
atingir seus objetivos. Para completar a destruição da credibilidade do
Parlamento, só falta agora consumar-se a eleição do notório deputado Henrique
Alves como presidente da Câmara dos Deputados.
Para os brasileiros que acompanharam pela televisão as sessões plenárias do julgamento do processo do mensalão pelo STF, a transmissão ao vivo da eleição de Renan Calheiros e da melancólica despedida de José Sarney foi ilustrativa, didática mesmo, por escancarar a falta de cerimônia com que muitos dos nobres parlamentares se esmeram em usar as palavras para esconder o que pensam e dissimular suas verdadeiras intenções. Sob esse aspecto, o comportamento dos petistas foi memorável.
Foi necessária uma eleição porque havia, teoricamente, dois candidatos à presidência. Pedro Taques (PDT-MT) e o notório Renan Calheiros (PMDB-AL). Mas a ampla maioria da base de apoio ao governo, diligentemente construída ao longo de 10 anos, não permitia qualquer dúvida quanto ao resultado. O próprio Pedro Taques se apresentou como "anticandidato", em discurso deliberadamente elaborado para denunciar a farsa que se encenava. Uma tentativa quase quixotesca, saudada com aplausos frouxos, rápidos e encabulados.
Pela tribuna desfilaram 20 senadores. Ironicamente, a maioria manifestou apoio a Taques. Os apoiadores de Calheiros nem se deram ao trabalho de gastar o verbo. Deixaram a missão para os líderes, como o novo comandante do PT na Casa, o piauiense Wellington Dias, que se desincumbiu do modo mais protocolar possível. Eduardo Suplicy (PT-SP), que não perde uma oportunidade de aparecer, não teve coragem de declarar que não aprovava a candidatura Renan e apelou para o recurso esperto de sair pela tangente com a proposta delirante da eleição de um terceiro nome "de consenso".
Os apoiadores da candidatura oficial insistiram no argumento de que o PMDB, como bancada majoritária, tinha o direito regimental de indicar o nome para a presidência. É verdade. Só não está escrito em lugar nenhum que o candidato teria que ter ficha suja, um comprometedor retrospecto de malfeitos exatamente no cargo para o qual estava sendo reconduzido depois de ter a ele renunciado para preservar o mandato de senador. Os opositores bateram insistentemente na tecla do "resgate da credibilidade" do Congresso. Certamente interpretam o sentimento da grande maioria dos brasileiros - que quer exatamente isso. Mas há muito tempo perderam, eles próprios, a capacidade de fazer oposição séria e consequente.
Nos 20 minutos em que, antes da votação, apresentou seu programa, Renan Calheiros repetiu várias vezes, sem corar, que só assumira a condição de candidato havia menos de 24 horas, depois da reunião realizada na noite anterior pela bancada do PMDB que oficializou sua indicação. Uma afirmação tão deslavadamente falsa quanto a crítica que fez, aos brados, dos homens públicos que atuam não em defesa dos interesses nacionais, mas de seus próprios interesses pessoais e de grupos.
O que é verdadeiro é o regozijo de Lula & Cia. com Calheiros na presidência do Senado. Trata-se de um exímio operador, habilitado como poucos ao toma lá dá cá que viabiliza o apoio do Congresso às matérias de interesse do Palácio do Planalto. Certamente isso terá um preço, que não será baixo. Mas Lula já ensinou e Dilma parece estar aprendendo que há sempre um preço a pagar.
Empossado no lugar de Sarney, Renan voltou a discursar, dessa vez para fazer promessas, que não mereceriam qualquer referência não fosse o fato de ter-se declarado o guardião da ética no Senado!
N. da R. - No editorial Combustíveis para crise (31/1), a influência citada no fim do segundo parágrafo é sobre os IGPs, não sobre os IPCs.
Para os brasileiros que acompanharam pela televisão as sessões plenárias do julgamento do processo do mensalão pelo STF, a transmissão ao vivo da eleição de Renan Calheiros e da melancólica despedida de José Sarney foi ilustrativa, didática mesmo, por escancarar a falta de cerimônia com que muitos dos nobres parlamentares se esmeram em usar as palavras para esconder o que pensam e dissimular suas verdadeiras intenções. Sob esse aspecto, o comportamento dos petistas foi memorável.
Foi necessária uma eleição porque havia, teoricamente, dois candidatos à presidência. Pedro Taques (PDT-MT) e o notório Renan Calheiros (PMDB-AL). Mas a ampla maioria da base de apoio ao governo, diligentemente construída ao longo de 10 anos, não permitia qualquer dúvida quanto ao resultado. O próprio Pedro Taques se apresentou como "anticandidato", em discurso deliberadamente elaborado para denunciar a farsa que se encenava. Uma tentativa quase quixotesca, saudada com aplausos frouxos, rápidos e encabulados.
Pela tribuna desfilaram 20 senadores. Ironicamente, a maioria manifestou apoio a Taques. Os apoiadores de Calheiros nem se deram ao trabalho de gastar o verbo. Deixaram a missão para os líderes, como o novo comandante do PT na Casa, o piauiense Wellington Dias, que se desincumbiu do modo mais protocolar possível. Eduardo Suplicy (PT-SP), que não perde uma oportunidade de aparecer, não teve coragem de declarar que não aprovava a candidatura Renan e apelou para o recurso esperto de sair pela tangente com a proposta delirante da eleição de um terceiro nome "de consenso".
Os apoiadores da candidatura oficial insistiram no argumento de que o PMDB, como bancada majoritária, tinha o direito regimental de indicar o nome para a presidência. É verdade. Só não está escrito em lugar nenhum que o candidato teria que ter ficha suja, um comprometedor retrospecto de malfeitos exatamente no cargo para o qual estava sendo reconduzido depois de ter a ele renunciado para preservar o mandato de senador. Os opositores bateram insistentemente na tecla do "resgate da credibilidade" do Congresso. Certamente interpretam o sentimento da grande maioria dos brasileiros - que quer exatamente isso. Mas há muito tempo perderam, eles próprios, a capacidade de fazer oposição séria e consequente.
Nos 20 minutos em que, antes da votação, apresentou seu programa, Renan Calheiros repetiu várias vezes, sem corar, que só assumira a condição de candidato havia menos de 24 horas, depois da reunião realizada na noite anterior pela bancada do PMDB que oficializou sua indicação. Uma afirmação tão deslavadamente falsa quanto a crítica que fez, aos brados, dos homens públicos que atuam não em defesa dos interesses nacionais, mas de seus próprios interesses pessoais e de grupos.
O que é verdadeiro é o regozijo de Lula & Cia. com Calheiros na presidência do Senado. Trata-se de um exímio operador, habilitado como poucos ao toma lá dá cá que viabiliza o apoio do Congresso às matérias de interesse do Palácio do Planalto. Certamente isso terá um preço, que não será baixo. Mas Lula já ensinou e Dilma parece estar aprendendo que há sempre um preço a pagar.
Empossado no lugar de Sarney, Renan voltou a discursar, dessa vez para fazer promessas, que não mereceriam qualquer referência não fosse o fato de ter-se declarado o guardião da ética no Senado!
N. da R. - No editorial Combustíveis para crise (31/1), a influência citada no fim do segundo parágrafo é sobre os IGPs, não sobre os IPCs.
Alemanha lamenta ascensão de Hitler 80 anos após sua chegada ao poder
Doze anos que determinaram e marcaram a Alemanha como nação, com um lastro de infâmia sem paralelos na história europeia, tão abundante em barbaridades. Aqueles doze anos continuam aqui, como advertência universal, como complexo nacional e também como dever de contrição pública.
A prova de tudo isso foi a lúgubre celebração que as autoridades alemãs dedicaram na última quarta-feira (30) ao 80º aniversário da chegada de Hitler ao poder, em 30 de janeiro de 1933. Ato solene no Bundestag [parlamento da Alemanha] e discurso da chanceler Merkel inaugurando uma exposição dedicada ao evento.
Trajes pretos, semblantes cabisbaixos e uma grande emoção ao escutar na câmara a prece, quase um pranto, recitada em hebraico rememorando as catedrais do holocausto judaico: Birkenau, Treblinka, Majdanek, Babi Yar...
"O caminho até Auschwitz começou com a destruição da democracia", disse o presidente do Bundestag, Norbert Lammert. Aquela democracia da República de Weimar, identificada com a derrota da Primeira Guerra Mundial, a paz humilhante, a instabilidade econômica e o caos social que, como explica o historiador Robert Gelletely em sua obra sobre o consenso nacional do nazismo, "não agradava a quase nenhum alemão".
"Hitler refletiu o caráter essencialmente provinciano, estreito e violento do nacionalismo alemão", explica o jornalista grego Dimitris Konstantakopulos, autor do diagnóstico mais sombrio do atual processo europeu liderado por uma Alemanha que cresceu por sua reunificação e por fim se emancipou totalmente das tutelas pós-bélicas impostas à sua soberania.
A atual política alemã na Europa está novamente conduzindo ao desastre, diz Konstantakopulos e, como em 1945, se encerrará com uma "derrota geopolítica, moral e estratégica" para a Alemanha. Uma Alemanha, explica esse autor, que superestima sua força e que levará todos, exceto a Alemanha, à mesma conclusão:
"Não mudaram, continuam sendo os mesmos, não se pode confiar neles", diz. Certa ou não, sua diatribe só ilustra o fardo e a sombra que aqueles doze anos projetam: oitenta anos depois, não há país mais fácil de demonizar.
No entanto, esse país, no qual os ex-nazistas continuaram mandando muito depois da guerra, mantém sua pública atitude de culpa, apesar da mudança das gerações, como se o próprio conceito de culpa coletiva não fosse um absurdo jurídico e moral transferido para os filhos e netos de quem cooperou ou consentiu com o horror.
A "ruptura da civilização" que representou o nazismo e seus extermínios – o judeu, o cigano, o dos homossexuais, esquerdistas e prisioneiros soviéticos - , é uma "advertência permanente", disse Angela Merkel ao inaugurar a exposição Topografia do Terror. A mostra é um dos muitos lembretes daquele período que recobrem o centro de Berlim e que a cidade converteu em um interessante atrativo histórico, demonstrando com ele uma inequívoca força de vontade. Merkel disse advertência porque a ascensão de Hitler foi possível "devido ao apoio da elite alemã e ao consentimento da maioria". Uma maioria que mostrou "indiferença na melhor das hipóteses" diante da falta de liberdades.
Oitenta anos depois de sua chegada ao poder, o nome de Hitler é uma espécie de antídoto contra aquele tipo concreto de barbárie porque sua memória introduz de alguma maneira anticorpos na consciência universal.
Tradutor: Lana Lim
Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha em 30 de janeiro de 1933
Doze anos se passaram entre a chegada de Adolf Hitler ao poder e a libertação do campo de extermínio de Auschwitz pelo exército soviético.Doze anos que determinaram e marcaram a Alemanha como nação, com um lastro de infâmia sem paralelos na história europeia, tão abundante em barbaridades. Aqueles doze anos continuam aqui, como advertência universal, como complexo nacional e também como dever de contrição pública.
A prova de tudo isso foi a lúgubre celebração que as autoridades alemãs dedicaram na última quarta-feira (30) ao 80º aniversário da chegada de Hitler ao poder, em 30 de janeiro de 1933. Ato solene no Bundestag [parlamento da Alemanha] e discurso da chanceler Merkel inaugurando uma exposição dedicada ao evento.
Trajes pretos, semblantes cabisbaixos e uma grande emoção ao escutar na câmara a prece, quase um pranto, recitada em hebraico rememorando as catedrais do holocausto judaico: Birkenau, Treblinka, Majdanek, Babi Yar...
"O caminho até Auschwitz começou com a destruição da democracia", disse o presidente do Bundestag, Norbert Lammert. Aquela democracia da República de Weimar, identificada com a derrota da Primeira Guerra Mundial, a paz humilhante, a instabilidade econômica e o caos social que, como explica o historiador Robert Gelletely em sua obra sobre o consenso nacional do nazismo, "não agradava a quase nenhum alemão".
"Hitler refletiu o caráter essencialmente provinciano, estreito e violento do nacionalismo alemão", explica o jornalista grego Dimitris Konstantakopulos, autor do diagnóstico mais sombrio do atual processo europeu liderado por uma Alemanha que cresceu por sua reunificação e por fim se emancipou totalmente das tutelas pós-bélicas impostas à sua soberania.
A atual política alemã na Europa está novamente conduzindo ao desastre, diz Konstantakopulos e, como em 1945, se encerrará com uma "derrota geopolítica, moral e estratégica" para a Alemanha. Uma Alemanha, explica esse autor, que superestima sua força e que levará todos, exceto a Alemanha, à mesma conclusão:
"Não mudaram, continuam sendo os mesmos, não se pode confiar neles", diz. Certa ou não, sua diatribe só ilustra o fardo e a sombra que aqueles doze anos projetam: oitenta anos depois, não há país mais fácil de demonizar.
No entanto, esse país, no qual os ex-nazistas continuaram mandando muito depois da guerra, mantém sua pública atitude de culpa, apesar da mudança das gerações, como se o próprio conceito de culpa coletiva não fosse um absurdo jurídico e moral transferido para os filhos e netos de quem cooperou ou consentiu com o horror.
A "ruptura da civilização" que representou o nazismo e seus extermínios – o judeu, o cigano, o dos homossexuais, esquerdistas e prisioneiros soviéticos - , é uma "advertência permanente", disse Angela Merkel ao inaugurar a exposição Topografia do Terror. A mostra é um dos muitos lembretes daquele período que recobrem o centro de Berlim e que a cidade converteu em um interessante atrativo histórico, demonstrando com ele uma inequívoca força de vontade. Merkel disse advertência porque a ascensão de Hitler foi possível "devido ao apoio da elite alemã e ao consentimento da maioria". Uma maioria que mostrou "indiferença na melhor das hipóteses" diante da falta de liberdades.
Oitenta anos depois de sua chegada ao poder, o nome de Hitler é uma espécie de antídoto contra aquele tipo concreto de barbárie porque sua memória introduz de alguma maneira anticorpos na consciência universal.
Tradutor: Lana Lim
Cidade natal de Thatcher prefere esquecer sua filha famosa
"O fotógrafo está esperando", diz Ray Wootten enquanto abre a porta de seu carro. "Fotógrafo?", eu pergunto, perplexo. Estou em Grantham, Lincolnshire, para explorar a cidade natal da primeira – e única – premiê do sexo feminino da Grã-Bretanha. Mas antes que eu possa começar, sou enredado em uma campanha local liderada por Ray Wootten, ex-prefeito de Grantham. Ele quer erigir uma estátua de Thatcher no centro da cidade, e aproveita todas as oportunidades para promover sua causa. "O jornal local quer escrever um artigo sobre a sua visita", ele me diz.
Poucos minutos depois, estamos no gabinete do prefeito, dentro do prédio de arquitetura vitoriana e neogótica da prefeitura. Os fotógrafos nos pedem um aperto de mão para uma foto. Atrás de nós há uma parede cheia de retratos de ex-prefeitos de Grantham, além do retrato da filha mais famosa da cidade, Margaret Thatcher. Um repórter do Jornal Grantham está esperando no prédio ao lado, no Museu Grantham. Ele quer saber como Thatcher é vista na Alemanha.
A maneira como ela é vista localmente talvez seja mais importante. Aqui em Grantham, município que abriga 35 mil habitantes, há poucos vestígios da política famosa. Thatcher pode ter moldado a Grã-Bretanha moderna, mas "o povo Grantham nunca teve orgulho dela", diz sua ex-colega de colégio, Christine Mary Cooper, de 90 anos. "Eles apontam para todos os erros que ela cometeu. Eu sempre tenho que defendê-la".
Margaret Hilda Roberts nasceu em North Parade, onde seu pai, Alfred Roberts, era dono de uma mercearia. Hoje, sua antiga casa abriga uma clínica de quiropraxia e um retiro holístico. A única lembrança de sua antiga e estimada moradora é uma placa na parede, que identifica a casa como o local de nascimento da "Ilustre Margaret Thatcher". No centro médico, eles reagem com desagrado diante dos turistas que querem ver o quarto da infância da Dama de Ferro. Hoje, o cômodo é usado para massagens terapêuticas.
Não há muito mais a ser descoberto no Museu Grantham. Apenas um armário é dedicado à vida e à era de Margaret Thatcher. Entre os itens expostos está um par de sapatos de salto azuis, que datam de 1985, aproximadamente, e uma autobiografia assinada com uma inscrição manuscrita: "Aprendi muito nessa cidade e me orgulho de ser uma de suas cidadãs". E, claro, uma bolsa.
Thatcher nunca foi vista sem uma, e seu hábito de bater a bolsa na mesa ficou famoso – costume que legou ao mundo o termo "handbagging" (que significa atacar verbalmente ou subjugar uma pessoa ou ideia impiedosamente e com força). A ex-primeira-ministra provavelmente nunca usou a bolsa que está exposta para atacar ou subjugar ninguém, pois ela é feita de crepe.
Uma figura impopular
Como eleitor do Partido Conservador que é, Wootten acredita firmemente que Thatcher merece mais reconhecimento local. Conhecida como "a filha do dono da mercearia de Grantham", ela viveu aqui até deixar a cidade para estudar química na Universidade de Oxford. Wootten, que é membro da câmara da cidade, quer ver Grantham erigir uma estátua grandiosa para Thatcher na praça do mercado.
cidade já conta com uma estátua do físico Isaac Newton, que estudou em Grantham. Mas o plano de Wootten encontrou resistência até mesmo por parte de membros do Partido Conservador da câmara da cidade. A maioria dos moradores não gosta muito da ex-primeira-ministra, diz Wooten.
A estátua em questão já existe. A Câmara dos Comuns quer entregar a Grantham uma escultura de 2,5 m de altura, feita em mármore, que atualmente está armazenada em Londres.
Mas o conselho da cidade está preocupado com as possíveis despesas. "O mármore branco pode nos causar problemas", diz Jayne Robb, diretora do Museu de Grantham. "Se nós colocássemos a estátua em um lugar público, teríamos que pintá-la todos os dias".
Com suas superfícies brancas, ressalta ela, o monumento seria um convite aos vândalos – e certamente há muita gente em Grantham que odeia Thatcher, o que transformaria a exibição pública da estátua em um problema potencial. Robb preferiria que a estátua fosse colocada no átrio do museu – embora mesmo nesse local a estátua tivesse que ser vigiada.
Todo o cuidado de Robb não é desmedido. A estátua de mármore já foi vandalizada no passado. Ela foi inaugurada em maio de 2002 pela própria Thatcher, na Galeria de Arte Guildhall, em Londres, e sobreviveu apenas dois meses antes de um produtor de teatro decapitá-la com um cano de metal. O produtor disse posteriormente que a estátua ficava melhor sem cabeça. Hoje a cabeça já está de volta em seu lugar, mas a estátua ficou sem-teto desde então.
"A estátua será colocada aqui", disse Robb. "Quando Thatcher morrer, haverá o clamor por uma estátua". Primeira-ministra de 1979 a 1990, a Baronesa Thatcher tem hoje 87 anos e leva uma vida reclusa em Londres. Ela sofre de demência e é internada com frequência.
"Quando ela morrer, o interesse em Grantham será enorme", diz Robb. A diretora do museu já está planejando uma grande exposição. "Temos muitos objetos de Thatcher armazenados", diz ela, mas o museu não tem recursos para montar uma exposição e exibi-la. No entanto, Robb lançou recentemente um projeto de história oral, no qual as pessoas que conheceram Thatcher podem gravar suas memórias. Ela também começou a estocar souvenires de Thatcher na loja do museu.
"Nós não queremos um santuário", diz Robb. "Mas queremos despolitizá-la e apresentá-la como uma figura local". No momento, esta pioneira britânica do neoliberalismo continua polarizando opiniões. As pessoas a amam ou a odeiam. Na opinião de Jayne Robb, o trabalho do museu é simplesmente mostrar a vida e a era de Thatcher da forma mais objetiva possível.
"Nós temos Newton e temos Thatcher. Precisamos promover os dois", diz ela.
Tradutor: Cláudia Gonçalves
Reuters
Margaret Thatcher, conhecida como a "Dama de ferro", foi primeira-ministra britânica de 1979 a 1990
A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher nasceu e foi criada na cidade inglesa de Grantham. A câmara municipal local faz pouca coisa para se lembrar de sua filha famosa, apesar de a cidade ter recebido a oferta de uma estátua da Dama de Ferro, que atualmente está juntando poeira em um porão de Londres."O fotógrafo está esperando", diz Ray Wootten enquanto abre a porta de seu carro. "Fotógrafo?", eu pergunto, perplexo. Estou em Grantham, Lincolnshire, para explorar a cidade natal da primeira – e única – premiê do sexo feminino da Grã-Bretanha. Mas antes que eu possa começar, sou enredado em uma campanha local liderada por Ray Wootten, ex-prefeito de Grantham. Ele quer erigir uma estátua de Thatcher no centro da cidade, e aproveita todas as oportunidades para promover sua causa. "O jornal local quer escrever um artigo sobre a sua visita", ele me diz.
Poucos minutos depois, estamos no gabinete do prefeito, dentro do prédio de arquitetura vitoriana e neogótica da prefeitura. Os fotógrafos nos pedem um aperto de mão para uma foto. Atrás de nós há uma parede cheia de retratos de ex-prefeitos de Grantham, além do retrato da filha mais famosa da cidade, Margaret Thatcher. Um repórter do Jornal Grantham está esperando no prédio ao lado, no Museu Grantham. Ele quer saber como Thatcher é vista na Alemanha.
A maneira como ela é vista localmente talvez seja mais importante. Aqui em Grantham, município que abriga 35 mil habitantes, há poucos vestígios da política famosa. Thatcher pode ter moldado a Grã-Bretanha moderna, mas "o povo Grantham nunca teve orgulho dela", diz sua ex-colega de colégio, Christine Mary Cooper, de 90 anos. "Eles apontam para todos os erros que ela cometeu. Eu sempre tenho que defendê-la".
Margaret Hilda Roberts nasceu em North Parade, onde seu pai, Alfred Roberts, era dono de uma mercearia. Hoje, sua antiga casa abriga uma clínica de quiropraxia e um retiro holístico. A única lembrança de sua antiga e estimada moradora é uma placa na parede, que identifica a casa como o local de nascimento da "Ilustre Margaret Thatcher". No centro médico, eles reagem com desagrado diante dos turistas que querem ver o quarto da infância da Dama de Ferro. Hoje, o cômodo é usado para massagens terapêuticas.
Não há muito mais a ser descoberto no Museu Grantham. Apenas um armário é dedicado à vida e à era de Margaret Thatcher. Entre os itens expostos está um par de sapatos de salto azuis, que datam de 1985, aproximadamente, e uma autobiografia assinada com uma inscrição manuscrita: "Aprendi muito nessa cidade e me orgulho de ser uma de suas cidadãs". E, claro, uma bolsa.
Thatcher nunca foi vista sem uma, e seu hábito de bater a bolsa na mesa ficou famoso – costume que legou ao mundo o termo "handbagging" (que significa atacar verbalmente ou subjugar uma pessoa ou ideia impiedosamente e com força). A ex-primeira-ministra provavelmente nunca usou a bolsa que está exposta para atacar ou subjugar ninguém, pois ela é feita de crepe.
Uma figura impopular
Como eleitor do Partido Conservador que é, Wootten acredita firmemente que Thatcher merece mais reconhecimento local. Conhecida como "a filha do dono da mercearia de Grantham", ela viveu aqui até deixar a cidade para estudar química na Universidade de Oxford. Wootten, que é membro da câmara da cidade, quer ver Grantham erigir uma estátua grandiosa para Thatcher na praça do mercado.
cidade já conta com uma estátua do físico Isaac Newton, que estudou em Grantham. Mas o plano de Wootten encontrou resistência até mesmo por parte de membros do Partido Conservador da câmara da cidade. A maioria dos moradores não gosta muito da ex-primeira-ministra, diz Wooten.
A estátua em questão já existe. A Câmara dos Comuns quer entregar a Grantham uma escultura de 2,5 m de altura, feita em mármore, que atualmente está armazenada em Londres.
Mas o conselho da cidade está preocupado com as possíveis despesas. "O mármore branco pode nos causar problemas", diz Jayne Robb, diretora do Museu de Grantham. "Se nós colocássemos a estátua em um lugar público, teríamos que pintá-la todos os dias".
Com suas superfícies brancas, ressalta ela, o monumento seria um convite aos vândalos – e certamente há muita gente em Grantham que odeia Thatcher, o que transformaria a exibição pública da estátua em um problema potencial. Robb preferiria que a estátua fosse colocada no átrio do museu – embora mesmo nesse local a estátua tivesse que ser vigiada.
Todo o cuidado de Robb não é desmedido. A estátua de mármore já foi vandalizada no passado. Ela foi inaugurada em maio de 2002 pela própria Thatcher, na Galeria de Arte Guildhall, em Londres, e sobreviveu apenas dois meses antes de um produtor de teatro decapitá-la com um cano de metal. O produtor disse posteriormente que a estátua ficava melhor sem cabeça. Hoje a cabeça já está de volta em seu lugar, mas a estátua ficou sem-teto desde então.
"A estátua será colocada aqui", disse Robb. "Quando Thatcher morrer, haverá o clamor por uma estátua". Primeira-ministra de 1979 a 1990, a Baronesa Thatcher tem hoje 87 anos e leva uma vida reclusa em Londres. Ela sofre de demência e é internada com frequência.
"Quando ela morrer, o interesse em Grantham será enorme", diz Robb. A diretora do museu já está planejando uma grande exposição. "Temos muitos objetos de Thatcher armazenados", diz ela, mas o museu não tem recursos para montar uma exposição e exibi-la. No entanto, Robb lançou recentemente um projeto de história oral, no qual as pessoas que conheceram Thatcher podem gravar suas memórias. Ela também começou a estocar souvenires de Thatcher na loja do museu.
"Nós não queremos um santuário", diz Robb. "Mas queremos despolitizá-la e apresentá-la como uma figura local". No momento, esta pioneira britânica do neoliberalismo continua polarizando opiniões. As pessoas a amam ou a odeiam. Na opinião de Jayne Robb, o trabalho do museu é simplesmente mostrar a vida e a era de Thatcher da forma mais objetiva possível.
"Nós temos Newton e temos Thatcher. Precisamos promover os dois", diz ela.
Tradutor: Cláudia Gonçalves
Ministério da Cultura francês se constrange com a expulsão de família 'pobre' do Museu d'Orsay
É um caso delicado que envolve diferentes versões, com suspeitas de discriminação por pobreza. Quatro dias depois de ter sido revelada pelo "Le Figaro", a polêmica suscitada pela história dessa família pobre expulsa do Museu d’Orsay por causa de seu "odor" continuava a se desdobrar, na quinta-feira (31).
O incidente ocorreu no sábado (26). Acompanhados de um voluntário da instituição de caridade ATD-Quart Monde, os pais e o filho deles, de 12 anos de idade, se encontravam em uma sala dedicada a Van Gogh, quando agentes de segurança lhes pediram para sair. Outros visitantes teriam se queixado. Acompanhados até a saída, eles tiveram o dinheiro de seus ingressos devolvido.
Uma possível queixa por "discriminação social"
Na quarta-feira, o movimento ATD-Quart Monde, que trabalha junto aos mais desprovidos, levantou a ideia de prestar queixa por "discriminação social". Ele deverá comunicar sua decisão na noite de sexta-feira, após uma reunião do conselho administrativo.
O Museu d’Orsay, por sua vez, refutou na quarta-feira "energicamente as acusações simplistas e as confusões" feitas contra ele. Já a ministra da Cultura, Aurélie Filippetti, considerou "lamentável" o incidente, mas rejeitou a ideia de uma "falha moral" dos funcionários. "Acho que eles fizeram o trabalho deles no sentido de que preservaram a possibilidade também para essas pessoas de visitar o museu em condições mais dignas do que aquelas em que se encontravam naquele momento", ela disse.
Por trás dessas palavras haveria uma realidade mais cruel. Fontes próximas da ministra da Cultura, baseando-se no relatório do Museu d’Orsay, afirmam que o filho do casal teria defecado nas calças. O odor teria vindo de suas roupas sujas, que ele teria continuado a usar durante a visita por várias horas. Os agentes, "para preservar a dignidade" do menino, teriam então intervindo. A criança não foi despida pelos funcionários do Museu d’Orsay, mas "o odor" e a presença de uma "mancha" na roupa teria acusado a fonte do mau cheiro.
Uma família em situação de grande precariedade
A ATD-Quart Monde nega completamente essa versão. Segundo Typhaine Cornacchiari, sua diretora de comunicação, o voluntário acompanhante não notou nenhum odor em particular. Esse executivo de banco, que não pôde ser localizado pelo "Le Monde", conhecia a família, pois ele a acompanhava nos ateliês de arte mantidos pela associação de caridade no 20o distrito de Paris.
Essa família francesa, em situação de grande precariedade, vive em um imóvel insalubre. Levando em conta a situação da família, o voluntário da ATD-Quart Monde deu preferência a visitar o museu em poucas pessoas, em vez de um grupo, como o movimento costuma organizar. Portanto, foi como visitantes comuns que a família e o voluntário entraram no museu. Eles não pediram pela gratuidade concedida a pessoas desfavorecidas nem pela visita monitorada oferecida pelo estabelecimento para o público em situação precária. Foi depois de uma passagem pelo restaurante do museu que eles iniciaram sua visita às coleções. Para o ministério, portanto, os agentes não tinham nenhum conhecimento da situação social do pequeno grupo e teriam agido dessa maneira com qualquer visitante no mesmo estado.
"Estamos convencidos de que as coisas não teriam acontecido dessa maneira com uma família comum", alega a ATD-Quart Monde. A associação acredita que esse incidente "mostra o que os mais pobres sofrem no dia a dia, essa discriminação que faz com que você não seja tratado da mesma maneira quando carrega na cara sua pobreza extrema". "A discriminação por origem social" não existe no código penal. Logo, a ATD-Quart Monde tem poucas chances de ver algum resultado para sua queixa. Entretanto, ela poderia usar um outro motivo, como o "atentado às liberdades".
Tradutor: Lana Lim
Uma possível queixa por "discriminação social"
Na quarta-feira, o movimento ATD-Quart Monde, que trabalha junto aos mais desprovidos, levantou a ideia de prestar queixa por "discriminação social". Ele deverá comunicar sua decisão na noite de sexta-feira, após uma reunião do conselho administrativo.
O Museu d’Orsay, por sua vez, refutou na quarta-feira "energicamente as acusações simplistas e as confusões" feitas contra ele. Já a ministra da Cultura, Aurélie Filippetti, considerou "lamentável" o incidente, mas rejeitou a ideia de uma "falha moral" dos funcionários. "Acho que eles fizeram o trabalho deles no sentido de que preservaram a possibilidade também para essas pessoas de visitar o museu em condições mais dignas do que aquelas em que se encontravam naquele momento", ela disse.
Por trás dessas palavras haveria uma realidade mais cruel. Fontes próximas da ministra da Cultura, baseando-se no relatório do Museu d’Orsay, afirmam que o filho do casal teria defecado nas calças. O odor teria vindo de suas roupas sujas, que ele teria continuado a usar durante a visita por várias horas. Os agentes, "para preservar a dignidade" do menino, teriam então intervindo. A criança não foi despida pelos funcionários do Museu d’Orsay, mas "o odor" e a presença de uma "mancha" na roupa teria acusado a fonte do mau cheiro.
Uma família em situação de grande precariedade
A ATD-Quart Monde nega completamente essa versão. Segundo Typhaine Cornacchiari, sua diretora de comunicação, o voluntário acompanhante não notou nenhum odor em particular. Esse executivo de banco, que não pôde ser localizado pelo "Le Monde", conhecia a família, pois ele a acompanhava nos ateliês de arte mantidos pela associação de caridade no 20o distrito de Paris.
Essa família francesa, em situação de grande precariedade, vive em um imóvel insalubre. Levando em conta a situação da família, o voluntário da ATD-Quart Monde deu preferência a visitar o museu em poucas pessoas, em vez de um grupo, como o movimento costuma organizar. Portanto, foi como visitantes comuns que a família e o voluntário entraram no museu. Eles não pediram pela gratuidade concedida a pessoas desfavorecidas nem pela visita monitorada oferecida pelo estabelecimento para o público em situação precária. Foi depois de uma passagem pelo restaurante do museu que eles iniciaram sua visita às coleções. Para o ministério, portanto, os agentes não tinham nenhum conhecimento da situação social do pequeno grupo e teriam agido dessa maneira com qualquer visitante no mesmo estado.
"Estamos convencidos de que as coisas não teriam acontecido dessa maneira com uma família comum", alega a ATD-Quart Monde. A associação acredita que esse incidente "mostra o que os mais pobres sofrem no dia a dia, essa discriminação que faz com que você não seja tratado da mesma maneira quando carrega na cara sua pobreza extrema". "A discriminação por origem social" não existe no código penal. Logo, a ATD-Quart Monde tem poucas chances de ver algum resultado para sua queixa. Entretanto, ela poderia usar um outro motivo, como o "atentado às liberdades".
Tradutor: Lana Lim
DÓRICAS
Tempo de Murici
Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
* Análise: Dora Kramer
O senador Renan Calheiros conhece a história. Havia lá nas Alagoas de sua Murici natal um chefe político do interior ("coronel Elísio") violento no gesto e ameno na palavra que depois de mandar matar seus desafetos comunicava assim o fato consumado aos chefiados: "Deu-se a tragédia".
O senador Renan Calheiros conhece a história. Havia lá nas Alagoas de sua Murici natal um chefe político do interior ("coronel Elísio") violento no gesto e ameno na palavra que depois de mandar matar seus desafetos comunicava assim o fato consumado aos chefiados: "Deu-se a tragédia".
Assassinado o decoro ontem às 14h30, deu-se a tragédia no Senado, que agora
terá de conviver com um presidente moralmente baleado e por dever de ofício
emprestar-lhe reverência.
O ato da eleição em si foi relativamente simples. Bastou que o candidato se mantivesse escondido, que o PMDB lhe desse abrigo, que o vice-presidente da República fizesse papel de seu porta-voz, que o governo compactuasse e que a maioria das excelências (56 em 81) a ele se igualasse.
O complicado vem agora. Salvo apodrecimento precoce que interrompa o percurso, serão dois anos durante os quais não há a menor chance de as coisas melhorarem por lá, não obstante pior pareça impossível.
O Senado não terá um presidente por inteiro. Será permanentemente cobrado pelas denúncias que o envolvem e podem em breve transformá-lo em réu no Supremo Tribunal Federal.
Provavelmente Calheiros até tenha a intenção de fazer uma "gestão belíssima", como disse seu correligionário Michel Temer.
Candidato calado até aquele momento, ele iniciou seu discurso exaltando o valor do "debate". Falou em "eixos", "gestão eficiente", "transparência", "modernidade", "banco de dados" e por aí foi no palavrório de burocrata sem triscar de leve sequer no problema de fato: os fatos que desqualificam o Congresso que a partir de agora preside.
Lançou mão de um verniz defendendo a "liberdade de expressão" e a ética "como obrigação"; disse que o Congresso "é sócio da crise" geral dos parlamentos, mas transitou ao largo das razões do estrago específico. Nada que lhe crie dificuldades, pois se o Senado quisesse mesmo sair do fosso teria feito uma escolha mais decente.
O ato da eleição em si foi relativamente simples. Bastou que o candidato se mantivesse escondido, que o PMDB lhe desse abrigo, que o vice-presidente da República fizesse papel de seu porta-voz, que o governo compactuasse e que a maioria das excelências (56 em 81) a ele se igualasse.
O complicado vem agora. Salvo apodrecimento precoce que interrompa o percurso, serão dois anos durante os quais não há a menor chance de as coisas melhorarem por lá, não obstante pior pareça impossível.
O Senado não terá um presidente por inteiro. Será permanentemente cobrado pelas denúncias que o envolvem e podem em breve transformá-lo em réu no Supremo Tribunal Federal.
Provavelmente Calheiros até tenha a intenção de fazer uma "gestão belíssima", como disse seu correligionário Michel Temer.
Candidato calado até aquele momento, ele iniciou seu discurso exaltando o valor do "debate". Falou em "eixos", "gestão eficiente", "transparência", "modernidade", "banco de dados" e por aí foi no palavrório de burocrata sem triscar de leve sequer no problema de fato: os fatos que desqualificam o Congresso que a partir de agora preside.
Lançou mão de um verniz defendendo a "liberdade de expressão" e a ética "como obrigação"; disse que o Congresso "é sócio da crise" geral dos parlamentos, mas transitou ao largo das razões do estrago específico. Nada que lhe crie dificuldades, pois se o Senado quisesse mesmo sair do fosso teria feito uma escolha mais decente.
Russos nostálgicos querem a volta de Stálin
O episódio marcou o fim da ofensiva da Wehrmacht contra a "Cidade de Stálin". Defendida até o último sopro dos "frontoviki", os soldados do exército soviético, a cidade mártir na margem oeste do Volga demonstrou ao resto do mundo que o avanço das tropas marrons não era incontível.
Instalado na sala de seu pequeno apartamento no segundo andar de uma residência da assistência social em um subúrbio de Volgogrado (a antiga Stalingrado), Duvanov relata: "Nesse dia detectei um veículo alemão com um bom aparelho de transmissão. Meu superior chegou a me avisar que duas ruas mais abaixo Paulus estava para se render. Fui para lá e o vi subir em seu carro.
Nesse momento, um de nossos rapazes apontou a arma contra ele, mas o comandante deteve seu gesto". Paulus salvou a vida; posteriormente, manifestaria sua rejeição ao regime nazista, deporia nos julgamentos de Nuremberg e, depois de viver um tempo na União Soviética, voltaria à Alemanha, instalando-se na República Democrática (o lado oriental).
A maior pena de Konstantin é que a cidade tenha mudado de nome em 1961, devido ao processo de desestalinização empreendido por Nikita Kruschev. "Seria preciso voltar a chamá-la Stalingrado. Foi Stalin quem ganhou a guerra, não Putin ou Medvedev." O veterano reconhece ter uma admiração sem limites pelo "czar vermelho", um "homem implacável" a quem as gerações jovens deveriam estar agradecidas.
Sobre a mesa da sala há uma carta de felicitações enviada pelo presidente Vladimir Putin por motivo do 70º aniversário do fim da batalha. O mandatário russo participará das cerimônias em Volgogrado neste sábado (2). Konstantin também estará presente.
"Putin é um digno herdeiro de Stalin, mas tem a alma suave demais", lamenta o idoso. "Em 1945 vencemos graças a nosso chefe. Para que as coisas funcionem bem, um só deve falar e os demais, escutar." Isso também vale para a entrevista: "Olhe nos meus olhos e não me interrompa", ordena à repórter.
Na pequena praça adjacente à Praça dos "Combatentes caídos no campo de honra", uma esquadra de varredores, com coletes cor de laranja fluorescente, defende a chama do monumento dos ataques da neve. Toda a cidade se prepara para a comemoração.
À mesa de um café não distante da praça, Boris Stijin, 22, parece indiferente aos preparativos. Rebatizar a cidade como Stalingrado não o entusiasma. Há tarefas mais urgentes: o reparo das estradas - "mais deterioradas em Volgogrado do que nas regiões vizinhas" -, a luta contra a corrupção.
Empregado em uma empresa de construção, ele ganha bem a vida e não partiria de Volgogrado por nada do mundo. "Nem tudo é perfeito, mas só nós podemos mudar o rumo das coisas", afirma. Ele constatou isso quando a empresa onde trabalha se viu assediada pelo fisco. Os patrões não se deixaram impressionar e recorreram ao tribunal de arbitragem, em vez de pagar um suborno ao fiscal de impostos.
"A Rússia precisa de mudanças fundamentais. O modelo paternalista está gasto; a infraestrutura industrial também. Aqui todos gostam de fachadas bonitas, mas atrás delas não há nada", lamenta o jovem. E depois se irrita: "A estabilidade, a justiça social... não estão falando sério. Nossos dirigentes querem regressar ao modelo czarista. Mas têm de escolher entre a modernização e o modelo arcaico".
Completamente reconstruído no estilo neoclássico stalinista pelos prisioneiros de guerra alemães, a cidade de um milhão de habitantes, mais bonita no centro antigo, forma uma faixa de terra de 100 quilômetros ao longo do Volga, a artéria femural da Rússia, largo como o mar. Uma única estrada atravessa o Volgogrado, quase sempre lotada.
No topo de Mamayev Kourgan, a alta colina em frente ao rio, o epicentro da batalha de Stalingrado, percebem-se as chaminés das fábricas. Quase nenhuma solta fumaça. A região, dotada pelo orçamento federal (70 das 83 regiões que formam a federação), não é muito dinâmica.
"A cidade perdeu seu brilho", estima Vadim Chabanov, 24 anos. Desempregado, ele sobrevive alugando seus serviços como operador de vídeo em festas de casamento. Sonha em abandonar a exígua moradia na qual vive com sua companheira, Maria, 22 anos, a mãe desta e uma avó doente, para ir morar em um apartamento mais cômodo, mas o elevador social parece não funcionar.
"A corrupção está em toda parte, desde o professor até o governador", coisa que o tira do juízo. Sua amiga Maria é estudante confirma que é preciso pagar 5 mil rublos para fazer um exame, o dobro para o diploma. "O resultado é que os estudantes pagam e não aprendem nada." A política não é seu forte. "Prefiro os esportes", explica o rapaz. A fraude nas eleições legislativas de dezembro de 2011 o preocupou. Mas depois, um vídeo que viu no YouTube o convenceu de que a denúncia de fraude eleitoral não passava de uma manipulação "orquestrada do exterior".
Agora Vadim sabe que "os restaurantes da rede McDonald's na Rússia têm refúgios antiaéreos, o que prova que a possibilidade de uma nova guerra mundial não desapareceu totalmente. Decepcionado, ele admite não ter "confiança em ninguém", pois na Rússia "os dirigentes são ilegítimos e a oposição está nas mãos de provocadores".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Marie Jego - Le Monde
David Mdzinarishvili/Reuters
Retrato de Josef Stalin é levado a igreja em celebração que lembrou o 59º aniversário da morte do ex-líder russo
Aos 90 anos de idade, Konstantin Duvanov lembra como se tivesse sido ontem da rendição do marechal alemão Friedrich Paulus, que saiu de um subterrâneo de Stalingrado em ruínas para render-se ao Exército Vermelho, em 31 de janeiro de 1943.O episódio marcou o fim da ofensiva da Wehrmacht contra a "Cidade de Stálin". Defendida até o último sopro dos "frontoviki", os soldados do exército soviético, a cidade mártir na margem oeste do Volga demonstrou ao resto do mundo que o avanço das tropas marrons não era incontível.
Instalado na sala de seu pequeno apartamento no segundo andar de uma residência da assistência social em um subúrbio de Volgogrado (a antiga Stalingrado), Duvanov relata: "Nesse dia detectei um veículo alemão com um bom aparelho de transmissão. Meu superior chegou a me avisar que duas ruas mais abaixo Paulus estava para se render. Fui para lá e o vi subir em seu carro.
Nesse momento, um de nossos rapazes apontou a arma contra ele, mas o comandante deteve seu gesto". Paulus salvou a vida; posteriormente, manifestaria sua rejeição ao regime nazista, deporia nos julgamentos de Nuremberg e, depois de viver um tempo na União Soviética, voltaria à Alemanha, instalando-se na República Democrática (o lado oriental).
A maior pena de Konstantin é que a cidade tenha mudado de nome em 1961, devido ao processo de desestalinização empreendido por Nikita Kruschev. "Seria preciso voltar a chamá-la Stalingrado. Foi Stalin quem ganhou a guerra, não Putin ou Medvedev." O veterano reconhece ter uma admiração sem limites pelo "czar vermelho", um "homem implacável" a quem as gerações jovens deveriam estar agradecidas.
Sobre a mesa da sala há uma carta de felicitações enviada pelo presidente Vladimir Putin por motivo do 70º aniversário do fim da batalha. O mandatário russo participará das cerimônias em Volgogrado neste sábado (2). Konstantin também estará presente.
"Putin é um digno herdeiro de Stalin, mas tem a alma suave demais", lamenta o idoso. "Em 1945 vencemos graças a nosso chefe. Para que as coisas funcionem bem, um só deve falar e os demais, escutar." Isso também vale para a entrevista: "Olhe nos meus olhos e não me interrompa", ordena à repórter.
Na pequena praça adjacente à Praça dos "Combatentes caídos no campo de honra", uma esquadra de varredores, com coletes cor de laranja fluorescente, defende a chama do monumento dos ataques da neve. Toda a cidade se prepara para a comemoração.
À mesa de um café não distante da praça, Boris Stijin, 22, parece indiferente aos preparativos. Rebatizar a cidade como Stalingrado não o entusiasma. Há tarefas mais urgentes: o reparo das estradas - "mais deterioradas em Volgogrado do que nas regiões vizinhas" -, a luta contra a corrupção.
Empregado em uma empresa de construção, ele ganha bem a vida e não partiria de Volgogrado por nada do mundo. "Nem tudo é perfeito, mas só nós podemos mudar o rumo das coisas", afirma. Ele constatou isso quando a empresa onde trabalha se viu assediada pelo fisco. Os patrões não se deixaram impressionar e recorreram ao tribunal de arbitragem, em vez de pagar um suborno ao fiscal de impostos.
"A Rússia precisa de mudanças fundamentais. O modelo paternalista está gasto; a infraestrutura industrial também. Aqui todos gostam de fachadas bonitas, mas atrás delas não há nada", lamenta o jovem. E depois se irrita: "A estabilidade, a justiça social... não estão falando sério. Nossos dirigentes querem regressar ao modelo czarista. Mas têm de escolher entre a modernização e o modelo arcaico".
Completamente reconstruído no estilo neoclássico stalinista pelos prisioneiros de guerra alemães, a cidade de um milhão de habitantes, mais bonita no centro antigo, forma uma faixa de terra de 100 quilômetros ao longo do Volga, a artéria femural da Rússia, largo como o mar. Uma única estrada atravessa o Volgogrado, quase sempre lotada.
No topo de Mamayev Kourgan, a alta colina em frente ao rio, o epicentro da batalha de Stalingrado, percebem-se as chaminés das fábricas. Quase nenhuma solta fumaça. A região, dotada pelo orçamento federal (70 das 83 regiões que formam a federação), não é muito dinâmica.
"A cidade perdeu seu brilho", estima Vadim Chabanov, 24 anos. Desempregado, ele sobrevive alugando seus serviços como operador de vídeo em festas de casamento. Sonha em abandonar a exígua moradia na qual vive com sua companheira, Maria, 22 anos, a mãe desta e uma avó doente, para ir morar em um apartamento mais cômodo, mas o elevador social parece não funcionar.
"A corrupção está em toda parte, desde o professor até o governador", coisa que o tira do juízo. Sua amiga Maria é estudante confirma que é preciso pagar 5 mil rublos para fazer um exame, o dobro para o diploma. "O resultado é que os estudantes pagam e não aprendem nada." A política não é seu forte. "Prefiro os esportes", explica o rapaz. A fraude nas eleições legislativas de dezembro de 2011 o preocupou. Mas depois, um vídeo que viu no YouTube o convenceu de que a denúncia de fraude eleitoral não passava de uma manipulação "orquestrada do exterior".
Agora Vadim sabe que "os restaurantes da rede McDonald's na Rússia têm refúgios antiaéreos, o que prova que a possibilidade de uma nova guerra mundial não desapareceu totalmente. Decepcionado, ele admite não ter "confiança em ninguém", pois na Rússia "os dirigentes são ilegítimos e a oposição está nas mãos de provocadores".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Com buzina e capacete, carteiro de NY se aposenta e deixa saudade
É uma buzina de palhaço fixada em seu carrinho. Ele a toca durante seu trajeto, para que as pessoas saibam que a correspondência está a caminho. Ele tinha os idosos com andadores na 9ª Avenida em mente quando a prendeu em seu carrinho nos anos 80. "Era para impedir que descessem sem que houvesse correspondência", ele disse.
Os fãs de Gibson ao longo de suas seis quadras na 9ª Avenida –e praticamente todo mundo nessas seis quadras é fã de Gibson, ao que parece– sentirão saudade de sua buzina e dele. "Ele faz parte do bairro –é o prefeito, se quiser", disse Alan Kaplan, diretor da Bra-Tenders, que vende lingerie para cinema e teatro em um conjunto no Film Center Building, no número 630 da 9ª Avenida, destino principal da rota de Gibson.
Seguir Gibson de andar em andar –13 ao todo, apesar do andar superior ser o 14º, porque a superstição predominava quando o prédio foi inaugurado nos anos 20, de modo que não há 13º– significa testemunhar uma camaradagem incomum. Também significa ouvir uma pessoa atrás da outra, em um escritório atrás do outro, perguntar: "Quantos dias ainda faltam, 14?"
Foi o que aconteceu em uma sexta-feira recente. Todo mundo sabia que restavam 14 dias, e que depois da quinta-feira e de uma festa em um bar do outro lado da rua, ele partiria.
"Al é uma presença magnífica e um sujeito memorável", disse Lori Rubinstein, diretora-executiva da Plasa, uma associação setorial no conjunto 609, "e apesar dele entrar e sair rapidamente do seu escritório, ele não deixa de dizer oi. Ele não é como algumas pessoas, que entram correndo, jogam a correspondência para você e vão embora. Ele o faz rapidamente, mas ele tem o talento de fazer isso e ainda assim tornar isso uma parte bem-vinda do seu dia."
Ele trabalha na 9ª Avenida desde os tempos ruins, mas sua personalidade radiante, sem maledicência, o ajudou a seguir em frente. Mickey Spillane? Os Westies? "Eles não estavam na minha rota", ele disse. "Eles ficavam na 10ª Avenida."
Ele permaneceu na 9ª Avenida, sempre separando a correspondência na agência dos correios na rua 42, entre a 8ª e 9ª Avenida no início da manhã, sempre empurrando seu carrinho pela avenida por volta do meio-dia. "É uma boa rota", ele disse. "Uma rota de trabalho." Ele nunca pediu por uma rota com endereços de maior prestígio, como a 5ª Avenida.
Estacionando seu carrinho no saguão art déco do Film Center Building, ele explica sua estratégia: "Eu desço de andar em andar, passando de porta em porta". A caminho de cada escritório, ele se anuncia: "Carteiro na casa", ou simplesmente "Carteiro".
Jim Markovic, um editor de cinema que trabalha no prédio desde os anos 60, com exceção de alguns poucos anos em outro endereço, há muito decifrou o código por trás do padrão de Gibson. "Ele diz: ‘Eu tenho algo bom para você. Você vai ver’. Ou ele diz: ‘Tenho algo bom aqui na bolsa’. Isso significa cheques", disse Markovic.
"Em relação às demais correspondências, ele não diz nada. Ele não se refere à correspondência indesejada como sendo isso. Mas você sabe que se ele não disser ‘algo bom’, você não recebe nenhum cheque." ("Eu sempre coloco os cheques em cima. Isso deixa todo mundo feliz.")
Gibson, 65, veste um uniforme padrão de carteiro –e um capacete, mesmo no frio. Alguns inquilinos perguntaram sobre o capacete. "A resposta padrão dele é: ‘Porque lá fora é uma selva’", disse John Kilgore, do conjunto 307.
Mas a explicação de Gibson, a caminho do segundo andar, foi diferente. "Certa vez, ao contornar o prédio, o sujeito que estava lavando as janelas não conseguiu prender o rodo no gancho", ele disse. O rodo –pesado e pontudo, ele disse– caiu no pavimento. "Se eu estivesse um passo à frente, bum, já era."
Michael Berkowitz, do conjunto 203, tinha outra pergunta: quem ficará com a buzina?
A resposta, ninguém.
"Eu a levarei comigo", disse Gibson. "Muita gente a quer."
Tradutor: George El Khouri Andolfato
James Barron - NYT
Robert Caplin/The New York Times
Al Gibson, que está próximo de concluir uma carreira de 45 anos como carteiro no bairro de Hells Kitchen, em Nova York, usa uma buzina e um capacete
Os mensageiros do rei Xerxes da Pérsia, os antigos que inspiraram a famosa frase de que nem neve, chuva ou sol poderiam detê-los, tinham seus cavalos. Al Gibson, que está próximo de concluir uma carreira de 45 anos como carteiro no bairro de Hell’s Kitchen, tem sua buzina.É uma buzina de palhaço fixada em seu carrinho. Ele a toca durante seu trajeto, para que as pessoas saibam que a correspondência está a caminho. Ele tinha os idosos com andadores na 9ª Avenida em mente quando a prendeu em seu carrinho nos anos 80. "Era para impedir que descessem sem que houvesse correspondência", ele disse.
Os fãs de Gibson ao longo de suas seis quadras na 9ª Avenida –e praticamente todo mundo nessas seis quadras é fã de Gibson, ao que parece– sentirão saudade de sua buzina e dele. "Ele faz parte do bairro –é o prefeito, se quiser", disse Alan Kaplan, diretor da Bra-Tenders, que vende lingerie para cinema e teatro em um conjunto no Film Center Building, no número 630 da 9ª Avenida, destino principal da rota de Gibson.
Seguir Gibson de andar em andar –13 ao todo, apesar do andar superior ser o 14º, porque a superstição predominava quando o prédio foi inaugurado nos anos 20, de modo que não há 13º– significa testemunhar uma camaradagem incomum. Também significa ouvir uma pessoa atrás da outra, em um escritório atrás do outro, perguntar: "Quantos dias ainda faltam, 14?"
Foi o que aconteceu em uma sexta-feira recente. Todo mundo sabia que restavam 14 dias, e que depois da quinta-feira e de uma festa em um bar do outro lado da rua, ele partiria.
"Al é uma presença magnífica e um sujeito memorável", disse Lori Rubinstein, diretora-executiva da Plasa, uma associação setorial no conjunto 609, "e apesar dele entrar e sair rapidamente do seu escritório, ele não deixa de dizer oi. Ele não é como algumas pessoas, que entram correndo, jogam a correspondência para você e vão embora. Ele o faz rapidamente, mas ele tem o talento de fazer isso e ainda assim tornar isso uma parte bem-vinda do seu dia."
Ele trabalha na 9ª Avenida desde os tempos ruins, mas sua personalidade radiante, sem maledicência, o ajudou a seguir em frente. Mickey Spillane? Os Westies? "Eles não estavam na minha rota", ele disse. "Eles ficavam na 10ª Avenida."
Ele permaneceu na 9ª Avenida, sempre separando a correspondência na agência dos correios na rua 42, entre a 8ª e 9ª Avenida no início da manhã, sempre empurrando seu carrinho pela avenida por volta do meio-dia. "É uma boa rota", ele disse. "Uma rota de trabalho." Ele nunca pediu por uma rota com endereços de maior prestígio, como a 5ª Avenida.
Estacionando seu carrinho no saguão art déco do Film Center Building, ele explica sua estratégia: "Eu desço de andar em andar, passando de porta em porta". A caminho de cada escritório, ele se anuncia: "Carteiro na casa", ou simplesmente "Carteiro".
Jim Markovic, um editor de cinema que trabalha no prédio desde os anos 60, com exceção de alguns poucos anos em outro endereço, há muito decifrou o código por trás do padrão de Gibson. "Ele diz: ‘Eu tenho algo bom para você. Você vai ver’. Ou ele diz: ‘Tenho algo bom aqui na bolsa’. Isso significa cheques", disse Markovic.
"Em relação às demais correspondências, ele não diz nada. Ele não se refere à correspondência indesejada como sendo isso. Mas você sabe que se ele não disser ‘algo bom’, você não recebe nenhum cheque." ("Eu sempre coloco os cheques em cima. Isso deixa todo mundo feliz.")
Gibson, 65, veste um uniforme padrão de carteiro –e um capacete, mesmo no frio. Alguns inquilinos perguntaram sobre o capacete. "A resposta padrão dele é: ‘Porque lá fora é uma selva’", disse John Kilgore, do conjunto 307.
Mas a explicação de Gibson, a caminho do segundo andar, foi diferente. "Certa vez, ao contornar o prédio, o sujeito que estava lavando as janelas não conseguiu prender o rodo no gancho", ele disse. O rodo –pesado e pontudo, ele disse– caiu no pavimento. "Se eu estivesse um passo à frente, bum, já era."
Michael Berkowitz, do conjunto 203, tinha outra pergunta: quem ficará com a buzina?
A resposta, ninguém.
"Eu a levarei comigo", disse Gibson. "Muita gente a quer."
Tradutor: George El Khouri Andolfato
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Na indústria, contraste entre fatos e prognósticos
O Estado de S.Paulo
A maioria dos últimos dados de produção da indústria em geral e da construção
civil mostrou recuo, segundo as pesquisas da Confederação Nacional da Indústria
(CNI) e o Indicador de Nível de Atividade (INA), da Fiesp. A despeito disso, o
futuro continua sendo visto com otimismo, conforme outro levantamento, o Índice
de Confiança da Indústria (ICI) da FGV.
As pesquisas espelham a discrepância suscitada por informações díspares sobre o comportamento da indústria. Até especialistas a constatam, como o gerente executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, que declarou à repórter Anne Warth, do Estado: "O que parecia ser um indicativo de melhora da atividade verificada nos últimos meses não se materializou. Pelo contrário. Para a maioria das empresas, a produção recuou mais do que costuma recuar em dezembro".
É usual que o ritmo da indústria seja mais forte até novembro, para atender à demanda do comércio, caindo em dezembro. Mas, no mês passado, o nível de produção registrado pela CNI ficou em apenas 41,2 pontos - e abaixo de 50 pontos está no campo negativo. Foi o menor índice da série, iniciada em janeiro de 2011. A frustração foi maior porque se tem como encerrado o período de desova de estoques, ao qual se deveria suceder o aumento da produção, o que não ocorreu. Caiu, inclusive, o indicador do número de empregados - o Caged, do Ministério do Trabalho, mostrou corte de 178 mil vagas na indústria de transformação.
A construção civil, cujo comportamento tem sido melhor que o da indústria em geral, registrou, em janeiro, segundo a Sondagem da Indústria da Construção, diminuição do nível de atividade pelo oitavo mês consecutivo. A queda atingiu, em especial, empresas de médio porte. A utilização da capacidade foi de apenas 69% e houve redução do quadro de pessoal: 91 mil empregos com carteira assinada, na construção, foram suprimidos no mês passado.
Há uma aparente contradição entre os dados da situação industrial do final do ano com as projeções para os próximos meses. Na indústria em geral, o índice de demanda futura mostrou crescimento do otimismo, passando de 54,6 pontos, em dezembro, para 58,4 pontos, em janeiro. Na construção civil, esse indicador evoluiu de 56,3 pontos para 59,3 pontos, nos mesmos períodos.
Em resumo, os industriais parecem acreditar nas projeções otimistas para este ano, apesar de elas terem sido desmentidas pela realidade do passado recente.
As pesquisas espelham a discrepância suscitada por informações díspares sobre o comportamento da indústria. Até especialistas a constatam, como o gerente executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, que declarou à repórter Anne Warth, do Estado: "O que parecia ser um indicativo de melhora da atividade verificada nos últimos meses não se materializou. Pelo contrário. Para a maioria das empresas, a produção recuou mais do que costuma recuar em dezembro".
É usual que o ritmo da indústria seja mais forte até novembro, para atender à demanda do comércio, caindo em dezembro. Mas, no mês passado, o nível de produção registrado pela CNI ficou em apenas 41,2 pontos - e abaixo de 50 pontos está no campo negativo. Foi o menor índice da série, iniciada em janeiro de 2011. A frustração foi maior porque se tem como encerrado o período de desova de estoques, ao qual se deveria suceder o aumento da produção, o que não ocorreu. Caiu, inclusive, o indicador do número de empregados - o Caged, do Ministério do Trabalho, mostrou corte de 178 mil vagas na indústria de transformação.
A construção civil, cujo comportamento tem sido melhor que o da indústria em geral, registrou, em janeiro, segundo a Sondagem da Indústria da Construção, diminuição do nível de atividade pelo oitavo mês consecutivo. A queda atingiu, em especial, empresas de médio porte. A utilização da capacidade foi de apenas 69% e houve redução do quadro de pessoal: 91 mil empregos com carteira assinada, na construção, foram suprimidos no mês passado.
Há uma aparente contradição entre os dados da situação industrial do final do ano com as projeções para os próximos meses. Na indústria em geral, o índice de demanda futura mostrou crescimento do otimismo, passando de 54,6 pontos, em dezembro, para 58,4 pontos, em janeiro. Na construção civil, esse indicador evoluiu de 56,3 pontos para 59,3 pontos, nos mesmos períodos.
Em resumo, os industriais parecem acreditar nas projeções otimistas para este ano, apesar de elas terem sido desmentidas pela realidade do passado recente.
300 picaretas e uma pá de cal
Fernando Gabeira * - OESP
Num dos
meus primeiro mandatos de deputado federal defendi na tribuna da Câmara Os
Paralamas do Sucesso, acusados de caluniar o Congresso Nacional com a música
Luís Inácio (300 picaretas). Os primeiros versos diziam: "Luís Inácio falou,
Luís Inácio avisou/ são trezentos picaretas com anel de
doutor".
Defendi-os em nome da liberdade de expressão. Não concordava inteiramente com Lula. Talvez fossem 312 ou 417. Reconheço que 300 é um número redondo, mais fácil de inserir nos versos de uma canção popular. Além do mais, nem todos têm anel de doutor. Mas isso são detalhes. O mais importante é registrar que estávamos na véspera da chegada do PT ao governo federal, início da era do "nunca antes neste país". E aonde chegamos, agora, uma década depois?
Renan Calheiros deve assumir a presidência do Senado, Henrique Eduardo Alves, a da Câmara e o deputado Eduardo Cunha, a liderança do PMDB. Caso se concretizem, esses eventos representam um marco na História do Congresso. Significa que, para muitas pessoas informadas, o Congresso deixa de existir. É o fim da picada...
Conheço os passos dessa estrada porque transitei nela 16 anos. O mensalão significa o ato inaugural, a escolha do tipo e da natureza de alianças políticas do novo governo. O mensalão significa a compra de votos dos partidos, uma forma de reduzir o Congresso a um balcão de negócios. Em seguida vieram as medidas provisórias (MPs). Governar com elas é roubar do Congresso tempo e energia para seus projetos. A liberação das emendas parlamentares era a principal compensação pelo espaço perdido.
Mas deputados e senadores não cedem o espaço porque são bonzinhos ou temem o governo. As MPs são uma forma simplificada de o governo realizar seu objetivo. Os parlamentares tomaram carona nesse veículo autoritário. E inserem as propostas mais estapafúrdias no texto das MPs. Com isso querem aprovar suas ideias sem o caminho democrático que passa por debates em comissão, audiências públicas, etc.
Na Câmara essas inserções oportunistas são chamadas de jabuti. O nome vem da frase "jabuti não sobe em árvore, alguém o coloca lá". O nome jabuti pressupõe que há interesses econômicos diretos por trás de cada uma dessas emendas.
A perda de espaço para o governo não é o problema, desde que todos os negócios continuem fluindo, das MPs às emendas ao Orçamento. O espaço não interessa, o que interessa é o dinheiro. Espaço por espaço, o Congresso já abriu uma grande avenida para o Supremo Tribunal Federal julgar casos polêmicos, como aborto e união gay.
Os negócios, como sempre, são o centro de tudo. Negócios, trambiques, maracutaias e, como diziam Os Paralamas em 2003, "é lobby, é conchavo, é propina e jeton". Uma década depois, vendo o Congresso idêntico à sua caricatura, pergunto quando é que nos vamos dar conta dessa perda, desse membro amputado de nossa anatomia democrática.
A saída da minoria - chamada, com uma ponta de razão, de Exército Brancaleone - foi pressionar por dentro e estabelecer uma tensão entre ala e a opinião pública. Na definição do voto aberto para cassar deputados, vencemos o primeiro turno porque a imprensa e eleitores estavam de olho. Vitória esmagadora, contra apenas três abstenções. Agora até esse caminho está bloqueado. Todos os dispositivos internos foram reforçados e passaram a impedir tais votações. Com a cumplicidade do PT, os piores elementos foram ascendendo aos postos estratégicos e agora o esquema chega ao auge, com a escolha de Calheiros e Alves.
De um lado, interessa-me avaliar como será o futuro do País sem um Congresso que possa realmente ser chamado por esse nome. De outro lado, um olho na saída. Não sei se repetiria hoje a campanha contra Renan, os cartazes com chapéu de cangaceiro e a frase: "Se entrega, Corisco". Nem se gostaria de ver de novo aqueles bois se deslocando pelos campos alagoanos para as terras de Renan, para comprovar que era dono de muitas cabeças de gado. O ideal, hoje, seria poupar os bois dessa nova viagem inútil. Passar o vídeo, criar uma animação, substituir toneladas de carne de boi por milhões de pixels.
Henrique Alves destinou dinheiro a uma empresa fantasma de um assessor dele. No lugar deserto onde a empresa funcionava havia apenas um bode, chamado Galeguinho. O bode foi dispensado depois de sua estreia. Os bois mereciam o mesmo. "Parabéns, coronéis, vocês venceram", diz a letra de Luís Inácio. Deixaram-nos monitorando bois de helicóptero e pedindo ao bode que nos levasse ao gerente da empresa.
Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou. Mas foi o primeiro a passar para o lado deles e a contribuir com algumas novas espécies para a fauna já diversa que encontramos em 2003.
A vitória dos cavaleiros do apocalipse recoloca a urgência de salvar o Congresso dele mesmo. A maneira de potencializar o trabalho da minúscula oposição é a maior transparência possível e uma ajuda da opinião pública. A partir dessa vitória, Calheiros, Alves e seus eleitores no Parlamento dizem apenas à sociedade: somos assim, e daí? Depois do descanso merecido, o bode que é o porteiro da empresa favorecida por Alves deveria ser colocado na porta do Congresso.
É impensável que 300, 312 ou 417 - não importa o número exato - picaretas enfrentem o Brasil sem uma represália dura. O espírito do "eles lá, nós aqui", de distância enojada, no fundo, é bom para eles, que querem total autonomia para seus negócios. Será preciso mostrar que toda essa farsa é patrocinada pelo dinheiro público. E que sua performance será amplamente divulgada agora e no período eleitoral. O instinto de sobrevivência da instituição não existe. Mas o do político é muito grande. É preciso que ele sinta o desgaste pessoal produzido por suas escolhas.
Muitas pessoas vão trabalhar nisso, cada uma no seu posto, às vezes em manifestações. A eleição direta para presidente foi uma conquista. A perda do Congresso para o ramo dos secos e molhados é uma dolorosa ferida em nossa jovem democracia.
Nós demos um boi para não entrar nessa luta. Daremos um bode para não sair dela.
Defendi-os em nome da liberdade de expressão. Não concordava inteiramente com Lula. Talvez fossem 312 ou 417. Reconheço que 300 é um número redondo, mais fácil de inserir nos versos de uma canção popular. Além do mais, nem todos têm anel de doutor. Mas isso são detalhes. O mais importante é registrar que estávamos na véspera da chegada do PT ao governo federal, início da era do "nunca antes neste país". E aonde chegamos, agora, uma década depois?
Renan Calheiros deve assumir a presidência do Senado, Henrique Eduardo Alves, a da Câmara e o deputado Eduardo Cunha, a liderança do PMDB. Caso se concretizem, esses eventos representam um marco na História do Congresso. Significa que, para muitas pessoas informadas, o Congresso deixa de existir. É o fim da picada...
Conheço os passos dessa estrada porque transitei nela 16 anos. O mensalão significa o ato inaugural, a escolha do tipo e da natureza de alianças políticas do novo governo. O mensalão significa a compra de votos dos partidos, uma forma de reduzir o Congresso a um balcão de negócios. Em seguida vieram as medidas provisórias (MPs). Governar com elas é roubar do Congresso tempo e energia para seus projetos. A liberação das emendas parlamentares era a principal compensação pelo espaço perdido.
Mas deputados e senadores não cedem o espaço porque são bonzinhos ou temem o governo. As MPs são uma forma simplificada de o governo realizar seu objetivo. Os parlamentares tomaram carona nesse veículo autoritário. E inserem as propostas mais estapafúrdias no texto das MPs. Com isso querem aprovar suas ideias sem o caminho democrático que passa por debates em comissão, audiências públicas, etc.
Na Câmara essas inserções oportunistas são chamadas de jabuti. O nome vem da frase "jabuti não sobe em árvore, alguém o coloca lá". O nome jabuti pressupõe que há interesses econômicos diretos por trás de cada uma dessas emendas.
A perda de espaço para o governo não é o problema, desde que todos os negócios continuem fluindo, das MPs às emendas ao Orçamento. O espaço não interessa, o que interessa é o dinheiro. Espaço por espaço, o Congresso já abriu uma grande avenida para o Supremo Tribunal Federal julgar casos polêmicos, como aborto e união gay.
Os negócios, como sempre, são o centro de tudo. Negócios, trambiques, maracutaias e, como diziam Os Paralamas em 2003, "é lobby, é conchavo, é propina e jeton". Uma década depois, vendo o Congresso idêntico à sua caricatura, pergunto quando é que nos vamos dar conta dessa perda, desse membro amputado de nossa anatomia democrática.
A saída da minoria - chamada, com uma ponta de razão, de Exército Brancaleone - foi pressionar por dentro e estabelecer uma tensão entre ala e a opinião pública. Na definição do voto aberto para cassar deputados, vencemos o primeiro turno porque a imprensa e eleitores estavam de olho. Vitória esmagadora, contra apenas três abstenções. Agora até esse caminho está bloqueado. Todos os dispositivos internos foram reforçados e passaram a impedir tais votações. Com a cumplicidade do PT, os piores elementos foram ascendendo aos postos estratégicos e agora o esquema chega ao auge, com a escolha de Calheiros e Alves.
De um lado, interessa-me avaliar como será o futuro do País sem um Congresso que possa realmente ser chamado por esse nome. De outro lado, um olho na saída. Não sei se repetiria hoje a campanha contra Renan, os cartazes com chapéu de cangaceiro e a frase: "Se entrega, Corisco". Nem se gostaria de ver de novo aqueles bois se deslocando pelos campos alagoanos para as terras de Renan, para comprovar que era dono de muitas cabeças de gado. O ideal, hoje, seria poupar os bois dessa nova viagem inútil. Passar o vídeo, criar uma animação, substituir toneladas de carne de boi por milhões de pixels.
Henrique Alves destinou dinheiro a uma empresa fantasma de um assessor dele. No lugar deserto onde a empresa funcionava havia apenas um bode, chamado Galeguinho. O bode foi dispensado depois de sua estreia. Os bois mereciam o mesmo. "Parabéns, coronéis, vocês venceram", diz a letra de Luís Inácio. Deixaram-nos monitorando bois de helicóptero e pedindo ao bode que nos levasse ao gerente da empresa.
Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou. Mas foi o primeiro a passar para o lado deles e a contribuir com algumas novas espécies para a fauna já diversa que encontramos em 2003.
A vitória dos cavaleiros do apocalipse recoloca a urgência de salvar o Congresso dele mesmo. A maneira de potencializar o trabalho da minúscula oposição é a maior transparência possível e uma ajuda da opinião pública. A partir dessa vitória, Calheiros, Alves e seus eleitores no Parlamento dizem apenas à sociedade: somos assim, e daí? Depois do descanso merecido, o bode que é o porteiro da empresa favorecida por Alves deveria ser colocado na porta do Congresso.
É impensável que 300, 312 ou 417 - não importa o número exato - picaretas enfrentem o Brasil sem uma represália dura. O espírito do "eles lá, nós aqui", de distância enojada, no fundo, é bom para eles, que querem total autonomia para seus negócios. Será preciso mostrar que toda essa farsa é patrocinada pelo dinheiro público. E que sua performance será amplamente divulgada agora e no período eleitoral. O instinto de sobrevivência da instituição não existe. Mas o do político é muito grande. É preciso que ele sinta o desgaste pessoal produzido por suas escolhas.
Muitas pessoas vão trabalhar nisso, cada uma no seu posto, às vezes em manifestações. A eleição direta para presidente foi uma conquista. A perda do Congresso para o ramo dos secos e molhados é uma dolorosa ferida em nossa jovem democracia.
Nós demos um boi para não entrar nessa luta. Daremos um bode para não sair dela.
* Fernando
Gabeira é jornalista.
A frágil 'solidez' de Mantega
O Estado de S.Paulo
O Estado de S.Paulo
Reconheça-se ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, o direito de, em defesa
da política que vem praticando o governo ao qual serve com obediência
incondicional, dizer o que lhe passar na cabeça a respeito de questões
econômicas e financeiras nacionais. Reconheça-se também, no entanto, o direito
de cidadãos responsáveis de discordar do ministro quando afirma, como fez logo
após conhecidos os dados consolidados das contas públicas de 2012, que "a
política fiscal brasileira é sólida e vai continuar". Mais do que discordar,
talvez seja prudente precaver-se: quanto mais o governo do PT persistir nessa
política, pior ficará a situação.
Diante de números divulgados nas últimas semanas do ano passado e de diversos atos e decisões do governo para evitar a explicitação de uma deterioração ainda mais aguda das finanças públicas, era previsível que os resultados fiscais de 2012 seriam ruins. Pois os dados consolidados agora divulgados pelo Banco Central, envolvendo as contas do governo central, dos Estados, dos municípios e das empresas estatais (exceto Petrobrás e Eletrobrás) mostram que a situação é pior do que se pensava.
O setor público consolidado alcançou, no ano passado, superávit primário de R$ 104,951 bilhões, resultado equivalente a 2,38% do Produto Interno Bruto (PIB), inferior ao de 2011, de 3,11% do PIB.
Esse resultado ficou também abaixo da meta definida pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), de R$ 139,8 bilhões. Mas a LDO previa que, em caso de necessidade, o governo poderia abater da meta o total ou parte dos investimentos inscritos no PAC. Para cumprir a meta, o governo lançou mão dessa possibilidade com largueza.
A lei permitia que, por esse mecanismo, o governo reduzisse a meta do superávit primário em até R$ 40,6 bilhões. Na véspera da divulgação dos resultados consolidados, o Tesouro Nacional anunciou os resultados do governo central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) em 2012, mostrando que os investimentos do PAC totalizaram R$ 39,3 bilhões. Como investiu menos do que o abatimento permitido, este será menor, mas alcançará R$ 34,849 bilhões. Esse valor equivale a praticamente 90% do total de investimentos do PAC no ano passado.
Esta é apenas uma das manobras do governo para cumprir a meta do superávit primário, que deveria ser usado para reduzir sua dívida. Nos últimos meses de 2012 foram autorizadas duas operações de antecipação de pagamento de dividendos pela Caixa Econômica Federal, no total de R$ 6,19 bilhões. O BNDES antecipou pagamentos de dividendos, no valor de R$ 5,36 bilhões. Além disso, o governo retirou R$ 12,4 bilhões do Fundo Soberano, criado em 2008 para ser utilizado em momento de maior dificuldade econômica ou de baixo crescimento, não como fonte de recursos para o Tesouro tentar equilibrar suas contas. Essas e outras manobras contábeis engordaram as receitas do Tesouro em R$ 40,4 bilhões no ano passado. Sem elas e sem o abatimento dos investimentos do PAC, o resultado seria bem menor, mas refletiria com mais clareza a política fiscal do governo Dilma.
O governo "cumpriu rigorosamente todas as determinações legais", justificou-se o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Quanto a isso, ele não tem com o que se preocupar. Nem ele nem seus superiores ou subordinados estão sujeitos a sanções administrativas ou judiciais por causa da condução da política fiscal, pois o que fizeram está, de fato, dentro da lei.
O que se pergunta é por que, num período de dificuldades - principalmente para o setor público, que viu sua receita crescer bem menos do que vinha crescendo, o que dificultou a obtenção das metas fiscais -, os problemas não foram reconhecidos com clareza. Diante da desorganização das finanças públicas que as maquiagens provocam e de declarações infelizes das autoridades, resultados como os que acabam de ser divulgados alimentam as desconfianças que já paralisam os investimentos e tendem a manter a economia estagnada.
Diante de números divulgados nas últimas semanas do ano passado e de diversos atos e decisões do governo para evitar a explicitação de uma deterioração ainda mais aguda das finanças públicas, era previsível que os resultados fiscais de 2012 seriam ruins. Pois os dados consolidados agora divulgados pelo Banco Central, envolvendo as contas do governo central, dos Estados, dos municípios e das empresas estatais (exceto Petrobrás e Eletrobrás) mostram que a situação é pior do que se pensava.
O setor público consolidado alcançou, no ano passado, superávit primário de R$ 104,951 bilhões, resultado equivalente a 2,38% do Produto Interno Bruto (PIB), inferior ao de 2011, de 3,11% do PIB.
Esse resultado ficou também abaixo da meta definida pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), de R$ 139,8 bilhões. Mas a LDO previa que, em caso de necessidade, o governo poderia abater da meta o total ou parte dos investimentos inscritos no PAC. Para cumprir a meta, o governo lançou mão dessa possibilidade com largueza.
A lei permitia que, por esse mecanismo, o governo reduzisse a meta do superávit primário em até R$ 40,6 bilhões. Na véspera da divulgação dos resultados consolidados, o Tesouro Nacional anunciou os resultados do governo central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) em 2012, mostrando que os investimentos do PAC totalizaram R$ 39,3 bilhões. Como investiu menos do que o abatimento permitido, este será menor, mas alcançará R$ 34,849 bilhões. Esse valor equivale a praticamente 90% do total de investimentos do PAC no ano passado.
Esta é apenas uma das manobras do governo para cumprir a meta do superávit primário, que deveria ser usado para reduzir sua dívida. Nos últimos meses de 2012 foram autorizadas duas operações de antecipação de pagamento de dividendos pela Caixa Econômica Federal, no total de R$ 6,19 bilhões. O BNDES antecipou pagamentos de dividendos, no valor de R$ 5,36 bilhões. Além disso, o governo retirou R$ 12,4 bilhões do Fundo Soberano, criado em 2008 para ser utilizado em momento de maior dificuldade econômica ou de baixo crescimento, não como fonte de recursos para o Tesouro tentar equilibrar suas contas. Essas e outras manobras contábeis engordaram as receitas do Tesouro em R$ 40,4 bilhões no ano passado. Sem elas e sem o abatimento dos investimentos do PAC, o resultado seria bem menor, mas refletiria com mais clareza a política fiscal do governo Dilma.
O governo "cumpriu rigorosamente todas as determinações legais", justificou-se o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Quanto a isso, ele não tem com o que se preocupar. Nem ele nem seus superiores ou subordinados estão sujeitos a sanções administrativas ou judiciais por causa da condução da política fiscal, pois o que fizeram está, de fato, dentro da lei.
O que se pergunta é por que, num período de dificuldades - principalmente para o setor público, que viu sua receita crescer bem menos do que vinha crescendo, o que dificultou a obtenção das metas fiscais -, os problemas não foram reconhecidos com clareza. Diante da desorganização das finanças públicas que as maquiagens provocam e de declarações infelizes das autoridades, resultados como os que acabam de ser divulgados alimentam as desconfianças que já paralisam os investimentos e tendem a manter a economia estagnada.
DÓRICAS
Bicho criado em casa
Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
O PT faz
acordo para levar um denunciado e um investigado pelo Ministério Público às
presidências do Senado e da Câmara, financia partidos para atraí-los à base
governista, correligionários de altas patentes são condenados à prisão e,
segundo o presidente do partido, a "oposição apartidária" é que desmoraliza a
política. Que tal?
Isso para falar do presente, sem contar o passado de uma vida dedicada a desancar Deus, o mundo e seu Raimundo. Os correligionários de hoje eram os "picaretas", "ladrões" e "bandidos"de ontem, contra os quais o PT prometia combate ferrenho quando, e se, chegasse ao poder.
Pois há dez anos chegou e é o que se vê: não bastasse se aliar, festeja os piores tipos, elevando o que antigamente formava o baixo clero à condição de cardinalato do Congresso.
E com a tranquilidade dos puros, mas a sagacidade dos astutos, Rui Falcão, o presidente do PT, acusa Ministério Público e meios de comunicação independentes de tramarem contra a atividade política.
Oferece lições que dariam ensejo a preocupações quanto à sanidade do professor, não flertassem firmemente com o ridículo. Diz Falcão: "São esses a quem nomeei que tentam interditar a política no Brasil. Quando desqualificamos a política a gente abre espaço para aventuras golpistas. A gente abre espaço para experiências que no passado levaram ao nazismo e ao fascismo".
Faltou acrescentar um fator essencial na desconstrução do valor democrático numa sociedade: o populismo (ovo da serpente do autoritarismo), ao qual o PT se dedica com afinco no estímulo ao culto da personalidade e à desmoralização da massa crítica.
A ofensiva é clara: o petista ataca a "oposição apartidária" porque sabe que a partidária está dominada, nas cordas, sem força para preservar o indispensável exercício do contraditório sem o qual restam o silêncio, a concordância, a eliminação do debate, a alternância.
E o objetivo é esse mesmo: exercer o poder sem ser contraditado em nada e por coisa alguma, a fim de que apenas a voz do poder da vez prevaleça.
O PT, contudo, deve tomar cuidado com seus impulsos de eliminação porque, quando não há oposição de lado algum, as posições antagônicas tendem a nascer e a crescer dentro da situação. E aí, alertam os que já viveram essa situação em passado não muito distante - mais especificamente no governo Fernando Henrique, personificada na figura de Antonio Carlos Magalhães - instala-se um verdadeiro inferno.
É hoje o dia. O Senado, que é um pálido retrato do que já foi e agora caminha rumo ao lixo da História, perde autonomia, autoridade moral e também legitimidade na representação dos Estados.
Há 21 suplentes entre os 81 parlamentares da Casa. É isso: um quarto do Senado exerce mandato sem ter recebido um voto.
A suplência ali é composta por dois nomes indicados pelo titular da chapa e escolhidos entre amigos, parentes e financiadores de campanha que não passam pelo crivo das urnas.
Na maioria dos casos assumem a cadeira devido a licenças pedidas para garantir ao substituto biônico uma temporada no paraíso.
Compressor. O líder do governo no Senado, Eduardo Braga, lá por meados do segundo semestre de 2012 chegou a pensar seriamente em concorrer à presidência da Casa.
Chegou a fazer algumas consultas informais sobre sua chance contra o desejo de Renan Calheiros de voltar. Hipótese, na ocasião, que aos de bom senso parecia absurda.
Braga é ovelha desgarrada do grupo de senadores independentes do PMDB que resiste a se entregar ao Palácio do Planalto e à dupla Calheiros-Sarney.
Isso para falar do presente, sem contar o passado de uma vida dedicada a desancar Deus, o mundo e seu Raimundo. Os correligionários de hoje eram os "picaretas", "ladrões" e "bandidos"de ontem, contra os quais o PT prometia combate ferrenho quando, e se, chegasse ao poder.
Pois há dez anos chegou e é o que se vê: não bastasse se aliar, festeja os piores tipos, elevando o que antigamente formava o baixo clero à condição de cardinalato do Congresso.
E com a tranquilidade dos puros, mas a sagacidade dos astutos, Rui Falcão, o presidente do PT, acusa Ministério Público e meios de comunicação independentes de tramarem contra a atividade política.
Oferece lições que dariam ensejo a preocupações quanto à sanidade do professor, não flertassem firmemente com o ridículo. Diz Falcão: "São esses a quem nomeei que tentam interditar a política no Brasil. Quando desqualificamos a política a gente abre espaço para aventuras golpistas. A gente abre espaço para experiências que no passado levaram ao nazismo e ao fascismo".
Faltou acrescentar um fator essencial na desconstrução do valor democrático numa sociedade: o populismo (ovo da serpente do autoritarismo), ao qual o PT se dedica com afinco no estímulo ao culto da personalidade e à desmoralização da massa crítica.
A ofensiva é clara: o petista ataca a "oposição apartidária" porque sabe que a partidária está dominada, nas cordas, sem força para preservar o indispensável exercício do contraditório sem o qual restam o silêncio, a concordância, a eliminação do debate, a alternância.
E o objetivo é esse mesmo: exercer o poder sem ser contraditado em nada e por coisa alguma, a fim de que apenas a voz do poder da vez prevaleça.
O PT, contudo, deve tomar cuidado com seus impulsos de eliminação porque, quando não há oposição de lado algum, as posições antagônicas tendem a nascer e a crescer dentro da situação. E aí, alertam os que já viveram essa situação em passado não muito distante - mais especificamente no governo Fernando Henrique, personificada na figura de Antonio Carlos Magalhães - instala-se um verdadeiro inferno.
É hoje o dia. O Senado, que é um pálido retrato do que já foi e agora caminha rumo ao lixo da História, perde autonomia, autoridade moral e também legitimidade na representação dos Estados.
Há 21 suplentes entre os 81 parlamentares da Casa. É isso: um quarto do Senado exerce mandato sem ter recebido um voto.
A suplência ali é composta por dois nomes indicados pelo titular da chapa e escolhidos entre amigos, parentes e financiadores de campanha que não passam pelo crivo das urnas.
Na maioria dos casos assumem a cadeira devido a licenças pedidas para garantir ao substituto biônico uma temporada no paraíso.
Compressor. O líder do governo no Senado, Eduardo Braga, lá por meados do segundo semestre de 2012 chegou a pensar seriamente em concorrer à presidência da Casa.
Chegou a fazer algumas consultas informais sobre sua chance contra o desejo de Renan Calheiros de voltar. Hipótese, na ocasião, que aos de bom senso parecia absurda.
Braga é ovelha desgarrada do grupo de senadores independentes do PMDB que resiste a se entregar ao Palácio do Planalto e à dupla Calheiros-Sarney.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
‘A cobiça cega e o Estado surdo’
JOSÉ NÊUMANNE - OESP
JOSÉ NÊUMANNE - OESP
O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), resultou da associação perversa e criminosa da cobiça cega de um capitalismo de vale-tudo, sem código de conduta nem esteio moral, com um Estado estroina, corrupto, incompetente e incapaz de garantir ordem, paz, segurança pública, a vida e a integridade física de seus cidadãos. Não se trata de um fenômeno exclusivo do subdesenvolvimento endêmico do qual países emergentes como o nosso parecem nunca sair, principalmente no que concerne ao espírito e às mentalidades. O mundo inteiro foi assaltado pela brutalidade da busca incessante da fortuna fácil e do desprezo ao trabalho e à conduta moral que deveria reger a vida em sociedade neste século 21, depois da visita à Lua e do telefone portátil, que conecta seu usuário com as notícias do dia, as cotações do mercado de capitais e as manifestações mais escabrosas da miséria humana. Incêndios em boates são comuns e ocorrem em ambientes fechados e abarrotados de material inflamável, produzindo assim vítimas de morte às centenas e crônicas de grosseria e insensibilidade, antes, e de comoção e solidariedade, depois.
No Brasil, a peculiaridade apresenta-se em algo que os comentaristas de arbitragem de futebol e os membros da Academia de Cinema de Hollywood chamariam de “o conjunto da obra”. O incêndio da boate gaúcha ocorreu numa cidade que homenageia o espírito que se identifica com o afeto materno, a mãe do Salvador, que reúne em sua aura toda a luz da generosidade, do altruísmo, da capacidade de renúncia e da piedade que um mortal é capaz de sentir e expressar. O momento também é peculiar nosso: a maior seca dos últimos 30 anos no semiárido nordestino torna a escassez ainda mais cruel, as famílias desabrigadas pelas enxurradas na Serra e na Baixada Fluminenses ainda não têm um teto para abrigá-las e o sangue de policiais e inimigos da lei continua empoçado no asfalto precário das vielas da periferia da maior cidade da América do Sul. Às vésperas do carnaval, intempéries naturais, brutalidades pessoais e deficiências institucionais reduzem a expectativa de vida de seres humanos e animais numa tragédia que se repete e se amplia indefinidamente.
Nunca se saberá quantas das mais de 230 vidas ceifadas pelo fogo na boate Kiss seriam poupadas se seus proprietários houvessem obedecido às normas de segurança de edificações às quais acorrem multidões para ouvir, cantar, dançar e se divertir. Quem permitiu que aquele bando de jovens em busca da felicidade efêmera de uma balada arriscasse a vida em meio a fiações e equipamentos eletrônicos capazes de gerar faíscas que se transformariam em labaredas no material inflamável é um assassino serial em potencial e como tal deveria ser tratado depois de contados os cadáveres carbonizados e os prejuízos materiais. Quantos dos jovens imolados deixariam de ser incinerados se não tivessem sido barrados por agentes de segurança empenhados apenas em garantir o pagamento das comandas de consumo, em vez de permitirem a fuga de uma multidão empurrada para fora do lugar pelas chamas? Neste crime se acumpliciam donos e empregados, brutos adoradores do bezerro de ouro, que levam mais em conta a dívida do que a perda da vida.
Nesta Pátria da impunidade, madrasta malvada, quem acredita que alguém será punido? Quem já o foi? Os rústicos proprietários dos barcos apinhados de passageiros que naufragam no caudal da Bacia Amazônica ou nos fios de água do Velho Chico? Quem pagou pela plateia queimada no circo de Niterói, a maior tragédia de nossa história? Quem respondeu pelo afundamento do Bateau Mouche na Baía da Guanabara ou pelos prédios que desabam em reformas mal feitas no centro do Rio? Uma Justiça leniente acaba o serviço macabro que começa na cobiça, sua colega em matéria de cegueira crônica.
No meio do caminho entre o fogo dos sinalizadores e a falta de uso do martelo do juiz figura a incapacidade do Estado brasileiro ─ municípios, Estados e União ─ de produzir leis adequadas para proteger o cidadão que trabalha, mora ou se diverte e, sobretudo, de fazer com que as existentes, muito numerosas e pouco eficazes, sejam cumpridas. Os decibéis dos equipamentos eletrônicos da balada da Kiss não perturbaram o sono dos fiscais de Santa Maria, cujo gestor municipal fez vista grossa à desobediência das próprias posturas pelo estabelecimento comercial do qual nunca se omitiu de cobrar impostos. Municípios e o Estado do Rio não gastam um centavo do que recebem da União para prevenir enchentes em seu território, mas voltam a prometer a cada verão trágico novas providências, que nunca serão tomadas nem deles cobradas nas eleições.
A presidente Dilma Rousseff foi a Santa Maria e chorou com pena das famílias que o Estado abandona ao desamparo. Assim como o imperador dom Pedro II jurou que venderia o último diamante da Coroa para não deixar um cearense morrer de fome. Fê-lo mais de cem anos antes de os sertanejos continuarem perdendo tudo, até a própria vida, por causa da sede implacável. As imagens das ruínas da obra inacabada da transposição do Rio São Francisco sem que uma gota de água fosse levada à caatinga mais próxima são a denúncia mais deslavada da hipocrisia generalizada de gestores públicos que, desde o Império até hoje, garimpam votos valiosos na miséria que os donos do poder semeiam em suas posses e colhem na máquina pública que, eleitos pelos súditos, passam a pilotar. Os maganões da República mantêm-se no poder enganando os sobreviventes da seca do semiárido, das enxurradas da Serra Fluminense e deste incêndio em pagos gaúchos.
O Estado brasileiro ─ as elites dirigentes que se apropriam do dinheiro público no poder em municípios, Estados e na União ─ é cúmplice da cobiça assassina dos empresários sem lei. Só nos resta rezar por suas vítimas e amaldiçoar os algozes da cobiça cega e do Estado surdo. Já que terminarão impunes, que lhes seja reservado o fogo eterno do inferno.
No Brasil, a peculiaridade apresenta-se em algo que os comentaristas de arbitragem de futebol e os membros da Academia de Cinema de Hollywood chamariam de “o conjunto da obra”. O incêndio da boate gaúcha ocorreu numa cidade que homenageia o espírito que se identifica com o afeto materno, a mãe do Salvador, que reúne em sua aura toda a luz da generosidade, do altruísmo, da capacidade de renúncia e da piedade que um mortal é capaz de sentir e expressar. O momento também é peculiar nosso: a maior seca dos últimos 30 anos no semiárido nordestino torna a escassez ainda mais cruel, as famílias desabrigadas pelas enxurradas na Serra e na Baixada Fluminenses ainda não têm um teto para abrigá-las e o sangue de policiais e inimigos da lei continua empoçado no asfalto precário das vielas da periferia da maior cidade da América do Sul. Às vésperas do carnaval, intempéries naturais, brutalidades pessoais e deficiências institucionais reduzem a expectativa de vida de seres humanos e animais numa tragédia que se repete e se amplia indefinidamente.
Nunca se saberá quantas das mais de 230 vidas ceifadas pelo fogo na boate Kiss seriam poupadas se seus proprietários houvessem obedecido às normas de segurança de edificações às quais acorrem multidões para ouvir, cantar, dançar e se divertir. Quem permitiu que aquele bando de jovens em busca da felicidade efêmera de uma balada arriscasse a vida em meio a fiações e equipamentos eletrônicos capazes de gerar faíscas que se transformariam em labaredas no material inflamável é um assassino serial em potencial e como tal deveria ser tratado depois de contados os cadáveres carbonizados e os prejuízos materiais. Quantos dos jovens imolados deixariam de ser incinerados se não tivessem sido barrados por agentes de segurança empenhados apenas em garantir o pagamento das comandas de consumo, em vez de permitirem a fuga de uma multidão empurrada para fora do lugar pelas chamas? Neste crime se acumpliciam donos e empregados, brutos adoradores do bezerro de ouro, que levam mais em conta a dívida do que a perda da vida.
Nesta Pátria da impunidade, madrasta malvada, quem acredita que alguém será punido? Quem já o foi? Os rústicos proprietários dos barcos apinhados de passageiros que naufragam no caudal da Bacia Amazônica ou nos fios de água do Velho Chico? Quem pagou pela plateia queimada no circo de Niterói, a maior tragédia de nossa história? Quem respondeu pelo afundamento do Bateau Mouche na Baía da Guanabara ou pelos prédios que desabam em reformas mal feitas no centro do Rio? Uma Justiça leniente acaba o serviço macabro que começa na cobiça, sua colega em matéria de cegueira crônica.
No meio do caminho entre o fogo dos sinalizadores e a falta de uso do martelo do juiz figura a incapacidade do Estado brasileiro ─ municípios, Estados e União ─ de produzir leis adequadas para proteger o cidadão que trabalha, mora ou se diverte e, sobretudo, de fazer com que as existentes, muito numerosas e pouco eficazes, sejam cumpridas. Os decibéis dos equipamentos eletrônicos da balada da Kiss não perturbaram o sono dos fiscais de Santa Maria, cujo gestor municipal fez vista grossa à desobediência das próprias posturas pelo estabelecimento comercial do qual nunca se omitiu de cobrar impostos. Municípios e o Estado do Rio não gastam um centavo do que recebem da União para prevenir enchentes em seu território, mas voltam a prometer a cada verão trágico novas providências, que nunca serão tomadas nem deles cobradas nas eleições.
A presidente Dilma Rousseff foi a Santa Maria e chorou com pena das famílias que o Estado abandona ao desamparo. Assim como o imperador dom Pedro II jurou que venderia o último diamante da Coroa para não deixar um cearense morrer de fome. Fê-lo mais de cem anos antes de os sertanejos continuarem perdendo tudo, até a própria vida, por causa da sede implacável. As imagens das ruínas da obra inacabada da transposição do Rio São Francisco sem que uma gota de água fosse levada à caatinga mais próxima são a denúncia mais deslavada da hipocrisia generalizada de gestores públicos que, desde o Império até hoje, garimpam votos valiosos na miséria que os donos do poder semeiam em suas posses e colhem na máquina pública que, eleitos pelos súditos, passam a pilotar. Os maganões da República mantêm-se no poder enganando os sobreviventes da seca do semiárido, das enxurradas da Serra Fluminense e deste incêndio em pagos gaúchos.
O Estado brasileiro ─ as elites dirigentes que se apropriam do dinheiro público no poder em municípios, Estados e na União ─ é cúmplice da cobiça assassina dos empresários sem lei. Só nos resta rezar por suas vítimas e amaldiçoar os algozes da cobiça cega e do Estado surdo. Já que terminarão impunes, que lhes seja reservado o fogo eterno do inferno.
Assinar:
Postagens (Atom)