quarta-feira, 1 de maio de 2013

DÓRICAS

Alívio temporário
Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
Seria de se comemorar não fosse apenas efêmero o efeito que a troca de amabilidades formais tem sobre os constantes atritos entre os Poderes Judiciário e Legislativo. A cortesia põe água na fervura, mas não apaga o incêndio.
Propicia uma sensação de alívio, é verdade. Dá uma reconfortante impressão de civilidade, faz com que acreditemos na resolução dos conflitos por meio do entendimento. A trégua, porém, é temporária: não resiste ao imperativo da realidade, não cura a doença infantil do imobilismo do Congresso frente ao amadurecimento da consciência ativista do Judiciário.
E pelo que se viu do desempenho de petistas na Câmara enquanto os presidentes das duas casas do Congresso procuravam o ministro Gilmar Mendes a fim de apaziguar os ânimos com o Supremo Tribunal Federal, considere-se como forte obstáculo a disposição do PT para a guerra.
Não foi um obscuro Nazareno, mas o ex-presidente da Câmara Marco Maia, representante do partido por dois anos no posto, quem defendeu a emenda que submete decisões do STF ao crivo do Legislativo e ainda propôs outra criando novas limitações à Corte.
Não foi um deputado de menor expressão, mas Fernando Ferro - líder do PT por duas vezes - quem chamou o ministro Gilmar Mendes de "capitão do mato" por ter atendido em caráter liminar o pedido do senador Rodrigo Rollemberg para suspensão da votação em caráter de urgência do projeto que veda a novos partidos partilha do Fundo Partidário e do horário eleitoral na proporção das bancadas congressuais.
Essas e outras violências verbais e conceituais dão a medida do inconformismo do PT com o preceito republicano do equilíbrio e da independência entre os poderes. Note-se, portanto, que a coisa não vai se resolver com panos quentes.
A questão é mais profunda: o PT está com raiva do Supremo, assim como tem raiva da imprensa que não lhe presta reverência, assim como está com raiva de Eduardo Campos porque procura caminho de crescimento político para seu partido fora da área de influência governo-petista, assim como teria raiva do Parlamento caso não tivesse cooptado a maioria mediante métodos relatados pelo STF, assim como tem raiva de qualquer pessoa, grupo ou instituição que não se curve aos seus interesses.
Levando em consideração que o PT é o partido no poder, conta com uma presidente e um ex-presidente com altos índices de popularidade, tudo que diga ou faça tem peso e importância. Logo, a encrenca é de boa monta.
A boa notícia, ora vejam só os senhores e as senhoras, vem do PMDB. Assim como agiram por ocasião da CPI do Cachoeira ao recusar sociedade ao PT na sanha de vingança contra a revista Veja e o procurador-geral da República, os pemedebistas agora mantêm prudente distância dessa ofensiva.
Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves - ambos do PMDB, respectivamente presidentes do Senado e da Câmara -tomaram a iniciativa de abrir conversações com o STF sobre a ideia de subtração de prerrogativas e a liminar que suspendeu a votação, diga-se, por solicitação de um senador representando diversos parlamentares.
O PMDB pode até não ter outras qualidades, mas tem experiência e juízo suficientes para saber tirar vantagem de determinadas distâncias. A intenção óbvia é deixar o PT isolado em mais uma de suas maluquices, cujos efeitos quase sempre se voltam contra o partido.
Mas, como dito acima, o problema não é simples nem de fácil solução. Ao contrário de alguns desatinos que cometia quando era oposição e não tinham maiores consequências, o PT é governo, usa sem cerimônia os instrumentos à disposição, não guarda respeito à coerência nem desiste com facilidade. Isso faz perniciosa diferença.
Menoridade e demagogia
O Estado de S.Paulo
É nos momentos de grande comoção pública que se espera dos governantes responsáveis a serenidade para resistir às soluções mágicas, que não apenas deixam de resolver o problema, como tendem a agravá-lo. No atual debate sobre qual seria a punição adequada para os menores de idade envolvidos em recentes crimes hediondos, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, cedeu à tentação do discurso fácil e, no embalo da emoção que ora contamina a reação popular a esses terríveis episódios, propôs que se aumentasse o período de internação desses adolescentes.
Alckmin empenhou-se pessoalmente em levar a proposta de alteração do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ao Congresso, percorrendo gabinetes em busca de apoio.
Teve de esperar mais de meia hora para ser atendido pelo presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), mas não deve ter se incomodado, pois o que importava era que ficasse registrada sua cruzada em favor do endurecimento da lei, em face do que ele mesmo chamou de "clamor popular".
Tal clamor não é gratuito. Nos últimos dias, registraram-se crimes escabrosos dos quais adolescentes ou participaram ou foram protagonistas. Não se esperava mesmo outra reação que não a de indignação depois que uma dentista foi queimada viva por um desses criminosos, que se irritou pelo fato de que a vítima só tinha R$ 30 para lhe dar.
Também não é possível ficar indiferente ao caso em que um estudante foi morto na porta do prédio onde morava pelo menor de idade que o assaltava. A vítima não esboçara reação ao assalto, mas, mesmo assim, o assassino lhe deu um tiro na cabeça. Três dias depois, o criminoso completou 18 anos.
É também notável que as quadrilhas têm cada vez mais utilizado menores em seus crimes para que esses se responsabilizem, enquanto os demais, se pegos, sejam julgados apenas como cúmplices. Já os menores de idade, por força da legislação, escapam do regime de reclusão em penitenciárias e permanecem internados em instituições especiais por, no máximo, três anos.
Parece, portanto, que há motivos de sobra para que a sociedade ao menos discuta o problema dos crimes cometidos por menores de idade. No entanto, sem entrar no mérito das propostas da manutenção da lei ou de sua eventual modificação, pois ambos os lados têm razões apreciáveis, não se pode admitir que o governador de São Paulo defenda a ampliação da punição aos menores infratores, pois se trata de algo que, no caso do governo que ele dirige, simplesmente não pode ser cumprido. E a razão disso é óbvia: as instituições de "reeducação" de menores infratores já não têm vagas suficientes para a atual demanda. Desde 2002, o número de adolescentes internados cresceu 67% - passou de 5.385 no fim de 2002 para 9.016 em abril deste ano - e a Fundação Casa tem capacidade para 8,7 mil jovens infratores.
O fenômeno segue o padrão deficitário do sistema penitenciário paulista, que hoje precisaria de mais 80 mil vagas. Seria necessário construir cerca de 90 presídios, mas os investimentos são insuficientes. Nesse sistema falido, cerca de 60% dos condenados voltam a cometer crimes após cumprir a pena.
Ademais, há cerca de 18 mil mandados de prisão não cumpridos em São Paulo, o que significa que o Estado simplesmente não consegue fazer valer a lei tal como ela é - e não há razão para acreditar que, de uma hora para outra, a situação mude para que adolescentes criminosos fiquem internados por mais tempo do que manda a legislação atual, como quer o governador.
Alckmin pode até auferir mais um punhado de votos ao defender um endurecimento da punição aos menores de 18 anos, mas esse cálculo político não resiste à matemática elementar: ampliar no papel a punição aos jovens, sem antes resolver o problema crônico e crescente do déficit do sistema penitenciário e de internação de adolescentes, é pura e simples demagogia.
Leitora protesta contra Lula como colunista da agência do NYT. Jornal explica
Reinaldo Azevedo - veja
Pois é… Depois que a agência do New York Times decidiu distribuir mensalmente um texto assinado por Lula — mas jamais escrito por ele, não importa o idioma —, o jornal começou a receber mensagens de protesto, como esta, que segue, publicada com uma resposta esclarecedora. Um ou outro hão de gritar: “Olha o preconceito ali, lembrando que o petista não concluiu ensino fundamental…”. O ponto é outro: a questão é saber se Lula será o autor do texto distribuído. E todos sabem que não. Seguem a carta e a resposta.
A carta
Sou brasileira e moro nos Estados Unidos, em Nova York, desde 2010. Estou realmente chocada e surpresa com o fato de um jornal com tamanha influência e informação ter [entre os colunistas] Lula, do Brasil, um presidente que mal concluiu o ensino fundamental. Estou certa de que todo mundo sabe que sua reputação, no Brasil, está desabando. Nos últimos dois anos, o seu partido e ele próprio foram alvos de muitas investigações criminais, e muitos de seus principais colaboradores foram condenados, neste ano, pelo Poder Judiciário no Brasil.
É lamentável! E o mais lamentável é um jornal como o New York Times dar algum crédito a um político decadente como esse. Não entendo.
Resposta do NYT
Obrigado por sua mensagem. O ex-presidente Lula não está escrevendo uma coluna para o Times. Ele está escrevendo uma coluna para a Agência do Times, que têm clientes em todo o mundo e vende seus serviços para outros veículos. O Times tem muitos outros colunistas como o presidente Lula, cujos textos são vendidos por intermédio do Times, como Richard Branson, Noam Chomsky, Mikhail Gorbachev e Jack Welch. Basicamente, o Times pega seus textos, molda-os em artigos e os oferece aos clientes. O presidente Lula não aparecerá regularmente nas páginas do Times ou do nytimes.com. Mais uma vez, obrigado por escrever.
Nova industrialização do Paraguai cria oportunidade
O Estado de S.Paulo
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) queixa-se de que o Paraguai, nos últimos meses, tem atraído para o seu território diversas multinacionais brasileiras, cuja produção substitui, em parte, bens até agora produzidos no Brasil. Trata-se de fábricas que empregam muita mão de obra e que buscam salários inferiores aos do Brasil e, especialmente, menos encargos sociais.
Durante muitos anos o Brasil também estimulou empresas norte-americanas e europeias a se instalarem aqui - a produção de carros é o caso mais notório -, e isso deveria ser levado em conta pela Federação. Além disso, a Fiesp deveria convencer-se de que essa migração de fábricas representa uma oportunidade para a indústria brasileira.
É preciso considerar, em primeiro lugar, que novas fábricas que empregam muita gente, como as da indústria têxtil, as de peças para automóveis, de sapatos, etc., geram aumento da renda nacional, isto é, do poder aquisitivo paraguaio, o que deve favorecer a importação de bens mais sofisticados. E o Brasil não pode perder essa oportunidade, levando em conta sua participação no Mercosul, desde que se prepare para produzir bens com maior grau de inovação e a um preço que os torne acessíveis.
Certamente, no entanto, maior oportunidade surge da possibilidade de fornecer ao Paraguai máquinas e equipamentos, cujo valor acrescido é muito superior ao da produção de simples componentes, que serão agora fabricados naquele país. Existem, portanto, oportunidades que não devem ser desperdiçadas e para as quais devemos nos preparar, até com a compra de know-how no exterior. Isso ainda nos torna mais aptos para fornecer essas máquinas a todos os países do Mercosul. E não se pode esquecer de que uma multinacional brasileira é mais aberta para importar equipamentos produzidos no Brasil.
Existem outros aspectos importantes, na medida em que o Paraguai nos poderá fornecer componentes mais baratos do que os até agora produzidos no Brasil. Poderemos, com isso, reduzir os preços dos bens mais sofisticados que já produzimos.
Finalmente, como investidores, teremos direito a lucros e dividendos, que nos ajudarão a garantir a saúde financeira de nossas empresas no exterior. Porém, há que ter consciência de que uma política desse tipo não se improvisa e procurar tirar proveito de fenômenos como esse, que acompanham a globalização da economia.
Petista entra com ação na OEA contra julgamento do mensalão
Militante contesta penas; trâmite pode levar dez anos
Flávia Barbosa - O Globo
WASHINGTON E BRASÍLIA — O Supremo Tribunal Federal (STF) também está sendo alvo de questionamento no exterior. Uma petição protocolada em janeiro na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA), na capital americana, denuncia o STF por julgamento político e impedimento ao amplo direito de defesa dos réus do mensalão. Assinado por Pedro Paulo Henrichs Neto, militante da Juventude do PT no Distrito Federal, o documento pede que o Sistema Interamericano de Direitos Humanos revise a decisão do STF na ação penal 470 à luz da suposta violação de seis artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário.
A denúncia antecipa movimento defendido pelo ex-ministro José Dirceu, condenado como articulador do mensalão, que ameaçou levar seu caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos, porque, no Judiciário brasileiro, estão encerradas as possibilidades de recurso, após a apresentação de agravos ao próprio STF.
Neto integra a mesma corrente petista de Dirceu e foi um dos organizadores do jantar para obter recursos destinados à defesa dos réus do mensalão, em janeiro. Ele disse que sua ação não tem caráter institucional.
— Fiz como cidadão essa denúncia de cassação política e violação de direitos humanos básicos, para que a decisão seja revista, porque o STF fez do julgamento um ato político. Não foram julgados os fatos, e sim o Partido dos Trabalhadores — disse Neto.
Na petição, protocolada na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), o militante argumenta que o STF condenou os acusados ligados ao PT com base em indícios, inverteu o ônus da prova, negou direito de defesa em instâncias inferiores aos réus sem foro especial e montou o calendário de julgamento propositalmente para coincidir com as eleições municipais.
Os artigos invocados na denúncia à CIDH vão da proteção da honra e da dignidade aos direitos políticos e de proteção judicial.
A iniciativa tem longo caminho a percorrer. Com apenas dois advogados e recebendo duas mil denúncias por ano, a CIDH está lendo atualmente petições de 2008. Ou seja, o caso do mensalão não deverá ser observado antes de 2018. Além disso, apenas 15% a 20% dos pedidos protocolados são considerados aptos para análise.
Se a denúncia passar por esta peneira, abre-se consulta ao país questionado e inicia-se troca de informações entre as partes. Após ao menos um ano, a CIDH decide a admissibilidade do caso, e, só depois, avalia o mérito. Se o Estado é considerado violador, a CIDH faz recomendações de medidas que retifiquem os abusos.
Só após essa mediação extrajudicial, o caso vai para a CIDH. Observadores do Sistema creem que até uma decisão final possa se passar dez anos. (Colaborou: Carolina Brígido)
Marco Maia é a evidência de que encabrestar o Supremo segue sendo pauta prioritária do PT, bem como censurar a imprensa e impedir a alternância no poder. É método!
Reinaldo Azevedo - VEJA
No post anterior, afirmo que é chegada a hora de trocar de Shakespeare, de buscar outro clichê. Essa história de que se faz muito barulho por nada quando se apontam os arreganhos autoritários do PT é coisa de quem prefere ignorar os fatos em nome ou da boa convivência com as fontes — há jornalista que ainda acha que marca um golaço se recebe em primeira mão a informação de qual setor da economia vai ganhar um presentinho de Guido Mantega — ou em razão de adernamento ideológico mesmo. O clichê é outro: não é loucura, é método. Olhem a Bolívia. Escrevi um post a respeito nesta manhã. Por lá, aquele índio de araque estuprou a Constituição que ele mesmo fez votar para concorrer à Presidência pela terceira vez. Deverá ser reeleito porque suas milícias já tomaram conta de quase todo o país — menos da parte próspera. Ficará no poder pelo menos 15 anos. Demonstro, no texto, que todos esses “democratas” de esquerda chegam ao poder para nele se grudar, para ficar o maior tempo possível: nunca menos de 10 anos. E sempre fraudando as leis, sem exceção. Chávez (Maduro), Daniel Ortega, Evo Morales, Rafael Correa, Cristina (Néstor) Kirchner…
Toda essa gente está organizada no Foro de São Paulo, que se reúne no Brasil no fim de julho e começo de agosto, no 24o encontro. Aparelhar o Judiciário é uma das premissas básicas do poder conquistado pela turma. Costuma ser a primeira tarefa tão logo se elegem. Toda essa escumalha citada acima, sem exceção, chegou ao topo com seus respectivos países vivendo graves crises institucionais. Então foi fácil sair chutando a porta. Exceção feita à Nicarágua, em que houve uma sucessão regular, a legalidade estava no seu grau zero. Aí qualquer noção de ordem parecia servir. Não custa lembrar que a imprensa argentina, hoje perseguida, sem trégua, por Cristina, deu apoio integral a Néstor Kirchner mesmo quando já estava evidente que ele não era muito bom da cabeça. Lamentavelmente, colhe parte do que plantou — há o risco de acontecer o mesmo com a nossa, ainda que de forma mitigada.
No Brasil, as coisas se deram de modo um pouco diferente. Lula herdou um país com as instituições funcionando. Não havia crise nenhuma. Havia dificuldades episódicas, sim, mas a realidade era bem outra. O país vinha de uma grande conquista: domar a inflação. O Real havia tirado alguns milhões da miséria. As promessas de Lula seduziram, mas havia um patamar que ninguém estava disposto a negociar. E aí? Ora, a agenda continuava e continua a mesma. A questão é saber como fazer.
Tentativas de controlar a imprensa foram muitas e ainda estão em curso; tentativas de controlar o Supremo, também, por meio da indicação de nomes ideologicamente alinhados com as teses gerais do partido. O problema é que a receita não deu muito certo. Alguns dos escolhidos, embora comungassem daquela metafísica, preferiram o direito à subserviência — há subservientes também, mas ainda não conseguem fazer a maioria. O partido se dedica agora a tentar emplacar uma reforma política que dificulte ao máximo a alternância de poder: o pilar desse projeto é o financiamento público de campanha; no longo prazo, eles têm claro, é a melhor forma de enfraquecer o PMDB, que pode ser um aliado episódico, mas que, é evidente, é um adversário de longo prazo para a realização plena do projeto hegemônico.
E há, sim, um STF no meio do caminho. Toda aquela corja bolivariana (e associados) conseguiu enfrentar os juízes e botar o guizo no pescoço dos togados. Por que não aqui? João Paulo Cunha, o deputado condenado por lavagem de dinheiro, corrupção passiva e peculato; o deputado que, a despeito disso, integra a CCJ da Câmara e vota a favor de um projeto que cassa prerrogativas do Supremo; esse João Paulo Cunha já expressou seu inconformismo, por exemplo, com Joaquim Barbosa: “[Barbosa] Chegou [ao Supremo] porque era compromisso nosso, do PT e do Lula, de reparar um pedaço da injustiça histórica com os negros”. O sentido das palavras é claro: queria lá um ministro que se comportasse como devedor do partido. E há, efetivamente, os que são devedores do partido, não é?, que sabem que não ocupam seus respectivos lugares por notório saber jurídico, por notória experiência jurídica, por qualquer notoriedade, em suma, oriunda de seu trabalho na esfera do direito.
O partido tem algumas urgências; não pode esperar. É preciso acuar o Supremo e logo! Numa evidência, então, de que a PEC bolivariana do deputado Nazareno Fonteles não era só uma chicana individual, veio a público o deputado Marco Maia (RS). Ele promete, agora, apresentar outra PEC, que, segundo anuncia, busca impedir que uma liminar concedida por um ministro paralise a tramitação de um projeto de lei. E saiu soltando os cachorros no Supremo.
Marco Maia é uma figura típica de um petismo hipertrofiado. Quando o partido era pequeno ou médio e estava na oposição, seus parlamentares costumavam ser experimentados líderes sindicais ou conhecidos, vamos dizer, políticos de opinião… Maia já representou a chegada do baixo clero ao topo. Como presidente da Câmara, imaginem!, era o segundo homem na linha sucessória, presidente da República à parte. Depois de ter chegado a tal cargo, pode não ter se transformado num cardeal do PT — isso, ele nunca será —, mas já não é mais um frei dos pés descalços. Ao anunciar que continua empenhado em quebrar a espinha do Supremo, evidencia, uma vez mais, que se trata de um projeto do partido, em consonância com que se vem fazendo na América Latina.
Em certo sentido, é um vexame para o PT ser o maior partido de esquerda do subcontinente (exceção feita ao cubano, mas esse não conta porque é proibido haver outras legendas no país), liderar o governo há quase 11 anos na maior economia da região, e tudo isso com um Judiciário que ainda pode ser considerado independente.
Não vão desistir, não, de encabrestar o Supremo. Como não desistiram de controlar a imprensa. Como não desistiram de impedir a alternância de poder. E por que fazem tudo isso? Porque não conseguiriam se eleger dentro das regras da democracia??? Claro que conseguiriam! Tanto é assim que conseguiram.
O problema é que sua natureza autoritária é mais forte do que qualquer parâmetro racional que explique a realidade. É um caso de ódio à democracia, que tem história. Eles são os herdeiros de um pensamento que vislumbra a superação da contradição por meio da eliminação do contraditório. A oposição, até agora, não conseguiu dar combate. Em certo sentido, o petismo heavy metal tem razão ao identificar a verdadeira oposição em áreas do Supremo (não em todo ele) e da imprensa (não em toda ela). Com efeito, é nesses nichos que ainda se cultivam os valores democráticos plenos. São, sim, oposição: oposição ao autoritarismo e ao método de usar mecanismos da democracia para solapar o próprio regime democrático.
Jogando fora as cláusulas pétreas
O Globo
Temporariamente esfriada a tensão entre o Congresso e o Supremo, continuam a germinar na beira do campo propostas que visam a constranger o STF, culpado da ousadia imperdoável que foi o julgamento do mensalão.
Desde julho de 2012, existe uma entidade criada pelo ex-presidente da Câmara, Marco Maia, que atende pelo sugestivo nome de Comissão Especial de Aprimoramento das Instituições Brasileiras. A ela foi entregue, pelo sucessor de Maia — o deputado Henrique Alves —, o nada modesto projeto de “delimitar o terreno do Executivo, do Legislativo e do Judiciário”.
Qualquer pessoa de bom senso imaginaria que isso é função de uma Assembleia Constituinte. Mas não há limites para a imaginação de alguns legisladores do PT — como o deputado Nazareno, que surgiu de capa e espada, dentro da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, para alterar os pesos e as medidas do nosso sistema institucional.
Agora temos outro legislador-mor: é o deputado Rogério Carvalho/PT-SE (foto), relator da mencionada Comissão de Aprimoramento das Instituições Brasileiras. Para ele, a fixação de limites e competências dos poderes é o “debate central” da comissão (pensava-se que esses limites e competências já estariam inscritos na letra da Constituição).
Foto: Leonardo Prado
A intenção do deputado, explicada antes mesmo de qualquer debate, é fortalecer os poderes eleitos (Executivo e Legislativo), sob o argumento de que o julgamento das urnas proíbe a formação de “instituições absolutistas”. A essa pecha submete o deputado a antiga ideia de Montesquieu, a do equilíbrio dos poderes.
O que o deputado pretende é exatamente desmanchar esse equilíbrio recorrendo ao voto popular. Modelo que o chavismo praticou até arrasar com as instituições venezuelanas.
Sociedades, com certeza, não são mecanismos estáticos. Pode haver o desejo de adaptar o texto constitucional a novas necessidades. Mas há limitações para isso, destinadas a evitar uma deformação contínua do tecido constitucional. O exemplo extremo é o dos EUA, cujo texto constitucional mantém-se impávido há 200 anos.
Segundo uma sábia tradição, o poder de reforma não é o mesmo que o poder constituinte original. Exemplo disso são as famosas cláusulas pétreas, que não podem ser modificadas. Sua função é prevenir um processo de erosão da Constituição. Pretende-se evitar que a sedução de apelos próprios a cada momento destrua um projeto duradouro.
Assim, diz o artigo 60 da Constituição brasileira: “Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir a forma federativa, o voto direto, secreto, universal e periódico, a separação dos poderes e os direitos e garantias individuais”.
Os legistas do PT precisam ler a Constituição.
Prostituta se forma em Letras e reclama de salário de professor
Aluna da UFSCar, Gabriela Natália da Silva diz que é garota de programa por prazer e nunca precisou vender o corpo para pagar os estudos
Enquanto ela cobra R$ 250 a hora, um professor da rede estadual de ensino em início de carreira tira, em média, R$ 15 por hora
LEONARDO VIEIRA - O Globo

A garota de programa Gabriela Natália da Silva, de 21 anos, formou-se em Letras na UFSCar, mas prefere dar aulas apenas como hobby
Foto: Divulgação
A garota de programa Gabriela Natália da Silva, de 21 anos, formou-se em Letras na UFSCar, mas prefere dar aulas apenas como hobby Divulgação
RIO - Na turma de recém-graduados em Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), uma das formadas prefere não dar aulas por enquanto, e exerce outra profissão que já é citada inclusive na relação de carreiras do Ministério do Trabalho: garota de programa.
Gabriela Natália da Silva, de 21 anos, formou-se em Português-Espanhol em abril deste ano, mas nunca deixou de trabalhar fazendo programas em São Carlos, interior de São Paulo. Mais conhecida como Lola Benvenutti, nome inspirado no livro “Lolita” do russo Vladimir Nabokov, a profissional do sexo gosta de se diferenciar de outras colegas de profissão que vendem o corpo por dinheiro. Lola afirma com veemência que nunca precisou se prostituir para pagar as contas da faculdade.
No último ano da graduação, Lola começou a escrever um blog, onde fala sobre sexo, levanta bandeiras a favor da regulamentação da prostituição no Brasil e conta experiências com clientes. Tudo no anonimato, e sem cunho pornográfico. Segundo ela, o tema ainda vai lhe render uma pós-graduação na área.
— Vou me inscrever no mestrado de Estudos Culturais na USP e pretendo analisar o mundo da prostituição e do fetiche. Já tenho até orientador — garante a garota de programa, que chegou a ter bolsa de iniciação científica em moda.
Mesmo acostumada a dar aulas de Português e Redação para jovens e adultos, Lola reclama dos baixos salários de professor no país. Enquanto um professor da rede estadual de ensino do Rio, recém-formado em Letras, ganha em média R$ 15 a hora/aula, Lola cobra R$ 250 por hora de programa. E são no mínimo cinco por dia, segundo ela.
Ou seja, para ganhar o mesmo que Lola ganha em um programa, um professor da rede estadual de ensino do Rio precisa dar, no mínimo, 16 aulas. Não é à toa que Lola considera a prática docente, por enquanto, apenas como um hobby.
— No futuro eu até quero dar mais aulas sim. Mas com o salário que o professor ganha no Brasil, eu não conseguiria sobreviver. Professor é um herói — afirma Lola.
A garota de programa garante que nunca escondeu sua real profissão e não sofreu retaliações no meio acadêmico, mas “os olhares desconfiados de alguns colegas são inevitáveis”. Perguntada se algum aluno ou professor já se tornou cliente por um dia, ela primeiro ri da situação, e depois confessa:
— Já sim, é engraçado até. Mas a relação continua sendo estritamente profissional.
Crise faz jovens de Portugal trocarem cidade pelo campo
Segmento agroalimentar é o único a manter crescimento e criar postos de trabalho em meio à crise, diz ministra
Desemprego é de quase 40% entre portugueses de até 24 anos; subsídio europeu a agricultores jovens atinge recorde
LEANDRO MARTINS - FSP
O jovem português Ricardo Meneses Abreu de Sousa, 29, estava perto de concluir a faculdade de design de multimídia no Porto, segunda maior cidade de Portugal, quando decidiu trocar a vida acadêmica por uma carreira totalmente diferente.
Ao ver a dificuldade de colegas para obter emprego, em julho Sousa parou a faculdade para dedicar-se à agricultura em terras da sua família.
"Não vejo possibilidades de trabalhar na minha área de formação", afirma. Hoje, além de tirar os próprios rendimentos da produção de cogumelos e kiwis, já emprega mais uma pessoa na lavoura.
Sousa é um entre muitos jovens portugueses que, por causa da crise europeia, recorreram à agricultura como fonte de trabalho e renda.
O desemprego causado pela crise atingiu com força a mão de obra jovem. Se no país como um todo a taxa fechou 2012 em 15,7%, entre os jovens chegou a 37,7% --quase quatro em cada dez portugueses com até 24 anos de idade não têm trabalho.
Em visita ao Brasil em abril, a ministra da Agricultura de Portugal, Assunção Cristas, disse que, em meio à crise, o setor agroalimentar é o único que segue em crescimento. "É o setor que está a criar os postos de trabalho."
Embora a economia portuguesa tenha recuado cerca de 3% em 2012, o setor agroalimentar fez o caminho inverso e cresceu 2,8%, diz ela.
"Os portugueses sentiam que só ficava na agricultura quem não tinha oportunidade para outras coisas, não estudava, não ia para as cidades", afirma a ministra. "Essa ideia está transformada."
MAIORIA JOVEM
Com interesse no setor que ainda cresce, muitos jovens recorreram a programas estatais de incentivo.
O principal deles, o Proder (Programa de Desenvolvimento Rural), mantido pela Comissão Europeia, tem uma linha de subsídio específica para os jovens agricultores.
Sousa, que trocou a faculdade de design pelo campo, recebeu apoio de € 30 mil (R$ 79 mil). Investiu outro montante parecido de recursos próprios e aproveitou uma área livre da família.
Na região da cidade de Amarante, no norte português, a Associação dos Agricultores Riba-Douro classifica como um "boom" a procura dos jovens pelo campo.
Dos 112 produtores rurais associados à entidade, hoje mais da metade (63) são jovens. Em 1997, quando a associação surgiu, tinha apenas 17 jovens em sua lista de 52 agricultores associados.
O interesse atual é sobretudo na produção de frutas, cogumelos e horticultura.
"São majoritariamente jovens cujos pais não tinham mais ligação com a agricultura, já estavam nas cidades, e que viram uma alternativa [no campo]", diz Maria de Lurdes Cardoso, engenheira agrícola responsável pela associação. "São licenciados em outras áreas, engenheiros, arquitetos, professores."
O presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal, João Machado, diz que 2012 terminou com recorde de 3.000 jovens agricultores no país apoiados pelo programa europeu. "São pessoas com formação em outras áreas, mas que estão a criar seu emprego na agricultura."
Os EUA são um país de todos os sotaques em um só idioma
Jorge Ramos
Michael Dwyer/AP Photo


O sotaque é uma beleza e uma bússola. Diz imediatamente de onde viemos, há quanto tempo estamos nos EUA, com quem nos juntamos, o que fazemos e o que buscamos. Pode-se tentar ocultar o sotaque, mas, como o capim que rompe o cimento, ele sempre brota com uma palavra inesperada.
Os hispânicos, com uma força superior a 52 milhões, estão mudando a forma como este país soa. Nas ruas de todas as grandes cidades se escuta o espanhol. Vários dos programas mais vistos na televisão em Los Angeles, Houston, Miami, Chicago e Nova York são em espanhol. Há pouco tempo a Univisión, que transmite em espanhol, se transformou na quarta rede dos EUA em níveis de audiência, enviando a NBC para o quinto lugar.
Se sua língua materna é o espanhol, é muito provável que você tenha um sotaque ao falar inglês. Um em cada dois adultos hispânicos nasceu no estrangeiro, e portanto aprendeu espanhol antes do inglês. Isso se percebe.
Hoje é "cool" ter sotaque ao falar inglês. Foi o que demonstrou a atriz colombiana Sofía Vergara. Além disso, às vezes até dá a impressão de que o exagera. Suspeita-se de que na vida real tenha menos sotaque que seu personagem Glória na divertidíssima comédia de televisão "Modern Family".
Tudo começou com o músico e ator cubano Desi Arnaz na série de televisão "I Love Lucy". De 1951 a 1957, os americanos se acostumaram a ouvi-lo e rir apesar de seu forte sotaque. O ator espanhol Antonio Banderas, no início dos anos 1990, memorizava foneticamente os roteiros em inglês e foi aceito como parte do clã das estrelas. Mais tarde Salma Hayek, Penélope Cruz, Javier Bardem, Demián Bichir e muitos outros latinos tiveram êxito no cinema e na televisão americanos, apesar de seu sotaque. O talento supera qualquer nuance fonética.
Hoje é normal nos meios de comunicação o que antes era exceção. Arnold Schwarzenegger e Henry Kissinger conseguiram que suas ideias, e não seu sotaque, fossem o mais importante.
Até 2050 seremos mais de 130 milhões de hispânicos nos EUA, segundo cálculos do Centro de Pesquisas Pew. Um em cada três habitantes será latino. Dentro de apenas quatro décadas decidiremos quem serão desde presidentes até prefeitos, e teremos um enorme impacto na forma de comer, consumir, trabalhar, dançar e falar neste país.
E a Califórnia está marcando o rumo. Os hispânicos estão prestes a se transformar no maior grupo étnico desse Estado. Isso implica que nosso inglês, carregado de palavras em espanhol e do "spanglish", deixou a marginalidade dos bairros latinos e já não é mal ouvido.
O importante, entretanto, não é que nosso sotaque seja escutado, mas que nossas vozes sejam ouvidas. O atual debate sobre a reforma migratória é o resultado de muitas vozes com muitos sotaques fazendo muito ruído nas ruas, nos locais de votação, nos partidos políticos, no Congresso e na Casa Branca.
Os EUA finalmente perceberam que são um país de muitos sotaques, e que a época em que se devia ocultá-los ficou para trás. Eu cheguei aos 24 anos aos EUA e ainda hoje meus dois filhos frequentemente corrigem minha pronúncia e gramática em inglês. Não importa quantos anos passem, quantos livros leia e quantas aulas tome, sempre se notará que aprendi inglês tarde na vida.
Mas o que notei em minhas três décadas de vida nos EUA é uma crescente tolerância a sotaques que vêm de fora do país. Lembro claramente do início dos anos 1980, quando uma estação local de televisão em Los Angeles contratou a primeira repórter que tinha um sotaque em inglês. Parecia então um gesto verdadeiramente revolucionário ou, no mínimo, muito arriscado. Hoje, por sua vez, há tantos sobrenomes hispânicos nos noticiários da televisão americana que é impossível sequer fazer uma lista mais ou menos fidedigna. É o normal.
Apesar das leis anti-imigração do Alabama até o Arizona, e dos ataques cíclicos contra os estrangeiros, nesta nação continua prevalecendo uma enorme tolerância à diversidade e uma saudável abertura para os que vêm de fora. Os EUA são o país de todos os sotaques em um só idioma.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Governo espanhol estuda utilizar na política econômica bancos nacionalizados pela crise
Joaquín Estefanía - El Pais
Albert Gea/ Reuters
Manifestantes fazem protesto contra as medidas de austeridade do governo de Barcelona (Espanha)
Manifestantes fazem protesto contra as medidas de austeridade do governo de Barcelona (Espanha)
Uma parte significativa do governo, à frente da qual se encontra o ministro da Economia, Luis de Guindos, quer utilizar os bancos nacionalizados pela crise (Bankia, Catalunya Banc, Novagalicia Banco) como instrumentos de sua política econômica. Não por acaso, eles atingem cerca de 15% da cota de mercado do sistema financeiro espanhol. Substancialmente, em dois campos: que liderem a recuperação do crédito às empresas e famílias, e que, ao livrar-se de suas participações industriais (sobretudo o Bankia na IAG, Indra ou Iberdrola), não deem lugar nas mesmas a sócios indesejáveis, do tipo fundos abutres.
Para isso, a banca nacionalizada deverá se transformar em banca pública, pelo menos enquanto não se iniciar um processo de privatização da mesma, se é que ocorrerá (do que poucos duvidam, pelo menos enquanto o PP governar). Uma banca pública composta por entidades diferentes, sem holding nem fusões, com conselheiros delegados diferentes, limpa de produtos lixo (transferidos para o banco ruim), recapitalizadas com 40 bilhões de euros procedentes de Bruxelas e com boas equipes administrativas (muitos destacam a presença de José Ignacio Goirigolzarri). Portanto, nossas autoridades deverão explicar com profundidade, luz e taquígrafos, em que consistirá essa coordenação de que falam.
Se a mesma for efetiva, não será bem recebida pelo resto do setor financeiro privado, que neste momento não passa por um romance com o governo Rajoy. Foi o que disse há alguns dias o presidente da patronal bancária, Miguel Martín: "A parte saudável do setor está pagando o que o Estado não pode pôr [seguramente se referia aos derrames do Fundo de Garantia de Depósitos para dar liquidez às preferentes, às ajudas ao banco ruim...]. Se é preciso que haja créditos, será necessário cuidar da parte saudável, porque é quem pode atender à economia".
Tampouco parecia estar muito de acordo com a banca pública o subgovernador do Banco da Espanha, Fernando Restoy, que, em um artigo teórico intitulado "A intervenção estatal no setor bancário", dentro de um livro-homenagem ao economista Julio Segura ("Ensayos sobre economía y política económica", Antoni Bosch ed.), escrito muito antes que o governo se pronunciasse sobre o assunto - disse essencialmente que a propriedade pública não é, em geral, um mecanismo eficaz para corrigir as imperfeições do mercado de serviços bancários e, com frequência, tende a acentuá-las.
Depois de uma nacionalização por necessidade, em uma espécie de socialização das perdas, o governo se encontrou com um grupo de entidades bancárias que, no extremo, poderia ser uma espécie de germe da antiga Argentaria. Será preciso ficar atentos a sua hipotética privatização (neste caso também o peixe pequeno comeria o grande, como antes?) e para a extraordinária concentração do setor resultante, muito parecido com um oligopólio.
  Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Opinião: os irmãos Tsarnaev tiveram razões para amar os EUA, mas optaram pelo ódio ao país
Frank Bruni - NYT
Arquivo Pessoal/Reuters

Imagem dos irmãos acusados pelos atentados de Boston, Dzhokhar Tsarnaev (centro, abaixo) e Tamerlan Tsarnaev (centro, acima). Na imagem, os jovens --ainda crianças--, estão acompanhados pelas irmãs
Imagem dos irmãos acusados pelos atentados de Boston, Dzhokhar Tsarnaev (centro, abaixo) e Tamerlan Tsarnaev (centro, acima). Na imagem, os jovens --ainda crianças--, estão acompanhados pelas irmãs
Ah se as coisas fossem tão simples quanto os drones que retornam para casa para pernoitar, seria reconfortante, de alguma maneira. Se tivéssemos de defender uma causa bem definida, ela nos daria uma solução clara para o problema: provocar menos mortes em terras distantes e nos preocupar menos com as mortes em nosso próprio território.
Ah se tudo pudesse ser atribuído à leniência do processo de imigração ou a um erro do FBI. Nós poderíamos endurecer as regras em ambas as frentes, voltando um olhar mais belicoso para qualquer um que aspirasse viver nos Estados Unidos e fazendo o pessoal de Quantico (onde estão sediadas academias de treinamento do FBI) andar na linha e trabalhar mais duro do que nunca. Talvez, então, pudéssemos eliminar a preocupação que floresce de forma sombria dentro de muitos de nós quando visitamos monumentos muito populares, que atraem multidões, ou quando vamos assistir eventos de natureza bastante simbólica, como a Maratona de Boston – cuja interrupção violenta transmite todo o horror adicional que os terroristas pretendiam imprimir.
A semana passada foi uma semana de teorias, de ficar remoendo o assunto, das denúncias políticas e motivações que foram engatadas como vagões de trem aos acontecimentos daquela tarde brutal em Boston.
A radicalização dos perpetradores do atentado de Boston mostrou que devemos reduzir nossas campanhas militares e adotar uma postura mais humilde no mundo. O poder de fogo dos perpetradores (descrito com exagero, ao que parece) alimentou a defesa do controle de armas.
Nós tínhamos de ser mais expansivos e comunicativos em nossa tentativa de incluir os muçulmanos – que se tornam agentes de destruição por serem alvos de suspeitas – em nossas comunidades. Nós tínhamos que nos livrar do "politicamente correto" e patrulhar as mesquitas.
Ah, as armadilhas das anistias que nosso país concede e o grande coração que ele abre a certos peregrinos originários de países do Terceiro Mundo! Ah, o perigo de todos os nossos jovens alienados e sem rumo! (E será que existem muitos outros tipos de jovens?)
Mas esses diagnósticos superficiais, muitos dos quais convenientemente vinculados a uma proposta de solução, não tinham a ver, em parte ou em sua totalidade, com a política, a sociologia ou nada de muito concreto. Eles tinham a ver com algo muito mais nebuloso e que é muito menos facilmente dominado.
Esses diagnósticos tinham a ver com o medo. E eles tinham a ver com o anseio ardente, persistente e pungente que sentimos para acreditar que, em uma sociedade onde a circulação de informações e pessoas é livre, em uma sociedade na qual convivem ideologias conflitantes e de sonhos espetaculares que não se tornam realidade – em outras palavras, nesse esplêndido, mas difícil experimento batizado de Estados Unidos da América –, nós somos capazes, de alguma forma, de evitar o desastre e vacinar a nós mesmos contra esse tipo de ação. Após uma análise suficientemente aprofundada do feed do Twitter de um dos suspeitos – que descreve um débil rapaz de 19 anos de idade como combatente inimigo –, nós pudemos desvendar o enigma e, em seguida, nos ajustar e obedecer às verdades detectadas em seu cerne.
No programa "Meet the Press", transmitido no final de semana passado pela rede de TV norte-americana NBC, Doris Kearns Goodwin descreveu a festa que teve início em um bar onde ela estava quando foi noticiada a captura do mais jovem dos irmãos Tsarnaev: "Todo mundo começou a gritar: 'Graças a Deus que o capturamos vivo', pois queremos uma resposta para a pergunta 'por quê?'"
E, durante os dias que se seguiram, as pessoas que estavam no bar – e todos nós – obtivemos muitas respostas. Nós ficamos sabendo que Dzhokhar Tsarnaev foi facilmente influenciado por Tamerlan Tsarnaev, 26, numa dinâmica que ocorre entre irmãos e que costuma ser totalmente rotineira.
Nós ficamos sabendo que a internet e as redes sociais instigaram em um deles, ou em ambos, influências malignas e os que envolveram em raiva e pensamentos distorcidos, da mesma maneira que a internet e as redes sociais permitem que qualquer pessoa se concentre em uma obsessão específica, em um único conjunto de emoções.
Nós ficamos sabendo que eles tinham obtido instruções para a confecção de bombas na internet, da mesma forma que outras pessoas buscariam uma receita de guacamole.
Levando tudo isso em consideração, nós ficamos sabendo-- pelo menos do necessário tanto para amplificar nossas ansiedades quanto para acalmá-las--, pois os Tsarnaev eram aparentemente imperceptíveis, terroristas acidentais, e porque a imagem que apareceu realmente não produziu um conjunto de instruções capaz de evitar que o caos que eles supostamente orquestraram ocorra novamente. O ocorrido sugere a facilidade com que atentados como esse podem acontecer em uma terra de liberdade, governada por um pacto de confiança.
Os irmãos tiveram muitas razões para amar os Estados Unidos. Ao que parece, mais razões para amar do que para odiar o país. Quando sua família-- de origem tchetchena--, pediu asilo, os EUA disseram que sim. O país lhes deu oportunidades, lhes deu esperança. Dzhokhar frequentou a mesma escola de ensino médio que Ben Affleck e Matt Damon frequentaram. E, após se formar, a cidade de Cambridge, em Massachusetts, ofereceu a ele uma bolsa de US$ 2.500 para que ele desse continuidade a seus estudos.
Mas ele não se saiu bem na faculdade, assim como a carreira de Tamerlan no boxe – ele chegou a aspirar ser representante dos EUA nos Jogos Olímpicos – não deu certo. E as grandes promessas feitas pelo nosso país, sem dúvida, fazem com que as decepções sejam ainda mais esmagadoras.
Mas as grandes promessas também nos fazem ser quem somos.
Os irmãos aparentemente se opunham às nossas intervenções no Iraque e no Afeganistão. Mas será que eles não teriam tido alguma outra queixa, alguma outra objeção, caso essas intervenções nunca tivessem ocorrido? Eles surgiram depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro, cujos autores tinham muitos outros descontentamentos para justificar seus atos.
Para aqueles que têm a capacidade para exercitar sua fúria, justificativas não são difíceis de encontrar. Timothy McVeigh, responsável pelo atentado a bomba na cidade de Oklahoma, citou o ataque do governo dos EUA ao Ramo Davidiano, em Waco, no Texas, como um dos motivos que impulsionaram suas ações. Ele não era nem muçulmano nem imigrante, apenas desequilibrado – caracterização que também se aplica a Anders Behring Breivik, que culpou a aceitação do multiculturalismo na Europa pelo assassinato, orquestrado por ele, de 77 pessoas na Noruega em 2011. O terrorismo não é um flagelo que apenas nós, norte-americanos, suportamos – e ele raramente tem a ver com uma única motivação ou com algumas poucas motivações.
Nossa insistência em tentar detectar padrões e semelhanças e obter algum tipo de entendimento pressupõe a existência de racionalidade e coerência nesses massacres. Mas a diferença entre os jovens alienados e sem rumo que não plantam bombas nem abrem fogo no meio de multidões desavisadas – que são a grande maioria – e aqueles que praticam esses atos provavelmente está menos relacionada a um discreto processo de radicalização, que podemos definir e erradicar, do que a uma dose, às vezes alta, de pura loucura. E não há antídoto fácil para isso. Muito menos um amuleto contra esse tipo de loucura.
Há também um perigo embutido no experimento norte-americano, cuja própria natureza nos deixa expostos. Nossa diversidade, que é corretamente valorizada, pode transformar o desafio de fazer as pessoas se sentirem parte de uma comunidade muito mais difícil. Nossa sorte e liderança significam que nós seremos não apenas invejados pelo restante do mundo, mas também criticados.
O FBI desviou seu olhar do mais velho dos irmãos Tsarnaev após não ter conseguido detectar nenhum sinal de alarme conclusivo, pois é isso que o governo deve fazer na ausência de informações mais precisas. Nós não queremos que o governo vá longe demais ao espionar nossas vidas. Isso significa que o governo provavelmente deixará passar algumas coisas.
Nós podemos e vamos descobrir pequenas maneiras para nos sentir mais seguros, mas temos de aceitar a realidade de que nunca estaremos completamente seguros – não com a navegação irrestrita na internet. Nem com a Segunda Emenda. Nem com a privacidade que esperamos ter. Nem com a liberdade que exigimos.
Esse é o acordo que firmamos. Ele é imperfeito, mas é o caminho certo.
Merkel e Letta divergem sobre crescimento
FSP
O novo premiê italiano, Enrico Letta, se reuniu ontem com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para discutir soluções para a crise europeia.
Os dois políticos concordaram em ampliar a integração na zona do euro, mas deixaram claras concepções distintas sobre crescimento e austeridade.
Merkel afirmou que os ajustes fiscais e o crescimento econômico não são objetivos opostos, mas complementares na luta contra a crise.
"Rigor e crescimento não são opostos, um é condição do outro. Aliás, em alemão nem tínhamos essa palavra, austeridade, usamos rigor", comentou, segundo o jornal português "Público".
Para a chanceler alemã, apenas com consolidação fiscal o continente conseguirá criar empregos e melhorar a competitividade.
Já Letta, no primeiro encontro oficial no cargo, pediu que a Europa mostre "tanto empenho em obter crescimento econômico como tem demonstrado no controle da dívida".
O premiê garantiu que seguirá o compromisso com as autoridades europeias de manter as contas públicas em ordem.
Os líderes políticos prometeram estreitar a cooperação entre os dois países. Letta afirmou que a Europa obteve êxito nos momentos em que Alemanha e Itália trabalharam juntos e que, durante a presidência italiana da União Europeia, em 2014, dará impulso a projetos de união fiscal, bancária e política.
A visita a Berlim logo no início do mandato tem se tornado rotina na Europa. O presidente francês François Hollande, eleito no ano passado, também começou seus trabalhos por uma conversa com Merkel.
François Hollande enfrenta críticas da própria esquerda francesa
Arnaud Viviant* - Le Monde
Patrick Kovarik/AFP
 O presidente francês, François Hollande, fala durante coletiva de imprensa no Palácio do Eliseu (sede do governo francês), em Paris (França)
O presidente francês, François Hollande, fala durante coletiva de imprensa no Palácio do Eliseu (sede do governo francês), em Paris (França)
Tentar definir o hollandismo é meio como querer responder à grande questão alquímica: quando o sangue vira chouriço? É verdade que para o sarkozysmo isso aconteceu muito rápido. Para uns, o sarkozysmo era um bonapartismo moderno; para outros, um thatcherismo moderado, um blairismo à moda francesa ou um gaullo-chiraquismo de inspiração claramente jacobina, se não os três coagulados. Com essa superioridade que os cães vivos têm sobre os leões mortos, dirão simplesmente que o sarkozysmo só foi mais um populismo.
"Ceticismo benevolente e inquieto"
De qualquer forma, a doutrina do ex-presidente da República tem sua página na Wikipédia.; o hollandismo ainda não, apesar do cientista político e economista Emmanuel Todd. Em uma entrevista publicada um mês antes das eleições presidenciais de 2012, foi ele quem cunhou o neologismo, ao prognosticar o advento de um "hollandismo revolucionário". Hoje, a expressão intriga. Hollandismo revolucionário: não parece uma forma rara e risível de oxímoro?
Uma amiga minha costuma dizer: "Hollandismo? Fácil. É um ceticismo benevolente e inquieto." Bonito. Em todo caso, é mais do que um bonapartismo de gravata torta, mais do que um molenguismo, mais do que um socialismo da oferta ou do que um papandreouismo, que, nos últimos tempos, vem sendo esmagado como um marshmallow rosa na boca de Jean-Luc Mélenchon.
No entanto, a intervenção solitária no Mali não parece com um impulso sarkozysta? E se o hollandismo fosse isso, também? Um sarkozysmo intermitente, um sarkozysmo subterrâneo no qual se pinçaria dependendo das circunstâncias, assim como em uma jazida de gás de xisto?
Um liberalismo de baixo consumo
Parece mais razoável ainda não acreditar no hollandismo. Como por encanto, François Hollande não tem mais sido visto como socialista nem segundo seus amigos, nem segundo seus inimigos, mas como socialdemocrata. Com seu ar importado, seus contornos de Floresta Negra, seus brilhos de fiordes, essa palavra se tornou o verdadeiro vetor das mais recentes rodas de conversa. Você fica bravo ou não dependendo de se você é poderoso ou miserável.
E o liberalismo? A bem da verdade, o liberalismo parece, tanto para o presidente como para os membros de seu governo, tão natural quanto o ar que respiram. No máximo precisam de tempos em tempos, para agradar a alguns ecologistas com quem fazem alianças, se preocupar com seu grau de poluição. Da mesma forma que colocamos lâmpadas de baixo consumo que produzem uma luz suja e deprimente, instalam um liberalismo de baixo consumo que será apelidado de "crise da dívida". Assim, todos os despoluentes do liberalismo ficam contentes. Depois só terão de nomear um deles, não o mais malvado, "enviado especial do presidente da República para a proteção do planeta", uma espécie de Superhomem volátil, com um escritório no Eliseu e sem salário, e pronto. Saem o liberalismo, o socialismo, o hollandismo. Todos os "ismos".
No lugar entram as "ões": lei da programação, inflação, inflexão, comissão. Nenhum projeto de lei sem sua comissão prévia. Esta tem o gosto e a cor da sociedade civil e da democracia direta, mas não é nem a sociedade civil, nem a democracia direta. É uma comissão.
Sim, talvez esteja em andamento uma hollandização da França. E o que seria a hollandização? Seria um Hollande sem o hollandismo: é o homem. É o estilo. Aparentemente não entendemos muito bem a célebre anáfora "Eu, presidente da República", pedaço de bravura mitômana que levou "Sarkô" a nocaute.
No entanto, seria preciso voltar a ouvir o que dizia essa anáfora, essa figura de estilo enorme evocada diversas vezes, como se fosse uma montanha mágica, contra as pretensões de seu adversário. Ela manifestava ambição. Como não confiar mais nela?
*Escritor e redator-chefe da revista "Charles".
Tradutor: Lana Lim
Qual será a promessa de campanha do governo Rajoy contra o desemprego espanhol?
Soledad Gallego-Díaz - El Pais
Susana Vera / Reuters
Economia da Espanha encolhe pelo 7º trimestre consecutivo
Economia da Espanha encolhe pelo 7º trimestre consecutivo
A campanha eleitoral que levou em novembro de 2011 à maioria absoluta o Partido Popular e que transformou em chefe do governo Mariano Rajoy se baseou praticamente em dois temas: o aumento do desemprego e a crítica situação financeira do país. No quarto trimestre de 2011, o índice de desemprego era de 22,85% e havia 17,8 milhões de ocupados. A taxa de risco começou 2011 em 250 pontos básicos e fechou em 330, com episódios de grande volatilidade no meio.
Sobre o quê o PP poderá concentrar a campanha eleitoral em 2015? O índice de desemprego chegou esta semana a 27,1%, com uma queda no número de ocupados até 16,6 milhões. A taxa de risco beira os 300 pontos. É possível, e muito desejável, que em 2015 o perfil da situação econômica, em termos gerais, tenha melhorado, mas é pouco provável que a cifra do desemprego seja menor que em 2011.
De fato, as previsões do Fundo Monetário Internacional, que na verdade se equivoca com certa frequência, mas quase nunca em grandes diferenças, indicam que rondará os 25,6%. É possível que então o governo tenha conseguido baixar alguns dos impostos que aumentou nos últimos meses, mas tampouco é provável que consiga absorver completamente esses aumentos. De uma forma ou de outra, terá "tocado" as aposentadorias para baixo e as prestações do seguro-desemprego também terão sido reduzidas.
Tudo isso parece indicar que em 2015 os cidadãos não sentirão que a situação econômica de seus lares melhorou, senão que, especialmente a classe média, que deverá ter comido suas poupanças, se sentirá mais pobre que em 2011.
Sobre o quê o PP fará então sua campanha? Quais poderão ser suas promessas? Alguns no Partido Popular terão começado a pensar em como orientar sua relação com os eleitores, já que não pode se basear em resultados econômicos perceptíveis pelos cidadãos. O mais frequente nesses casos é introduzir temas de forte alcance político, de maneira que, primeiro, o próprio eleitorado se sinta reconhecido, e segundo se coloque uma "alternativa" reconhecível e modernizadora dessas classes médias.
O que melhor para o núcleo duro do eleitorado popular que um programa que se baseie na ordem e na autoridade diante dos protestos e que recupere algumas raízes "católicas", capazes de garantir, de passagem, o apoio beligerante da hierarquia eclesiástica? E, nesse caso, o que pode dar mais satisfação a esse setor que promover o ensino religioso na escola pública e cortar os direitos das mulheres à maternidade livre? Será preciso ver o texto do projeto de reforma do direito ao aborto que prepara o ministro Alberto Ruiz-Gallardón para avaliar exatamente a importância que terá esse movimento.
Esse programa, entretanto, dificilmente serve para mobilizar amplos setores médios da opinião pública. Para essas camadas, alguns pensam que é possível que se toque a fibra do nacionalismo espanhol, talvez com um projeto de reforma constitucional recentralizador (que deixe à margem o País Basco e Navarra, sempre possíveis aliados parlamentares) e um discurso "regeneracionista" no estilo clássico. O nacionalismo espanhol sempre deu bons resultados eleitorais para o PP, e em sua época constituiu um dos elementos mais importantes do discurso de José María Aznar.
É verdade que em política dois anos e meio, o tempo que poderá durar esta legislatura (novembro de 2015 é o limite máximo), é uma enormidade e que a estabilidade financeira europeia não está absolutamente garantida, mas mesmo assim é seguro que o Partido Popular está disposto a promover debates de forte conteúdo político, capazes de neutralizar ou pelo menos atenuar a discussão sobre o balanço de sua gestão econômica. Será preciso nos prepararmos para suportar o que se aproxima. Prepararmo-nos para não permitir que nos distraiam do que realmente é sua responsabilidade e nosso futuro.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Kazan, Russia (by Antonio Zarli)

terça-feira, 30 de abril de 2013

Da arte de viver entre guris do crime e garis intelectuais
1.
Um assassino jamais "paga sua dívida com a sociedade", como prega o chavão estimulante de seus defensores. A vítima morta não recebe a sua parte do pagamento e a dor daqueles que a amavam não se quita com ele.
A prisão do assassino é apenas punitiva e pode até ser temporária, embora tanto melhor quanto mais longa. Mas a dívida, queiram ou não, é eterna.
2.
No Brasil, a vida humana custa nada mais que 3 anos de recolhimento na Fundação Casa, se tirada por um menor. Mesmo que este menor tenha "isqueirado" viva a sua vítima - como a dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza -, para torturá-la por dispor de apenas R$ 30 em sua conta na hora do assalto.

Só uma fome estimula isto: a fome de crueldade.
Em 3 anos, o bem-nutrido incendiador de Cinthya - que pode assumir o crime no lugar de seus comparsas mais velhos para aliviar a pena deles - estará solto, de ficha limpa, assim como o assassino de Victor Hugo Deppman, que não se satisfez em roubar o celular do rapaz e deu-lhe um tiro na cabeça.
Se eles terão a certeza - o que já seria um escárnio - de que pagaram sua dívida com a "sociedade"? Não creio! No Brasil de Dilma Rousseff, Gilberto Carvalho e Maria do Rosário, a "sociedade" é que tem uma dívida eterna com eles.
O mínimo que podemos fazer é andar com mais de R$ 30 no bolso.
(Sobre o assunto, leia também as análises indispensáveis de Reinaldo Azevedo:
aqui, aqui, aqui, aqui e aqui; e José Maria e Silva, aqui.)
3.
E eu não tinha escrito que, no Brasil, até o estupro se passa por crime de fome?
Fico muito aliviado, portanto, de não precisar refutar o coquetel de bobagens da jornalista Luíza Pastor na Folha de Qualquer Um, digo, de S. Paulo, não só porque
Reinaldo Azevedo já o fez de forma impecável, como também porque meu artigo "Os guris do crime" já o antecipava. Para cada guri do crime, há um caminhão de garis intelectuais dispostos a varrer sua sujeira para baixo do tapete.
Luíza Pastor - que de pastora só tem o sobrenome - ainda se refere ao seu próprio estuprador como "o menino". Isto, limito-me a acrescentar, é praxe entre aqueles que passam a mão na cabecinha de criminosos e terroristas. O "especialista" do jornal O Globo, Luciano Huck, fez a mesma coisa em relação aos traficantes de drogas tempos atrás, como escrevi no artigo "
Soletrando a Guerra 'do Rio'":
No Caldeirão mental do Huck, os “meninos e meninas” do narcotráfico “não são bandidos”, mas “nasceram no lugar errado e estão bandidos”. Pobres vítimas que, “por absoluta falta de opção” nas “comunidades dominadas pelas armas”, foram cooptadas pelos líderes do “movimento”. Que essa “absoluta falta de opção” ainda produza uma maioria honesta e trabalhadora, é um desses mistérios cuja elucidação fica para depois dos comerciais. Ou, como escreve o apresentador do “Soletrando” sobre o problema das armas: “Mais [sic] isso dever [sic] ser o tema de um outro artigo”. 
Após o atentado na Maratona de Boston, o radialista americano Rush Limbaugh fez também uma compilação de comentários jornalísticos neste sentido a respeito de Dzhokar Tzarnev, de 19 anos, um dos terroristas que explodiram três pessoas - incluindo uma de 8 anos - e mataram um policial.
Os grifos são meus:
JULIA IOFFE: This kid seemed to be out of place in Boston. He seemed to be alienated.
DON LEMON: He’s 19 years old, he’s still a kid, he’s still a teenager.
CHRISTINE ROMANS: It's not as if you look at this kid and his background, and see hardship that could have turned his heart hard.
ANDERSON COOPER: He was a seemingly normal college kid.
DEBORAH FEYERICK: Remember, this is a kid who is on a ventilator.
JESSICA STERN: Why is it that one kid is susceptible and not another.
ERIN BURNETT: All-American kid, smoked pot, went to parties. Totally normal kid.
DR. DREW PINSKY: What seems to be a normal kid in high school on the wrestling team to being radicalized.
DAVID REMNICK: This is a mixed up kid.

Pois bem. Na hora do sexo, como escrevi no artigo "Educação de quatro", as crianças devem ser tratadas como adultas. Na hora do crime, os criminosos, mesmo quando adultos, devem ser tratados como crianças (ou "kids").
É assim o discurso revolucionário esquerdista onipresente
na educação e na grande mídia americana, brasileira e outras mais: corrompe a sociedade por todos os lados, para depois acusá-la de todos os crimes.

Felipe Moura Brasil edita o Blog do Pim.
A Operação Salva Eike
Carlos Tautz
Provavelmente o círculo inferior da economia (nós) nunca saberá os detalhes da Operação Salva Eike, que o próprio e o governo brasileiro vem desenvolvendo, após o ex-homem mais rico do Brasil ter tido revelada a péssima situação financeira de suas empresas.
Mas, os contornos dessa Operação, tornados públicos aqui e ali de um noticiário sempre à serventia de Eike, são nítidos. Eles repetem a dinâmica e a lógica que permitira a ascensão econômica desse moço que produz menos do que se pensa, mas que habilmente cria uma imagem pública de que vale muito mais do que em verdade vale.
A Operação em andamento envolve dinheiro público (do BNDES e de negócios com a Petrobrás) e uma blindagem que a imprensa faz à imagem de Eike como um suposto exemplo de empreendedor que, por méritos próprios, teria chegado onde chegou.
No banco estatal, o antigo oitavo homem mais endinheirado do planeta montou um verdadeiro eikeduto que lhe garante muito dinheiro público, largamente subsidiado pelo Tesouro, apesar dos insistentes indícios de fracasso, ou de, pelo menos, dificuldades por que passam seus empreendimentos. Foi isso que aconteceu no dia 18 passado, quando Eike anunciou ter obtido mais de R$ 900 milhões em novos empréstimos do BNDES.
O esquema de apoio ao ex-exemplo de capitalista tem outra perna na Petrobras, de onde Eike tirou técnicos super qualificados, e as valiosíssimas informações que eles carregam na memória, para montar sua própria empresa de petróleo e transacionar com a estatal do petróleo.
A outra parte de sua estratégia de blindagem, que mais uma vez o ajuda agora no momento em que ele recorre às boas e velhas tetas da Viúva, é o consenso social em torno de si. Ele a estimula. E a imprensa corporativa gostosamente apoia.
Ao inflar números e possibilidades para seus negócios, Eike avança no único mercado que domina: as expectativas em torno de possíveis ganhos e a valorização de suas empresas. Assim, comprar e vender participações de suas companhias vira um grande negócio. Para o próprio Eike, é claro.
Foi isso que aconteceu há poucas semanas. Como noticiou O Globo (22/4): “Os papéis ON da petrolífera [OGX, de Eike] (com direito a voto) avançaram 18,38% a R$ 1,61, depois de terem subido mais de 19% na abertura. O motivo, segundo analistas, foi uma reportagem do jornal “Folha de S.Paulo”, no fim de semana, informando que um pacote de socorro estaria em andamento para salvar a OGX”.
Comparadas a outras corporações brasileiras, as empresas de Eike produzem e faturam pouco. Seus ganhos residem no perde e ganha desse jogo de expectativas, em que estatais aceitam negociar com um conglomerado em dificuldades e a imprensa propagandeia que tudo isso é normal no capitalismo.
Mas, boa parte da responsabilidade por volumes massivos de dinheiro público serem desperdiçados em operações de salvamento de empresários falidos é nossa. Aceitamos e reproduzimos, também gostosamente, que o ícone de capitalista brasileiro represente nosso próprio ideal de crescimento individual.
Carlos Tautz, jornalista, coordenador do Instituto Mais Democracia – Transparência e controle social de governos e empresas.
Os irmãos Jesse e Frank James fugiam do xerife. Os manos José Genoino e José Guimarães querem algemar os juízes
Augusto Nunes - VEJA

Os irmãos Jesse e Frank James
Faz tempo que a bandidagem do faroeste brasileiro se porta como dona do vilarejo, constatou o comentário de 1 minuto para o site de VEJA. Primeiro, pararam de esconder o rosto na hora do assalto. Depois, deixaram de afastar-se às pressas da cena do crime: se não permanecem por lá, atravessam a rua para divertir-se no saloon. Em seguida, os vilões resolveram prender o xerife. E agora querem dar ordens ao juiz, informa o recrudescimento da sórdida ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal movida pela bancada dos companheiros delinquentes.
O golpe não vai dar certo, previu a reportagem de capa de VEJA. Mas os golpistas continuarão tentando botar abaixo o estado democrático de direito, acertou novamente o texto que relata as obscenas manobras urdidas por deputados e senadores do PT ─ com o patrocínio do Planalto ─ para submeter o Judiciário ao Legislativo. A tropa de choque é permanentemente abastecida por comparsas na reserva. Nesta segunda-feira, por exemplo, Nazareno Fonteles achou sensato recolher-se ao baixíssimo clero. Imediatamente entrou no palco o inevitável Marco Maia.

Os irmãos José Guimarães e José Genoíno
Em voz alta ou aos sussurros, às claras ou nas catacumbas das comissões, os devotos do autoritarismo populista conspiram para algemar o Supremo Tribunal Federal antes que a frota de camburões recolha os mensaleiros condenados a merecidíssimas temporadas na cadeia. Há algo de muito errado com um país em que meliantes ligados por laços de sangue se fantasiam de representantes do povo para insultar impunemente os os homens da lei.
Nos filmes que contam a saga dos irmãos Jesse e Frank James, a dupla passa boa parte do tempo galopando na pradaria ou enfurnados num desfiladeiro para escapar do delegado. Aqui, os irmãos José Guimarães e José Genoino são dois prontuários com imunidades parlamentares. Pecadores juramentados, deveriam estar ajoelhados no milho desde a infância. Continuam à solta, homiziados na Câmara. E nunca dormiram num catre.
Guimarães era deputado estadual no Ceará quando um de seus assessores, José Adalberto Vieira, foi preso em São Paulo pela invenção da cueca-cofre. Além de 200 mil reais na mala, Vieira carregava 100 mil dólares nas partes baixas ao ser capturado no aeroporto de Congonhas, pronto para voar rumo a Fortaleza. O irmão de Genoino safou-se do caso de polícia ocorrido em julho de 2005 pelas trilhas da mentira. Passados oito anos, virou líder da bancada do PT na Câmara. E continua mentindo, comprova o artigo de Ricardo Noblat.
Ele jura que o partido não tem nada a ver com a abjeção oficialmente proposta pelo petista piauiense Nazareno Fonteles e aprovada às pressas por uma Comissão de Constituição e Justiça cuja composição agride a Constituição e debocha da Justiça. Ao lado do futuro presidiário João Paulo Cunha, segue alojado nessa comissão o irmão eleito pelo PT paulista. Condenado no julgamento do mensalão por corrupção ativa e formação de quadrilha, José Genoino continua liberado para atacar a imprensa independente e desafiar o STF.
A solidez dos laços que unem José Genoino e José Guimarães avisa que um não consegue viver longe do outro. Simples: há lugar para os dois no presídio de Tremembé.