quinta-feira, 4 de abril de 2013

Overdose de cocaína matou cantor Chorão, conclui laudo do IML
Vocalista foi encontrado morto em seu apartamento, em SP, em 6 de março.
Resultado de exame será anexado ao inquérito da Polícia Civil de SP.

Kleber Tomaz e Paulo Toledo Piza - Do G1 São Paulo

Chorão se apresenta à frente do Charlie Brown Jr no Festival de Verão Salvador 2010, em Salvador (Foto: Thiago Teixeira/Agência A Tarde/Folhapress)
Chorão se apresenta em Salvador (Foto: Arquivo/Thiago Teixeira/Agência A Tarde/Folhapress)
Uma overdose de cocaína matou Alexandre Magno Abrão, conhecido como Chorão, do grupo Charlie Brown Jr., aponta o laudo necroscópico da Polícia Técnico-Científica de São Paulo. O vocalista da banda foi encontrado morto em 6 de março no seu apartamento na Zona Oeste da capital paulista.
O laudo considera resultados do exame toxicológico número 5054/2013 do Instituto Médico-Legal (IML) feito no corpo de Chorão. O exame toxicológico apontou que o corpo apresentava 4,714 microgramas da droga por mililitro de sangue. Segundo os peritos, foi possível concluir, a partir dos testes, que a causa da morte foi "intoxicação exógena devido à cocainemia".
O laudo necroscópico, que tem o número 758/2013, será anexado ao inquérito da Polícia Civil. Após ser concluído, o inquérito será encaminhado ao Fórum da Barra Funda para apreciação do Ministério Público e da Justiça. O processo pode ser arquivado.
O psiquiatra Thiago Fidalgo, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explicou a definição constante do laudo. “Isso significa que ele morreu após consumir grande quantidade de cocaína”, disse Fidalgo, comentando os termos do documento. O especialista não participou da investigação.
De acordo com o especialista, o excesso da droga pode ter causado um infarto ou um acidente vascular cerebral. “[A cocaína gera] muita adrenalina, gera aumento da pressão, aumento da frequência cardíaca e respiratória, sobrecarga cardíaca e, com isso, tem menos sangue chegando no coração e no cérebro”, explicou o especialista.
Segundo ele, pela idade de Chorão, a hipótese mais plausível é a de ataque cardíaco. “Se tivesse mais de 50 anos, provavelmente seria um AVC isquêmico”, acrescentou o psiquiatra.
Overdose era uma hipótese considerada pelo DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa). O corpo do artista foi achado caído por um segurança e um motorista dele, no imóvel que mantinha em Pinheiros. Peritos também encontraram pó branco e caixas de medicamentos e bebidas espalhadas no local, que estava parcialmente destruído.
Os depoimentos da ex-mulher do vocalista e dos integrantes do Charlie Brown Jr. confirmaram que o cantor fazia uso de entorpecentes. Em seu depoimento ao DHPP, a estilista Graziela Gonçalves havia dito que "perdeu" o cantor "para as drogas". Ela chegou a dizer a jornalistas que tinha se separado de Chorão porque ele estava viciado em cocaína.
ARTE - morte chorão (Foto: G1)
Perfil
O cantor e letrista, que faria 43 anos em 9 de abril, liderava a banda fundada por ele na cidade de Santos, no litoral de São Paulo, em 1992. Em 15 anos de carreira, o Charlie Brown Jr lançou nove álbuns de estúdio, dois discos ao vivo, duas coletâneas e seis DVDs. Ao todo, o grupo vendeu 5 milhões de cópias.
Além de vocalista, Chorão era responsável pelas letras do Charlie Brown Jr. e pelo direcionamento artístico e executivo da banda. Em 2005, o trabalho "Tâmo aí na atividade” foi premiado com o Grammy Latino de melhor álbum de rock brasileiro, o que se repetiu em 2010 com "Camisa 10 joga bola até na chuva".
No ano passado, o Charlie Brown Jr. lançou "Música Popular Caiçara", álbum ao vivo que marcou o retorno dos integrantes Marcão e Champignon à banda. Eles haviam deixado o grupo em 2005. As apresentações aconteceram em Curitiba e Santos. A produção do trabalho foi feita por Liminha e os shows tiveram participação de Falcão (O Rappa), Zeca Baleiro e Marcelo Nova. Das 15 faixas do CD, a única gravada em estúdio é "Céu azul".
O vocalista foi também roteirista do filme "O magnata" (2007), do diretor Johnny Araújo, e do longa “O cobrador”, ainda em andamento. Como empresário, administrou marcas de skate, como a DO.CE, fundada por ele em 2009, e viabilizou a realização de grandes eventos de skate no Brasil, além de manter o espaço Chorão Skate Park, em Santos, desde 2006.
A estreia do Charlie Brown Jr aconteceu em 1997 com o lançamento do álbum "Transpiração contínua prolongada". O trabalhou conseguiu o certificado de disco de platina ao vender mais de 250 mil cópias e tem como singles os sucessos "O coro vai comê", "Proibida pra mim", "Tudo que ela gosta de escutar", "Quinta-feira" e "Gimme o anel".
Daniela Mercury 'sai do armário' e ataca Feliciano
Musa do axé divulga em rede social fotos em clima de romance com sua 'esposa', uma jornalista baiana
Revelação acontece em meio à polêmica atuação do pastor Feliciano à frente de comissão da Câmara
FSP
O canto da cidade e do país, ontem, foi de Daniela Mercury. Começou de manhã, quando a cantora fez pelo Instagram uma emocionada declaração de amor a outra mulher. E terminou à noite, com outra declaração de Daniela -desta vez de guerra- ao pastor Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, acusado de racista e homofóbico.
"Numa época em que temos um Feliciano desrespeitando os direitos humanos, grito o meu amor aos sete ventos. Quem sabe haja ainda alguma lucidez no Congresso brasileiro!", escreveu Daniela em comunicado.
O dia já tinha começado quente nas redes sociais. "Malu [Verçosa] agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar", entregou Mercury na legenda de um mosaico de fotos em que se veem as duas, clima apaixonado, felizes, bocas coladas, mãos juntas com alianças.
Bombou na internet. Até as 19h de ontem, já havia no Google meio milhão de links a respeito da declaração romântica da musa do axé. No Twitter, o tópico Daniela Mercury esteve na lista dos mais comentados todo o dia.
O deputado Jean Wyllys (PSOL), defensor no Congresso da causa gay sacou um Guimarães Rosa rápido: "A vida requer coragem! Parabéns, @danielamercury pela coragem e sensibilidade!".
Ivete Sangalo também pelo Twitter mandou seus votos: "Meu bom dia especial de hj vai para @danielamercury. Seja muito feliz querida, vc é um luxo!! Muito amorrrrrrrrr".
Repercutiu em Brasília, durante reunião da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Como Feliciano havia ordenado que o encontro fosse fechado ao público, manifestantes contrários à permanência do pastor na comissão fizeram-se ouvir cantando, do lado de fora, hits da baiana, como o "Canto da Cidade".
Feliciano, por meio de sua assessoria, disse não ver relação entre a atitude de Daniela Mercury e a polêmica envolvendo sua permanência na comissão: "Feliciano avalia que cada pessoa deve se assumir como quiser e que isso tem que ser respeitado".
FAMÍLIA
A revelação do romance gay acontece poucos meses depois do fim do segundo casamento de Daniela, com o publicitário Marco Scabia. A cantora tem cinco filhos, três adotivos e dois naturais. A caçula é Ana Isabel, 2.
Malu Verçosa, editora-chefe do Bahia Meio Dia, o telejornal local da Globo na Bahia, faz um programa diário de rádio na CBN Salvador, chamado Salto Alto. Em seu perfil no Twitter, ela se define também como "fotógrafa-aprendiz e feliz".
O protesto de Daniela Mercury contra Feliciano soma-se ao de outros artistas, como o da atriz Fernanda Montenegro, 83, que deu beijo na boca da atriz Camila Amado, 77.
Ontem foi a vez de Yasmin Brunet, que postou no Instagram foto em que é vista dando um selinho na atriz Antonia Morais. E então a seguinte legenda: "Amor não escolhe raça ou sexo. É livre. Feliciano não nos representa."
Daniela, em turnê pela Europa, fará shows em Portugal no fim de semana e então voltará ao Brasil.
Em protesto contra inflação, cantina italiana elimina tomate do cardápio
Preço do produto no atacado saltou de R$ 35 para R$ 150, segundo dono do restaurante
Roberta Scrivano - O Globo
Cantina anunciou no Facebook que está desistindo de usar tomate Foto: Reprodução da internet/O GLOBO
Cantina anunciou no Facebook que está desistindo de usar tomate - Reprodução da internet/O GLOBO
SÃO PAULO A cantina Nello’s está reinventando a culinária italiana. O restaurante baniu o essencial tomate de seu cardápio após ver o preço do produto saltar de uma média que varia entre R$ 20 e R$ 35 para R$ 150 — alta equivalente a mais de 300%. Os fregueses estão sendo orientados a trocar o filé a parmegiana pelo filé ao molho de uvas e o macarrão ao sugo pelo espaguete com camarões ou legumes.
O protesto contra a inflação feito pela cantina, que funciona há 39 anos em São Paulo, começou com uma postagem no Facebook, assinada pelo proprietário Augusto Mello. No texto ele afirma: “preferimos ficar sem a mercadoria do que repassar um aumento abusivo aos nossos clientes”. Até o início da noite desta quarta-feira, os comentários de apoio à manifestação já superava 350.
As duas unidades da cantina em bairros da zona oeste paulistana consomem semanalmente 800 quilos de tomate no inverno e, no verão, os pedidos chegam a uma tonelada. Nesta semana, o empresário não fez pedidos e seu estoque, que está sendo “usado racionalmente”, deve durar até sexta-feira.
— Só volto a comprar quando o preço cair para menos de R$ 70. Caso contrário, não teremos tomate — desabafa.
Com forte poder de barganha por conta do grande volume de pedidos, Mello já conseguiu fazer o preço da caixa do tomate cair dos R$ 150 de terça-feira para R$ 70 na tarde de hoje. Ele também reclama do aumento dos custos da batata, pimentão e do queijo.
— Não concordo com a postura do governo de manter a inflação e com a expectativa que ela vai se acomodar sozinha. Nunca vi os preços subirem de forma tão descontrolada como está ocorrendo neste ano. É preocupante — conta.
No manifesto do Facebook ele já havia alfinetado a postura do governo. “Nosso governo insiste que devemos trocar ‘um pouco de inflação para termos crescimento’. Pedimos o direito de discordar veementemente desta visão’.
Mello critica também a ausência de benefícios fiscais para o setor de restaurantes. No início deste ano, por exemplo, o governo federal desonerou as folhas de pagamentos dos garçons que trabalham em hotéis, mas não dos que atuam em restaurantes. Seus dois restaurantes empregam 16 garçons. Segundo ele, se a desoneração chegasse, a economia seria de R$ 40 mil ao mês.
— Por que hotel tem e restaurante não? Por que beneficiar e dar competitividade só uma parte da economia e não a todas? — questiona.
O limite da ineficiência
Merval Pereira - O Globo
Já que a principal qualificação da presidente Dilma Rousseff é a excelência gerencial, pelo menos na propaganda oficial, analisemos seu governo à luz da organização de sua estrutura administrativa, agora que mais uma secretaria com status de ministério, a da Micro e Pequena Empresa, foi criada. São 24 ministérios, mais dez secretarias ligadas à Presidência e cinco órgãos com status de ministério, ao todo 39 ministérios, um recorde na História do país, além de uma dimensão que está dentro do que se conhece como "coeficiente de ineficiência", definido em estudo, já relatado aqui na coluna, de três físicos da Universidade Cornell, Peter Klimek, Rudolf Hanel e Stefan Thurner, depois de analisarem a composição ministerial de 197 países.
O estudo chegou à conclusão de que os governos mais eficientes têm entre 19 e 22 membros. O Brasil estaria no mesmo nível de ineficiência ministerial do Congo (40); do Paquistão (38); de Camarões, Gabão, Índia e Senegal (36), entre outros. O empresário Jorge Gerdau, que atua como consultor do governo para melhorar sua gestão, perdeu a paciência com a situação e disse em recente entrevista que “tudo tem o seu limite. Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, de repente, sai um saneamento. Nós provavelmente estamos no limite desse período”.
Para Gerdau, o país poderia ter apenas uma meia dúzia de ministérios, que são os que realmente a presidente Dilma controla diretamente. Os demais “ministros” raramente estão com a presidente, e alguns nunca foram recebidos por ela em audiência nesses mais de dois anos governo. Napoleão Bonaparte concordava com Gerdau e dizia que nos altos níveis não se comanda com eficiência mais de sete subordinados.
O número de ministérios no Brasil tem aumentado a partir da eleição de Tancredo Neves, em 1985, segundo o cientista político Octavio Amorim Neto, da Fundação Getulio Vargas do Rio, um estudioso da formação de governos, e seu levantamento vale a pena ser republicado por refletir a necessidade crescente de composições políticas, acrescida da busca desenfreada de minutos de propaganda eleitoral. Antes de Tancredo, o governo Figueiredo tinha 16 membros, além dos cinco ministérios militares: Marinha, Exército e Aeronáutica, SNI e Emfa. Eleito, uma das primeiras coisas que Tancredo Neves fez foi aumentar o número de ministérios, para acomodar na sua coalizão uma série de facções do PMDB e do antigo PDS, transformado em Frente Liberal.
O primeiro Ministério de José Sarney, herdado de Tancredo, tinha 21 ministros, com três ministérios novos: da Cultura, da Reforma e Desenvolvimento Agrário, e o de Ciência e Tecnologia. O governo de Fernando Collor reduziu radicalmente o Ministério para 10, chegando a 12 no final, antes do impeachment, o que alimenta a tese de que ele caiu por não ter mantido bom relacionamento com o Congresso, e não pelas falcatruas de que era acusado.
Quando Itamar Franco assumiu, na crise da deposição de Collor, uma das primeiras coisas que fez foi ampliar o número de ministérios para 22, tendo sido criado o Ministério do Meio Ambiente. O tamanho dos ministérios ficou em torno desse número no governo Fernando Henrique Cardoso, embora também ele tenha criado mais três ministérios: o do Planejamento, o da Defesa e o do Esporte, e uma série de secretarias para acomodar facções políticas. A partir dos governos petistas, especialmente depois da crise de 2005, a criação de ministérios disparou: saltou das 21 pastas do último ano do governo Fernando Henrique Cardoso para 34 no primeiro mandato de Lula, 37 no segundo e agora 39 com Dilma.

ELIÂNICAS

Hora de tirar vantagem
Eliane Cantanhêde - FSP
BRASÍLIA - A presidente da República, Dilma Rousseff, fez (ou levou a fama de fazer) uma "faxina" no governo. Já a candidata do PT à reeleição em 2014, Dilma Rousseff, joga a poeira para debaixo do tapete.
O mesmo Carlos Lupi, que foi afastado do Ministério do Trabalho na "faxina", agora levou ao Planalto o seu candidato exatamente ao Ministério do Trabalho. E ele foi nomeado.
Nem por isso o PDT fechou o apoio formal à campanha de Dilma. Prefere esperar 2014 para ver no que vai dar.
O mesmo Alfredo Nascimento, que foi afastado do Ministério dos Transportes na "faxina", agora levou ao Planalto o seu candidato exatamente ao Ministério dos Transportes. E ele também foi nomeado.
Mas nem por isso o PR fechou o apoio formal à campanha de Dilma. É outro que também prefere esperar 2014 para ver no que vai dar.
É quase um padrão. O sujeito não servia para ser ministro, mas serve para indicar o novo ministro às vésperas da campanha oficial e em plena campanha real. E isso, claro, deixam ouriçados outros ex-ministros, outros partidos. Não é, PTB?
O PSD não se encaixa no padrão porque nem existia em 2010 e, portanto, não era do governo na época da "faxina". Mas Dilma deu um jeito: criou um novo ministério, o 39º. Nesse caso, não jogou a poeira debaixo do tapete, mas está jogando o partido num ministério para as pequenas empresas.
Mas, como o PDT e o PR, o PSD, do ex-prefeito Gilberto Kassab, também não está fechando o apoio formal à campanha de Dilma. Prefere esperar 2014 para ver no que vai dar.
Aliás, o PSB não caiu na "faxina" e continua firme e forte com o seu ministério. Dilma não o pediu de volta. O partido se fez de desentendido.
Nem por isso o governador Eduardo Campos desistiu da candidatura e apoiou Dilma. Ao contrário, está cada vez mais adversário dela.
Moral da história: a hora não é de assumir compromissos, só de oferecer e tirar vantagens.
Na reta final
Merval Pereira - O Globo
O próximo debate do julgamento do mensalão, a ação penal 470, será sobre os chamados “embargos infringentes”, recursos que teoricamente a defesa dos réus pode interpor quando a condenação tem um mínimo de quatro votos discordantes. É o caso da condenação por formação de quadrilha que atingiu dez dos réus, incluindo o núcleo político com José Dirceu, José Genoino e Delubio Soares, o núcleo publicitário com Marcos Valério, Ramon Hollerbarch, Simone Vasconcelos e Cristiano Paz e o núcleo financeiro, com Kátia Rabello, José Roberto Salgado e Vinícius Samarane.
Com a saída de Ayres Brito, o placar está em 5 a 4 e teoricamente, com a participação do novo ministro Teori Zavascki, que não tomou parte do julgamento mas atuará nos recursos, o placar pode ser alterado para o empate, o que beneficiaria os réus. Há ainda a possibilidade de um novo ministro ser indicado para a vaga do próprio Brito, (Zavascki entrou na vaga de Cesar Peluso, que se aposentou antes de votar no item formação de quadrilha) o que preencheria o plenário do Supremo com 11 ministros.
Escrevi lá em cima “teoricamente” por que há dúvidas sobre se ainda existe a figura dos tais “embargos infringentes”, previstos no regimento interno do Supremo Tribunal Federal, mas não incluídos na Constituição de 1988 nem na lei 8038 que disciplinou os processos nos tribunais.
Embora existam ministros no STF e criminalistas que consideram que os “embargos infringentes” não existem mais, pois só são previstos na lei para a segunda instância, no debate deve prevalecer a preocupação com o amplo direito de defesa. O ministro Celso de Mello, ao apreciar a Questão de Ordem proposta pelo advogado Márcio Thomaz Bastos na primeira sessão de julgamento do processo, pedindo o processo fosse desmembrado, garantiu que há duplo grau de jurisdição no STF, citando a previsão de embargos infringentes no Regimento Interno.
Ontem se encerrou o prazo regimental de 60 dias depois do julgamento, sem contar o recesso, para que o acórdão fosse publicado, com todos os votos dos ministros, mas o ministro Celso de Mello ainda não entregou sua versão revisada. O atraso, no entanto, não será tão grande, pois todos esperam que até o final da semana tudo esteja pronto.
A partir da publicação do acórdão, os advogados de defesa terão cinco dias para apresentarem seus recursos, que podem ser “embargos declaratórios”, onde se pede esclarecimento sobre pontos específicos dos votos, e “embargos infringentes”, onde se tenta mudar a condenação que tenha sido proclamada com pelo menos quatro votos contrários.
Os advogados de defesa estão tentando junto ao presidente do Supremo Tribunal Federal mais prazo para a apresentação dos recursos, alegando que o processo é atípico e muito grande, mas, como de vezes anteriores em que negou, por exemplo, a José Dirceu acesso antecipado aos votos já preparados, o ministro Joaquim Barbosa não deve alterar os prazos.
Ele tem dito que pretende seguir à risca os procedimentos para não “flexibilizar” a lei: “(...) todos me conhecem e sabem que eu não sou de flexibilizar a lei em nenhum sentido. Todas as decisões que tomei até agora foram no sentido de aplicar a lei". Para ele, o acórdão já poderia estar pronto há um mês, que foi quando entregou a sua parte.
Mas a vontade de não permitir protelações no processo não chega ao ponto de publicar o acórdão sem o voto de um dos ministros, como chegou a ser cogitado. Barbosa garantiu ao ministro Celso de Mello que aguardará sua revisão. Por estar convencido de que todos os pedidos da defesa têm o objetivo de retardar o cumprimento das sentenças, o presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa pretende colocar em julgamento os recursos o mais rápido possível.

quarta-feira, 3 de abril de 2013


Château La Clayette, France (by pe_ha45)
Desemprego do euro chega a 12% no início do ano
Índice recorde deve reforçar a pressão sobre Banco Central para reduzir juros e estimular a produção
A comparação com fevereiro de 2012 mostra que o número de pessoas sem trabalho aumentou 1,77 milhão
BERNARDO MELLO FRANCO - FSP
Apesar das previsões de recuperação da economia europeia, a crise deu ontem mais uma prova de que continua a produzir estragos no continente.
A taxa de desemprego nos 17 países da zona do euro foi de 12% em fevereiro, um recorde desde a adoção da moeda. É o mesmo patamar revisado do mês de janeiro, também divulgado ontem.
O índice deve reforçar a pressão sobre o Banco Central Europeu para voltar a reduzir os juros e estimular a retomada da produção.
Também é esperada nova pressão sobre os governos do bloco para afrouxar as medidas de austeridade, que têm cortado gastos públicos e benefícios sociais.
De acordo com a agência oficial Eurostat, a comparação com fevereiro de 2012 mostra que o número de pessoas sem trabalho na região da moeda única aumentou 1,77 milhão no período de apenas um ano.
No grupo de 27 países que integram a União Europeia, que inclui os que não usam a moeda única, o percentual de desempregados chegou a 10,9% em fevereiro, 0,1 ponto a mais que no mês anterior.
Os dados da zona do euro continuam a apontar Espanha e Grécia como os países mais sacrificados pela crise.
Em fevereiro, 26,3% dos espanhóis estavam desempregados. O dado grego mais recente é de dezembro, quando o índice foi a 26,4%.
Há um ano, os dois países já sofriam com a recessão, mas exibiam índices menores: 23,9% na Espanha e 21,4% na Grécia.
Em Portugal, que aparece em terceiro lugar no ranking de desempregados, a taxa saltou de 14,8% para 17,5% no período de 12 meses.
Considerando toda a União Europeia, o índice de desemprego aumentou em 19 países e caiu em apenas oito desde fevereiro de 2012.
As menores taxas pertencem a Áustria (4,8%), Alemanha (5,4%), Luxemburgo (5,5%) e Holanda (6,2%).
O fato de os alemães estarem sendo menos afetados pela crise do que os vizinhos do sul tem impulsionado protestos contra a chanceler Angela Merkel em outros países.
PESSIMISMO
Ontem, analistas europeus voltaram a usar tom de pessimismo ao falar sobre as perspectivas para a economia do continente.
"É muito provável que o desemprego ultrapasse os 12% nos próximos meses e chegue perto de 12,5% no fim do ano", disse Howard Archer, da consultoria IHS.
"As consequências econômicas e sociais do desemprego alto continuam a representar uma das maiores ameaças ao futuro da zona do euro", emendou Marie Diron, da agência Ernst & Young.
Reino Unido decide reajustar o 'salário' da rainha em 20%
BERNARDO MELLO FRANCO - FSP
A rainha Elizabeth 2ª, cuja imagem estampa toda nota de libra esterlina, receberá mais cédulas para ver o próprio rosto a partir deste ano.
A monarquia ganhou ontem um aumento de 20% em sua verba anual, que passou para 36,1 milhões de libras, ou cerca de R$ 110 milhões. Tudo livre de impostos.
O reforço no caixa foi anunciado um dia depois de o governo britânico fazer novos cortes em benefícios sociais pagos às famílias de contribuintes, em nova medida de austeridade contra a crise.
O Palácio de Buckingham não informou como a quantia extra será usada. Os planos incluiriam uma reforma no Castelo de Windsor, onde a realeza passa os fins de semana.
No ano passado, a rainha havia recebido 30 milhões de libras (R$ 91,5 milhões) em "salários", sem contar um bônus de 1 milhão de libras para as festas do seu jubileu.
O aumento de ontem se deve a uma mudança no sistema que financia a Coroa. A chamada lista cívica deu lugar a um fundo soberano, alimentado por lucros obtidos com as propriedades reais.
A rainha agora receberá 15% deste bolo, que no último ano foi de 240,2 milhões de libras (R$ 730 milhões).
Os defensores da monarquia usam esses números para sustentar que o sistema dá lucro ao país, embora a família real seja remunerada sem trabalhar. Para os republicanos, a verba deveria ir toda para o contribuinte.
Pesquisas mostram que o grupo continua em baixa: só 16% dos britânicos querem eleger o chefe de Estado.

JOÃO BOSCO LEAL

Relacionamentos
O relacionamento humano é, provavelmente, a experiência mais difícil para todos, pois para que o mesmo se torne maduro, duradouro, quando os dois já seguirão um mesmo caminho, com metas e objetivos comuns, são necessárias insistências, concessões, renúncias e superação de dificuldades.
As pessoas, que um dia se encontraram, vieram de locais com educação, nível social e cultural distintos, o que certamente exige habilidade de ambos para começarem qualquer tipo de relacionamento, como amizades, paqueras, namoros ou casamentos.
Além disso, ambas possuem um passado, que pode ou não ser aceito pelo outro, mas nem por isso deve ser ocultado. Pelo contrário, o conhecimento de seu passado é fundamental para que seu parceiro, amigo ou namorado a conheça em profundidade e goste de você como é, com seu passado, pois foi com seus erros e acertos, quedas e levantes que você se tornou o que é hoje.
Os relacionamentos amorosos começam de diversas maneiras, mas normalmente é a atração física que provoca a primeira aproximação. O conhecimento, a conversa, os primeiros toques e beijos podem provocar uma enorme paixão, mas só isso jamais levará ao amor, que precisará ser construído ao longo do tempo.
A história está repleta de casos de relacionamentos em que as pessoas se conheceram, namoraram durante anos para depois se casarem, mas acabaram se separando, enquanto muitos casamentos - que dão certo e são duradouros -, ocorrem entre pessoas desconhecidas, que tiveram sua união combinada pelos pais ou imaginada por amigos que os apresentaram.
Esse tipo de união faz com que as pessoas comecem o relacionamento contando, um ao outro, fatos de seu passado, que muitas vezes levam a lembranças agradáveis ou dolorosas da vida de cada um, o que, indiretamente, vai provocando amizade, intimidade e cumplicidade entre os dois e isso é que fará surgir o verdadeiro amor.
Pelo simples fato de estarem sendo confessadas, as lembranças dolorosas já percorrem um longo caminho para que sejam esquecidas e as dores por elas provocadas sejam cicatrizadas. Todavia as que deveriam e não foram confessadas, se conhecidas através de terceiros, mostrarão a seu parceiro a feição de uma pessoa desconhecida, que pode ter sido tudo, menos sua cúmplice.
Os relatos de cada um fazem inclusive com que o outro possa entender os motivos de determinadas atitudes do parceiro e sua maior ou menor sensibilidade em relação a determinados assuntos. Com esse conhecimento fica mais fácil evitar situações desagradáveis, como comentários infelizes, o que torna a convivência mais alegre.
Os fatos desagradáveis, tristes e dolorosos do passado também abrem portas para que um possa amparar o outro, fazendo com que se tornem mais amigos. Isto é uma base fundamental para qualquer relação madura e saudável, onde não importa quem mais viveu, distâncias percorreu, erros cometeu, dificuldades superou, escolas cursou ou dinheiro ganhou.
O maior conhecimento entre os dois os fará caminhar na mesma direção, por caminhos que os conduzirá ao mesmo lugar, criar projetos comuns e tentar realizar sonhos e desejos comuns, ou mesmo os do outro e assim o verdadeiro amor será construído, em bases sólidas, sobre pedras e não sobre areia.
Está dentro de cada um o poder de alcançar a própria felicidade, mas nos relacionamentos humanos ela necessariamente passa pela transparência, franqueza e honestidade, pois só o que é verdadeiro permanecerá.
Somente quando seu parceiro aceita seu passado, apoia seu presente e incentiva seu futuro poderá ocorrer um relacionamento duradouro.
João Bosco Leal www.joaoboscoleal.com.br
* Jornalista e empresário
O país imaginário de Cristina Kirchner
Rodrigo Botero Montoya - O Globo
Os regimes autoritários terminam criando um mundo de sonho, ao qual só chegam boas notícias. Diz-se que, durante a ditadura de Oliveira Salazar, seu círculo íntimo mandava imprimir um diário com um único exemplar para que o líder do Estado Novo pudesse apreciar o progresso de Portugal.
Os aduladores de Cristina Kirchner desenharam uma variante não menos engenhosa. Uma vez consolidado o controle político do organismo oficial de estatísticas, falsificam-se os índices de maneira vergonhosa para que produzam os resultados que a presidente deseja.
O problema da inflação é resolvido com a divulgação de um aumento de preços de cerca de um terço do real. Persegue-se judicialmente quem produz cifras de inflação fidedignas. Ao mentir acerca da inflação, o governo colhe dividendos adicionais.
O PIB aparece maior que de fato é e a proporção de pobres aparece menor. Obtém-se um ganho fiscal ao fraudar os detentores de títulos soberanos indexados à taxa de inflação. No entanto, o uso sistemático da mentira como ferramenta de governo apresenta alguns inconvenientes, como o desprestígio internacional e a perda generalizada de credibilidade.
Na medida em que o governo opta por crer em suas próprias mentiras, e atua em função desse autoengano, entra no reino da fantasia. O discurso esquizofrênico se converte em verdade oficial. Cristina Kirchner constrói um relato fictício da história da Argentina e o proclama ante auditórios selecionados para que a aplaudam. Como adverte um de seus colaboradores mais próximos: “À presidente não se fala. Se escuta.”
Suas entrevistas coletivas são um monólogo. Quando pontifica sobre temas econômicos, pode dizer qualquer disparate, como quando anuncia que o índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos não inclui alimentos nem gasolina. Por estar acostumada ao aplauso incondicional, suas atuações no exterior acabam sendo desconcertantes.
Seu comportamento na Escola de Governo Kennedy da Universidade de Harvard produziu estupor entre os americanos e vergonha entre os latino-americanos.
A condução econômica consiste numa mescla de rentismo de amigos e capitalismo de Estado, com alta dose de intervencionismo discricionário e corrupção. A presidente se tornou adepta de usar o imperativo “exproprie-se” sem ordem judicial ou indenização.
A combinação de prepotência e inépcia gerencial converte as empresas estatizadas em máquinas de destruição de valor. As Aerolíneas Argentinas acumulam prejuízos da ordem de US$ 2 milhões diários. Depois de confiscar o investimento da Repsol na empresa petrolífera nacional, o valor da YPF se reduziu em 60%.
A Argentina não merece esse estilo de governo. A governadora do Banco Central declara que a emissão monetária não produz inflação. E o secretário de Comércio anuncia que prefere a arbitrariedade a regras claras. Como consequência, tanto o investimento estrangeiro como o dos argentinos fogem de semelhante condução da política econômica. Os fatos são teimosos. A dura realidade vai rumo a uma colisão com a visão surrealista imaginada por Cristina Kirchner.
Câmeras de trânsito criam polêmica nos Estados Unidos
Emmarie Huetteman - NYT
Um clarão repentino iluminou o Honda Civic de Christian Sevier enquanto ele passava pela New York Avenue daqui. Mas em poucas semanas a multa de US$ 150 por excesso de velocidade em sua caixa de correio explicou o que aconteceu.
Ele disparou um dos radares com câmera de Washington, um ferramenta cada vez mais comum que tirou uma foto do seu carro quando registrou o excesso de velocidade. Uma averiguação pela Associação Americana do Automóvel com base na Lei de Liberdade de Informação revelou que um único radar com câmera naquela via movimentada aplicou mais de US$ 11 milhões em multas em apenas dois anos.
Apesar de Sevier, 30 anos, usar seu carro apenas poucas vezes por semana, ele já recebeu mais duas multas desde a primeira infração.
"Eu quase as vejo com um imposto sobre qualquer cidadão em Washington, DC, que tem um carro", ele disse.
Os radares e câmeras de trânsito se espalharam por 582 comunidades por todo o país para pegar aqueles que correm, ultrapassam o sinal vermelho ou cometem outras infrações. À medida que cresce seu uso, os legisladores nos Estados que permitiram às prefeituras utilizá-las estão começando a se envolver.
A Associação dos Governadores para Segurança Rodoviária relata que 29 Estados não possuem leis estaduais sobre radares com câmera, apesar disso não significar que não existam radares nesses Estados. Em Iowa, por exemplo, sete cidades operam radares e outros usam câmeras em semáforos, segundo Instituto das Seguradoras para Segurança Rodoviária, uma organização de pesquisa financiada pelas associações e seguradoras de automóveis e associações.
Os críticos dos radares com câmeras frequentemente pintam um quadro de excesso por parte do poder público. Apesar dos motoristas poderem apelar das multas, alguns alegam que as câmeras violam o direito constitucional de enfrentarem seu acusador. Outros dizem que elas representam uma invasão de privacidade.
Muitos argumentam que as prefeituras –assim como as empresas que fabricam e mantêm o equipamento, algumas em troca de um percentual da receita, em vez de uma taxa fixa– estão mais interessadas no dinheiro do que na segurança, apontando para os estudos indicando que as câmeras na verdade podem causar acidentes.
O ressentimento está crescendo em Washington desde 2010, quando o prefeito na época, Adrian M. Fenty, aumentou o valor das multas como parte de seus esforços para equilibrar o orçamento. A multa por dirigir 17 a 24 km/h acima do limite de velocidade subiu de US$ 50 para US$ 125, por exemplo.
"Ele foi muito esperto em fazer uso de itens que tecnicamente não eram impostos para aumentar a receita", disse Mary M. Cheh, uma vereadora.
Em novembro, enquanto a câmara municipal realizava audiências sobre cumprimento das leis de trânsito, o prefeito Vincent C. Gray reduziu o valor das multas, dizendo que as mudanças tornariam as penas menores para aqueles com infrações menos sérias.
Os defensores dos radares e câmeras apontam para a crescente evidência sugerindo que as câmeras de trânsito coíbem a violência e diminuem o número de acidentes fatais. Um estudo recente pelo Instituto das Seguradoras para Segurança Rodoviária relata um declínio significativo por ano de veículos atravessando no sinal vermelho não apenas nos cruzamentos com câmeras, após a polícia ter começado a multar lá, mas também nos cruzamentos próximos sem câmeras.
Quando perguntado sobre os esforços para derrubar uma lei da Flórida que permite as câmeras de trânsito, Melissa Wandall, presidente da Coalizão Nacional por Estradas Mais Seguras, disse que uma recente pesquisa apontou que 56% das comunidades da Flórida que participaram informaram menos acidentes nos cruzamentos com câmeras.
Em uma noite de 2003, quando um motorista cruzou o sinal vermelho e bateu no carro que levava seu marido, o matando instantaneamente, ela foi ao local do acidente, grávida de nove meses, e jurou encontrar um significado na tragédia.
Wandall, 45 , trabalhou com seu deputado na lei da Flórida que autorizou as câmeras nos semáforos, que ganhou o nome de seu marido quando o governador a sancionou, o Programa Mark Wandall de Segurança no Trânsito, em 2010. Uma parte de cada multa é destinada a centros médicos.
"O programa está fazendo muitas coisas boas, de modo que não vejo como podem se livrar dele", ela disse.
Anne T. McCartt, uma representante do Instituto das Seguradoras para Segurança Rodoviária, disse que apesar das câmeras de trânsito serem uma questão polêmica, a oposição não é tão forte quanto alegam. Um estudo do instituto envolvendo motoristas de 14 cidades com câmeras em semáforos –incluindo Phoenix, Chicago e Raleigh, Carolina do Norte– apontou que dois terços apoiam seu uso.
"Eu acho que há uma minoria ruidosa nessas comunidades chamando muita atenção para o assunto", disse McCartt.
Em Washington, as autoridades planejam adicionar mais câmeras às 90 já em uso. Desde que começou a usar radares com câmera em 2001, Washington teve uma diminuição de 73% nas mortes no trânsito, disse Gwendolyn Crump, uma porta-voz da polícia.
E apesar da fiscalização fotográfica render muito dinheiro –US$ 21,2 milhões em fevereiro– Cheh disse que a receita não é o ponto.
"Eu sei que os cidadãos às vezes não acreditam nisso", ela disse. "Eu não quero seu dinheiro. Eu quero que vocês parem de correr."
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Londres recorre aos pobres para reduzir o déficit
Eric Albert - Le Monde
Chris Young/AP

Carros circulam em rua de Londres
Carros circulam em rua de Londres
Nesta semana, o grande plano de austeridade criado pelo governo do conservador David Cameron quando chegou à Downing Street entra em uma fase crucial. Como previsto, diversos auxílios sociais serão reduzidos, o que terá como consequência um profundo remodelamento do Estado-providência britânico. São medidas que não agradam a oposição trabalhista, associações de caridade e líderes religiosos.
Em uma rara declaração conjunta, divulgada no domingo de Páscoa (31), a Igreja da Escócia, a Igreja Protestante Unida, a União Batista da Grã-Bretanha e a Igreja Metodista acusaram o governo britânico de "distorcer sistematicamente a representação dos mais pobres dentro da sociedade", fazendo das categorias mais humildes um alvo fácil nesses tempos de crise.  
Durante todo o mês de abril, uma série de reformas revisará o funcionamento do Estado de bem-estar social. O resultado será uma economia de 3 bilhões de euros por ano, segundo cálculos da associação Child Poverty Action Group.
Para isso, o governo não indexará mais as bolsas-auxílio à inflação (atualmente em 2,8%) e só as aumentará em 1% ao ano durante três anos. O acesso aos auxílios para deficientes também será bastante endurecido. Mas a maior parte das reformas envolve três grandes mudanças.
A primeira é apelidada de "taxa sobre o dormitório" por seus opositores: os britânicos que moram em conjuntos habitacionais e que dispõem de um cômodo vazio terão um corte de 14% em seus auxílios à moradia. O objetivo é obrigar esses habitantes a se mudarem para apartamentos menores, para alojar as famílias amontoadas em exíguas moradias sociais.
A reforma provocou uma grande controvérsia, pois os filhos de uma mesma família devem dividir o mesmo quarto: se cada um tiver o seu, isso conta como um cômodo vago. Além disso, muitos idosos, que viveram a maior parte de sua vida em um mesmo apartamento, mas cujos filhos saíram de casa, não entendem essa obrigação de deixarem seus lares.
A segunda reforma que está no centro da polêmica é a criação de um teto máximo de auxílios sociais que as pessoas não poderão ultrapassar: nenhuma família poderá receber mais de 2.500 euros por mês em auxílios sociais, o equivalente ao que ganha uma família média no Reino Unido.
Pode parecer uma quantia grande, mas ela é insuficiente em quase 100 mil casos no Reino Unido. Na sua maioria, trata-se de pais solteiros, sem emprego, cuidando de vários filhos, que vivem em Londres, onde o aluguel é caro. Em média, eles perderão 450 euros por mês.
Um único auxílio aos desempregados
Essas duas modificações, no entanto, serão somente um aperitivo antes da principal reforma, sobre a qual o governo vem trabalhando nos últimos três anos: seis diferentes auxílios para os desempregados serão fundidos em um só. Um projeto-piloto será lançado no final de abril, antes de ser estendido para todo o país em outubro. Ele tem como princípio nunca ser financeiramente desvantajoso aceitar um emprego.
Essas mudanças vêm lembrar que, ao contrário do que se costuma acreditar, existe um sistema de auxílio social relativamente desenvolvido no Reino Unido, muito mais próximo do modelo europeu que do sistema americano. O país na verdade gasta quase um quarto de seu PIB em auxílios sociais públicos, quase a média da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos.
Mas esse fenômeno é polêmico. Os "scroungers" (parasitas) que vivem às custas da sociedade costumam ser vilipendiados pela imprensa sensacionalista e pela ala direita dos conservadores. "Quando milhares de pessoas ganham mais vivendo de bolsas do que as famílias que trabalham duro, tem algo de errado", acredita Chris Grayling, secretário de Estado do Trabalho.
Foi essa retórica que as Igrejas condenaram em sua declaração conjunta. Elas lembram que a maioria dos pobres no Reino Unido têm emprego, e que os casos de aproveitadores que abusam do sistema continuam sendo relativamente raros. "A lógica da diminuição dos auxílios sociais dá a impressão de que os pobres mereceriam a pobreza, que seriam pessoas inferiores", lamenta Paul Morrison, da Igreja Metodista.
Tradutor: Lana Lim
Banco Central Europeu lembra que não existe para preencher vazio político
Marie de Vergès - Le Monde
26.mar.13 - Yannis Behrakis/Reuters

Estudantes protestam contra a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu  e FMI) em frente ao palácio presidencial em Nicósia, no ChipreEstudantes protestam contra a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) em frente ao palácio presidencial em Nicósia, no Chipre
Um verdadeiro alívio tomou conta dos escritórios da Eurotower em Frankfurt, na segunda-feira (25). Graças ao plano de resgate de Chipre confirmado de última hora pela zona do euro, o BCE (Banco Central Europeu) se viu dispensado de executar sua "ameaça": a de cortar, à meia-noite de segunda-feira, a torneira de liquidez destinada aos bancos cipriotas por falta de um acordo entre a ilha, a Europa e o FMI (Fundo Monetário Internacional).
"Era provavelmente a aposta certa, mas muito arriscada", considera em retrospecto Frederik Ducrozet, economista no Crédit Agricole. A ação da autoridade monetária teria precipitado a falência dos bancos cipriotas. E provavelmente contribuído para pressionar Nicósia para fora da zona do euro, correndo o risco de prejudicar seriamente a credibilidade de Mario Draghi.
O presidente do BCE não havia afirmado, no verão de 2012, que estava disposto a fazer "tudo que fosse necessário" para "preservar o euro"? Além disso, foi nessa promessa que os mercados financeiros encontraram há seis meses uma relativa serenidade e demonstraram um certo sangue frio ao longo da novela cipriota.
Ao repreender Nicósia através da voz de Jörg Asmussen, membro alemão do diretório, o BCE aumentou a pressão, a ponto de ser acusado por alguns de organizar o "bloqueio monetário" da ilha. Em Frankfurt, o BCE nega ter sido provocador ou demonstrado uma severidade em especial. E insiste que a mensagem era dirigida tanto a Chipre quanto ao Eurogrupo, a instância decisória que reúne os ministros das Finanças da zona do euro.
Há meses o Eurossistema fornece liquidez de emergência aos bancos cipriotas. No entanto, tal programa não pode servir para garantir a sobrevivência de estabelecimentos insolventes, o que evidentemente era o caso dos bancos da ilha. Portanto, estava fora de questão ir adiante sem que fosse decidida uma recapitalização do setor como parte de um plano de resgate.
"Chipre não teve escolha, mas não se pode esquecer que o BCE já havia ido incrivelmente longe" para sustentar o país, ressalta um ex-membro do diretório.
Foi esse o sentido do ultimato lançado pelo banco central: regras são regras, e a instituição não pretende desprezá-las. Uma mensagem que se mostra ainda mais forte pelo fato de que a guardiã do euro só ganhou poder desde o início da crise.

"Exemplo clássico"

Diante de uma Comissão Europeia que muitas vezes não é ouvida e de governos normalmente divididos, o BCE se impôs como a verdadeira instituição federal europeia. A única capaz de agir de forma rápida e incisiva para recuperar a confiança e evitar o naufrágio de certos países.
A prova mais vívida foi o anúncio, no verão de 2012, do programa OMT (Outright Monetary Transaction). Essa arma monetária lhe permitiu comprar títulos de dívidas de países em dificuldades e com a qual os mercados se deleitaram, a ponto de fazer do BCE o bombeiro da zona do euro.
Mas eis que o BCE se mostrou disposto a agir, contanto que permaneça no contexto de sua incumbência. Seu papel é garantir a liquidez, não resolver os problemas orçamentários, econômicos e bancários dos países. Ela não pretende preencher o vazio político.
"Enquanto houver boa fé dos dois lados, o BCE quer exercer seu papel", resume Gilles Moëc, economista do Deutsche Bank. "Mas ele quer acabar com essa ideia de que no final ele sempre termina cedendo. É preciso reavaliar seu limite de tolerância".
Segundo Moëc, o episódio cipriota se prestava bem a tal questionamento pelo fato de que a ex-"Pequena Suíça do Mediterrâneo" só representa 0,2% do PIB da zona do euro. Os riscos de contágio da crise pareciam limitados, portanto.
Mas a instituição continua alerta. As declarações do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que chamou o resgate de Chipre de "exemplo clássico", reavivaram as preocupações e provam que o capítulo está bem longe de estar encerrado.
Membro da "troika" dos financiadores internacionais ao lado do FMI e da Comissão Europeia, encarregado da supervisão dos bancos da zona do euro a partir de 2014, o BCE não tem outra escolha senão continuar sendo um ator de primeiro plano na solução da crise.
Tradutor: Lana Lim
Líder islâmico pede por feriados muçulmanos na Alemanha
Tobias Schwarz/Reuters

 Muçulmanos fazem as preces de sexta-feira em mesquita de Berlim, Alemanha
Muçulmanos fazem as preces de sexta-feira em mesquita de Berlim, Alemanha
A Alemanha é lar de aproximadamente 4 milhões de muçulmanos. Com a proximidade do longo feriado da Páscoa, um importante membro da comunidade muçulmana do país pediu pelo reconhecimento legal de dois feriados muçulmanos, provocando críticas, entre outros, dos conservadores do partido do governo da chanceler Angela Merkel.
Em 2010, o ex-presidente alemão Christian Wulff afirmou que "o Islã faz parte da Alemanha", provocando uma reação dos conservadores. Agora, o Conselho Central dos Muçulmanos (ZMD) da Alemanha está trazendo o assunto de volta à atenção –sugerindo a introdução dos feriados muçulmanos por toda a Alemanha. 
O presidente do conselho, Aiman Mazyek, disse à edição de quinta-feira (28) do jornal regional "Westdeutsche Allgemeine Zeitung" (WAZ) que conceder um dia durante o mês sagrado do Ramadã e outro no dia de Eid, o término do jejum, seria "um importante sinal de integração" e "enfatizaria a tolerância em nossa sociedade".
Esses feriados não seriam dias de folga para todos os cidadãos, especificou Mazyek, mas serviriam para dar aos muçulmanos o direito legal de não trabalharem nesses dias. Ele acrescentou que os muçulmanos em serviços públicos como a polícia cobririam a folga dos colegas nos feriados cristãos como a Páscoa.
O reconhecimento legal do Islã é uma questão controversa na Alemanha, lar de uma população de 4 milhões de muçulmanos que foi acusada de não fazer muito para se integrar. O desconforto público com o aumento dessa população veio à tona em 2010, quando um livro de autoria de um ex-membro do conselho do banco central alemão, Thilo Sarrazin, no qual ele acusava os muçulmanos de drenarem os recursos do bem-estar social e se recusarem a se integrar, se tornou um imenso sucesso de vendas.
Wolfgang Bosbach, um membro proeminente da CDU (União Democrata Cristã), o partido tradicionalmente católico de Merkel, disse ao "WAZ" que ele não vê nenhuma necessidade de reconhecimento legal dos feriados muçulmanos, acrescentando que a Alemanha "não tem tradição muçulmana". Os atuais feriados públicos –como os feriados de Páscoa, fazem parte da herança cristã-ocidental, disse Bosbach ao "WAZ".

Os Estados alemães já o fazem

Mas em alguns Estados alemães, os devotos do Islã já têm o direito de folgar nos feriados religiosos. Hamburgo, por exemplo, concede esse direito aos muçulmanos, e no ano passado o prefeito da cidade, Olaf Scholz, sancionou uma lei dando aos feriados muçulmanos o mesmo status dos feriados não públicos da Igreja.
Tanto Berlim quanto Baden-Württemberg fizeram o mesmo, implantando o direito aos feriados religiosos para os funcionários e estudantes muçulmanos.
Todavia, os conservadores alemães zombam da ideia. Outro legislador da CDU, Patrick Sensburg, pediu ao país que se concentre primeiro em "defender e fortalecer" os feriados cristãos já existentes, pedindo por mais restrições ao comércio no domingo e chamando as festas agitadas que ocorrem em Berlim na Sexta-Feira Santa de "um absurdo".
Guntram Schneider, um ministro social no Estado de Renânia do Norte-Vestfália pelo Partido Social-Democrata de centro-esquerda,. disse ao "WAZ" que aumentar os feriados oficiais "não é economicamente viável" e sugeriu um sistema de compensação de folgas.    
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Análise: o chefe Hollande vai conseguir liderar a França?
John Vinocur - IHT
Lionel Bonaventure/AFP

O presidente da França, François Hollande, fala sobre a situação dos conflitos em Mali em janeiro
O presidente da França, François Hollande, fala sobre a situação dos conflitos em Mali em janeiro
Quando um entrevistador de TV pediu a François Hollande, na semana passada, que comentasse o que um repórter disse que grande parte do país estava pensando – se o presidente tem autoridade pessoal suficiente para tirar os franceses do buraco negro do crescimento zero, do desemprego e das perspectivas não passíveis de serem concretizadas –, o jornalista poderia muito bem ter ampliado sua pergunta.
Ele poderia ter levantado a seguinte questão: será que o próprio Hollande acredita que seus eleitores (campeões mundiais do pessimismo, de acordo com uma pesquisa realizada pelo BVA-Gallup Internacional em 51 países em 2011), cuja visão positiva do futuro da sociedade francesa atualmente está em 29%, têm determinação suficiente para sorver goles mais amargos e mais profundos do remédio da mudança?
Além de descrever a si próprio como o "chefe desta batalha", Hollande nunca abordou realmente sua própria autoridade. Mas ele forneceu uma resposta de relance sobre a questão relacionada à extensão do gosto francês pelas futuras tentativas de reforma diante das novas projeções de desaceleração do crescimento econômico e do aprofundamento dos déficits, que minam o compromisso do governo em alcançar as metas consolidadas da União Europeia (UE) para este ano.
O presidente socialista disse que a França sob a sua liderança já dispõe das medidas necessárias que servirão de ferramenta para reverter a taxa de desemprego de 10,6% – o que sugere que ele não está disposto a desafiar os sindicatos mais intransigentes em um teste regado a suor e lágrimas para verificar a capacidade dos franceses em suportar a dor.
Como assim?
Suponha que uma parcela significativa do problema está nas mãos dos cidadãos franceses, que durante décadas escolheram acreditar – e por que não? – em uma classe política que buscava proteger seu domínio sobre o status quo ao defender o conceito de uma França onde, com exceção de alguns poucos tropeços, tudo é para o melhor no melhor dos mundos possíveis.
Segundo Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o grande problema reside aí. O socialista francês Lamy insistiu na realização de reformas econômicas aceleradas no país. Mas, em entrevista à imprensa francesa, ele acrescentou: "eu acredito que os franceses não querem essas reformas, pois eles não conseguem ver o que elas lhes trariam. Os franceses acreditam que são uma ilha de felicidade temporária em um mundo cheio de catástrofes".
Jacques Julliard, comentarista político de esquerda que escreveu sobre a história da esquerda francesa, fez uma afirmação semelhante – mas mais dura – sobre seus compatriotas. Fazer a França mudar, ele disse, envolve "inverter a trajetória de um país que aceitou não fazer mais parte da linha de frente, que consentiu com sua própria humilhação e que se recusa a fazer sacrifícios".
Julliard não acredita que Hollande seja a causa dessa situação, mas o descreve como um homem que "não é suficientemente profético ou aventureiro" para orquestrar essa mudança.
É claro que isso não é apenas uma questão de 10 meses de reação limitada da esquerda.
Dez anos atrás, Nicolas Baverez, economista e ensaísta conservador, escreveu que todos os líderes franceses "cultivam o status quo e a rigidez", o que resulta em protecionismo, na definição estreita dos interesses da França e em uma relutância em transferir um nível significativo de soberania à União Europeia.
Nicolas Sarkozy posteriormente chegou ao poder depois de ter pregado a necessidade de uma "ruptura" nessa sociedade, ou seja, uma reforma total e consciente dos custos do modelo social francês, além do fim para o simbolismo negativo e anticompetitivo da semana de trabalho de 35 horas da França e um plano de ação afirmativa "à la française" para combater a alienação da comunidade muçulmana da França da integração e de uma assimilação adicional na sociedade.
Mas, uma vez no cargo, e não disposto a desafiar o seu próprio sentimento sobre os desejos do eleitorado – sentimento que já havia mudado –, Sarkozy abandonou o discurso de ação afirmativa e nunca baniu oficialmente o monumento da semana de 35 horas da excepcionalidade francesa. Ao concorrer à reeleição, ele tentou adotar como referências de campanha – mas em seguida desistiu – os padrões da economia e do mercado de trabalho alemães e instituí-los como seus objetivos econômicos. Mas era pedir demais dos eleitores franceses.
De fato, Sarkozy acabou se projetando mais como um protetor do modelo social francês do que como um reformista.
Com Hollande no comando, os franceses acabaram com o que o historiador e romancista francês Max Gallo me descreveu como a mentalidade de um "aposentado cuja renda é proveniente de investimentos – e não da aposentadoria". E o que Alain Minc, um economista que serviu como conselheiro próximo de Sarkozy, chama de "um país frágil e sem uma bússola. A seu modo, a França está mais doente do que a Itália devido ao ineficiente sistema produtivo francês".
Então, o que fazer? Com uma grande manifestação de autoridade Hollande poderia começar a estimular os franceses ao reivindicar os plenos poderes institucionais da presidência, da mesma forma que ocorreu com a histórica mudança de rumo orquestrada por François Mitterrand quando ele se afastou da economia socialista, em 1983.
Seria necessário um ato corajoso e exemplar, que tivesse um simbolismo universal, como a abolição oficial da semana de trabalho de 35 horas. Isso exigiria medidas práticas, como a redução de impostos e uma flexibilidade muito maior do mercado de trabalho francês. Além disso, seria preciso uma vontade semelhante à de Mitterrand para enfrentar e superar as greves e turbulências políticas – e exigiria uma grande coragem política por parte de Hollande.
Será que isso poderia acontecer? Considere o seguinte como resposta: quando Hollande foi perguntado na televisão, na semana passada, sobre os futuros níveis dos gastos públicos, ele respondeu: "nós vamos economizar em 2013, de modo que os franceses não terão que fazer nenhum esforço adicional".
Tradutor: Cláudia Gonçalves
França altera política e deixa de pagar resgate por reféns sequestrados
Miguel Mora - El Pais
5.fev.2013 - Jerome Delay/AP

Veículos blindados franceses patrulham ruas de Gao, no norte do Mali
Veículos blindados franceses patrulham ruas de Gao, no norte do Mali
O ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, disse que Paris "não tem provas" da morte de Philippe Verdon, um suposto funcionário da inteligência sequestrado no Mali em novembro de 2011 e que os jihadistas da Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) afirmam ter assassinado em 10 de março passado, em represália pela intervenção militar francesa no Sahel.
A guerra do Mali colocou as famílias dos 15 franceses capturados na África em "uma situação insuportável", disse Jean-Pierre Verdon, pai do refém dado como morto.
Depois de semanas de ataques contra os terroristas da AQMI, ainda não há notícia sobre a sorte dos reféns, enquanto Paris admite oficialmente que mudou sua doutrina sobre os sequestros. Não pagará mais resgates e irá se opor ao pagamento por empresas, famílias e seguradoras.
Em 13 de janeiro passado, o presidente François Hollande anunciou no Eliseu para as famílias dos sete sequestrados franceses na região do Sahel que o Estado não pagará mais recompensas em troca da liberdade de compatriotas cativos e, assim, admitiu que nos últimos 25 anos --desde que os primeiros franceses foram capturados no Líbano-- o governo francês realizou, ou pelo menos permitiu, trocas de dinheiro por reféns.
No domingo, a ministra da Francofonia, Yamina Benguigui, confirmou de maneira oficial em uma entrevista que a "mudança de doutrina" é "autêntica" e está em andamento. A ministra disse que os radicais islâmicos que lutam contra a França no Mali evoluíram e que "hoje é muito complicado tratar com grupos de narcoterroristas que têm muita mobilidade, funcionam de modo autônomo e com frequência não têm chefes visíveis".
A nova política sobre os sequestros, que dá ênfase ao músculo militar e aproxima a França dos costumes de americanos e britânicos --exceto no fato de que estes tentam manter em segredo os sequestros de seus concidadãos--, começou a ser posta em prática em 11 de janeiro, quando o governo lançou a operação militar do Mali e quase ao mesmo tempo ordenou a operação de resgate de um espião francês retido por um grupo terrorista na Somália.
Depois do fracassado assalto do comando militar, que terminou com a morte de um funcionário da Direção Geral de Segurança Externa e de um soldado francês, Hollande decidiu a mobilização de tropas no Mali para conter o avanço dos islâmicos sobre o sul do país. O temor do Eliseu era que os sequestros de cidadãos franceses fossem maciços se os terroristas chegassem a Bamako.
No domingo, a AQMI ameaçou matar os cinco reféns que mantém em seu poder e pediu às famílias que pressionem o governo francês para que retire seus soldados do país. Françoise Larribe, ex-refém e mulher de Daniel Larribe, um engenheiro da gigante nuclear Areva capturado com mais seis franceses em setembro de 2010 nas minas de urânio de Arlit (norte do Níger), declarou-se "decepcionada" com a decisão do presidente.
"Hollande nos disse que é impensável pagar dinheiro a grupos com os quais estamos em guerra. Mas os resgates são uma gota d'água nos recursos de terroristas que traficam drogas. Creio que Hollande está equivocado", disse Larribe ao jornal "Le Monde".
Os parentes de outros cativos demonstraram respeito pela nova política de Estado, e René Robert, avô do refém Pierre Legrand, disse que compreende "o silêncio" do governo, mas pediu "que os resultados cheguem logo e não haja surpresas".
Tentando enviar uma mensagem de firmeza, Hollande reiterou que não há outra opção além de lutar contra os terroristas. "Estamos em uma situação de vítimas. Nossos concidadãos estão nas mãos de uma facção que não tem fé nem lei e que só conhece o dinheiro e a força."
A oposição conservadora mostra-se dividida sobre a mudança de política, que na realidade foi adiantada, com pouco êxito e várias incursões fracassadas, durante o mandato de Nicolas Sarkozy; o ex-primeiro-ministro François Fillon afirmou que, embora compartilhe o princípio de não pagar aos terroristas, a França "não deve se proibir nenhuma possibilidade de libertar os sequestrados" e referiu-se "em particular" aos quatro menores da família Moulin-Fournier, raptada no norte de Camarões há um mês e meio por um grupo islâmico nigeriano.
A nova forma de administrar a chantagem também afeta as ONGs e as empresas com interesses na África. Um porta-voz da Areva, que além de Larribe tem três trabalhadores de sua empreiteira Vinci nas mãos dos terroristas, afirma que "o mais importante é manter a discrição e a confidencialidade". "Acompanhamos de perto a evolução e apoiamos as famílias, mas não podemos fazer comentários."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Comissão Europeia dá sinal verde para entrada da Croácia na UE
País ainda precisa progredir no combate ao crime organizado
O GLOBO

Senhor deposita seu voto sobre a adesão à UE em posto de Zagreb Foto: - / AFP
Senhor deposita seu voto sobre a adesão à UE em posto de Zagreb- / AFP
ZAGREB — A Croácia, uma das repúblicas independentes com a fragmentação da Iugoslávia, teve nesta terça-feira o aval da Comissão Europeia para fazer parte do bloco, o que deve ocorrer a partir de 1º de julho - apesar dos avisos de que precisa progredir no combate ao crime organizado. Será a primeira admissão na União Europeia (UE) após o início da crise financeira que ainda abala o bloco regional e sua moeda, o euro. Os membros mais recentes, Bulgária e Romênia, entraram em 2007.
O documento será apresentado aos países-membros para aprovação e ao Parlamento Europeu, que discutirá o caso da Croácia no dia 18 de abril. O país passará, então, a ser o 28º integrante da UE. Para entrar no bloco, o governo - entre outras medidas - reestruturou e vendeu seus estaleiros e resolveu disputas bancárias com a Eslovênia.
Embora o relatório da comissão fosse positivo, apontou-se que o país precisa fazer alterações na legislação para melhorar o combate à corrupção e ao crime organizado. Além disso, o texto indicou que a Croácia deve ser mais rigorosa na punição de crimes, pois muitos condenados acabam tendo suas sentenças suspensas.
Diferentemente do que ocorreu com os cidadãos da Romênia e da Bulgária, os croatas não sofrerão restrições de locomoção na Europa. Romenos e búlgaros só poderão atravessar livremente as fronteiras do bloco em 2014, sete anos após sua entrada.
São também candidatos ou potenciais candidatos seis países da região dos Bálcãs - Albânia, Bósnia, Macedônia, Kosovo, Montenegro e Sérvia - além da nórdica Islândia e da Turquia.
Contaminação não poupa nem água mineral engarrafada
Sophie Landrin - Le Monde
Getty Images


Já se sabia que a água da torneira não era livre de poluentes. A França está sendo processada pela Comissão Europeia por sua incapacidade de combater a contaminação dos lençóis freáticos por nitratos. Mas os consumidores acreditavam estar protegidos ao beber água engarrafada, conhecida por sua pureza original. Essas águas oriundas unicamente de uma fonte subterrânea deviam ser desprovidas de qualquer poluente de origem humana sem nenhum tratamento químico.
Um estudo conduzido pela revista "60 Millions de Consommateurs" e pela fundação de Danielle Mitterrand, a France Libertés, divulgado na segunda-feira (25), põe em xeque essa certeza: a água mineral engarrafada não escapa da contaminação --47 amostras de garrafas de água de diferentes marcas foram analisadas e 85 moléculas foram pesquisadas, sobretudo moléculas medicamentosas ou disruptores endócrinos que a regulamentação atual não obriga a controlar.
Resultados: dez garrafas comportavam resíduos de pesticidas e de medicamentos; 10% das águas engarrafadas apresentaram vestígios de tamoxifeno, um hormônio sintético usado no tratamento de câncer de mama. Como é possível essa poluição de água subterrânea, supostamente protegida de qualquer contaminação? Os toxicólogos não têm uma explicação.
Além disso, resíduos de um pesticida, a atrazina, foram encontrados em quatro águas engarrafadas (Cora com gás, Vittel, Volvic e Cristalline com gás). Esse herbicida nocivo para o ser humano foi proibido em 2001. Por que ele foi encontrado mais de dez anos depois? "Provavelmente porque são produtos muito persistentes e hidrossolúveis", observa a "60 Millions de Consommateurs".
A concentração desses poluentes é extremamente pequena --são doses que não apresentam risco para o consumidor--, mas essas descobertas fazem com que sejam reconsiderados os mecanismos de poluição das fontes.
Como os fabricantes de água mineral contestaram a pertinência desses testes, a "60 Millions de Consommateurs" realizou uma segunda série de medições, que confirmou os primeiros resultados. "O método que empregamos permitiu baixar muito o limiar de detecção. Pudemos rastrear moléculas em graus extremamente sutis. Para acabar com qualquer dúvida, é preciso que o poder público realize controles em grande escala", disse Thomas Laurenceau, redator-chefe da revista.
"Essas constatações revelam até que ponto nosso meio ambiente está contaminado. Não estamos questionando a potabilidade da água, mas sim os possíveis efeitos da mistura entre várias moléculas e as consequências dessas contaminações a longo prazo", diz Emmanuel Poilâne, da France Libertés.
A análise de certos galões de água, muitas vezes utilizados em empresas e repartições públicas, é mais preocupante para a saúde. Foram encontrados vestígios de bisfenol A, um disruptor endócrino, vestígios de pesticidas (atrazina) e de um retardador de chama, sobretudo em galões da marca Culligan. Uma concentração extremamente alta de uma dezena de microrganismos de bisfenol A por litro foi detectada. Como esses galões são reutilizáveis, os pesquisadores observaram que o teor de bisfenol A na água poderia aumentar com o tempo. Nos galões da Obio, vestígios de outro disruptor endócrino foram detectados.
A água de torneira também foi analisada em três departamentos da França: Ile-et-Vilaine, Haute-Vienne e Seine-et-Marne. Em sete de dez casos a água continha entre dois e quatro pesticidas. Dois resíduos de medicamentos também foram encontrados.
Para Emmanuel Poilâne, essa pesquisa mostra "que a lista atual dos poluentes controlados está aquém da realidade das contaminações e que as normas são obsoletas". A France Libertés e a "60 Millions de consommateurs" pedem para que as normas sejam refeitas do zero e que sejam conduzidos estudos sobre os efeitos da exposição a essas pequenas contaminações.
Essas novas revelações sobre a qualidade da água concluem "a operação transparência" lançada pelas duas associações em março de 2011. Elas evidenciaram o desperdício anual de 1,3 bilhão de metros cúbicos de água potável devido a vazamentos em canalizações coletivas, a pouca transparência no preço da água e a inúmeras derrogações que permitem que os municípios forneçam água que ultrapasse os limites de nitratos, de arsênio e de outros poluentes.
Após dois anos de investigação, as duas parceiras estão pedido com urgência por "conferências nacionais da água".
Tradutor: Lana Lim

Podolsk, Russia (by Lenochkita)