segunda-feira, 1 de julho de 2013

HETERODOXIA É A SOLUÇÃO?

Políticos de todos partidos perderam, e as alternativas heterodoxas estão em alta. Qualquer heterodoxia… De Skaf em SP a Freixo no Rio. Estivesse vivo o Macaco Tião…
Reinaldo Azevedo - VEJA
Eu ainda não vi movimentos de ódio e repulsa à política — por mais que a política possa ser odiosa, e muitos políticos, repulsivos — resultar em boa coisa. Pode sempre surgir no horizonte uma solução heterodoxa, que acaba dando em zerda — como Fernando Collor, por exemplo — ou numa saída francamente reacionária. Seria, por exemplo, o caso de Lula. Tomara, então, que o Brasil fuja dessa escrita.
Não tenho nenhuma informação de bastidor, zero, nada mesmo! Só opero que a lógica do processo. A aprovação de Dilma despencou. É provável que o mesmo tenha acontecido com o prefeito Fernando Haddad (PT) e com o governador Geraldo Alckmin (PSDB). Se houve pesquisa no Rio, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes também devem ter despencado.
“Ah, esse é um recado para os políticos”, se diz unanimemente. Tá bom! Acredito! Mas qual é o recado mesmo? “Então não faltam motivos?” Nem me digam! Às pencas! Mas qual é?
Todos os políticos ditos “tradicionais” — um não tradicional sai plantando bananeira? — devem ter sofrido. Alguns figurões petistas tendem a perder mais porque sempre se apresentam como muito sabidos e donos de todas as respostas, mas a perda é generalizada.
Soluções heterodoxas – SP
De novo, sem ter dado nenhum, antevejo algumas situações que me parecem lógicas. Alckmin deve ter perdido pontos na disputa pela reeleição em São Paulo. E Paulo Skaf — que já foi, imaginem, do PSB e hoje está no PMDB do “supernovo” Michel Temer — deve ter crescido. Por quê? Porque lustra o discurso contra a política tradicional…
Com efeito, ele é tão heterodoxo que, empresário endinheirado, presidente da Fiesp, já se filiou a um partido de esquerda para disputar o governo de São Paulo. Aí migrou para o PMDB. Como é um homem inovador, usou a sua condição de presidente da federação para fazer propaganda do Senai e do Sesi, entidades que, por mais que se tente negar, manipulam dinheiro público. Vale dizer: o “novo” Skaf usa a Fiesp para fazer a mais velha das políticas: usar em proveito próprio — no caso, político — uma entidade que é coletiva (Fiesp) e outras que lidam com dinheiro público, a exemplo de todo o chamado “Sistema S”.
Digamos que isso venha a dar certo: é o novo?
Soluções heterodoxas – Rio
E no Rio? As coisas estão se complicando, não é? É claro que a situação começou a ficar difícil para Pezão, o vice-governador que deve concorrer ao governo do estado, tentando substituir Cabral. A continuar esse malaise… O senador Lindbergh Farias, do PT, já andou concedendo algumas entrevistas falando, ora vejam!, contra a política tradicional, especulando sobre a crise de representatividades etc. e tal. Ex-prefeito de Nova Iguaçu, o homem está sendo processado pelo Supremo Tribunal Federal. Será ele o antipolítico?
E há o queridinho dos socialistas (!!!) do Leblon, de Ipanema e de Copacabana — com o apoio de pensadores como Chico Buarque, Caetano Veloso e Wagner Moura: refiro-me, obviamente, a Marcelo Freixo, do PSOL. Disputando o governo do estado ou a Prefeitura em 2016 — tudo o mais constante na inconstância, claro! —, tende a ganhar espaço. A julgar pela atuação do PSOL nas universidades e nos sindicatos, dá para ter um ideia de quão inovadora seria uma gestão do partido na cidade ou no estado do Rio. Que os cariocas (e fluminenses), tão perto do Cristo, se mantenham longe da tentação…
Políticos de todos os grandes partidos perderam — menos Lula, já expliquei por que em outro post. Os tempos andam favoráveis a heterodoxias. Não fosse assim, Marina Silva não apareceria como a segunda colocada nos quatro cenários do Datafolha. Em um deles, divide essa segunda colocação com Joaquim Barbosa, na margem de erro: 14% para ela e 13% para ele. Ódio à política!
Estivesse vivo o Macaco Tião (morreu em 1996) e fosse a cédula ainda de papel, vocês veriam só…

O ZAGUEIRÃO NA MARCA DO PÊNALTI III

Dilma e o ketchup
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - O Estado de S.Paulo
Quando um fenômeno sem precedentes ocorre, faltam parâmetros para analisá-lo. As fórmulas gastas e os chavões não servem. Para entender o que acontece com a popularidade da presidente Dilma Rousseff é preciso combinar a ciência política com a física teórica. É exótico, mas o fato em análise também é.
Desde que se começou a sondar regularmente a opinião pública sobre o desempenho dos presidentes brasileiros, após a ditadura, nunca houve uma queda como a de Dilma. Uns governantes chegaram bem mais baixo, outros perderam mais pontos, mas ninguém caiu tão rapidamente quanto a presidente caiu em três semanas.
Dilma perde dois pontos de sua popularidade por dia, em média, desde o começo de junho. É três vezes mais rápido do que a maior perda de qualquer outro presidente desde o general Figueiredo. Colocada num gráfico (http://blog.estadaodados.com/aqueda), a curva de popularidade de Dilma vira uma queda livre, tão vertical que parece que a tinta escorreu. Não é erro.
É uma avalanche. Começou aparentemente do nada e virou um cataclismo. Na física, esses eventos inesperados de proporções gigantescas são associados ao que se chama de estado crítico: um intenso acúmulo de tensões que acabam liberadas de uma vez só.
É um fenômeno tão ubíquo que ocorre tanto na crosta terrestre (os terremotos) quanto nas garrafas de ketchup. Está presente em todos os lugares, mas é impossível de prever. Ninguém sabe quantos tapas pode dar no fundo da garrafa antes de ela despejar uma dose indesejada de ketchup no sanduíche. Quando se percebe, é tarde demais. Foi o que aconteceu com a popularidade de Dilma.
Havia estresse acumulado em várias camadas da sociedade brasileira, numa trama propícia ao deslizamento. É a inflação corroendo o poder de compra dos emergentes. É a insatisfação crescente de quem viu os de cima e os de baixo subirem enquanto ele camela no mesmo lugar. É o ônibus que não anda, a escola que não ensina, o hospital que não cura. Os protestos dos filhos da classe média foram apenas o último tapa no fundo da garrafa.
Quem viajou para o exterior no fim de maio e voltou hoje terá retornado a um País diferente do que deixou. E não são só os manifestantes bloqueando o caminho do aeroporto. O Brasil rompeu um ponto crítico. O que parecia um sólido apoio popular derreteu, o que era líquido e certo evaporou.
Uma avalanche, um terremoto, um grande incêndio, uma revolução são fruto de uma sequência de fatos aleatórios que acumula cada vez mais tensão até chegar ao estado crítico. Nesse ponto, um simples grão de areia é capaz de fazer desmoronar uma montanha. É a proverbial gota d'água que transborda e rompe o dique.
Tão mais raro é o fenômeno, maior ele é. Uma avalanche como a que atingiu Dilma só se explica pelo acúmulo por décadas de tensões históricas que não encontram mais na política a sua válvula de escape. Os mecanismos de representação ficaram insuficientes para dissipar o estresse e resolver os conflitos.
Com ou sem razão, Dilma personificou a crise. Estava bem na frente quando tudo deslizou. Acabou servindo de para-choque. Mesmo se a presidente propõe algo que tem o apoio de mais de dois terços dos brasileiros - como o plebiscito e a Constituinte para reformar a política -, isso não melhora a sua imagem.
A consequência imediata é que o drive eleitoral mudou. O desejo de continuidade virou desejo de mudança. Os 25% de simpatia que o PT sustenta apesar da crise possibilitam sonhar com um lugar na reta final de 2014, mas são insuficientes para a vitória. Aumenta a pressão para Lula sair da história para voltar à vida.
Na oposição, o cenário passa a ser de briga entre os candidatos pela outra vaga, já que o segundo turno parece garantido. Tudo parece certo, até a próxima avalanche reescrever a história.

A DEMOCRACIA NAS REDES SOCIAIS

Lei não dá voz à democracia nas redes
Abaixo-assinados digitais pressionam governos, mas não são válidos para projetos de iniciativa popular
O Globo

Site coletou 1,6 milhão de assinaturas pedindo o afastamento de Renan Calheiros
Foto: Givaldo Barbosa
Site coletou 1,6 milhão de assinaturas pedindo o afastamento de Renan Calheiros - Givaldo Barbosa
RIO — É consenso entre especialistas que a internet teve papel fundamental na mobilização dos protestos que levaram milhões de pessoas às ruas nas últimas semanas. Agora, resta a dúvida: as ferramentas virtuais também podem servir para o exercício da democracia direta? O Brasil é o país com o maior número de usuários do portal de petições on-line Avaaz.org — dos 24 milhões no mundo, 4,5 milhões são brasileiros —, mas o último grande abaixo-assinado realizado pelo site, que reuniu 1,6 milhão de assinaturas contra a permanência de Renan Calheiros (PMDB-AL) na presidência do Senado, não surtiu efeito prático. Pela legislação atual, nem mesmo para a proposição de projetos de lei de iniciativa popular as coletas on-line têm valor.
— Muitas reivindicações foram formuladas e estamos num impasse: o que fazer agora? A internet pode ajudar a superar esse entrave e a estruturar de maneira mais concreta as reivindicações, assim como formalizá-las em abaixo-assinados. O grande desafio é, depois de fazer tanto barulho, transformar o movimento em falas claras e concretas para que a política tenha que responder às demandas — afirma Rolf Rauschenbach, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas da Universidade de São Paulo.
Nos EUA, petições on-line
Nos EUA, a Casa Branca mantém a página “We the people”, criada para que qualquer cidadão americano com mais de 13 anos possa criar petições. Se uma delas alcançar 25 mil assinaturas, é encaminhada para avaliação pelos órgãos da administração federal. A possibilidade de participação é tão ampla que chega a criar situações inusitadas. Em janeiro, o governo teve que ir a público para rejeitar a proposta de construção de uma Estrela da Morte — armamento do Império Galático na série “Star Wars” — por causa do custo, estimado em US$ 850 quatrilhões.
No Brasil, a Constituição garante aos cidadãos a possibilidade de apresentar projetos de lei de iniciativa popular, mas eles devem ser subscritos por, no mínimo, 1% do eleitorado nacional, o que representa cerca de 1,4 milhão de pessoas. Além disso, a coleta de assinaturas digitais não tem validade legal. Desde que a Carta Magna foi promulgada em 1988, apenas cinco propostas foram formuladas desta maneira, sendo que quatro se tornaram leis, o que é considerado pouco em comparação com outros países que possuem ferramentas similares.
— É urgente mudar a legislação para que seja possível aos cidadãos participar mais ativamente da vida política — diz Nelson Roque, um dos responsáveis pelo portal Petição Pública Brasil.
O coordenador de campanhas da Avaaz.org, Pedro Abramovay, concorda que a mobilização virtual deveria ter validade legal, mas, em sua opinião, essa não é a questão principal. Os abaixo-assinados virtuais prestam o papel de pressionar os poderes instituídos por mudanças, mas faltam mecanismos legais para que a população possa fazer valer a sua vontade.
O deputado federal Felipe Maia (DEM-RN) é autor de uma proposta apensada ao projeto de lei 6.928/2002, que cria o estatuto da democracia participativa. O texto está aguardando votação na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara para seguir para o plenário. Caso sejam aprovadas, as novas regras permitirão a coleta de assinaturas para projetos de iniciativa popular por meio da internet.
— A população está mostrando que quer participar e esse projeto vem ao encontro do que está acontecendo nas ruas. A internet é ferramenta fundamental para a democracia — afirma.
Outro projeto em tramitação no Congresso é o do Marco Civil na internet. Para o deputado federal Alessandro Molon (PT-RJ), a aprovação do texto é “decisiva” para que as manifestações organizadas pelas redes sociais continuem a acontecer.
— A internet serve como elemento de mobilização e pressão política, mas ainda não está regulamentada. Isso não faz sentido — diz o deputado.
Segurança é necessária
O diretor de estratégia da Agência Frog, Roberto Cassano, destaca o papel do ciberespaço para a discussão e elaboração de pautas de reivindicações concretas. No rescaldo das manifestações que tomaram as ruas das principais cidades do país, a web oferece ferramentas que podem contribuir para o aprofundamento dos debates. A pluralidade, própria da internet, pode levar à pulverização, mas fóruns em redes sociais e sites de votação ajudam na consolidação de demandas.
Porém, existem certos limites que devem ser considerados no uso da internet para a definição de pautas e políticas públicas. No caso da coleta de assinaturas, é preciso criar mecanismos que garantam a segurança do processo, seja por certificação digital, login ou outro tipo de controle. O presidente da OAB-RJ, Felipe Santa Cruz, lembra que boa parte da população brasileira ainda está offline.
— É importante lembrar que grande parcela da população não acessa a rede. Não pode virar uma ditadura de quem está on-line — afirma.

CADÊ OS POLÍTICOS NA FESTA DO MARACANÃ?

O sumiço dos poderosos poltrões tornou ainda mais animada a festa no Maracanã
Augusto Nunes - VEJA
Foi um grande domingo. Dispensados de vaiar os farsantes foragidos, livres de discurseiras triunfalistas que tentaram transformar campeonato de futebol em instrumento eleitoreiro, 80 mil torcedores aplaudiram não o triunfo da pátria de chuteiras, mas uma bonita vitória da seleção brasileira sobre a Espanha campeã do mundo. Eles festejaram simultaneamente a conquista da Copa das Confederações e o sumiço dos embusteiros que, antes da revolta da rua, estariam sorrindo na tribuna de honra.
Ao cantar o Hino Nacional à capela, e várias vezes, a multidão fez mais do que mostrar que o Brasil não foi nem será privatizado pela seita lulopetista. Também deixou claro que enfim aprendeu que a alegria e a indignação já não são incompatíveis. Neste inverno, o viveiro de conformados descobriu que o grito de gol pode conviver amistosamente com o berro coletivo que exige cadeia para os que enterraram 1,2 bilhão de reais na reforma do estádio. Foi por isso que Lula, Dilma Rousseff, Sérgio Cabral e Eduardo Paes ficaram longe do Maracanã.
Em julho de 2010, assim que terminou a Copa da África do Sul, um jornalista perguntou a Jerôme Walcke como andavam os preparativos para a Copa do Brasil. Falta quase tudo, informou o secretário-geral da Fifa. Ofendido pela constatação, o ainda presidente Lula revidou com o carrinho por trás descrito no post republicado na seção Vale Reprise.
“Já começam aqueles a dizer: ‘Cadê os estádios brasileiros, cadê os aeroportos brasileiros, cadê os corredores de trem brasileiros, cadê os metrôs brasileiros?’” , esbravejou o palanque ambulante de passagem pela África. “Como se nós fôssemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas e não soubéssemos definir as nossas prioridades”. Quem trata os brasileiros como idiotas é o presidente da República, retifiquei.
Tratava, corrijo-me agora. Desde o começo das manifestações de protesto, o gênio da raça anda bem mais cuidadoso. Logo estará fingindo que nem sabe direito o que a Fifa faz. Poderosos poltrões sempre ficam afônicos quando a multidão alforriada ergue a voz.

JUDAS HIPÓCRITA?

‘Feliz é o povo que vai às ruas querendo mais’, diz Lula ao elogiar atuação de Dilma diante dos protestos
Na África, ex-presidente garante que manifestações são consequência do que ‘foi feito nos últimos 10 anos’
O Globo
O ex-presidente Lula faz discurso em evento sobre segurança alimentar na África Foto: Divulgação / Instituto Lula
O ex-presidente Lula faz discurso em evento sobre segurança alimentar na ÁfricaDivulgação / Instituto Lula
SÃO PAULO - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou neste domingo o comportamento de sua sucessora, Dilma Rousseff, diante das manifestações que tomaram as ruas do país nas últimas semanas. Para o petista, os protestos são consequência do que foi feito nos últimos 10 anos e que “feliz é o pais que tem um povo com liberdade de se manifestar e ainda mais feliz é um pais que tem um povo que vai às ruas querendo mais”.
— A presidenta Dilma tem tido um comportamento extraordinário. Em nenhum momento fez qualquer crítica aos manifestantes, a não ser a um outro grupo menor que de vez em quando quebra alguma coisa. Ela tem sido solidária àqueles que pacificamente vão às ruas reivindicar melhores condições de tudo que o povo tem direito —disse o ex-presidente, durante discurso em evento sobre segurança alimentar realizado pela União Africana, pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e pelo Instituto Lula, em Adis Abeba, capital da Etiópia.
Para Lula, o povo que se manifesta quer "mais participação e melhores serviços públicos" como consequência da mudanças que os governos dele e de Dilma implantaram no país.
— Isso é resultado do que foi feito nesses 10 anos.
O ex-presidente classificou o momento como “importante” e disse que numa democracia a sociedade deve estar em movimento e não em silêncio.
— Feliz é o pais que tem um povo que tem liberdade de se manifestar. E mais feliz ainda é um pais que tem um povo que vai as ruas querendo mais.
Na avaliação de Lula, todas as reivindicações são legítimas.
— As pessoas querem mais no Brasil: melhor transporte, melhor saúde, mais salário, querem questionar o custo da Copa do Mundo. Acho que isso é saudável em um pais que vive só pouco mais de 20 e poucos anos de democracia contínua.

"VOLTA LULA?" SÓ PODE SER BRINCADEIRA!

Líderes do PT evitam endossar o 'Volta, Lula'
FSP
Petistas ouvidos pela Folha dizem que a queda nas intenções de voto para 2014 da presidente Dilma Rousseff, revelada ontem pelo Datafolha, ainda que coloquem o partido em alerta, despertaram um movimento de "solidariedade" à presidente.
Segundo a pesquisa, realizada nos dias 27 e 28 de junho, sua taxa de intenção de votos caiu até 21 pontos percentuais. Embora ainda lidere a disputa de 2014, a queda indica que hoje ela teria de enfrentar um segundo turno.
Seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, se mostrou mais resiliente à insatisfação geral dos eleitores. Segundo governistas, isso poderia legitimar uma movimentação interna, no PT, pela volta do ex-presidente como candidato em 2014.
O deputado José Guimarães (CE), líder do PT na Câmara, afirma que seria "muito cômodo" endossar esse discurso. "Não imagino que isso irá prosperar. Há um sentimento de muita solidariedade com a presidente."
Para o líder do PT no Senado, Wellington Dias (PI), o alvo de insatisfação principal são os chefes dos Executivos. "O povo quer mudança, então quem paga é o governo", afirma.

O ZAGUEIRÃO NA MARCA DO PÊNALTI II

Com aprovação menor, aliados esperam mais diálogo com Dilma
Aumentou na base percepção de que Lula pode voltar em 2014
Júnia Gama - O Globo

O senador Blairo Maggi (PR-MT)
Foto: Pedro França / Agência Senado
O senador Blairo Maggi (PR-MT)Pedro França / Agência Senado
BRASÍLIA - A queda na popularidade da presidente Dilma Rousseff, registrada nas últimas pesquisas, criou em líderes da base a expectativa de que o Planalto passe a ouvir mais as vozes dos parlamentares. Desde o início do governo, as queixas da falta de diálogo de Dilma com aliados só crescem. Com a queda na aprovação da presidente, aumentou na base a percepção de que é mais forte a possibilidade da volta do ex-presidente Lula como candidato em 2014.
O senador Blairo Maggi (PR-MT), um dos aliados que mais vezes foram recebidos no Planalto, afirmou que, nas últimas semanas, têm sido recorrentes entre os parlamentares da base os comentários a respeito da volta de Lula. Segundo o senador, é tido como senso comum que Dilma ignorava o Congresso porque baseava seu governo no respaldo popular que tinha.
— Há grande possibilidade de Lula voltar, não vejo impedimento para isso, nem técnico, nem político. Para ser candidato, tem de estar viável. Ouvi de muitos dos que têm resistência a Dilma, e que têm vontade de deixar o barco, que, se Lula voltar, estarão dentro novamente. Não dá para o governo ficar mandando Medidas Provisórias sem conversar, nem para ficar esperando 60 dias para falar com a ministra Ideli (Salvatti, de Relações Institucionais) — disse o senador.
Autoridades do governo afirmam que a combinação da queda da popularidade de Dilma com o fato de Lula ter sido bem avaliado nas pesquisas deve fortalecer o movimento “Volta, Lula”.
Principal partido da base, o PMDB também faz cobranças em relação à falta de diálogo do governo com o Congresso, e aposta numa melhora da relação a partir da crise de popularidade. Segundo uma liderança da legenda, o Congresso esperava uma oportunidade como esta.
— Estava todo mundo torcendo e esperando por esse momento de queda da popularidade. Agora, a presidente fica mais dependente do Congresso, o governo terá que se abrir mais às negociações legislativas. Se ela continuar com a falta de diálogo até o ano que vem, não sobrará ninguém ao lado dela — comentou, reservadamente, um cacique do PMDB.
Lideranças do partido ressaltam que a presidente deu os primeiros sinais de que poderá passar a consultar a base. Mas ainda se mostram céticas quanto à reação de Dilma, e preferem aguardar para ver se ela manterá a rotina de reuniões com os aliados. Eunício Oliveira (PMDB-CE), líder do partido no Senado, afirmou que a preferência por Lula dentro do PT é notória, mas diz que seu partido ainda irá esperar o desenvolvimento dos fatos para se posicionar:
— Esses dias, ela não tem feito outra coisa a não ser conversar com a base. É natural que um momento de crise sirva para promover essas mudanças. Esse momento de ebulição faz com que todos promovam autocrítica. Se a eleição fosse daqui a um mês, a preocupação seria grande. A maioria no PT prefere o Lula, mas nós, do PMDB, não vamos ser oportunistas neste momento. Temos de esperar para ver que respostas serão dadas pelo governo.
Eduardo Cunha (PMDB-RJ), líder do partido na Câmara, ressaltou que a primeira resposta da presidente Dilma às manifestações populares, a proposta de um plebiscito, não foi adequada.
— A presidente deu um sinal de que quer começar a ouvir a base. Vamos ver se isso será uma prática quando a crise passar. Mas plebiscito, a bancada do PMDB na Câmara não vai aceitar agora. É um custo elevadíssimo e não vai valer para 2014 — afirmou o deputado, completando que ainda é cedo para avaliar a queda de popularidade.
O líder do partido do presidenciável Eduardo Campos, senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), alerta que, se o governo tivesse dialogado desde o início, poderia ter evitado problemas:
— Há uma queixa no Congresso com a falta de diálogo, mas o governo se sustentava muito nos índices de aprovação. Pode ser que agora, encontre maiores dificuldades para lidar com algumas forças políticas — disse.

O ZAGUEIRÃO NA MARCA DO PÊNALTI

Dilma apressa plebiscito para conter crise
Após queda na popularidade, presidente prioriza aprovação de consulta pública e reabre agenda com empresariado
Ministros se reúnem hoje para turbinar vitrines do governo; pressão por trocas na Esplanada aumenta
VALDO CRUZ/FLÁVIA FOREQUE - FSP
Vivendo seu pior momento à frente do Palácio do Planalto, com queda de popularidade e onda de protestos, a presidente Dilma Rousseff definiu com sua equipe estratégia de reação que prevê priorizar a aprovação da proposta de plebiscito sobre reforma política como uma das "portas de saída" para a atual crise.
Ela vai ainda intensificar a interlocução com o empresariado, com quem programa reuniões nesta semana, para combater o clima de pessimismo na área econômica.
Dilma cobrará também ações para mostrar que o governo "não está parado" em reunião ministerial hoje.
Na linha de agenda positiva, a presidente receberá hoje a seleção brasileira --ela não foi à final da Copa das Confederações temendo vaia.
"[O objetivo da reunião é] também fazer recomendações de como se conduzir [as ações do governo]. Quer dizer, não deixar os projetos pararem, todos saberem de que forma estão sendo encaminhadas as reivindicações e também garantir que não haja paralisia ou retrocesso dos programas sociais que estamos tocando", afirmou Paulo Bernardo (Comunicações), um dos oito ministros que estiveram ontem com Dilma.
Está nos planos acelerar medidas previstas nos cinco "pactos" propostos a Estados e municípios como resposta às manifestações de rua. No encontro com ministros, Dilma também enfatizará que o momento econômico exige responsabilidade e equilíbrio fiscal e pedirá contenção de despesas nos ministérios.
Dilma passou o fim de semana em reuniões no Palácio da Alvorada analisando o tombo em sua popularidade registrado pelo Datafolha.
Ao sair da reunião com Dilma, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) disse que a presidente está "sensível ao que vem das ruas". "O governo federal busca reagir, construir e absorver as propostas e dar alternativas para a população."
A avaliação do governo é que a própria pesquisa indicou "uma grande porta de saída" ao mostrar que 68% dos brasileiros aprovam a ideia do plebiscito --iniciativa do Planalto.
Dilma e seus ministros começaram a redigir a mensagem propondo a consulta que deve ser enviada ao Congresso amanhã --quando deverá receber líderes da oposição.
A equipe de Dilma classifica como dado "mais preocupante" o fato de a crise atual ter atingido o governo num momento já de queda na aprovação por causa do desempenho da economia.
Segundo a Folha apurou, isso aumentou a pressão interna por ajuste econômico --inclusive com troca de nomes na área e não só na articulação política do governo.
Uma ala defende a saída antecipada dos ministros que serão candidatos em 2014.

PLANO REAL

Plano Real faz 19 anos com tomate 1.716% mais caro
Preço das tarifas de ônibus urbano foi outro grande vilão, com alta de 684%; em São Paulo, valor subiu de R$ 0,50 em 1994 para R$ 3 atualmente
Alana Martins e Juliana Karpinski - OESP
SÃO PAULO - Famoso por ter conquistado a tão sonhada estabilização da economia brasileira, o Plano Real completa 19 anos nesta segunda-feira, dia 1. Criado em 1994 pela equipe do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, durante o governo Itamar Franco, a nova moeda conseguiu o que vários outros planos econômicos não alcançaram: debelar a hiperinflação.
Segundo o economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Leonardo Weller, especialista em História Econômica, o êxito do Real se deve a três questões principais: liberalização comercial, câmbio estável e desindexação.
A liberalização comercial foi basicamente uma grande abertura do país ao capital estrangeiro. A medida veio acompanhada de uma taxa de câmbio estável, aumentou a concorrência aos produtos brasileiros e pressionou os preços para baixo.
Já a desindexação da economia consistiu em reduzir mecanismos de repasse automático da inflação, como os gatilhos salariais, que não permitiam que os preços se estabilizassem.
A inflação chegou a 916,46% no ano de 1994 e foi estabilizada em níveis baixos nos anos seguintes, mas não deixou de existir.
Entre 1994 e 2013, a taxa acumulada, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 332,33%. Alguns produtos, como o tomate, que se causou polêmica nas listas de compras no início deste ano, está no topo da lista dos produtos que mais subiram de preço: segundo o IBGE, o aumento acumulado é de 1.716,2% nos últimos 19 anos.
O preço das tarifas de ônibus urbano foi outro grande vilão, com alta de 684%. Em São Paulo, a tarifa subiu de R$ 0,50 em 1994 para R$ 3 atualmente.
Nem um dos componentes principais da dieta dos brasileiros subiu menos que a inflação. O feijão-carioca teve variação de 785,9% desde a criação do plano Real. Neste período, o salário mínimo subiu de R$ 64,79 para R$ 678, uma elevação de 1046,45%. Para Weller, mesmo com as recentes altas da inflação, o país não corre mais o risco de passar por uma nova hiperinflação. Isso porque a economia do País está mais inserida no conceito de economia de mercado.
Entretanto, o economista assinala que os protestos que têm tomado ruas recentemente são o primeiro sintoma de perda da "ilusão monetária".
"As pessoas perceberam que o ganho do salário nominal (sem descontar a inflação) nos últimos anos está sendo corroído pela inflação. Houve uma queda no salário real. E isso foi percebido rapidamente", afirma.

O "ENFORCADOR DE RIGA" VIVEU NO BRASIL

Abandonado numa mala no Uruguai: o fim do colaborador nazista que criou o pedalinho da Lagoa
Acusado pela morte de mais de 30 mil judeus na Segunda Guerra Mundial, Herberts Cukurs chegou ao Brasil em 1946
Vitor Sion - OM

Herberts Cukurs não teve uma vida trivial. Herói nacional da Força Aérea da Letônia na juventude, foi ele quem criou, já mais velho, o pedalinho da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. O motivo da vinda do letão para o Brasil, porém, passa pela colaboração com o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial – ele foi acusado de ser responsável por mais de 30 mil mortes e ficou conhecido entre judeus como o "Enforcador de Riga".
O letão, que viveu no Brasil por quase 20 anos, nunca assumiu ter ordenado matar nenhum judeu, mas, em depoimentos à polícia brasileira, admitiu ter colaborado com a Alemanha nazista contra a União Soviética. É nesse momento de sua vida que ele teria assassinado milhares de pessoas
. Sua família também nega, até hoje, as acusações referentes às mortes durante a ocupação nazista da Letônia.Bruno Leal/Opera Mundi
Documento usado pelo aviador letão ao chegar no Brasil
Cukurs chegou ao Brasil em 4 de março de 1946, durante o Carnaval, a bordo do vapor “Cabo da Boa Esperança”. Antes, tinha conseguido visto na França com a justificativa de ser perseguido político. De fato, segundo o historiador Bruno Leal, Cukurs poderia ter problemas na URSS pela participação no período da guerra.
Enquanto esteve em território brasileiro, o letão morou em Niterói, Santos, Rio de Janeiro e São Paulo. Nunca ficou totalmente tranquilo, principalmente após a captura de Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS, em 11 de maio de 1960, na Argentina. A partir daí, Cukurs renovou anualmente o direito a portar armas no Brasil. Além disso, contou com proteção policial durante sua permanência na capital paulista.
Antes de embarcar para Montevidéu com Anton Kuenzle, identidade falsa do agente do Mossad (serviço secreto israelense) responsável pela armadilha que culminou em sua morte, Cukurs deixou com a esposa uma foto do “amigo” com quem iria fazer negócios no Uruguai. Se algo lhe acontecesse, avisou, seus familiares já saberiam quem procurar. A busca por melhores condições financeiras, porém, falou mais alto que a desconfiança e o medo.
Bruno Leal/Opera Mundi

Imagem do baú em que Herberts Cukurs foi encontrado no Uruguai

O letão morreu no Uruguai em 23 de fevereiro de 1965, assassinado por um grupo do Mossad que deixou o corpo dentro de um baú. O aviso sobre a morte foi passado a jornalistas que não levaram a história a sério, segundo um episódio da série de documentários “Caçadores de Nazistas”, veiculada no Brasil pelo canal National Geographic.

 Apenas em um segundo aviso dos agentes do Mossad, 11 dias após a morte de Cukurs, o corpo foi encontrado pela polícia uruguaia em 6 de março de 1965, já cheio de larvas.

Versões desencontradas
A vida e a morte de Cukurs permanecem cercadas de mistério. Entre as décadas de 1950 e 1970, quando o nazismo era um assunto comum na imprensa, informações controversas foram publicadas. Em dezembro de 1968, o jornal O Globo afirmou que Cukurs “transportava fugitivos nazistas para o interior do Brasil”. Até hoje, no entanto, não há nenhum indício que confirme essa história, até porque ele era um homem de poucos amigos no Brasil.
Outro boato relacionado ao letão diz respeito ao momento da morte. De acordo com a mesma reportagem do jornal do Rio de Janeiro, ele teria sido morto por nazistas que o consideravam um traidor. Segundo o autor do texto, Jack Anderson, ao saber que tentavam matá-lo, Cukurs negociou sua vida pela localização exata do famoso médico de Auschwitz Joseph Mengele (1911-1979).
Tal informação também é considerada “muito implausível” por Bruno Leal e, antes dele, por Gerald Posner e John Ware, que escreveram o livro Mengele – A História Completa, sobre a vida do médico, que morreu afogado no litoral de São Paulo.
A disseminação de informações equivocadas sobre a caça de nazistas na América do Sul não é exclusividade da imprensa. Um importante personagem do pós-guerra, o sobrevivente de campos de concentração Simon Wiesenthal (1908-2005), também trabalhou com imprecisões. Conhecido por ajudar os aliados após 1945 e criar sua própria agência de busca por criminosos de guerra, Wiesenthal divulgou relatos que, posteriormente, foram checados e negados por jornalistas e pesquisadores.
Bruno Leal/Opera Mundi




































Livro que conta os feitos de Cukurs como aviador foi republicado recentemente na Letônia
No caso de Mengele, Wiesenthal deu entrevistas que continham ao menos dois erros sobre o médico. O primeiro deles dizia que o nazista estava em Porto São Vicente, na região do Alto Paraná. No entanto, autoridades paraguaias responderam que tal localidade sequer existia. Antes disso, em novembro de 1968, Wiesenthal distribuiu à imprensa e aos órgãos policiais supostas fotos de Mengele nas ruas de Assunção. O fotografado, porém, não era o médico de Auschwitz.

Outro lado
A família de Cukurs mantém a versão de vida pacífica do aviador. Até 2011, um blog em defesa do patriarca destacava seus feitos como herói nacional no país europeu. Recentemente, um livro de 1934 foi republicado sobre sua trajetória na Força Aérea da Letônia.

Opera Mundi tentou contato com dois familiares, sem sucesso. Atualmente, segundo o historiador Bruno Leal, os filhos do letão deixaram de conceder entrevistas por não concordarem com reportagens que já foram publicadas. Um dos seus filhos, Herbert Cukurs Jr., disse ao já citado documentário Caçadores de Nazistas: “Estamos aguardando há 60 e poucos anos uma prova contra o meu pai”.

O CHINÊS E A MANGUAÇA

Pinga vermelha
Aguardente à base de sorgo e ícone da Revolução Comunista, Maotai torna-se símbolo de ostentação na China, com garrafas que chegam a custar R$ 47 mil
MARCELO NINIO - FSP
Exalado por centenas de destilarias locais, o odor inconfundível do Maotai, considerado o aguardente nacional da China, enche o ar da cidade que lhe dá o nome, na montanhosa província de Guizhou, sul do país.
É o cheiro do poder.
Dos tempos em que revolucionários do Exército Vermelho usavam a bebida para desinfetar ferimentos e levantar o moral, até o atual status de produto de luxo, o Maotai é a versão etílica das transformações pelas quais a China passou no último século.
Nenhuma marca chinesa é tão associada à história moderna do país e a suas contradições como esta bebida fermentada à base de sorgo.
Na histórica visita do ex-presidente dos EUA Richard Nixon à China de Mao Tse-tung, em 1972, banquetes regados a Maotai ajudaram a selar a aproximação entre os dois países.
Quatro décadas depois, a tradição foi mantida pelo presidente chinês, Xi Jinping, que em sua recente visita aos EUA ergueu um brinde ao colega Barack Obama.
A gigantesca destilaria estatal, que ocupa dois terços da área de Maotai, dá a dimensão que a bebida ocupa como monumento nacional. É quase uma cidade dentro da cidade, com jornal e canal de TV próprios, hotel para visitas ilustres e um time de futebol que está entre os melhores do país.
O prestígio e benefícios concedidos aos funcionários --entre eles seis garrafas anuais do precioso líquido--, tornam um emprego na fábrica alvo de cobiça.
O salário médio dos 20 mil funcionários, 8.000 yuans (R$ 2.800), é quatro vezes a média da população local.
Diante do prédio que abriga a administração da destilaria, há uma enorme estátua dourada do comandante revolucionário e ex-premiê Chou Enlai, com os dizeres: "pai do vinho nacional".
Registros históricos mostram que a bebida é produzida na região há cerca de 2.000 anos.
Suas credenciais revolucionárias foram conquistadas a partir de 1935, quando soldados do Exército Vermelho buscaram em Maotai um refúgio do cerco dos inimigos nacionalistas.
Mais tarde, Chou Enlai eternizaria a mística do aguardente ao dizer que o sucesso da retirada comunista, conhecida como a Grande Marcha, ocorreu em parte graças ao Maotai.
Após a revolução comunista, em homenagem a seu líder, o nome da cidade mudou de Moutai para Maotai.
MOEDA DE SUBORNO
A bebida virou símbolo de status e poder.
Nas listas anuais de produtos mais apreciadas pelos endinheirados, o Maotai disputa as primeiras colocações com marcas como Louis Vuitton e Rolex.
É um dos presentes mais apreciados pela elite política e uma das moedas correntes de suborno em transações de negócios que precisam de um empurrãozinho.
Não há banquete que se preze sem Maotai, nos quais dirigentes comunistas bajulam superiores com brindes em série e empresários fecham negócios virando num só gole inúmeros cálices do aguardente, um torpedo com 53% de teor alcoólico.
Os abstêmios sofrem: na etiqueta chinesa, recusar o brinde não é de bom tom.
O luxo não é para qualquer um. O choque de frugalidade imposto pela nova liderança comunista para conter os excessos da elite política até levou a uma queda recente nos preços, mas eles continuam astronômicos.
Uma garrafa de meio litro do Maotai original não sai por menos de 1.400 yuans (R$ 496). A mais cara, de 80 anos, chega a incríveis 290 mil yuans (R$ 47 mil).
A produção limitada e os preços elevados levaram à proliferação de falsificações e farta produção paralela em Maotai. "Faz bem para a alma e ajuda a circulação", diz o farmacêutico Zhan Xiaowen, 46, quarta geração de produtores da bebida.

CHINA

Avaliar as opções escolares na China é uma tarefa que tira o sono dos pais
Didi Kirsten Tatlow - IHT                                          
Na semana que vem, milhões de alunos do quinto ano de toda a China farão suas provas de fim de ano. E, com apenas mais um ano de ensino fundamental à sua frente, seus pais vão se esforçar para escolher uma nova escola para eles.
Para muitos pais chineses cosmopolitas, as deliberações torturantes são mais ou menos as seguintes: devemos dar a nosso filho uma educação chinesa? Ou ocidental? Existe um meio termo?
"Tenho uma amiga que não conseguia dormir à noite por causa disso. Ela quase ficou louca", disse Ma, a mãe de um aluno da quinta série da Escola de Ensino Fundamental Fangcaodi, em Pequim, que meu filho também frequenta. "Não se permita ficar assim", ela me aconselhou.
Ma está perplexa com o desafio de escolher uma escola para seu filho de 11 anos de idade. "Estou muito preocupada com seus estudos futuros", disse ela. Ela levou o filho para os Estados Unidos em maio para visitar escolas, mas isso não rendeu uma decisão.
"Ele se sente norte-americano, mas seus amigos estão aqui. Ele quer ficar aqui. Eu sinto que a educação básica da China é muito boa, mas, mais tarde, quero que ele tenha espaço para explorar e criar, e não apenas aprender com livros ", disse Ma, que ofereceu apenas seu sobrenome para a reportagem.
Além disso, há a questão dos valores, o que a inclina na direção dos Estados Unidos.
"Acho que os valores e a moral tradicionais chineses são muito bons", disse ela. "Mas eles não existem mais. E ele precisa aprender a ser uma pessoa correta."
As preocupações dos pais aqui podem ser muito intensas, em parte porque talvez reflitam uma mentalidade muito rígida em relação a educar os filhos. Mas eles também falam de uma identidade cultural profundamente arraigada. Como a China cresce em influência, muitos aqui acreditam que seus filhos serão uma parte essencial do futuro globalizado. E como os pais em todos os lugares, eles querem o que é melhor para eles.
Alguns estão se inclinando para uma educação mais chinesa por causa da preocupação de que a língua é muito difícil. Se os filhos perderem esses anos de formação, nunca serão capazes de acompanhar.
"Acho que é difícil ter uma educação verdadeiramente bilíngue", disse Qiu Dong, mãe de um outro aluno da quinta série. "Eu acho que você tem que escolher uma língua."
Depois de anos nos Estados Unidos, ela e sua família estão de volta à China. Ela tentou uma escola internacional, uma escola bilíngue e, agora, uma chinesa para um de seus dois filhos, e acha que a escola chinesa funciona melhor a fim de garantir o futuro de seus filhos aqui, se for isso que eles quiserem um dia.
"Se você quer que seus filhos de fato aprendam a língua, então o ensino fundamental não é suficiente", disse Qiu, com base em suas próprias experiências de quando era criança. Ela tinha 15 anos quando partiu para os Estados Unidos com sua irmã de 10 anos de idade. Hoje, "a diferença é enorme", disse ela. Qiu é fluente em chinês, incluindo a língua escrita. Sua irmã, não.
"Você precisa do chinês clássico, saber como ele funciona, as formas e a estrutura da língua", disse ela. "Você precisa entender não só a língua, mas todo o contexto cultural. Você tem que saber como o sistema funciona."
Para ela, a resposta é outra escola de elite chinesa. Como muitos pais da Fangcaodi, ela espera que seu filho, Oliver, passe nas provas altamente competitivas para a Escola Secundária Nº 4, uma das mais bem conceituadas do país.
É tudo uma questão de equilíbrio entre fatores enormes e muitas vezes conflitantes --cultura, identidade e dinheiro--, disse Zhang Qiao, a mãe de Natalie, uma aluna do quinto ano, de pai alemão.
"A realidade é que nossos filhos estão vivendo em duas culturas", disse Zhang.
Ela decidiu pelo curso mais internacional da Escola Secundária Estatal Nº 80. As escolas chinesas estão cada vez mais oferecendo cursos internacionais, para os quais os alunos precisam de um passaporte estrangeiro para entrar e que oferecem um currículo de Bacharelado Internacional.
Para Zhang, ao contrário de Ma ou Qiu, o dinheiro é um problema, como é para muitos. Natalie passou algum tempo numa escola internacional em Pequim, mas o custo era paralisante. "Gastei toda a minha poupança!", Disse Zhang. "Não posso fazer isso."
As escolas internacionais na capital custam em torno de 230 mil renminbi, ou mais de US$ 37 mil dólares por ano, dependendo da idade da criança.
Outro ponto negativo para alguns pais chineses globalizados é a "bolha" de expatriados que eles veem nas escolas internacionais, que eles sentem que separa as crianças da "verdadeira" China. Alguns dizem que as crianças chinesas estão em desvantagem social, bem como linguística.
Zhang diz que as escolas estatais chinesas ensinam melhor o chinês e exigem dos alunos um respeito antiquado para com os mais velhos. Ela está feliz com isso. Sua filha se sente alemã, mas "temos que ensinar as crianças a aproveitar o melhor dos dois mundos", disse Zhang. "Esta é a próxima geração, e o mundo vai ser assim."
Muitos pais, como Zhang, preferem a ideia de cursos internacionais dentro das escolas chinesas. Mas há preocupações: esses lugares podem ser centros de reintegração que na verdade não são competentes no chinês nem no currículo ocidental. As escolas públicas são administradas com rigor pelas autoridades de educação do Partido Comunista e os pais têm pouca voz. Alguns temem que professores estrangeiros contratados por essas escolas, muitas vezes através de agências cujas finanças e decisões são obscuras, são contratados por salários muito baixos e podem ser inexperientes.
Não é de se admirar o fato de que alguns pais estão perdendo o sono por conta da escolha. Eles querem o pensamento crítico e a criatividade da educação ocidental, mas não querem as anuidades caras e a "bolha" das escolas internacionais; a imersão cultural, as habilidades linguísticas e matemáticas das escolas chinesas, mas não as longas horas e a competitividade que pode deixar as crianças esgotadas.
Eles querem que seus filhos tenham uma moral e sejam cidadãos globais, que sejam chineses e ocidentais ao mesmo tempo. Nenhuma escola parece oferecer tudo isso. E com tanta coisa em jogo em meio a esta mistura conflitante de valores, a escolha é de fato bem difícil para muitos.
Tradutor: Eloise De Vylder

ESPIONAGEM AMERICANA

Novo escândalo de espionagem coloca União Europeia contra EUA
Alemanha condena administração Obama: "Excede todo o imaginável", diz ministra
OM

As relações diplomáticas entre EUA e UE (União Europeia) foram estremecidas na noite deste sábado (29/06). Novos documentos vazados da NSA (sigla em inglês para Agência de Segurança Nacional) comprovam que Washington grampeou atividades do prédio da UE em Nova York e em Bruxelas, sede da entidade.
 O presidente do Parlamento europeu, Martin Schulz, declarou neste domingo (30) que a espionagem de diplomatas e instituições europeias pelo programa norte-americano Prism - revelada pela revista alemã Der Spiegel - "é um grande escândalo", que pode ter impacto nas relações entre os tradicionais aliados ocidentais. A União Europeia declarou oficialmente que aguarda explicações da administração Obama.
Agência Efe

O alemão Martin Schulz quer imediata resposta dos EUA em relação ao escândalo de espionagem
A ministra de Justiça da Alemanha, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, reiterou sua insatisfação com o suposto caso de espionagem. "Excede todo o imaginável que nossos amigos dos Estados Unidos olhem os europeus como inimigos", afirmou a ministra. Sabine disse ainda que o caso lembra o comportamento "entre inimigos" durante a Guerra Fria.
O deputado europeu Daniel Cohn-Bendit sugere à UE que rompa imediatamente as negociações sobre o tratado de livre comércio com os Estados Unidos, "até a obtenção de um acordo com Washington sobre a proteção de dados confidenciais".

Segundo a revista Der Spiegel, em um dia a NSA tem acesso, só na Alemanha, à cerca de 20 milhões de conversas telefônicas e 13 milhões de comunicações na internet.
A revista afirmou ainda que a NSA espiona as representações da UE e da ONU nos EUA, com microfones instalados nesses edifícios e através da rede de computadores interna conectada a Bruxelas. Com esse sistema, os serviços secretos dos Estados Unidos tiveram acesso a conteúdos de conversas confidenciais, e-mails e arquivos dos computadores da UE.
O novo escândalo gerou uma onda de indignação entre políticos alemães e europeus.

UNIÃO EUROPEIA

Croácia pode se tornar último país-membro da União Europeia
Alan Riley - IHT
Na segunda-feira, a Croácia se tornará o 28º país a se juntar à União Europeia, com sua adesão vista em Bruxelas como um triunfo do projeto europeu. Um país autoritário dividido por conflito, onde criminosos de guerra antes atuavam com impunidade, foi transformado. Apesar da crise do euro, o "efeito ímã" da União ainda é amplamente visto como tendo capacidade de mudar países indóceis em Estados que seguem as normas liberais europeias.
Entretanto, apesar de aceitar que a Croácia fez grandes avanços para superar a guerra e o autoritarismo, há fortes motivos para o ingresso do país ser visto como sendo prematuro. A ampla corrupção política e econômica persistem, e seus tribunais mostram com frequência uma postura excessivamente frouxa em relação ao devido processo. A maior ameaça, entretanto, é a fraqueza econômica do país, que pode tornar muito difícil para Zagreb sustentar uma agenda de reforma já em dificuldades.
O fato é que a UE pode estar prestes a repetir os erros da última rodada de admissões, colocando em risco as esperanças dos croatas de um futuro melhor, diminuindo as perspectivas de adesão de outros países dos Bálcãs e da Turquia, e até mesmo de estagnar os esforços de ampliação do bloco pela próxima década ou mais.
Quando a Bulgária e a Romênia ingressaram em 2007, a Comissão Europeia acreditava que ambos os países superariam as práticas corruptas do passado, que não haveria retrocesso. Mas assim que os dois países foram admitidos, Bruxelas perdeu a influência que tinha durante o processo de admissão. Os incentivos para cumprimento das obrigações da UE ruíram. A Transparência Internacional classifica a Bulgária com o 75º país mais problemático em seu Índice de Percepção de Corrupção. A Romênia fica em 66º, a Itália em 72º e a Grécia em 94º. A Croácia fica pouco à frente, em 62º.
A Comissão Europeia mantém que o processo de acesso aplicado à Croácia foi muito mais rigoroso do que os aplicados aos candidatos anteriores, com um foco muito maior na melhoria da qualidade do Judiciário e do estado de direito.
O forte apoio da UE ao Birô de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado da Croácia ajudou a agência a investigar autoridades proeminentes. Um ex-primeiro-ministro, Ivo Sanader, foi condenado em novembro por acusações de corrupção. Zagreb também entregou ex-autoridades populares e soldados ao Tribunal Penal Internacional em Haia.
Mas a Comissão Europeia, em março deste ano, ainda levantava preocupações em relação a questões como o baixo nível das penas legais nos casos de corrupção e a eficácia das medidas de Zagreb para lidar com o tráfico humano e o crime organizado. Mesmo o caso de corrupção envolvendo Sanader gerou dúvidas sobre o devido processo. O juiz Ivan Turudic pareceu rejeitar evidências e ser indulgente na retórica nacionalista para justificar a condenação. Sete meses depois da condenação, nenhuma decisão formal fundamentada foi apresentada.
Apesar dessas preocupações, Alemanha e Áustria, ambos com laços históricos e econômicos profundos com a Croácia, fizeram forte lobby por seu ingresso. Os defensores dentro do país, muitos deles jovens profissionais com muito em jogo na reforma, argumentam que o ingresso do país é vital para que ele supere seus problemas.
Apesar da Comissão Europeia se concentrar acertadamente na capacidade do país candidato em cumprir a lei da UE, uma falha chave do processo de acesso é dar muito pouca atenção à capacidade econômica geral do país de colher os frutos de ser membro pleno do mercado único, consequentemente permitindo ao país reformar a si mesmo.
No caso da Croácia, os muitos problemas econômicos do país são agravados pelo fato de estar sendo admitido em um momento em que a economia da zona do euro está particularmente frágil. A perspectiva de investimento estrangeiro direto substancial é um forte incentivo para qualquer país ingressar na UE. Mas a crise do euro provavelmente reduzirá substancialmente o investimento estrangeiro. Apesar de cerca de 14 bilhões de euros em financiamento pela UE estarem reservados para a Croácia entre 2014 e 2020, grande parte desses fundos exigem uma contraparte equivalente doméstica, dinheiro que dificilmente será obtido diante da fraca economia do país.
Não causa surpresa que a Croácia tenha apresentado um desempenho inferior ao da Grécia, Itália, Portugal e Espanha. Os monopólios estatais do país em grande parte permanecem inalterados e as barreiras burocráticas para pequenas empresas estrangulam o crescimento econômico. O desemprego se encontra em cerca de 20% e o desemprego entre os jovens é de mais de 40%. Em dezembro, a Standard & Poor's rebaixou a dívida soberana croata ao status de "junk" (investimento especulativo).
Os problemas econômicos do país, somados ao desencanto político renovado, apresentam vários riscos potenciais para a União. Um êxodo de jovens à procura de emprego, exercendo seus direitos recém-adquiridos de liberdade de movimento para competir por empregos escassos, pode provocar uma reação negativa populista em outros países europeus, cansados de imigrantes indesejados. Além disso, se os melhores e mais brilhantes partirem, a Croácia terá um eleitorado mais fraco para o qual fazer campanha e executar reformas. A UE poderia ficar potencialmente com um país membro permanentemente disfuncional em seu flanco leste.
De modo muito real, o sucesso ou o fracasso agora está nas mãos do povo croata. Se aproveitar as oportunidades que fluem com o ingresso na UE, ele poderá transformar seu país. Se não, então a Croácia pode muito bem se tornar o último novo país membro da União Europeia.
(Alan Riley é professor de lei de energia da The City Law School, da City University London)
Tradutor: George El Khouri Andolfato

A BUSCA PELO AVIÃO FRANCÊS DESAPARECIDO

Numa remota ilha francesa, uma busca obsessiva por avião pioneiro
Scott Sayare - NYT                                                   
Dois aviadores franceses haviam conseguido, ao que parece, realizar o primeiro voo praticamente inimaginável entre Paris e Nova York, e em 10 de maio de 1927, jornais de toda a França proclamaram "o triunfo das asas francesas" e a " idade de ouro da aviação francesa".
"Nungesser e Coli conseguiram", declarou La Presse, indo tão longe a ponto de detalhar o seu desembarque do mar em New York Harbor e os "gritos que se erguiam dos navios que os cercavam."
Esses primeiros relatos precipitados foram provados falsos. Charles Nungesser, um aristocrata audacioso e ás da pilotagem francesa, e François Coli, um marinheiro caolho e ex-soldado de infantaria, não tinham chegado a Nova York. Seu desajeitado biplano monomotor, L'Oiseau Blanc, o Pássaro Branco, nunca foi encontrado.
Eles desapareceram "como fantasmas da meia-noite", escreveu Charles Lindbergh, o norte-americano que alguns dias depois voou de Nova York a Paris. Acreditava-se que os franceses haviam caído no Canal da Mancha, ou talvez no Atlântico, ou em algum lugar entre Newfoundland e Maine.
Seu desaparecimento, considerado um dos grandes mistérios da aviação, inspirou décadas de formulação de hipóteses.
Um número cada vez maior de provas, entretanto, sugere que os aviadores colidiram com a minúscula Saint-Pierre, uma elevação escarpada de rochas cobertas de líquen, casas quadradas de cores vivas a cerca de 16 quilômetros de Newfoundland. É a teoria defendida por Bernard Decré, um obsessivo e irritável francês septuagenário que dedicou os últimos cinco anos a uma busca em tempo integral pelo Oiseau Blanc.
"Eu sempre me sentava no fundo da sala de aula, desenhando navios e aviões – isso não mudou, na verdade", disse Decré, 73 e aposentado, que de fato continua desenhando e espera "reajustar a história da aviação".
"Nós só queremos reconhecer que eles realizaram uma travessia fantástica", disse ele. Um voo sem paradas de Paris a Newfoundland teria sido o primeiro entre a Europa continental e a América do Norte, e a primeira travessia do Atlântico do leste para o oeste.
Às 5h17 de 8 de maio de 1927, carregado com 3.800 litros de combustível – mal e mal o que a travessia de 5.790 quilômetros supostamente exigia – o Oiseau Blanc, feito de madeira e lona, atravessou lentamente a pista de grama em Le Bourget, próxima a Paris. Sentados lado a lado no cockpit aberto, os aviadores levavam consigo pouco mais do que peixe enlatado, bananas e rum, preocupados com o peso do avião; eles não tinham rádio, e o trem de pouso foi descartado logo após a decolagem.
Em Manhattan, milhares haviam se reunido para aguardar a chegada do avião, informaram os jornais. Um pouso na água havia sido planejado, ao lado da Estátua da Liberdade.
"Eles de fato precisavam do vento a favor durante todo o trajeto para conseguir chegar", diz Decré. "Mas esses caras eram apostadores."
Assim como Lindbergh, os dois aviadores competiam pelo Prêmio Orteig, uma recompensa de US$ 25 mil para o primeiro voo sem paradas de Nova York até Paris ou vice-versa.
Decré acredita que os aviadores franceses foram forçados fora de seu curso por tempestades acima de Newfoundland. Com pouco combustível depois de cerca de 35 horas de voo, os homens tentaram um fatídico pouso no mar de Saint-Pierre, defende ele, em meio a uma densa neblina no final da manhã.
Um marinheiro experiente – ele fundou o Tour de France à la Voile, uma grande regata a vela da França – e ex-executivo das comunicações, Decré começou sua pesquisa em 2007 depois de ler um relato do escritor Clive Cussler sobre sua própria busca pelo avião em Maine. Decré desde então vasculhou arquivos na França, Canadá e Washington e viajou várias vezes a Saint-Pierre, onde uma pequena equipe de técnicos varreu o fundo do mar em busca dos restos do Oiseau Blanc.
Ele encontrou registros de arquivo mostrando que 13 pessoas viram ou ouviram o avião em direção ao sul ao longo da costa leste da Newfoundland na manhã de 9 de maio, junto com pelo menos quatro moradores de Saint-Pierre. Um pescador local, que já morreu, costumava dizer que havia ouvido a colisão de um avião e os gritos de socorro, diz Decré. Moradores e marinheiros relataram destroços na área logo após o desaparecimento do Oiseau Blanc, e diz-se que outros pescadores descobriram destroços da aeronave ao longo dos anos.
A busca de Decré é a primeira a se concentrar em Saint-Pierre, que, apesar de sua localização, na verdade pertence à França. Esta é uma distinção de significativa importância durante a Proibição nos Estados Unidos, de 1920 a 1933, quando a ilha se tornou um grande entreposto para contrabandistas de álcool. Comerciantes de Montreal, por exemplo, podiam enviar legalmente bebidas para Saint-Pierre; lanchas então levavam o contrabando para o nordeste dos EUA.
Foi sugerido também que o Oiseau Blanc havia sido derrubado pela Guarda Costeira dos EUA, que teria confundido os aviadores franceses com contrabandistas.
Quer isso seja verdade ou não, a Guarda Costeira pode se mostrar essencial para encontrar o avião. Nos Arquivos Nacionais em Washington, Decré descobriu um telegrama da Guarda Costeira, de agosto de 1927, descrevendo o que pareciam ser destroços da asa de um biplano flutuando pela costa da Virgínia.
"Sugere-se que podem ser os destroços do avião de Nungesser Coli", diz o telegrama.
Esse avistamento estaria de acordo com uma colisão na costa de Saint-Pierre, calcula Decré. Ele suspeita que a Guarda Costeira retirou os destroços da água e que eles estão esquecidos num depósito em algum lugar.
"Temos certeza que eles têm um pedaço da asa", disse ele.
Apesar disso, Decré esteve em Saint-Pierre mais uma vez no mês passado, desta vez equipado com um poderoso magnetômetro e uma unidade de sonar multidirecional. (Com apoio das autoridades locais, do governo francês e especialmente da Safran, a companhia aeroespacial e de defesa, o orçamento de Decré este ano chegou a US$ 200 mil.) Entretanto, as três semanas de buscas em cerca de 55 metros de profundidade não deram em nada.
Ao contrário dos jornais franceses da época, Decré ainda não cantou vitória, mas no mês passado ele organizou uma cerimônia com coroas de flores em homenagem aos aviadores. O neto de Lindbergh, Erik, compareceu. "Antes de meu avô atravessar o Atlântico, as pessoas que pilotavam aviões eram consideradas mambembes ou valentões – eram loucos", disse Lindbergh. Nungesser e Coli podem não ter sucedido em sua travessia, disse ele, mas seu desafio deve ser celebrado.
Ainda assim, Decré quer encontrar os restos mortais e tem intenção de continuar sua busca.
Não há tanta certeza se seus patrocinadores o seguirão. A população local também continua cética. Embora admirem o entusiasmo de Decré, muitos moradores dizem não estar convencidos de que ele encontrará os destroços do avião, mesmo que eles estejam lá.
"É como tentar pegar água com uma rede de pesca", disse Serge Perrin, 56, limpando vieiras no convés de seu barco. "Nós nunca ouvimos ninguém falar do Oiseau Blanc até ele aparecer", acrescentou Perrin, sugerindo que alguns moradores locais talvez tenham inventado as memórias sobre o avião – conscientemente ou não – depois de ler sobre o acidente.
"Há quem acredite nele e quem não – é como o Papai Noel", disse Amandine Pinault, repórter da televisão local. "Em todo caso, é uma bela história."
Tradução: Eloise de Vylder

EDUCAÇÃO BRITÂNICA

Jornal para adolescentes é aprovado por escolas britânicas
D. D. Guttenplan  - IHT                                 
É sexta-feira na Holland Park School em West London, o que significa que é o dia da educação pessoal, social, econômica e de saúde.
"Às vezes, nós cobrimos educação sobre drogas. Às vezes, usamos esse tempo para refletir sobre temas atuais", diz Andrea James, chefe da orientação. A grande escola de temas abrangentes, que é financiada pelo Estado e aberta ao público, tem 1.400 alunos que falam 90 línguas.
Os alunos são colocados em pequenos grupos e recebem um punhado de matérias recém-publicadas do "The Day", uma iniciativa que tem dois anos e se descreve como "um jornal diário online para adolescentes com foco nas grandes questões que estão transformando o mundo".
Com 670 escolas britânicas inscritas, o site acabou "de virar a esquina mágica: deixou de ter prejuízos todo mês e passou a se pagar", disse Richard Addis, fundador e editor-chefe do jornal.
Addis, que passou dois anos treinando para ser um monge anglicano antes de ocupar cargos altos em "The Sunday Telegraph", "The Daily Mail" e "The Daily Express" na Inglaterra, além do "The Globe and Mail" no Canadá, disse que decidiu lançar um jornal para alunos depois de perceber um "vasto abismo de incompreensão" na forma como os meios de comunicação relatavam histórias complexas.
"Todos os meios de comunicação assumem que as pessoas sabem mais do que realmente sabem", disse ele em uma entrevista no escritório que aluga da "The Week", uma revista de notícias inglesa.
"As pessoas não entendem matérias complexas, de modo que não se preocupam em lê-las", disse Addis, cuja aparência de menino e jeito cuidadoso fazem com que se pareça mais com um acadêmico do que com um jornalista ambicioso. "Já que ninguém os lê, a mídia desistiu de publicá-las, a fim de concentrar-se em matérias simples, como a vida sexual de George Clooney ou qual jogador de futebol bebeu demais."
"Celebridades, esportes e assuntos de interesse humano ainda vendem jornais", disse Addis, "mas, se ninguém entende as matérias reais e ninguém se dá ao trabalho de explicá-las, todos nós vamos ficar mal informados".
Junto com um ex-colega do "Financial Times", onde Addis havia editado o caderno de fim de semana, ele montou o jornal "The Day", cujo lema é "Explicar é Importante".
Apoiado por um pequeno grupo de investidores, Addis comercializou o projeto para as escolas, que pagam R$ 2,05 por aluno por um pacote básico de matérias cotidianas, questionários e recursos para sala de aula. O pacote premium de R$ 3,38 inclui fotos grandes, oficinas de jornalismo em sala de aula e traduções para o francês, alemão, espanhol e italiano para uso em aulas de línguas. As escolas recebem três matérias por dia explicando as questões por trás da notícia, além de acesso a um arquivo de matérias antigas. A plataforma foi projetada para ser impressa em tamanho A4, embora muitos professores coloquem os artigos em quadros brancos ou em telas interativas conectadas a um computador.
O jornal não tem anúncios, o que é atraente, para Stephen Adcock, diretor-assistente da Burlington Danes Academy, uma escola do centro de Londres que foi um dos primeiros assinantes do "The Day".
"Era bastante comum os professores pegarem cerca de 25 cópias do jornal "Metro"", disse Adcock, referindo-se ao tabloide distribuído gratuitamente nas estações de ônibus e metrô da cidade. "Mas é um jornal muito comercial, cheio de publicidade. E o conteúdo não é necessariamente voltado a adolescentes."
Adcock diz que sua escola usa o "The Day" pelo menos três vezes por semana. "Nós temos uma sessão em grupo todas as manhãs e os tutores usam-no para discutir assuntos atuais", disse ele. "Mas nós também o usamos em assuntos específicos. Um professor de ciências pode procurar matérias sobre a engenharia genética, por exemplo."
Tanto ele como James disseram que as escolas também usavam a "BBC", que tem uma gama de sites desenvolvidos especificamente para escolas e que também não tem publicidade.
"O que costumava acontecer era que, quando os professores tinham que discutir assuntos atuais, alguns deles simplesmente ligavam a BBC", disse James. "O conteúdo é ótimo, mas é muito passivo, e eles podem fazer isso em casa. Eu queria me afastar desse modelo."
Adcock diz que os alunos eram expostos a muitos meios de comunicação, embora a maior parte fosse de qualidade questionável. "E, embora sejam obrigados a ler o "The Day", parecem gostar", diz ele. "Há um apetite real para descobrir sobre o mundo. Eles querem se envolver, mas não sabem por onde começar ou como encontrar o que é relevante. Isso abre um caminho para eles."
James diz que quer mais para os alunos do que apenas uma maneira de entender as histórias complexas. "Espero que ele nos permita oferecer aos alunos um caminho para perseguir seu interesse pelo jornalismo", disse ela.
Addis também quer incentivar estudantes de jornalismo. Primeiro, porém, ele tem que fazer o "The Day" crescer. Mais de 80% dos assinantes renovam suas assinaturas, disse ele, e seu público atual de cerca de 600 mil significa que o "The Day" "é visto por cerca de duas vezes mais leitores do que a revista "Top of the Pops", o título mais vendido do país para adolescentes.
Em setembro, ele espera lançar outro site --"uma espécie de versão infantil do "The Huffington Post""-- editado por adultos, mas escrito por e para adolescentes. "Só pode escrever para o site quem tem 19 anos ou menos", disse ele.
Tradutor: Eloise De Vylder

PRIMOGENITURA CAUSA PROTESTO DAS MULHERES INGLESAS

Filho e herdeiro? Na Inglaterra, mulheres denunciam injustiça
Sarah Lyall - NYT                                           
Os espectadores do seriado britânico "Downton Abbey" perceberam como a primogenitura era capaz de destruir famílias logo no primeiro episódio, quando o Titanic afundou e Lord Grantham, pai de três filhas, ficou sem um herdeiro óbvio.
Por sorte, o primo distante que surgiu como herdeiro mais próximo se mostrou disposto a abandonar seu monótono emprego, casar com uma das filhas e astutamente ter um filho antes de morrer abruptamente na última temporada.
Mas qual é o destino das filhas sem herança e sem perspectivas, obrigadas a parecerem atraentes para esperar pelo marido adequado?
A prática da primogenitura – na qual os títulos e as propriedades são transferidos apenas para herdeiros homens, até mesmo para aqueles parentes esquecidos desenterrados em outros continentes – pode parecer tão ultrajante e antiquada quanto negar o voto às mulheres, mas ainda é a lei para a aristocracia na Inglaterra.
"Meu pai sempre dizia: 'lembre-se de usar o cinto de segurança, porque seu rosto é a sua fortuna'", diz Liza Campbell, filha do 25º lorde de Cawdor (sim, existe um na vida real, não só em "Macbeth"), e agora, depois da morte de seu pai, irmã do 26º.
Também conhecido como conde de Cawdor, o atual lorde, Colin, é o filho do meio entre cinco irmãos. Mas é o filho mais velho, e sempre foi considerado o mais importante, por motivos de continuidade do título. "Eu amo meu irmão, mas é uma situação peculiar", disse Campbell, 53, uma artista e escritora que cresceu na propriedade da família na Escócia – 50 mil acres, mais um castelo – mas agora vive em Londres. "Há um escolhido na família, e todos os outros são supérfluos para as exigências."
Até recentemente houve pouca vontade para mudar a lei, o que em parte reflete a incapacidade da Inglaterra em decidir, por fim, se sua aristocracia é uma parte essencial de sua identidade, um vestígio antiquado do passado ou um pouco das duas coisas.
"O aspecto arrogante disso cega as pessoas para o que é basicamente um sexismo dentro de uma minoria privilegiada, onde as meninas nascem inferiores aos meninos", diz Campbell.
Mas a questão vem se infiltrando pelo Parlamento desde a aprovação recente de uma lei que permite que a monarquia seja transferida ao primeiro filho de um monarca, independente do sexo (isso significa que o bebê de William e Kate se tornará o terceiro herdeiro do trono, quer seja menino ou menina). Novas propostas legislativas permitirão que a nobreza – basicamente, os títulos herdados e as propriedades que costumam acompanhá-los – seja transmitida também desta forma, para o primeiro filho, seja homem ou mulher.
"Parece que não nos livramos dos títulos, mas acho que, já que os temos, gostaria que eles não dependessem do gênero", disse o proponente do projeto de lei na Câmara dos Lordes, lorde Lucas of Crudwell and Dingwall, que por causa de uma idiossincrasia histórica é um dos poucos nobres cujos títulos podem ser transmitidos para mulheres além de homens.
A proponente na Câmara dos Comuns, Mary Macleod, conservadora, apontou que dos 92 nobres na Câmara dos Lordes, apenas duas são mulheres. "Isso afeta poucas pessoas, mas é simbólico", disse ela sobre a proposta. "O que está questionando é se, neste momento, achamos que homens e mulheres são iguais?"
As regras atuais criaram todo tipo de problemas familiares.
"Quando éramos crianças, sempre diziam 'quando seu irmão vier morar aqui...", disse uma mulher aristocrata que cresceu numa grande propriedade que ela amava e que foi herdada pelo irmão mais novo quando seu pai morreu. A mulher, que falou sob condição de anonimato por não querer instigar mágoas familiares, disse que ninguém nunca questionou o sistema.
"Embora meu pai tivesse testemunhado a quase falência de sua mãe por não ter herdado a casa em que ela havia crescido, ele não ajustou seu próprio comportamento em relação à sua filha", disse a mulher, agora com quase 60 anos. "Embora eu o amasse e ele me amasse, a regra da herança era tão sólida para ele quanto à de não ter filhos fora do casamento."
Ela tem sorte: seu irmão permite que ela e seus filhos visitem a casa sempre que querem. Algumas irmãs não têm tanta sorte assim. Os filhos do finado lorde Lambton, por exemplo, estão presos numa disputa sórdida por sua propriedade multimilionária, que quando ele morreu em 2006 foi herdada inteiramente pelo seu único filho homem, o caçula Ned.
Três de suas cinco filhas processaram o irmão, alegando que como lorde Lambton havia passado suas últimas décadas de vida numa mansão na Itália, sua propriedade deveria estar sujeita à lei italiana, que não observa a primogenitura. Elas pedem US$ 1,5 milhão cada. Seu irmão – cuja chegada na família, um filho muito esperado entre cinco filhas, foi comemorada com um boi assado e uma fogueira – processou-as de volta num tribunal inglês.
Alegando as disputas legais, as irmãs não quiseram comentar o assunto. Mas Peregrine Worsthorne, um importante escritor e comentarista político que é casado com Lucinda Lambton, uma das filhas, disse que o sistema havia devastado a família.
"É normal, se tudo é deixado para o filho mais velho, que ele tenha alguma consideração por seus irmãos", disse Worsthorne. "Elas não estão sendo gananciosas. Ele é um homem muito rico."
A situação causa outro tipo de problema para o conde e a condessa de Clancarty, que têm uma filha de oito anos mas ninguém para herdar o título da família, de centenas de anos de idade.
"Há uma sensação de que a linhagem vai ser interrompida depois de todos esses séculos", disse a condessa. "O título e a memorabília da família irão para alguém que nem conhecemos. Se houver alguém, ele está provavelmente na Austrália."
É interessante que ninguém esteja fazendo campanha para avançar ainda mais a questão, digamos, exigindo que as propriedades sejam divididas entre os filhos e não deixadas apenas para um deles. O sistema deixou intactas durante séculos muitas das maiores propriedades da Inglaterra, incluindo o Palácio de Blenheim, lar do duque de Marlborough; Chatsworth, casa do duque de Devonshire; e Highclere Castle, lar do conde de Carnarvon (e de Lord Grantham, no mundo televisivo).
Na Europa, entretanto, aconteceu o contrário: as propriedades foram divididas e as fortunas diluídas por causa de leis que tornaram impossível deserdar até mesmo herdeiros inadequados. Essas leis de "heranças obrigatórias" exigem que uma parte da propriedade seja dividida entre os filhos e a esposa do morto, e elas são aplicadas na Escócia bem como na maior parte do continente, diz Roderick Paisley, professor de lei escocesa na Universidade de Aberdeen.
"Na Escócia, você é obrigado a fazer provisões para os filhos, e na Inglaterra, você não precisa deixar um feijão sequer para eles", diz o professor Paisley. Ao falar sobre a nobreza em países que não têm monarcas, ele acrescentou: "a maioria dos países europeus aboliram qualquer noção de nobreza, então a herança de títulos não é feita por nenhuma lei reconhecida pelo estado. Pode muito bem ser como uma placa de carro – é assim que a maioria dos estados europeus veem esses títulos."
Na Inglaterra, Lady Clancarty e outros deram lançaram uma petição online pedindo ao Parlamento para aprovar as propostas e acabar com a discriminação de gênero entre os herdeiros da nobreza. Recentemente, dezenas de pessoas, incluindo nobres e mulheres e filhas de nobres, assinaram uma carta de apoio no "The Telegraph". Mas muitos outros recusaram.
"Muitas pessoas estão de fato preocupadas", diz Lady Clancarty. "Elas não querem assinar porque têm muito medo de prejudicar suas famílias. Ninguém quer cair na desgraça de um irmão ou contrariar um pai ou uma mãe. Há uma espécie de código de cavalheiros. Nós estamos dizendo que não há problema em erguer a voz."
Tradução: Eloise de Vylder