quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Snowden recebe asilo temporário de um ano e entra na Rússia
FSP
O técnico em informática Edward Snowden, que revelou o esquema de monitoramento de dados de internet e telefones feito pelos Estados Unidos, recebeu nesta quinta-feira asilo temporário da Rússia por um ano e deixou o aeroporto de Sheremetyevo, em Moscou.
Ele estava há 39 dias no terminal, desde que deixou Hong Kong em 23 de junho, um dia após os Estados Unidos pedirem sua extradição para ser julgado por roubo de informações confidenciais e espionagem. Caso processado, poderá pegar até 20 anos de prisão.
Ewen MacAskill/Reuters
Snowden, em reunião com ativistas em 12 de julho; delator consegue asilo temporário da Rússia e deixa aeroporto de Moscou
Snowden, em reunião com ativistas em 12 de julho; delator consegue asilo temporário da Rússia e deixa aeroporto de Moscou
Segundo o advogado russo que cuidava do caso, Anatoly Kucherena, o Serviço Federal da Imigração da Rússia entregou nesta quinta os documentos do asilo temporário, que será de um ano. Ele afirma que o delator já deixou Sheremetyevo e foi para um local seguro.
No entanto, o site WikiLeaks, que tem assessorado Snowden, disse em mensagem no microblog Twitter que o informante recebeu status de refugiado. Nenhuma das duas versões foi confirmada oficialmente pelo governo russo. Os Estados Unidos ainda não comentaram a decisão.
Ex-embaixador russo em Washington, Yuri Ushakov disse acreditar que a relação com os Estados Unidos não será afetada pela concessão do asilo, que considerou "insignificante". "Nosso presidente expressou esperança muitas vezes que isso não afetará o caráter de nossas relações".
Com isso, Snowden consegue entrar na Rússia após 39 dias morando em um hotel na área de trânsito de Sheremetyevo. Nesse período, ele pediu asilo a mais de 30 países, incluindo o Brasil, mas só havia conseguido permissão de Bolívia, Venezuela, Equador e Nicarágua.
Os quatro países ofereceram abrigar Snowden em represália ao bloqueio do avião do presidente boliviano, Evo Morales, por Portugal, Espanha, França e Itália, quando ele voltava de Moscou. Os quatro países suspeitaram que o informante estivesse a bordo.
Russia24 via APTN/Associated Press
Reprodução do documento de asilo temporário da Rússia recebido por Edward Snowden, delator da espionagem dos EUA
Reprodução do documento de asilo temporário da Rússia recebido por Edward Snowden, delator da espionagem dos EUA
DELATOR
Snowden, 30, trabalhava para a Agência de Segurança Nacional americana (NSA, sigla em inglês) como funcionário terceirizado da empresa Booz Allen Hamilton. Ele revelou detalhes sobre programas de espionagem à mídia britânica e norte-americana, que publicaram as informações no início de junho.
A NSA, cujo material foi divulgado por Snowden, é uma das organizações mais sigilosas do mundo. De acordo com as informações apresentadas pelo delator, a agência monitorou os registros de ligações de milhões de telefones da Verizon, segunda maior companhia telefônica dos EUA.
Também foram verificados dados de usuários de internet de todo o mundo em empresas de internet como Google, Facebook, Microsoft e Apple. O escândalo causou críticas ao presidente Barack Obama, que combateu a espionagem feita pelas agências quando fazia oposição ao republicano George W. Bush.
As denúncias também causaram irritação de governos de diversos países, incluindo o Brasil. A NSA manteve em Brasília uma de suas centrais de seu programa de vigilância, o que provocou protestos e críticas do governo federal.
Devido às denúncias, o governo brasileiro estuda exigir às maiores empresas de internet que mantenham seus centros de processamento de dados no país, a fim de aumentar o controle sobre a informação que pode ser acessada pelo governo americano.

Continua devagar
CELSO MING - O Estado de S.Paulo
A economia tem dessas complexidades. Notícia potencialmente boa pode encerrar certas ambiguidades que o bom pode ter um lado inescapavelmente ruim. O contrário também pode ser verdadeiro.
A divulgação do razoável crescimento do PIB da maior economia do mundo é exemplo disso. Ontem, o Departamento do Comércio dos Estados Unidos anunciou um avanço do PIB em bases anualizadas de 1,7%, bem maior do que esperavam os analistas (coisa aí de 1%).
Mas, para início de avaliação, trata-se de um crescimento não tão bom assim, porque os cálculos tiveram de reduzir de 1,8% para 1,1% o aumento do PIB do trimestre anterior. Isso significa que o piso de cálculo para as contas nacionais ficou rebaixado e o tanto que aparece a mais depois foi tirado do que veio antes.
Em todo o caso, reforça-se a percepção de que a atividade econômica nos Estados Unidos está mais forte agora do que estava no início do ano, situação que, espera-se, tende a continuar. Além disso, o bom avanço do consumo, o ritmo dos investimentos e, sobretudo, a excelente recuperação do mercado imobiliário ajudam a apostar na melhora.
Mas a ambiguidade acima mencionada tem a ver com outro problema. A partir do momento em que se confirmasse uma sólida recuperação dos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed, o banco central) teria de começar a desmontar a enorme operação de incentivos monetários (emissão de moeda para compra de títulos) que há alguns anos deixou os mercados inundados de dinheiro.
Como já comentado aqui outras vezes, a operação de desmonte é temida porque tende a provocar revoada de dólares de volta para os Estados Unidos. O risco é de que os títulos (e ações) dos demais países, especialmente dos emergentes, fiquem órfãos nos mercados. Essa foi a razão pela qual o anúncio do novo PIB ontem provocou forte repique nas cotações do dólar no Brasil, o que levou o Banco Central a fazer três leilões de moeda estrangeira para entrega futura.
Ainda ontem, foi dia de Fomc (o Copom dos Estados Unidos), ocasião em que o Fed, presidido por Ben Bernanke, poderia dar melhores indicações do que pretende fazer, supostamente, a partir de setembro. Mas o comunicado, mais uma vez, não deu indicações claras de quando a operação começará nem em que proporção. Ao contrário, o reconhecimento de que o crescimento da economia havia sido modesto no primeiro trimestre sugeriu que o tal desmonte monetário pode não estar tão perto.
Uma das razões para essas reservas é de que o Fed olha mais para a situação do mercado de trabalho do que para os indicadores da atividade econômica. Sobre isso, lamentou o nível de desemprego (de 7,6%) ainda elevado.
Também não há sinal de que o enorme despejo de dólares, de cerca de US$ 3,4 trilhões até agora, esteja provocando inflação. Ao contrário, o Fed menciona os riscos de que se mantenha persistentemente abaixo da meta. É um fator que poderia conter o início da reversão da expansão de moeda.
E, outra vez, as tais ambiguidades. Imaginemos que os Estados Unidos voltassem a encalhar na paradeira. Nesse caso, o desmonte previsto pelo Fed seria adiado por tempo indeterminado, mas, em contrapartida, o mercado global afundaria ainda mais na recessão.
Diversos índices acusam piora nas expectativas
O Estado de S.Paulo
Os maus resultados da economia brasileira no primeiro semestre parecem influenciar as expectativas para o segundo, conforme levantamentos de opinião divulgados nos últimos dias junto de empresários industriais, comerciantes, prestadores de serviços e até de segmentos que mantêm um ritmo razoável de atividade, como a construção civil. Essas expectativas negativas podem contribuir para inibir decisões de investimentos, que é do que mais depende a economia brasileira hoje.
Nos serviços, que respondem por 2/3 da economia brasileira, o Índice de Confiança de Serviços (ICS), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgado ontem, mostrou queda de 6,4% entre junho e julho, pior resultado desde novembro de 2008, no auge da crise global. O Índice de Confiança do Comércio (Icom), também da FGV, indicou um recuo de 6,4% na situação atual e de 6,5% nas expectativas.
Na indústria, que responde por 1/7 da economia, o Sensor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), de ontem, mostrou leve queda entre junho e julho (-0,2 ponto porcentual), mas, muito forte (-6,2 pontos), em relação a março, o mês mais forte deste ano.
O Índice de Confiança do Comércio, apurado pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), melhorou levemente entre junho e julho, mas 67,5% dos entrevistados notaram piora do cenário econômico, ante 55,4%, em junho (30,4% falaram em piora acentuada, em julho).
Sexta-feira, a Sondagem da Indústria de Transformação da FGV mostrou queda mensal de 4% e o indicador ficou abaixo dos 100 pontos, ou seja, no campo negativo, o que não ocorria desde julho de 2009. O Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (Inec), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostrou estabilidade em relação a junho, mas queda de 2,7% comparativamente a julho de 2012. A Sondagem da Construção da CNI, de 23/7, mostrou baixo nível de atividade, retração do emprego e dificuldades financeiras (carga tributária, juro alto, crédito de longo prazo escasso).
As pesquisas indicam que o otimismo com o futuro - que sempre caracterizou o empresário brasileiro - está se exaurindo. Em alguns casos, como na indústria, ainda há disposição de investir, segundo o Sensor da Fiesp, mas a FGV constatou pouco interesse do setor secundário em contratar mão de obra, que acompanha os investimentos.
O difícil para o governo será mostrar que sua política econômica pode reverter essas desconfianças.
A indústria derrapa
O Estado de S.Paulo
Está difícil enxergar sinais de recuperação na atividade industrial, disse ontem o diretor de pesquisas e estudos econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Francini. O comentário pode parecer estranhamente pessimista, diante dos recém-divulgados números de junho. O nível de atividade foi 2,6% mais alto que o de maio, descontados os fatores sazonais, e 4,8% superior ao de um ano antes. O indicador do primeiro semestre ficou 4,8% acima do registrado entre janeiro e junho de 2012. Mas o quadro é bem menos entusiasmante quando examinado em seus detalhes. O resultado de maio havia ficado 2,7% abaixo do estimado para abril. A melhora observada em junho, portanto, nem chegou a compensar essa queda. Além disso, o crescimento acumulado em 12 meses ficou em apenas 0,9%, um avanço modestíssimo, depois do péssimo desempenho observado em 2012. Os números do maior polo industrial do País, o paulista, continuam mostrando, portanto, uma produção ainda estagnada e sem perspectiva de um resultado muito melhor que o do ano passado.
Não há como estranhar, portanto, o baixo entusiasmo empresarial revelado em julho por mais uma edição do Sensor Fiesp, divulgada juntamente com o Índice de Nível de Atividade (INA). Na última pesquisa, o Sensor Geral ficou em 50,6 pontos, pouco abaixo do número de junho (50,8). Com variação de zero a 100, esse indicador aponta uma atitude positiva a partir de 50. Neste ano, houve evolução positiva entre janeiro (49,8) e março (56,8) e números bem mais baixos nos meses seguintes. O de julho só foi superior ao de janeiro.
A trajetória do Sensor praticamente coincide com a da atividade. Depois de um primeiro semestre decepcionante e de um mês de julho sem grandes sinais positivos, só os muito otimistas apostariam em desempenho muito melhor no resto do ano.
Segundo a nova estimativa do pessoal da Fiesp, o nível de atividade em 2013 deve ser 3,2% superior ao do ano passado. Mas essa melhora só deve ocorrer porque o resultado da indústria foi muito ruim em 2012. O aumento da atividade industrial paulista nem será suficiente para compensar a queda do ano passado, de 4,1%. A projeção de crescimento do PIB foi reduzida de 2,5% para 1,9%. É uma estimativa mais sombria que a da maioria dos especialistas do mercado financeiro, ainda superior, na semana passada, a 2%.
O fraco desempenho da indústria está refletido na evolução do uso da capacidade instalada. O nível registrado em junho, de 81,8%, é quase igual ao de maio, de 81,7%, e pouco superior ao de um ano antes, de 81,3%.
De maio para junho houve pequeno aumento das horas pagas e do tempo de trabalho na produção e diminuição do salário médio e do bolo de salários reais, isto é, calculados com desconto da inflação. O acumulado de janeiro a junho, no entanto, mostra um quadro ainda bem diferente. Na comparação com os primeiros seis meses de 2012, o total das horas pagas diminuiu 0,2% e o trabalho na produção foi 1,6% mais curto, mas o salário médio real aumentou 3,6% e a folha de salários cresceu 3,2%. O total das vendas reais compensou esses aumentos, com expansão de 6,8%. Mas o aumento salarial certamente acima dos ganhos de produtividade continuou minando a capacidade competitiva do setor e, internamente, contribuindo para a inflação.
Curiosamente, os dados da Fiesp ainda apontam um aumento importante do setor de máquinas e equipamentos, 12,3%, quando se comparam os números do primeiro semestre deste ano e do anterior. Os dados da associação da indústria de máquinas (Abimaq) mostram um quadro diferente, com faturamento real 8,2% menor que o de um ano antes, nos primeiros seis meses. Diferenças de metodologia devem explicar esse contraste. De toda forma, os dados da Fiesp apontam uma redução de 3,3% nas horas de trabalho, no confronto dos primeiros semestres. Também as compras de máquinas e equipamentos parecem estar derrapando, depois de um começo de ano positivo.
Entre o mar e a pedra
O Estado de S.Paulo
Para as relações da presidente Dilma Rousseff com a maioria governista no Congresso não fez diferença ela ter se humilhado ao dizer que "Lula não vai voltar porque ele não saiu", numa tentativa de esvaziar o movimento no PT pela candidatura do ex-presidente em 2014. A base aliada do Planalto, a começar dos caciques do PMDB, sabe que a vida com Lula era uma coisa e com Dilma, outra. Ela consegue a um só tempo ser avessa à política e negar autonomia a quem quer que tenha escolhido para fazer o que ela não gosta nem sabe. Some-se a isso a campanha sucessória antecipada por Lula também para neutralizar as pressões pela sua volta e a queda violenta da popularidade da apadrinhada, na esteira da inflação e dos protestos de junho, para completar o cenário de desafio à autoridade presidencial entre os partidos da sua vasta coalizão.
A obra não ficou pronta da noite para o dia. Segundo pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), divulgada pelo Valor, já no ano passado o apoio da base ao governo na Câmara dos Deputados, medido pela atitude de seus integrantes em relação aos projetos de interesse do Executivo, tinha sido o mais mirrado desde a ascensão do PT ao poder: ficou em 77,7% em 40 votações realizadas. Menos do que os 80% obtidos por Lula em 2005, sob o impacto da denúncia do mensalão. A erosão da liderança de Dilma se acentuou este ano. Computadas as 50 votações até 19 de julho, fecharam com o Planalto apenas 72% dos ditos aliados - e só 56% dos peemedebistas. Pode ficar pior. Eles se preparam para alvejar o governo logo na volta do recesso, semana que vem, com armamento pesado. De um lado, com a derrubada de vetos presidenciais. De outro, com a aprovação de um projeto pesadelo para Dilma (e os futuros chefes de governo).
O principal veto na mira é o que invalidou o ato do Congresso que extinguiu a multa adicional de 10% sobre o saldo do FGTS, paga pelas empresas em casos de demissões sem justa causa. A presidente alega que o montante arrecadado a esse título - R$ 6,2 bilhões por ano - é indispensável ao Minha Casa, Minha Vida. Já o pesadelo é a proposta do presidente da Câmara, o peemedebista Henrique Eduardo Alves, para tornar impositivo o cumprimento do Orçamento da União. Desde sempre, os governos desfrutam da liberdade de escolher quais dos gastos previstos serão efetivados a cada ano e quais ficarão para as calendas. O Orçamento impositivo é um disfarce para o que os políticos realmente desejam: a execução mandatória das emendas parlamentares, cujo valor este ano alcança R$ 8,9 bilhões.
Graças a elas, os autores esperam fazer bonito nos seus redutos, embora as obras de varejo a que se refiram pouco ou nada tenham que ver com as prioridades da administração. Já os governantes se valem da promessa de liberação dos recursos para comprar votos no Congresso. Ou, como agora, para aquietar o surto autonomista dos partidos da base. Foi para isso que a presidente se reuniu na terça-feira com uma dezena de ministros, aos quais informou que liberará até o fim do ano, em três parcelas iguais, R$ 6 bilhões para tanto. A primeira era para ter saído em maio. Os ministros saíram do Alvorada com a incumbência adicional de trabalhar pela fidelidade dos partidos que os indicaram, nas votações em vias de começar.
Dilma está espremida entre o mar e a pedra. A crise das contas públicas a fez cortar há pouco R$ 10 bilhões do Orçamento na tentativa de acumular reservas equivalentes a 2,3% do PIB para pagar os juros da dívida este ano. (Nos 12 meses encerrados em junho, o resultado ficou em 2%.) Problema dela, dão de ombros os soi-disant aliados. O deles, tornado urgente pela antecipação da campanha, é "a sobrevivência política de cada um", confessa o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira. Isso conta mais do que o destino de Dilma - e se busca, para a grande maioria, no varejo. O seu homólogo na Câmara, Eduardo Cunha, acha absurdo, por exemplo, o Ministério do Desenvolvimento Agrário entregar um trator na base de um deputado sem combinar com ele antes. "Isso agride o parlamentar", protesta. Lula o teria desagravado com um abraço e um cafezinho em palácio.

EIKE: QUEM NÃO DEVE NÃO TEME?

Eike tenta negociar com CVM fim de processo contra LLX
Empresário enviou nesta quarta-feira uma proposta de acordo para encerrar investigação que apura irregularidades na empresa de logística
Mariana Durão - O Estado de S. Paulo
RIO - O empresário Eike Batista apresentou nesta quarta-feira, 31, à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) uma proposta de acordo para tentar encerrar sem julgamento um processo que apura irregularidades de administradores da LLX, braço de logística do grupo EBX, nas informações prestadas (ou omitidas) aos investidores.  
Até o momento essa é a única das dezenas de investigações da autarquia contra o grupo X que deixou de ser uma apuração preliminar e ganhou o status de processo sancionador. Na prática, isso quer dizer que os "réus" podem ser julgados e punidos com medidas que vão de multa até a inabilitação para atuar no mercado.
Além de Eike, controlador da LLX, são acusados outros três executivos da empresa, dona do projeto do Superporto do Açu, em Itaguaí (RJ): o ex-presidente da LLX Otávio Lazcano, o ex-diretor Claudio Dias Lampert e Eugenio Leite de Figueiredo, atualmente diretor financeiro da companhia. Todos encaminharam propostas de termo de compromisso - acordo que extingue um processo sem presunção de culpa - à autarquia.
Os pedidos foram encaminhados à Procuradoria Federal Especializada (PFE), que analisará os aspectos legais e determinará se as propostas estão aptas a passar à avaliação do Comitê de Termo de Compromisso da CVM. Caberá ao órgão emitir um parecer indicando se é oportuno e conveniente que o colegiado da autarquia dê o sinal verde ao acordo, que na maioria das vezes inclui um acerto financeiro.
No caso da LLX, a investigação aponta para uma violação da Instrução 358 da CVM, que regula a prestação de informações por companhias abertas. A norma prevê que os fatos relevantes podem deixar de ser divulgados quando os controladores ou a diretoria considerarem que sua publicação pode prejudicar os interesses da companhia. A divulgação se torna obrigatória, entretanto, quando a informação "escapar ao controle ou se ocorrer oscilação atípica na cotação, preço ou quantidade negociada dos valores mobiliários (ações) de emissão da companhia".
A CVM não comenta casos específicos e as informações públicas não detalham a que operação se refere o processo. No ano passado a LLX esteve envolvida em alguns episódios que geraram dúvidas no mercado.
A companhia chegou a ser questionada oficialmente pela CVM sobre as notícias veiculadas na imprensa de que o presidente da chinesa Wisco afirmara que o projeto de implantação de uma siderúrgica de US$ 5 bilhões no Porto do Açu estava parado. Na época, a LLX negou a suspensão do projeto dizendo que o memorando de intenções ainda estava de pé.
Houve ainda uma série de boatos, confirmados mais tarde, sobre o entra e sai de executivos.
Polícia de PE investiga página do Facebook que serviria para venda de bebês
Segundo denúncia, mulher chegou a tentar negociar criança por R$ 50
Letícia Lins - O Globo
RECIFE — A polícia civil de Pernambuco iniciou investigação nesta quarta-feira sobre o suposto tráfico de bebês por intermédio de uma rede social, na qual crianças eram oferecidas por preços entre R$ 7 mil e R$ 50 mil. As ofertas eram feitas em uma página do Facebook criada em Pernambuco, no dia 3 de julho, com imagens pirateadas de bebês desconhecidos. "Quero.doar.Adotar seu bebê-Recife PE” era o nome da página. Quatro mulheres tentaram doar suas crianças, sendo que duas delas por dinheiro.
A primeira denúncia sobre o caso foi feita na edição de quarta-feira do Diário de Pernambuco. Nesta quarta-feira, à tarde, a página saiu do ar a pedido da Secretaria de Defesa Social. O delegado encarregado do caso, Ademir de Oliveira, do Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente, informou que todo o material postado já foi solicitado à direção do Facebook no Brasil.
— Já entramos em contato com o Facebook para colher material para investigar essa conduta criminosa. Pratica crime quem vende e também quem compra. Já vínhamos investigando um caso emblemático dessa situação, a de uma mulher que pretendia adotar um bebê, e entrou na rede social para se candidatar. Ela descobriu, no entanto, que realizar o sonho da maternidade lhe custaria R$ 50 mil. Foi aí que ela denunciou o caso à polícia — relatou o policial.
A denúncia foi feita por uma mulher chamada Fabiana, que reside em Salvador. Ela pretendia adotar um bebê quando descobriu na rede uma mulher de 19 anos, chamada Carla, que oferecia o filho recém nascido (os sobrenomes estão sendo preservados pela polícia). Ao entrar em contato com a jovem, a mulher recebeu uma proposta de venda do bebê. Ela denunciou o caso, que está sendo investigado pelo delegado Geraldo Costa, também do DPCA. O bebê nasceu prematuro e faleceu.
De acordo com o delegado, a mãe disse que não sabia que estava grávida, até dar entrada no hospital e ter o bebê. Ela não vive mais com o pai da criança. E ele agora quer ouvir o seu atual namorado, para saber se ele tem envolvimento na prática criminosa. A mãe é universitária e de classe média.
Ele afirmou que, além da prática ser criminosa, pode representar risco inclusive para a vida dos bebês, já que não se sabe quem são nem os propósitos dos eventuais pais adotivos.
—É um risco muito grande. Sabemos que qualquer processo de adoção envolve a mobilização de uma equipe técnica muito grande, para que os bebês fiquem em locais e com pais seguros. Com essa mercantilização, perguntamos: o que está por trás disso? Por que alguém compra um bebê? Pode ser até para alimentar o tráfico de órgãos — disse nesta quarta-feira o delegado. Ele alertou:
— Quando se utiliza um sistema não oficial, o risco é grande de se estar negociando com um pedófilo, com um traficante de pessoas, de drogas. Tudo que pretendemos é preservar as crianças com a investigação.
Tanto o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) quanto o Código Penal Brasileiro tipificam os crimes em que incorrem aqueles que compram ou vendem crianças. Pelo artigo 238 do ECA, é prevista pena de quatro anos de reclusão àqueles que prometem ou efetivam "a entrega de filho ou pupilo a terceiro, mediante pagamento ou recompensa".
Quem promover ou ajudar no processo também pode ser penalizado com até seis anos de reclusão. Já o Código Penal prevê detenção seis meses a três anos por abandono de pessoa incapaz de defender-se dos riscos do abandono.
Na página, as mulheres alegam motivos diversos para doar os bebês, sendo os problemas financeiros os mais frequentes. Uma mensagem "anônima" na página do Facebook informa: "estou grávida de seis meses, descobri faz um mês. Não tenho como cuidar, com as necessidades que uma criança merece. Entre em contato por e-mail".
Uma outra mensagem, postada no dia 14 de julho, informa que uma pessoa de 22 anos, com dois filhos, descobriu há duas semanas que "estava grávida de novo". A mulher conta que mora com os pais, que eles desconhecem a gestação e que não quer ficar como o bebê. Neste caso, a mulher não pede dinheiro.
O que mais chamou a atenção da polícia foi o diálogo de uma grávida que se disse de São Paulo com uma pessoa provavelmente do sexo masculino. "Vi o recado no Facebook e fiquei interessado". A suposta mulher pergunta ao homem se ele é casado ou homossexual. E informa sobre o filho que vai ter: "não estou dando, estou vendendo". O homem indaga: "Você quer quanto?". E ela avisa: " pode ser metade e metade, para não acontecer possíveis desentendimentos e desconfianças". Esses interlocutores ainda não foram identificados.
Redução de idade para mudar sexo é suspensa
Portaria que diminuía limite de 18 para 16 anos foi cancelada após menos de 24h
Lisandra Paraguassu e Ocimara Balmant - OESP
Menos de 24 horas depois de publicar uma portaria reduzindo de 18 para 16 anos a idade para o início do tratamento de mudança de sexo, o governo federal suspendeu a medida por tempo indeterminado. Em nota, o Ministério da Saúde informa que serão consultados especialistas para criar um protocolo de atendimento.
Esta foi a segunda vez que o ministério volta atrás. Há menos de dois meses, a pasta suspendeu uma campanha para combater o preconceito às profissionais do sexo depois que a divulgação de uma peça com a frase "Sou feliz sendo prostituta" causou polêmica.
No caso dos transexuais, o governo informou, oficialmente, que decidiu suspender o texto para ter tempo de definir protocolos de atendimento, avaliação dos adolescentes e "obtenção da autorização dos pais". Nos bastidores, o governo considerou precipitada a publicação da portaria, assinada pelo secretário de Atenção à Saúde, Helvécio Magalhães, sem uma negociação prévia e tentou evitar mais uma polêmica com setores evangélicos e católicos contrários a esse tipo de tratamento. Teria sido o próprio ministro, Alexandre Padilha, que decidiu desautorizar seu secretário, depois do texto já publicado no Diário Oficial da União.
O ministro garantiu que pretende reenviar o texto já na próxima semana, mas o prazo dado não combina com as explicações. Se o governo realmente quiser criar um protocolo de atendimento, o processo é muito mais longo do que alguns poucos dias, já que entidades médicas precisam ser consultadas e todo um protocolo, criado.
A portaria aumentava os procedimentos sobre transexualidade, passando a incluir também mulheres, e diminuía a idade para o início dos procedimentos: o tratamento psicológico e o uso de hormônios poderia começar a partir dos 16 anos, com autorização dos pais, e a cirurgia poderia ser feita aos 18. As regras atuais só permitem o início do procedimento aos 18 e operação dois anos depois.

Na hora
O texto foi publicado ontem e uma entrevista com o secretário havia sido marcada para a tarde. Enquanto os jornalistas esperavam, chegou a informação de que o encontro fora suspenso "por problemas na agenda de Magalhães". No início da noite, a informação de que a portaria fora suspensa.
Para o promotor de Justiça de Defesa dos Usuários da Saúde do Distrito Federal e pioneiro na luta pelos direitos dos transexuais, Diaulas Ribeiro, a revogação foi correta. "Estranhei a publicação de uma portaria que vai contra o que o Conselho Federal de Medicina prevê, que é a cirurgia apenas aos 21, e que não contempla as linhas de cuidado, medida importantíssima."
Na opinião da coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP, Carmita Abdo, a diminuição da idade é urgente, mas deve ser feita com critério. "Se consideramos que, desde os 3 anos a criança já apresenta manifestações bastante claras, quando chega aos 16 já terão passados mais de dez anos com essa inconformidade", explica Carmita. "Logo, desde que a avaliação seja criteriosa, diminuir a idade para o início da terapia poderia barrar características como o aparecimento de barba."
Brasileiro no FMI se recusa a aprovar dinheiro para Grécia
Paulo Nogueira Batista Jr. diz que país pode não conseguir pagar resgate e se abstém em votação sobre contribuição
Diretor do Fundo afirma que 'políticas draconianas' impostas aos gregos não estão produzindo resultados
FINANCIAL TIMES'
O representante do Brasil no conselho-executivo do FMI (Fundo Monetário Internacional) se absteve na votação da nova contribuição de € 1,8 bilhão para a Grécia, na segunda-feira, e fez uma crítica severa à decisão, argumentando que Atenas pode se provar incapaz de pagar seus empréstimos de resgate.
Paulo Nogueira Batista Jr., que representa 11 países no FMI, disse que as dificuldades políticas e econômicas da Grécia "confirmam nossos piores temores" e que os economistas do Fundo estavam fazendo avaliações "exageradamente otimistas" sobre o crescimento do país e a sustentabilidade de sua dívida.
"Uma depressão econômica interminável e níveis severos de desemprego resultaram em discórdia política", escreveu Batista.
"A percepção generalizada de que as dificuldades causadas por políticas draconianas de ajuste não estão produzindo resultado solapa o apoio público ao programa de ajuste."
Os países em desenvolvimento membros do FMI há muito se sentem desconfortáveis com a desproporção nos recursos que o Fundo dedica à crise na zona do euro.
Mas a abstenção e a declaração dura de Batista --que incluía sua avaliação de que a equipe do FMI no país "está a um passo de contemplar a possibilidade de uma moratória ou de atrasos de pagamento pela Grécia de suas dívidas para com o FMI"-- é uma das posições mais severas já assumidas sobre o assunto desde o começo da crise grega, três anos atrás.
A declaração surge no momento em que o FMI solicita aos países da zona do euro € 11 bilhões adicionais para o resgate à Grécia e que considerem perdoar parcelas consideráveis de seus empréstimos a Atenas, a fim de reduzir a dívida do país --equivalente a 4% do PIB (Produto Interno Bruto).

‘Verdades da boa-fé contra patranhas do marketing’
JOSÉ NÊUMANNE - OESP
Em nome da fé já se fez muito bem. Mas também muito mal. Do ponto de vista religioso, a mesma Igreja Católica em que militou o inquisidor Torquemada deu os dois Franciscos – o santo de Assis e o bispo de Roma. A política (do grego, pertinente aos cidadãos) republicana (do latim, referente à coisa pública) foi o ofício do assassino serial Adolf Hitler e do democrata (do grego, governo do povo) Winston Churchill. Então, não é a crença que massacra o homem, mas a natureza humana que usa a convicção para destruir. O fundamentalismo terrorista dos asseclas de Bin Laden é mais próximo dos autos de fé da Inquisição cristã que da tolerância dos Estados islâmicos medievais. A visita do papa ao Brasil confirmou tais evidências em gestos e nas suas pregações ao longo da semana passada.
Nela ele conviveu com a ineficiência do Estado, manifestada pelo rosário de lambanças iniciado com o erro dos batedores em sua chegada e encerrada com a interdição do Campo da Fé, em Guaratiba. E também com o afeto emocionado do brasileiro comum, que o recebeu, abraçou e beijou. Ao desembarcar do avião, forçado a fazer hora voando antes de pousar porque a presidente Dilma se atrasou, ele foi conduzido por batedores direto para o congestionamento de um estacionamento de ônibus de peregrinos em plena Avenida Presidente Vargas. Do contato com o Brasil real saiu sem um arranhão e coberto de beijos, prova de que só o amor protege. Dali o levaram para encontrar a zelite do Brasil oficial no Palácio Guanabara – um erro dos hierarcas católicos, similar ao dos responsáveis por sua escolta.
Os encarregados da programação submeteram o papa a um discurso quase tão grosseiro quanto enfadonho. Nele Dilma se limitou a fazer mais um relato complacente e pouco fiel de falsos avanços de sua gestão. E deu-se ao desplante de reduzir a História do Brasil aos últimos dez anos, sob o PT de Lula e dela. Ou seja, negou o legado de luminares do povo brasileiro que viveram antes da posse do padrinho e protetor dela: José Bonifácio de Andrada e Silva, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Luiz Gonzaga, Tom Jobim e tantos outros. Além disso, ela recitou patranhas de marketing, tratando o visitante como um papagaio de pirata de seu palanque para a reeleição. Nem ela própria parecia crer nelas, tal foi a falta de convicção com que as enunciou.
Naquela ocasião o hóspede, polido como a anfitriã não foi, respondeu com as gentilezas de praxe de um pároco agradecendo a água que lhe servia uma devota paroquiana. Mas, ao longo de suas práticas, foi respondendo com recados certeiros a uma a uma dessas grosserias da recepção e das deselegantes anedotas sem graça sobre sua origem portenha contadas pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes. No Hospital São Francisco de Assis o papa detonou o discurso politicamente correto de quem considera o consumo de drogas apenas uma doença e seu comércio, mera consequência de mazelas sociais. Chamou os traficantes de “mercadores da morte” e disse que só se combate o tráfico entre os jovens praticando a justiça e educando sempre.
No mais relevante pronunciamento social de seu pontificado, proferido na favela de Varginha, ele disparou dois torpedos diretamente na maior negação à natureza democrática nas Repúblicas de hoje: o marketing político. No primeiro atacou o conceito de pacificação das comunidades com a ocupação de suas ruas por policiais armados. “Nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma. Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma, perde algo de essencial para si mesma”, pontificou. Essa sentença profética atingiu no cerne a propaganda oficial do desastrado governador Sérgio Cabral.
O outro torpedo atingiu a empáfia petista no peito. “Somente quando se é capaz de compartilhar é que se enriquece de verdade. Tudo aquilo que se compartilha se multiplica. A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais necessitados, que não têm outra coisa senão a sua pobreza”, pregou. O nobre conceito igualitário, transmitido às vítimas preferenciais dessa ilusão, silencia a fanfarra federal que celebra a inclusão deste país entre as maiores economias mundiais.
Ao falar para a sociedade e políticos, no Teatro Municipal, Francisco sintetizou sua pregação na Jornada Mundial da Juventude no Rio: “O futuro exige a tarefa de reabilitar a política”. A frase do pregador resume a tarefa de todos os cidadãos, pertençam ou não a quaisquer partidos políticos, professem ou não algum credo religioso. Da mesma forma corajosa como apregoa a refundação de sua “Igreja de Cristo”, Francisco transferiu aos peregrinos a tarefa de lutar para tentar restaurar o sentido da origem etimológica da palavra, que no mundo inteiro, e no Brasil em particular, passou a significar exatamente o oposto do princípio que a fundou.
Essa restauração do poder da cidadania, segundo o papa, implica condições que ele fez questão de lembrar. Uma delas é a responsabilidade cívica da boa-fé pública: “O sentido ético aparece nos nossos dias como desafio histórico sem precedentes”. Outra, a tolerância em tudo e, particularmente, na profissão de fé: “Favorável à pacífica convivência entre religiões diversas é a laicidade do Estado”. A economia com visão humanista é mais um item: “O futuro exige visão humanista da economia, evitando elitismos e erradicando a pobreza”. E isso só pode ser feito com o respeito a ideias e posturas alheias: “Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível – o diálogo”.
Francisco prometeu voltar em 2017. Deus queira que até lá as sementes luminosas que semeou tenham germinado aqui.

ELIÂNICAS

Quem não chora não mama
Eliane Cantanhêde - FSP
BRASÍLIA - Os deputados e senadores tiraram uns dias de recesso branco, foram às suas bases e captaram "in loco" o mau humor do cidadão, que acaba de abater mais da metade da popularidade de Dilma.
Na volta ao Congresso, estarão mais preocupados em falar a língua dos seus eleitores do que em ouvir os apelos do Planalto. Ou seja: mais empenhados em votar projetos que tenham ressonância popular, mesmo que agridam os ouvidos da presidente e as contas do governo.
Por isso, Dilma abriu as burras para as emendas parlamentares, que fazem a festa e mudam votos no Congresso como varinhas de condão. É dando que se recebe, apesar de o Gilberto Carvalho usar o seu tom franciscano para jurar que não.
Enquanto Dilma libera R$ 2 bilhões em emendas para Suas Excelências em agosto, corta R$ 919 milhões das Forças Armadas e ninguém mais fala na compra dos caças da FAB. As autoridades cruzam os céus em jatinhos de ponta, mas os velhos Mirage da defesa nacional viram ferro-velho em dezembro.
A diferença é clara: as Forças Armadas não têm poder de fogo, mas o Congresso tem um canhão. Se o governo não atende os pleitos militares, eles ameaçam cortar um dia útil de trabalho por semana, levam um chega pra lá, batem continência e recuam. Já se o governo não se sujeita à manha dos políticos, eles negam voto aos projetos governistas e despejam nos antigovernistas. A economia não está uma maravilha, mas o Planalto abre os cofres e paga o preço.
Para corroborar que quem não chora não mama, Dilma foi ontem a São Paulo com um mimo de R$ 8 bilhões para o estratégico petista Fernando Haddad, que andava muito chorão, pedindo colo para o tucano Geraldo Alckmin.
Com popularidade alta e governo forte, ninguém chora e a conta fecha. Com popularidade ladeira abaixo e governo fraco, vem o chororô e abre-se um buraco sem fundo.
Ah! E quem paga a conta é você.


BC dos EUA mantém estímulos à economia
Decisão reduz turbulência nos mercados, após PIB americano surpreender; no Brasil, BC intervém 3 vezes no câmbio
Maior economia global cresce 1,7% no 2º tri; Bovespa reduz parte das perdas e fecha em queda de 0,67%
ANDERSON FIGO - FSP
A decisão do banco central americano (Fed), na tarde de ontem, de manter os estímulos econômicos reduziu as turbulências nos mercados, em um dia em que o PIB dos EUA surpreendeu e cresceu mais do que o esperado.
O órgão disse que os EUA crescem em "ritmo modesto" --em junho, falava em avanço "moderado"--, o que foi visto por alguns analistas como indicação de que o estímulo vai durar mais tempo.
Antes de o Fed anunciar a sua decisão, o BC brasileiro agiu três vezes para frear a valorização do dólar ante o real.
O que deu início às preocupações foi a divulgação na manhã de ontem de que o PIB americano do segundo trimestre foi mais forte do que esperavam os analistas.
O crescimento de 1,7% na taxa anualizada em relação aos três primeiros meses (ante estimativa de analistas de alta de 1%) despertou as preocupações de que o BC dos EUA iniciaria a desmontagem do programa de estímulo de compra mensal de US$ 85 bilhões em títulos do Tesouro americano.
Ou seja: encerraria a era do dinheiro barato, em que investidores pegavam dinheiro nos EUA com juro baixo e aplicavam em mercados mais arriscados, como os emergentes (Brasil, inclusive), mas com chance de retorno maior.
"Apenas a perspectiva de que isso deverá acontecer já está causando migração de recursos dos países emergentes para os EUA", diz Hamilton Alves, estrategista do BB Investimentos.
No Brasil, o dólar subiu em relação ao real e chegou a R$ 2,30, forçando o Banco Central a interferir três vezes para conter a alta da moeda.
À tarde, porém, o dólar perdeu força, depois de o banco central americano indicar que a ajuda vai continuar pelo menos por enquanto.
A moeda americana à vista, referência para as negociações no mercado financeiro, fechou em alta de 0,8%, a R$ 2,294 na venda --maior valor de fechamento desde 31 de março de 2009, quando ficou em R$ 2,310. Já dólar comercial, utilizado no comércio exterior, teve ligeira alta de 0,08%, para R$ 2,282.
O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, que operou boa parte do dia em baixa, foi para o positivo depois do anúncio do Fed, mas fechou o pregão com queda de 0,67%. Nos EUA, o Dow Jones, o principal da Bolsa de Nova York, fechou em queda de 0,14%, recuperando parte das perdas do dia.
Apesar de o PIB americano ter crescido mais que o esperado no segundo trimestre, o resultado dos três primeiros meses foi menor do que mostrava a estimativa anterior: alta de 1,1%, 0,7 ponto menos do que fora divulgado.
Como parte de uma grande revisão (o PIB desde 1929 foi recalculado), o crescimento do ano passado foi estimado em 2,8% --a projeção anterior era de 2,2%.
Já a recessão de 2007 a 2009 foi mais branda: queda de 2,9%, 0,3 ponto menor que o cálculo inicial.
Desafio americano é acelerar a economia sem o 'dinheiro barato'
Mesmo com apoio do Fed, crescimento dos últimos trimestres é modesto para derrubar o desemprego
O avanço dos últimos quatro trimestres é modesto e Insuficiente para derrubar o desemprego
ÁLVARO FAGUNDES - FSP
O resultado do PIB americano no segundo trimestre mostrou uma economia com crescimento mais forte que o esperado, mas ainda insuficiente e com um enorme desafio para o governo de Barack Obama: acelerar o ritmo quando for extinta pelo Fed (banco central americano) a "era do dinheiro barato".
O avanço de 1,7% foi maior que o esperado por analistas (estimavam algo em torno de 1%), mas é preciso levar em conta que o avanço dos primeiros três meses deste ano foi menor do que apontavam os cálculos anteriores do governo: de 1,8% ficou em 1,1%. Ou seja, na média do semestre, ficou tudo na mesma.
Mesmo considerando que o crescimento de 2012 foi revisado para cima (de 2,2% para 2,8%), a média do avanço dos últimos quatro trimestres é modesta: 1,4%. Insuficiente para derrubar de modo significativo o desemprego, que ficou em 7,6% em junho.
A expectativa é que o segundo semestre seja mais positivo, já que alguns setores da economia, como o imobiliário, vêm demonstrando melhoras significativas.
A grande questão é se a economia vai realmente acelerar seu ritmo de modo mais firme quando o BC americano retirar seus estímulos.
O Fed já sinalizou que vai começar a desmontar o programa de compra mensal de US$ 85 bilhões de títulos do Tesouro quando a economia crescer de modo mais forte. Esse programa visa reduzir os juros da economia e estimular os gastos dos consumidores e o investimento.
Nas vezes anteriores em que o Fed acabou com um programa de estímulo (a atual é a terceira rodada desde 2008), teve de voltar atrás porque a economia logo retornou para um ritmo morno.
Neste momento, a economia mostra os melhores sinais desde o fim da crise, em 2009, o que eleva as chances de o programa começar a ser desmontado ainda neste ano.
Porém, o cenário externo está muito mais nebuloso, o que vai dificultar a vida do setor exportador americano (além da valorização do dólar, que tira a competitividade no cenário externo).
A economia chinesa (segundo maior destino das exportações americanas e principal fornecedor de produtos baratos) vem perdendo fôlego, assim como grande parte dos emergentes, o Brasil inclusive, e tudo indica que acabou a era de crescimento acima de 10% --o número agora parece mais perto de 7%.
A Europa mostra sinais apenas tímidos de recuperação, e o Japão tenta voltar a ser um competidor no mercado externo, com a desvalorização da moeda local, o iene.
Resta saber se o consumo interno americano vai ser suficiente para compensar a perda no front externo e se esse é o modelo ideal de crescimento, uma vez que Obama prometeu abandoná-lo.

Resgatando Cabral
Com a pior avaliação entre governadores e protestos que exigem sua saída até em SP, o governador lança pacote de bondades e agora faz declarações de humildade
ITALO NOGUEIRA/LETÍCIA SANDER/MARCO ANTÔNIO MARTIN - FSP
Os dias têm sido de muitas reuniões no Palácio Guanabara, sede do governo do Rio. É nesses encontros que Sérgio Cabral (PMDB) tenta reencontrar o caminho que o levou a ser reeleito, em 2010, com o maior percentual de votos entre os governadores.
A situação mudou. Cabral foi o governante mais mal avaliado do país em recente pesquisa Ibope e é alvo de protestos quase diários de manifestantes que pedem seu afastamento.
Agora o PMDB do Rio quer usar as inserções do partido na televisão previstas para a segunda semana de agosto para tentar recuperar a imagem de Cabral.
"Defendo que ele apareça no fim das inserções. Vivemos um momento de recuperação da imagem do governo", disse o presidente do PMDB do Rio, Jorge Picciani. O PMDB nacional havia decidido expor seus potenciais candidatos nos Estados. Assim, o espaço seria ocupado pelo vice Luiz Fernando Pezão (PMDB), pré-candidato à sucessão.
Mas há quem tema uma superexposição do governador. O partido deve bater o martelo nos próximos dias. Se aprovadas, as inserções com Cabral serão reforçadas por uma maciça campanha institucional, que deve ir ao ar na segunda quinzena de agosto.

ISOLAMENTO

Cabral tem recebido poucos gestos de apoio. Até aliados dizem que ele está pagando o preço do isolamento político a que se submeteu desde que foi reeleito.
Líder do maior colégio eleitoral governado pelo PMDB, ele nunca cultivou boas relações com a cúpula do partido e sempre foi visto como um rival do atual presidente do partido e vice-presidente da República, Michel Temer.
Além disso, mantém relação protocolar com a presidente Dilma Rousseff. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva virou seu amigo pessoal, mas não veio a público para defendê-lo desde que a crise se agravou no Estado.
Picciani costura acordo para garantir que parlamentares aliados ajudem a derrubar propostas de CPI que deverão ser apresentadas hoje com a volta do recesso.

CPI SOBRE AS OBRAS

A mais temida é a chamada CPI da Serra, que apuraria as obras na região serrana do Rio de Janeiro. O receio é que ela atinja o vice Pezão, condutor das obras na região.
Ontem Cabral convidou deputados aliados para uma reunião no Palácio Guanabara. Cinco deles disseram à Folha que pretendem ajudar nas votações na Assembleia, mas sem atrelar sua imagem ao governador.
A estratégia para tentar estancar a atual crise também passa por mudanças no perfil dos compromissos do governador. Sua equipe definiu que ele deve se expor, dialogar mais, e abrir espaço até para os manifestantes que o pressionam a deixar o cargo. A ideia é aproximá-lo do modelo adotado pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB).
"O Rio sempre foi um cemitério de governantes. O Cabral era, até hoje, uma exceção", afirmou o líder do PMDB na Câmara federal, Eduardo Cunha (RJ).

MUDANÇAS

As mudanças já começaram a ser ensaiadas nas últimas semanas. Cabral, que vinha num período recluso, deu entrevista em que reconheceu ter lhe faltado "humildade" e disse "não ser um ditador".
Além disso, se encontrou com a família do pedreiro Amarildo Dias, desaparecido na Rocinha depois de ter passado pela sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na favela, recuou na decisão de demolir o parque aquático Julio Delamare e pode fazer o mesmo com o estádio de atletismo Célio de Barros.
O ato mais recente se deu longe das câmeras. Na noite de terça-feira, os pais da menina Isabela Severo da Silva, morta no vazamento de uma adutora da Cedae, foram levados até o Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador.
Fizeram uma foto ao lado de Cabral e saíram de lá com a promessa de que ganhariam uma casa nova.
Após bater R$ 2,30, dólar fecha estável com leilão do BC
Durante a manhã, o dólar chegou a registrar alta de quase 1%. Neste período, o BC realizou três leilões de swap cambial tradicional
VEJA/Reuters
Dólares
Cédulas de dólar (Divulgação)
O dólar fechou perto da estabilidade ante o real nesta quarta-feira após sessão de ampla volatilidade. A moeda americana chegou a ser negociada a 2,30 reais, com o Banco Central atuando três vezes para conter a valorização da divisa. Também influenciou o dia o fato de o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) não ter dado mais sinais de que reduzirá seu estímulo monetário em breve.
O dólar fechou com leve alta de 0,08%, a 2,2824 reais na venda. Na máxima do dia, chegou a 2,3029 reais. Em julho, a divisa acumulou alta de 2,27% e, desde maio, de 14%.
A moeda norte-americana segue valorizada pelo terceiro mês consecutivo e os analistas continuam afirmando que seu viés é de alta, mas sem tanta força. A perspectiva é que o BC continue em ação para evitar mais pressões sobre a inflação.
"Não vejo uma alta tão forte do dólar no futuro próximo. Com certeza o viés é mais de alta do que de baixa, mas não é uma alta tão expressiva", afirmou Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global.
Durante a manhã, o dólar chegou a registrar alta de quase 1%. Neste período, o BC realizou três leilões de swap cambial tradicional (equivalente a venda de dólares no mercado futuro), numa atuação que não fazia há mais de uma década. A última vez que a autoridade monetária fez três leilões de swap tradicional num mesmo dia foi em agosto de 2002 e, segundo operadores, a ação agora serviu para tentar segurar a cotação.
"O BC quer manter o câmbio por volta de 2,20 ou 2,30 reais para evitar uma pressão indesejável sobre a inflação ao longo dos próximos meses", afirmou Velho, ressaltando que a autoridade monetária pode recorrer a atuações mais incisivas, como ofertas de dólares no mercado à vista, para conter a valorização do dólar.
"Essa é a grande pergunta: se o BC vai conseguir o dólar nesse nível. Eu acho que no curto prazo ele consegue, porque ainda tem ferramentas para fazer isso", acrescentou ele.
Leilões - No primeiro leilão, o BC vendeu o lote integral de 30 mil contratos de swaps e, no segundo, ofertou a mesma quantidade e vendeu pouco mais da metade. Logo em seguida, anunciou que faria outro leilão, mas de 15 mil contratos, e acabou não vendendo nenhum deles. Mesmo assim, a moeda continuou a operar em alta.
O dólar anulou os ganhos durante a tarde após o Fed informar que a economia americana continua se recuperando - com estímulos e sem indicações de que uma redução iminente no ritmo de aquisição de ativos.
A notícia aliviou expectativas de menor liquidez mundial, que de manhã pesavam sobre os mercados diante dos dados que mostraram que a economia dos EUA expandiu mais do que o esperado.
"Como o Fed mantém o incentivo monetário, o dólar tende a cair. Além disso, o BC fez três leilões de swap cambial. É uma somatória de notícias para derrubar o dólar", afirmou o operador de uma corretora brasileira.
As velharias ideológicas agrupadas no Foro de São Paulo querem construir o futuro com os escombros do Muro do Berlim
Augusto Nunes -VEJA

No vídeo que ilustra o post republicado na seção Vale Reprise, Hugo Chávez conta que conheceu os companheiros Raul Reyes e Lula em 1995, durante a reunião do Foro de São Paulo realizada em San Salvador. Reyes, o número 2 na hierarquia das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas, estava lá como representante do bando que nasceu sonhando com o paraíso comunista e, há pelo menos 20 anos, sobrevive explorando o narcotráfico. Lula, então convalescendo da primeira derrota para Fernando Henrique Cardoso e já a caminho da segunda, baixara na capital de El Salvador para falar em nome do Partido dos Trabalhadores.
Gravado em 2008, o vídeo transformou-se numa prova contundente de que, ao contrário do que recitaram desde sempre os chefes do PT, as Farc são sócias fundadoras da confraria concebida por Fidel Castro para mostrar, uma vez por ano, que o comunista não é uma espécie extinta. Como nenhuma prova é suficientemente irrefutável para mentirosos patológicos, os pontapés na verdade prosseguiram. Assim que começa a quermesse anual dos órfãos da União Soviética, algum companheiro é escalado para jurar que as Farc jamais participaram do Foro.
Nestes dias, os sacerdotes da seita lulopetista estarão trocando afagos públicos com lhamas-de-franja, viúvas-de-tango, filhotes-de-passarinho, ditadores-de-adidas e outras obscenidades cucarachas. Mas vão fingir que não viram nem de longe alguém procedente da selva colombiana. Nos bordéis de antigamente, as prostitutas topavam tudo, menos beijo na boca. No cabaré das velharias ideológicas, o PT topa qualquer ligação promíscua, aprova qualquer perversão. Mas só anda de mãos dadas com as FARC sem testemunhas por perto.
É no Foro de São Paulo que a turma mostra a cara. A exemplo dos parceiros, o PT nem tenta camuflar o desprezo pelo Estado Democrático de Direito, a certeza de que os fins justificam os meios, a ojeriza aos princípios éticos, a obsessão pelo poder e o sonho do partido único. Na segunda década do século 21, os stalinistas farofeiros não desistiram de construir o futuro com os escombros do Muro de Berlim.
PM endurece tática contra manifestantes
Presos em protesto contra Alckmin são acusados de formação de quadrilha; medida retarda libertação de suspeitos
Ato terminou em depredação de banco e loja de carros; 5 detidos teriam apedrejado veículo da Rota
RICARDO GALLO - FSP
A Polícia Civil recorreu a uma estratégia para manter presos 5 dos 20 manifestantes detidos anteontem após protesto na avenida Rebouças, em São Paulo: acusou-os de formação de quadrilha, um crime inafiançável.
Os cinco --dos quais um designer e quatro estudantes de primeiro e segundo graus-- são acusados de jogar pedras contra um carro da Rota, da Polícia Militar.
O protesto foi marcado por vandalismo de pessoas mascaradas contra agências bancárias e uma loja de carros, mas ninguém foi apontado individualmente como responsável por esses crimes.
Os cinco estão detidos em unidades prisionais para presos provisórios na capital paulista. A defesa deles entrou ontem com pedido de liberdade provisória ou relaxamento do flagrante --a decisão da Justiça deve sair hoje.
O designer gráfico Thiago Frias, 31, de Pinheiros (zona oeste) e o estudante Francisco Lopes, 20, de Santa Cecília (centro), são acusados de dano qualificado por supostamente terem atirado as pedras. Amigos de Thiago dizem que ele foi preso enquanto estava sentado, após a polícia lançar gás lacrimogêneo.
Os estudantes Andressa Santos, 19, do Grajaú (extremo sul), Nicolas de Deus, 20, da Vila Carrão (zona leste) e Bruno Soares, 19, que é de Paulista (Pernambuco), respondem por tentar atirar pedras (tentativa de dano) no carro da PM, diz o registro da ocorrência na delegacia.
Os cinco também foram acusados de xingar policiais de "assassinos do Alckmin" e de resistir à prisão.
Com eles foram apreendidos vinagre, pincel atômico, leite de magnésio, máscara de proteção e um celular.
Luiz Guilherme Ferreira, que defende os cinco, disse que o grupo não se conhecia, o que, diz, desqualifica a acusação de formação de quadrilha. Ferreira nega que eles tenham atirado as pedras.
Segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública, os delegados têm autonomia para classificar os casos da maneira mais apropriada na lei e que a Justiça decidirá se a interpretação é correta.
A Folha apurou que a estratégia de delegados de prender por formação de quadrilha é um modo de endurecer contra manifestantes.
O mesmo havia sido feito em junho, após protesto contra o aumento das tarifas de transporte. Na ocasião, 13 pessoas foram presas por formação de quadrilha --12 delas soltas porque a Justiça disse não haver provas.

PROVAS

A manifestação de anteontem foi marcada pela depredação de agências bancárias e de uma loja de carros por pessoas mascaradas. Eles integravam o protesto, que pedia a desmilitarização da PM e criticava o governador Geraldo Alckmin (PSDB).
A PM deteve outras 15 pessoas suspeitas de participar dos atos de depredação. Com um deles, foi apreendido um martelo. Mas todos foram liberados porque os próprios policiais que os detiveram afirmaram que não era possível "apontar nenhum dos averiguados como autores do delito, tornando inviável a individualização da conduta".
A PM vai analisar imagens de câmeras de segurança para identificar vândalos.
Um dos detidos e depois liberados foi Victor Oliveira, 21, aluno de história da USP. Ele disse ter participado da manifestação e que foi abordado de forma "aleatória" pela polícia. Ele nega ter atacado as agências e diz não integrar os "black blocs", grupo acusado de articular os ataques.

"ME ENGANA QUE EU GOSTO"

Ministro nega 'toma lá, dá cá' com Congresso
Segundo Carvalho, dinheiro das emendas não vai para os políticos, mas sim para projetos que beneficiam a população
Dilma cobra ministros para que acelerem a reserva de recursos para as emendas de deputados e senadores
FERNANDA ODILLA, NATUZA NERY E TAI NALON - FSP
Um dia após o governo anunciar a liberação de R$ 2 bilhões para conter um motim de aliados no Congresso, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) disse ontem que emendas parlamentares não representam "uma relação meramente de toma lá, dá cá' ou fisiologismo" entre Executivo e Legislativo.
Carvalho reconheceu que a liberação das emendas é uma consequência do movimento de reaproximação do governo com o Congresso. Mas, para o ministro, é preciso "descriminalizar" o conceito de emendas parlamentares.
"Não podemos usar sempre essa linguagem ou esse preconceito de que qualquer emenda é apenas troca, é apenas uma forma do parlamentar desviar recursos. É essa criminalização que leva muitas vezes as pessoas a começarem a achar que todo político é bandido, todo político desvia recursos. Isso não é verdade no nosso país."
Ele afirmou que o dinheiro das emendas não vai para os políticos, mas para projetos que atendem a população: "Isso é possível fazer de maneira madura, sem essa visão rebaixada de uma relação meramente toma lá, dá cá ou fisiológica".
Diante da aparente contradição entre liberação de emendas parlamentares e do anúncio de um corte orçamentário de R$ 38 bilhões, o ministro indicou que as emendas também podem ser sacrificadas em algum grau.
"Quando se faz um corte orçamentário, você corta parcialmente recursos de cada uma das áreas de governo, as emendas fazem parte desse processo."
A ideia do governo é liberar R$ 6 bilhões em emendas parlamentares até o fim do ano para acalmar os ânimos da base aliada no Congresso.
Com a liberação de R$ 2 bilhões de imediato, a presidente Dilma Rousseff espera reduzir os riscos de derrota em votações prometidas para agosto, às vésperas da retomada dos trabalhos no Congresso, e com sua base parlamentar rebelada.
Dilma cobrou ontem seus ministros para que acelerem o empenho das chamadas emendas de deputados e senadores. No jargão orçamentário, empenho é quando o governo, por meio de seus ministérios e outros órgãos, reserva recursos para determinadas obras, passo anterior à liberação de verbas para municípios.
MÁQUINA LENTA
Durante um evento com catadores de papel no Planalto e ao som de uma buzina de manifestantes que protestavam na porta do palácio, o ministro Gilberto Carvalho reconheceu ontem que a máquina do governo é lenta.
"A melhor buzina é a da pressão, das causas justas que precisam de urgência e nem sempre a gente consegue responder com muita urgência", disse, enquanto papiloscopistas pediam a sanção do projeto de carreira.
Herança maldita
Alan Gripp - FSP
SÃO PAULO - O roteiro é manjado. O protesto, seja lá contra o que for, começa pacífico até que um grupo mascarado, como se atendesse a um comando único, toma a frente da marcha e começa a quebrar tudo o que surge pela frente.
"Chegaram os black blocs'", costuma-se ouvir entre os manifestantes, num tom que mistura medo e um certo glamour da violência.
O "black bloc", na verdade, não é um movimento, e sim uma estratégia de protesto anarquista. Seus adeptos cobrem o rosto e se vestem de preto para dificultar a identificação e a fim de parecer uma massa única, criando uma aura revolucionária.
Esse método apareceu nos protestos antiglobalização no fim da década de 1990. Símbolos capitalistas são os alvos preferidos, mas a versão tupiniquim tem especial atração por semáforos, radares, cabines da PM e outros equipamentos públicos.
Por aqui, seus adeptos deram as caras nos primeiros atos pela redução da tarifa de ônibus, em São Paulo. De lá para cá, entretanto, muita coisa mudou. Os "black blocs", especialmente paulistas e cariocas, crescem em progressão geométrica, estão sempre preparados para a guerra e já organizam as suas pró- prias manifestações.
Anteontem, na avenida Rebouças, portavam martelos e marretas, usados para quebrar agências bancárias e carros de luxo de uma loja.
Há três semanas, num ato contra a TV Globo, usaram laptops e projetores para exibir mensagens gigantes nas fachadas de prédios.
Nesse mesmo dia, em "assembleia" assistida pela Folha, discutiram táticas para escapar da polícia, entre elas hospedar sites em servidores da Rússia ou de Taiwan, "impossíveis de derrubar".
As "vozes das ruas" produziram conquistas inegáveis. A principal delas foi dar à classe política a sensação de estar sendo constantemente vigiada. Nesse balanço, porém, pode-se dizer que os "black blocs" são a herança maldita dos protestos.