quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Por que Renan deve ser o presidente do Senado pela segunda vez? Ou: Um homem e as NOSSAS circunstâncias
Reinaldo Azevedo - VEJA
Por que Renan Calheiros (AL), apesar de sua biografia — e temo que possa ser “por causa dela” —, deve ser o presidente do Senado pela segunda vez? Uma coisa se pode dizer com absoluta certeza: essa cadeira ele não vai roubar de ninguém. Se chegar ao posto, mesmo depois de ter sido obrigado a renunciar a ele, não será como um usurpador, senão, isto sim, como um ungido pela maioria — que, então, merece tê-lo naquele lugar. E essa maioria também não foi nomeada por um ditador; não é constituída pelos famigerados “senadores biônicos” do Pacote de Abril, de Geisel (quem ainda se lembra?). Nada disso! Os eleitores de Renan foram eleitos por Sua Majestade o povo. Nas democracias, no que concerne à política, é raro que o povo tenha menos do que aquilo que merece, entendem?
Eu já disse mais de uma vez o que penso de Renan Calheiros. Também expliquei por que as oposições, o PSDB em particular, só têm uma coisa decente a fazer — votar em Pedro Taques (PDT-MT), mesmo para perder. Parece que os tucanos podem ir por esse caminho; podem votar em Taques, mas notem que o partido não move uma palha para criar, assim, uma espécie de movimento. É que, se Renan vencer, também não é tão mau assim. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) o convidou a retirar a sua candidatura. Renan agradeceu, mas não aceitou o convite…
A verdade dramática, meus caros, é que, independentemente do que achemos de Renan e do que sabemos de sua trajetória, ele não é uma marginal na Casa. Ao contrário: é uma de suas estrelas mais reluzentes. Isso fala um tanto sobre o Senado, mas também sobre a política e as escolhas populares, ora essa! Jaqueira não dá maçãs. E Renan está aí não é de hoje, certo? Foi homem forte de Fernando Collor por algum tempo. Rompeu. Chegou a ser ministro de FHC — da Justiça! Quando o PMDB se bandeou para o petismo, procurou ser um fiel escudeiro da causa, mas sem jamais se descuidar dos interesses do seu partido.
Presidencialismo de coalizaçãoRenan Calheiros presidindo o Senado pela segunda vez é fruto desse tal “presidencialismo de coalizão”, que seduz tantos pensadores no Brasil e é considerado um fator de estabilidade da política. “Pô, mas não poderiam ter arrumado um nome melhor?” Bem, é ele que unifica os interesses da federação peemedebista, um dos pilares do governo federal no Congresso — mais importante para o PT do que era para FHC, que tinha um PFL forte.
Muitos dos analisas que ficam horrorizados com Renan — e por bons motivos — são, por exemplo, críticos azedos dos republicanos dos EUA, que estariam interessados em impedir Santo Barack Obama de governar. Pois é… Por lá, os Renans e Sarneys não rendem frutos porque a política é pão, pão, pasta de amendoim, pasta de amendoim. Por aqui, temos a conciliação como um vício, e a clareza é considerada coisa de gente de maus bofes. No Brasil, a raposa política que sempre se dá bem, que sempre está no poder, que sempre está por cima é vista como expressão da sagacidade.
Vejam o tratamento que certa imprensa tem dispensado a José Serra, por exemplo. Há quem goste dele, há quem não goste — e não há novidade nisso; assim é com todo mundo. Mas não se pode dizer que o homem ora está lá, ora está cá. Ao contrário: certa fama de intransigência o acompanha. Perdeu e ganhou eleições. Quando perde, fica fora do poder. Quando ganha, ele o exerce. Nunca pôde ser um Sarney — que é governo desde a era a Juscelino — ou mesmo um Renan Calheiros. Dia desses, uma charge bucéfala num jornal o caracterizava entre as coisas fora de moda. A convicção caiu da moda. Não é coisa de espertos.
Eu posso, sim — e mais alguns tantos, mas não muitos — , lastimar que Renan chegue à Presidência do Senado pela segunda vez porque, em política, eu acho que a ausência de confronto e a permanente conciliação criam o ambiente ideal para a prosperidade dos maus representantes do povo. Eu gosto de clareza e de gente que ou é palmeirense ou é corintiana; ou é vascaína ou é flamenguista. Acredito, aliás, e já disse isto aqui, que o pluripartidarismo é mais expressão de atraso do que de progresso. “Ah, gostava da ditadura, com Arena e MDB”. Não gostava, não! Apanhei e fui fichado. Eu defendo a polarização em regimes democráticos. Podem ver: países atrasados costumam ter partidos e instrumentos de percussão em excesso… Pronto! Lá vem bronca de gente que não entende piada…
Eu lamento a possibilidade, quase a certeza, de que Renan chegue à Presidência do Senado pela segunda vez. Mas ele não surge do nada. É a expressão do que os brasileiros fizeram até aqui com a sua democracia.

 

Lula e a falência da 'Doutrina Garcia'
Demétrio Magnoli * - OESP
Lula sabe mais que os "intelectuais progressistas" reunidos em seu instituto para, nas palavras do assessor Luiz Dulci, "definir um plano de trabalho para o desenvolvimento e integração" da América Latina. Há muito reduzidos à condição de intelectuais palacianos, os convidados celebraram os "avanços" na integração regional e a miraculosa clarividência do ex-presidente. O anfitrião, contudo, pediu-lhes algo diferente da bajulação habitual: a formulação de uma "doutrina" da integração latino-americana. No 11.º ano de poder lulista, o pedido traz implícito o reconhecimento de um fracasso estrondoso de política externa - e da crise regional que se avizinha.
"Não tem explicação, depois de mais de 500 anos, eu inaugurar a primeira ponte entre Brasil e Bolívia; não em explicação, depois de mais de 500 anos, eu inaugurar a primeira ponte entre Brasil e Peru", proclamou o ex-presidente, sem ser corrigido por nenhum dos intelectuais que decoravam o ambiente. O trem inaugural da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré chegou a Guajará-Mirim em abril de 1912. Os presidentes Café Filho e Paz Estenssoro inauguraram a Estrada de Ferro Brasil-Bolívia, em Santa Cruz de La Sierra, em janeiro de 1955. A Ponte da Amizade, sobre o Rio Paraná, uma ousada obra de engenharia, foi inaugurada em 1965, conectando o Paraguai às rodovias brasileiras e ao Porto de Paranaguá. As pontes que Lula inaugurou estavam previstas na Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), aprovada na conferência de chefes de Estado de Brasília, em 2000, no governo FHC. De lá para cá, sob o lulismo, integração regional converteu-se em eufemismo para alianças políticas entre governantes "progressistas".
Desde 2003, com a nomeação de Marco Aurélio Garcia como assessor especial da Presidência, a política brasileira para a América Latina foi transferida da alçada do Itamaraty para a do lulopetismo, impregnando-se de reminiscências políticas antiamericanas, terceiro-mundistas e castristas. O coquetel conduziu-nos ao impasse atual, que Lula é capaz de identificar mesmo se tenta disfarçá-lo pelo recurso à bazófia autocongratulatória.
A "Doutrina Garcia" rejeita a ideia de livre-comércio, que funcionou como pilar original do Mercosul. A Argentina dos Kirchners aproveitou-se disso para violar sistematicamente as regras do Mercosul, desmontando o edifício da zona de livre-comércio. No seu instituto, Lula denunciou a "preocupação maior de relação preferencial com os EUA ou com a Europa ou com qualquer um, menos entre nós mesmos". Entretanto, na celebrada última década, a América Latina não aprofundou o comércio intrarregional, limitando-se a estabelecer uma "relação preferencial" com a China, que absorve nossas exportações de commodities. O primitivismo ideológico impede até mesmo a conclusão de um tratado comercial Brasil-México, elemento indispensável em qualquer projeto de integração latino-americana.
A "Doutrina Garcia" acalenta a utopia de uma integração impulsionada por investimentos estatais e de grandes empresas financiadas por recursos públicos. Contudo a estratégia de expansão regional do "capitalismo de Estado" brasileiro esbarrou nas resistências nacionalistas de argentinos, bolivianos e equatorianos, que assestaram sucessivos golpes em negócios conduzidos pela Petrobrás e por construtoras beneficiadas por empréstimos privilegiados do BNDES. Numa dessas amargas ironias da História, o espectro do "imperialismo brasileiro" reemergiu como acusação dirigida por líderes latino-americanos "progressistas" contra o governo "progressista" de Lula.
A "Doutrina Garcia" almeja promover a liderança regional do Brasil, preservar o regime autoritário cubano e erguer uma barreira geopolítica entre América Latina e EUA. Em busca da primeira meta, o Brasil colidiu com as pretensões concorrentes da Venezuela de Hugo Chávez, que criou a Aliança Bolivariana das Américas (Alba). A concorrência entre o lulopetismo e o chavismo paralisa a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), esvaziando de conteúdo suas reuniões de cúpula. Em busca das outras duas metas, que compartilha com o chavismo, o Brasil ajudou a converter a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) numa ferramenta de proteção da ditadura castrista e de desmoralização da Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos (OEA). Dias atrás, Cristina Kirchner definiu a ascensão de Cuba à presidência rotativa da Celac como o marco de "uma nova época na América Latina". Ela tem razão: é o fim da curta época na qual os Estados da região levaram a sério seus proclamados compromissos com os direitos humanos e as liberdades públicas.
Distraídos, os intelectuais palacianos nada perceberam, mas a falência da "Doutrina Garcia" foi registrada no radar de Lula. De um lado, abaixo do celofane brilhante da Unasul e da Celac, desenvolve-se um processo que deveria ser batizado como a desintegração da América Latina. A principal evidência disso se encontra na emergência da Aliança do Pacífico, uma área de livre-comércio formada sem alarido por México, Colômbia, Chile e Peru, aos quais podem se juntar o Panamá e outros países centro-americanos. De outro, lenta, mas inexoravelmente, desmorona a ordem castrista em Cuba, aproxima-se uma incerta transição na Venezuela chavista e dissolve-se o consenso político kirchnerista na Argentina. Quando clama por uma nova "doutrina" da integração latino-americana, o ex-presidente revela aguda consciência da encruzilhada em que se colocou a política externa brasileira.
A consciência de um problema é condição necessária, mas não suficiente, para formular suas possíveis soluções. Lula e seu cortejo de intelectuais não encontrarão uma "doutrina" substituta sem lançar ao mar o lastro de anacronismos ideológicos do lulopetismo. Isso, porém, eles não farão.
* Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail: demetrio.magnoli@uol.com.br.

Aumento de empregos em Wall Street causa inveja no deprimido centro financeiro de Londres
Marc Roche - Le Monde
Seth Wenig/AP
31.dez.2012 - Corretor de Wall Street usa óculos comemorativo do Réveillon durante seu último expediente do ano no centro de Nova York (EUA)
31.dez.2012 - Corretor de Wall Street usa óculos comemorativo do Réveillon durante seu último expediente do ano no centro de Nova York (EUA)
A felicidade de Wall Street faz a infelicidade da City, sua rival na corrida pela liderança financeira mundial. Para além da relação transatlântica exaltada pelos discursos oficiais, em questões financeiras, as vitórias americanas são derrotas britânicas. E vice-versa. É fato, a melhora nova-iorquina deprime a City.
"De 80% a 90% da volta de Wall Street é guiada pelo mercado interno americano. Verdadeiro centro internacional, a City evolui independentemente do que ocorre no país. Ela é vulnerável aos acontecimentos externos sobre os quais ela não tem influência, como a crise da zona do euro", afirma Peter Hahn, professor de finanças na Cass Business School.
Em 2012, segundo um estudo do Centre for Economics and Business Research, Nova York voltou a ultrapassar a capital britânica em termos de empregos nos serviços financeiros. O suficiente para deprimir a City, ainda mais por ser um momento de corte de postos nos bancos americanos, que estão repatriando seus funcionários do outro lado do Atlântico. A queda da libra esterlina, na qual são pagos salários e bônus dos expatriados americanos, não ajudou em nada.
A relação "especial" entre o Reino Unido e sua filha mais velha foi bastante abalada. Wall Street ficou chocada com a intervenção bruta das autoridades britânicas nos escândalos que mancharam as filiais londrinas de renomadas marcas americanas. Como as enormes perdas da "baleia" da JPMorgan ou a tentativa do Goldman Sachs de excluir seus bônus da tributação de Sua Majestade...
A City, por sua vez, aponta o papel-chave exercido pela Commodity Futures Trading Commission, o órgão regulador dos mercados futuros nos Estados Unidos, na imposição de pesadas multas ao Barclays e em breve ao Royal Bank of Scotland pelo escândalo da taxa Libor.

"Mundo interconectado"

Após o fracasso da fusão entre a Bolsa de Londres e a de Toronto, a City teme que seja transferida para a América do Norte a inclusão das companhias mineradoras da antiga URSS. Além disso, a compra em dezembro de 2012 da operadora NYSE-Euronext pela plataforma Intercontinental Exchange (ICE) reforça a influência americana sobre o mercado londrino dos derivados, o LIFFE.
Por fim, a controvérsia sobre a adesão britânica à União Europeia está destruindo a imagem de centralizadora europeia que a City construiu para si desde o Big Bang de 1986. O alerta do governo Obama contra uma saída do Reino Unido da UE estremeceu os hierarcas da Square Mile. Para acalmar a controvérsia, o primeiro-ministro David Cameron pronunciou seu discurso de 23 de janeiro sobre a Europa na sede londrina da agência de informações americana Bloomberg.
"No mundo interconectado de hoje, é ridículo que um centro financeiro tente afundar o outro. No caso de Londres, somente os serviços financeiros podem criar crescimento e empregos, e isso só pode ser feito colaborando com os outros centros": sem subestimar a ameaça vinda de Wall Street, Chris Cummings, diretor-geral da TheCityUK, órgão que promove as finanças britânicas, continua confiante. A City continua no controle do ramo das divisas, particularmente o euro, das matérias-primas e dos produtos derivados.
Tradutor: Lana Lim
Procurador de Nova York odeia dizer 'inocente' em casos polêmicos
Michael Powell - NYT                      
Magro, cabelo bem curto salpicado pelos fios grisalho da meia-idade, William Lopez caminha pela Jay Street vestido com jaqueta e calça cáqui e uma camisa branca desabotoada até o meio do peito. As sombras da tarde se transformaram em azul cobalto e o termômetro exibe míseros 7° Celsius. Lopez acena com um lenço. Ele inspira grandes golfadas de ar e o vapor de sua respiração rodeia o seu rosto. Ele olha em volta, com medo de que seu passeio possa acabar.
A descrença é compreensível. Lopez, de 54 anos, passou os últimos 23 anos na prisão, pagando por um assassinato que um juiz federal agora diz que ele nunca cometeu.
"É ótimo", diz Lopez "estar de volta à Terra".
A permanência de Lopez em terra firme dependerá de Charles J. Hynes, promotor público do Brooklyn, que precisa decidir se vai ou não entrar com um recurso para esse caso capenga ocorrido duas décadas atrás. Hynes diz que certamente irá recorrer. Questionado sobre a decisão do tribunal federal que denunciou seu gabinete, Hynes dá de ombros. "Isso são só críticas feitas a posteriori", diz ele. "O processo teve sérios problemas, assim como muitos julgamentos têm".
Hynes tem um longo e, em geral, honroso histórico. Ele foi pioneiro na criação de programas para jovens acusados de delitos relacionados a drogas, liberando-os da prisão. Dawn Ryan, advogada sênior da área de assistência jurídica, observa que a ênfase de Hynes ao tratamento dos criminosos e à sensibilização da comunidade "o coloca em uma posição muito superior" em relação a outros promotores. Mas o risco ocupacional que costuma afetar funcionários públicos muito antigos é o desenvolvimento da imunidade à dúvida.
Recentemente, Hynes esteve envolvido em uma série de casos de homens que cumpriram longas sentenças de prisão por crimes que não cometeram. Com a eleição deste ano se aproximando, ele se sentou para conversar sobre esses casos.
Questionado sobre Jabbar Collins, que cumpriu 16 anos pelo assassinato de um rabino antes de um juiz libertá-lo, Hynes insistiu: "Nós acreditamos que ele cometeu o crime". O caso ruiu e foi encerrado. Jabbar Collins entrou com uma ação de US$ 150 milhões pelos 15 anos que passou na prisão.
Em relação a Ronald de Bozeman, 65, que foi solto no ano passado após cumprir um ano por acusações que o próprio Hynes reconheceu como sendo infundadas, o promotor insistiu que "foi a nossa investigação que revelou os problemas". Essa explicação exige que se ignore a demora de meses para que o gabinete de Hynes entregasse as informações ao advogado de defesa.
E também há Lopez. O juiz federal dos Estados Unidos Nicholas G. Garaufis começou a leitura de sua decisão: "O caso de William Lopez começou há 23 anos. E ele se mostrou cheio de furos desde o primeiro dia". O juiz escreveu: "Para começar, as provas da acusação eram frágeis e, desde então, elas foram reduzidas a escombros por fatos que surgiram após o julgamento".
Lopez, que era viciado em drogas pesadas, foi acusado de entrar em uma casa que reúne usuários de crack, em Brighton Beach, e atirar no estômago de um traficante com uma espingarda. Seu caso foi marcado por problemas. Testemunhas que podiam confirmar o álibi de Lopez nunca foram chamadas a depor. Não havia arma do crime nem prova pericial.
O caso contou com duas testemunhas. Uma traficante de drogas descreveu um atirador com aproximadamente 1,90 m de altura. Segundo o testemunho dessa traficante, o criminoso tinha "a pele escura, era alto, moreno, negro".
Lopez tem cerca de 1,70 m e pele bem branca. A outra testemunha era uma prostituta e usuária pesada de crack. Duas horas antes do crime, ela havia consumido de 10 a 12 frascos (pequenos tubos de plástico que acondicionam a droga comercializada nos EUA) de crack. Ela alterou seu depoimento algumas vezes e, dependendo da ocasião, disse que viu ou que ouviu o disparo.
Ao chegar à prisão de Rikers Island, ela disse a sua companheira de cela que havia inventado tudo. Ela disse que havia preparado uma armadilha para o traficante morto e que um amigo dela o matou.
O promotor só forneceu essa informação ao advogado de defesa quando o júri já havia emitido seu veredicto. Após a condenação de Lopez, o advogado dele teve que passar por uma cirurgia de coração. Por isso, outro advogado, Irving Anolik, entrou no caso. Ele disse ao juiz estadual que estava "totalmente despreparado" para lidar com a leitura da sentença. O juiz rejeitou essa objeção.
No fim do outono passado, o advogado responsável por apresentar os recursos de Lopez, Richard Levitt, localizou um ex-traficante que mora na República Dominicana. Esse homem estava na casa de crack naquela noite, testemunhou o assassinato e declarou que tinha "certeza" de que Lopez não era o assassino.
Os anos 1980 foram um período banhado de sangue. Não é de estranhar que alguns jurados possam ter decidido mandar alguns homens para a prisão baseados em fiapos de provas.
Mas a insistência Hynes em ignorar as cicatrizes constrangedoras desse caso é difícil de compreender. O juiz "não gostou do caso", disse ele, acrescentando: "Mas as provas não têm a ver com o que se gosta ou não".
Por que, eu pergunto a Hynes, recorrer em um caso tão ruim quanto esse? Lopez teve um comportamento exemplar na prisão. Há uma forte probabilidade de ele ser inocente – e uma probabilidade maior ainda de que nenhum júri vá condená-lo novamente.
Hynes dá de ombros. "Por quê? Porque devemos respeitar o Estado de Direito", diz ele. O bom senso não entra nessa história.
Merkel: Cumplicidade do povo alemão levou ao nazismo
Alemanha lembrou nesta quarta-feira os 80 anos da ascensão de Adolf Hitler ao poder
O Globo 

Merkel inaugura mostra de 80 anos da nomeação do Führer
Foto: JOHN MACDOUGALL / AFP
Merkel inaugura mostra de 80 anos da nomeação do Führer JOHN MACDOUGALL / AFPBERLIM - A Alemanha lembrou nesta quarta-feira os 80 anos da ascensão de Adolf Hitler ao poder com uma advertência da chanceler federal Angela Merkel. A memória do líder nazista, disse ela, é um alerta permanente para os alemães de que a democracia e a liberdade não podem ser dadas por garantidas. Merkel discursou na inauguração de uma exposição em Berlim sobre a nomeação de Hitler como chanceler em 30 de janeiro de 1933. O aniversário reavivou memórias do pior momento da História alemã.
- Os direitos humanos não se preservam por si mesmos, assim como a liberdade e a democracia não se impõem sozinhas. Isso deve ser um aviso constante para nós - opinou Merkel.
Segundo a chanceler, ninguém imaginava que “um pintor austríaco fracassado, autor de um livro de ideias simplistas, fosse permanecer durante anos no poder”. Ela afirmou, porém, que Hitler levou apenas seis meses para acabar com a diversidade da sociedade alemã.
- Isso só foi possível devido à cumplicidade e indiferença das elites e de boa parte do povo alemão - disse.
A mostra "Berlim 1933. No caminho para a ditadura" foi aberta ao público em um lugar polêmico da Segunda Guerra: a antiga sede da Gestapo, a polícia secreta do regime nazista. Na entrada, uma foto em preto e branco mostra Hitler fazendo o gesto de saudação do Terceiro Reich para uma multidão que o observava da janela da chancelaria após sua nomeação pelo presidente Paul von Hindenburg. O local deu origem à Topografia do Terror, um centro de documentação que reúne fotos, jornais e cartazes sobre os primeiros meses de Hitler no poder.
No mesmo dia da inauguração da mostra, deputados alemães recordaram a libertação do campo de concentração de Auschwitz, no dia 27 de janeiro de 1945, e homenagearam os mortos durante a ditadura nazista. As bandeiras da Alemanha e da União Europeia foram colocadas a meio mastro na frente do Parlamento.
theklamkid:

(via Backyard Retreat | Dwell)
Via Backyard Retreat | Dwell

Cliffs of Moher, Ireland (by laughlinc)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Brasileiros usam mais tranquilizantes do que europeus, aponta pesquisa da Proteste
Dos entrevistados do país, 45% contaram já ter tomado medicamentos como Rivotril, Valium e Prozac
Principais motivos que levam ao uso são problemas de insônia, morte de parente, divórcio ou desemprego
O GLOBO

Dos brasileiros pesquisados, 35% apresentam sinais de dependência de antidepressivos como o Prozac
Foto: FOTO: JB Reed / Bloomberg News
Dos brasileiros pesquisados, 35% apresentam sinais de dependência de antidepressivos como o ProzacFOTO: JB Reed / Bloomberg News


RIO — A Proteste realizou uma pesquisa sobre tranquilizantes como ansiolíticos, antidepressivos e hipnóticos, com pessoas de cinco países, para analisar o uso destes medicamentos. E o resultado revelou que a epidemia dos Rivotris, Valiums, Prozacs e afins no Brasil é mais grave do que nos demais pesquisados: Bélgica, Itália, Espanha e Portugal. Os brasileiros demonstraram um uso crônico significativamente mais alto, principalmente de antidepressivos. Dos entrevistados do país, 45% contaram já ter feito uso desses medicamentos e também declararam ter consumido mais de todas as categorias de remédios no último ano. E 35% dos brasileiros pesquisados apresentam sinais de dependência de ansiolíticos e hipnóticos.
O uso destes medicamentos está associado a indivíduos com estilo de vida pouco saudável, que sofrem de insônia, são fumantes, sedentários, estressados e portadores de transtornos de ansiedade ou depressão.
Dos cinco países participantes DA pesquisa, o Brasil foi o que registrou os índices mais elevados de usuários que começaram a usar tranquilizantes tanto antes de completar 26 anos (35%) como antes dos 18 anos (10%).
Mulheres brasileiras na faixa etária entre 55 e 74 anos e com escolaridade baixa são mais propensas a consumir, ao longo da vida, esses psicotrópicos, cujo uso idealmente não deveria exceder quatro semanas e 50% dos participantes admitiram consumi-los por mais de um ano. Não bastasse, um quarto dos usuários aumenta suas doses para manter a sua eficácia.
Também 47% dos brasileiros pesquisados usam ansiolíticos juntamente com antidepressivos. Os principais motivos que levam a ingerir esses remédios são problemas de insônia e acontecimentos traumáticos, como morte de parente, divórcio ou desemprego.
Boa parte dos usuários, sob acompanhamento médico, relatou não ter recebido qualquer orientação ou advertência sobre os riscos de dependência, seus efeitos colaterais e o perigo em associá-los ao álcool.
O estudo foi feito a partir de 13 mil formulários respondidos por entrevistados belgas, italianos, espanhóis, portugueses e brasileiros. O objetivo da entidade foi avaliar diversos aspectos ligados ao uso de medicamentos tranquilizantes, que englobam principalmente ansiolíticos, hipnóticos e antidepressivos.
A Proteste apresentou os resultados da pesquisa à Associação Médica Brasileira (AMB), ao Conselho Federal de Medicina (CFM), à Associação Paulista de Medicina (APM) e ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) para que, por meio de ações conjuntas junto aos profissionais e ao público em geral, haja um alerta a respeito desses medicamentos e dos malefícios que podem causar à saúde.
Uma importante descoberta da pesquisa foi a declaração dos entrevistados sobre o fato de a insônia ser o principal motivo de uso dos medicamentos. Deles, 21% disseram voltar a experimentar problemas para dormir ao parar de usar os remédios, o que gera um eterno ciclo vicioso. Outras razões incluem acontecimentos traumáticos, como morte precoce de um parente, e problemas de saúde.
Confira as razões que levam ao uso destes medicamentos
50% Problemas para dormir
32% Problemas profissionais (excesso de trabalho, prazos pouco realistas)
41% Acontecimentos traumáticos (divórcio, morte de parente ou amigo, perda de emprego)
29% Problemas e conflitos familiares (discussões, problemas com filhos)
33% Doenças e problemas de saúde
28% Problemas financeiros (dívidas, despesas excessivas)
Fique atento
- Não dirija após o uso de tranquilizantes: 49% dos brasileiros relataram que dirigem com frequência ou sempre ao fazerem uso de tranquilizantes. Trata-se de um risco, já que esses medicamentos costumam causar sedação e podem retardar a coordenação motora;
- Não realize atividades perigosas: 28% dos entrevistados afirmou realizar, sob o efeito desses remédios, atividades consideradas perigosas, como usar furadeiras ou martelos;
- Não consuma bebidas alcoólicas: o álcool pode intensificar alguns dos principais efeitos colaterais de ansiolíticos e antidepressivos, como sedação, tontura e problemas de memória.
Os efeitos colaterais causados por tranquilizantes
33% Sonolência
18% Problemas de memória
11% Tontura
10% Alteração de humor
10% Sensibilidade emocional
Mais realismo
BC indica maior preocupação com pressões sobre preços e reforça cenário desanimador, de baixo crescimento do PIB com inflação no teto da meta
FSP - Editorial
Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária, divulgada na semana passada, o Banco Central emitiu claro sinal de incômodo com a inflação e afastou a hipótese de novas reduções na taxa básica de juros, que deverá ficar em 7,25% por longo período.
O BC reconheceu a piora das expectativas inflacionárias no curto prazo, mas manteve o diagnóstico otimista de que a taxa de aumento de preços se aproximará, na segunda metade do ano, do patamar de 4,5%, o centro da meta de inflação (de 2,5% a 6,5%). O tom da análise da autoridade monetária começa a mudar, contudo.
A novidade surgiu com a ressalva de que uma recuperação aquém da esperada na atividade econômica se deve essencialmente a gargalos como logística cara e insuficiência de mão de obra qualificada, entre outros fatores que restringem a oferta e impulsionam os preços.
Tais problemas não podem ser resolvidos pelos instrumentos usuais de política monetária (controles sobre juros e crédito), que influenciam os preços ao aquecer ou esfriar a demanda. Ao explicitar que está de mãos atadas, o BC deixa ao governo federal toda a responsabilidade pelo crescimento.
A despeito da redução recente dos preços agrícolas e das tarifas de energia elétrica (esta de no mínimo 18% para domicílios e até 32% para consumidores industriais), que arrefecerá pressões inflacionárias no curto prazo, o quadro está longe de ser tranquilizador.
Era inevitável, por exemplo, o reajuste da gasolina. Também não tardarão as correções de preços nos transportes públicos. Os esforços federais para represar essas tarifas -um flerte com velhas práticas dos anos 1980- demonstram uma preocupante disposição para o artificialismo.
A desvalorização do real no segundo ano do governo Dilma Rousseff e a esperada reversão, ainda que gradual, dos cortes do IPI para alguns bens duráveis também devem pressionar os preços industriais. A redução do tributo barateou produtos nacionais e o real desvalorizado encareceu importados, cuja concorrência ajuda a refrear a alta no mercado doméstico. Os preços de serviços seguem subindo mais de 7% ao ano.
Diante da ameaça inflacionária, o BC mostra inclinação para tolerar alguma valorização do real. Nos últimos dias, o dólar voltou a ser cotado abaixo de R$ 2, pela primeira vez em muitos meses.
Com isso tudo, a inflação deve ficar entre 6% e 6,5% no primeiro semestre e cair um pouco no segundo. Desapareceu o espaço para absorver altas e tentar atingir o centro da meta.
Daqui para frente, um crescimento mais robusto do PIB dependerá de medidas que destravem a produção e reduzam o custo Brasil. Mas seus resultados demoram anos, não meses, para surgir.
A inação custará caro, ao perenizar a péssima combinação de baixo crescimento com inflação perigosamente próxima do teto da meta.
Philips vende divisões de áudio e vídeo
Afetada pela concorrência com asiáticas, empresa holandesa vai se dedicar a iluminação e equipamentos de saúde
Companhia, uma das mais tradicionais do setor, inventou a fita cassete e lançou o CD ao lado da Sony
FSP
Uma das mais tradicionais marcas de eletroeletrônicos do mundo, a Philips não resistiu à concorrência de asiáticas como Samsung e LG e decidiu se desfazer de seus segmentos de áudio e vídeo para se concentrar nas áreas de iluminação (em que é líder global) e de equipamentos de diagnósticos por imagem.
A empresa holandesa, que já havias separado sua linha de televisores, vai transferir as operações de aparelhos como DVD e Blu-ray para a japonesa Funai Electric por € 150 milhões (cerca de R$ 400 milhões).
Além do valor da transferência, a Funai Electric vai pagar uma taxa de licenciamento da marca pelo período inicial de cinco anos e meio, com uma possibilidade de renovação por outros cinco, mantendo o uso da marca Philips.
A divisão deve ser transferida até 2017.
No início do ano passado, a Philips formara uma associação com a empresa de Hong Kong TPV para a fabricação de televisores.
Os segmentos de cuidados pessoais, como escovas de dente elétricas, barbeadores, e depiladores, e eletrodomésticos portáteis, como cafeteiras, continuarão a ser produzidos, assim como a linha de cuidados para mãe e bebê, a Avent.
PIONEIRISMO
Fundada no século 19 com a fabricação de lâmpadas com filamento de carbono, a empresa foi referência em inovações como a invenção da fita cassete, em 1963.
Foi pioneira, ao lado da Sony, no desenvolvimento do CD na década de 1980. Nos anos 1930, era a maior distribuidora de rádios do mundo.
Entretanto, a Philips começou a lentamente perder sua fatia de mercado e seu espaço como gigante inovadora para concorrentes como a Apple, além de asiáticas como a Samsung e a LG.
Os segmento de iluminação (principalmente as lâmpadas LED) e de equipamentos de saúde (cujos maiores concorrentes são a Siemens e a GE), foco maior da Philips a partir de agora, proporciona maiores margens de lucro.
BRASIL
No Brasil, são cerca de 3.000 trabalhadores distribuídos em cinco unidades, que incluem duas fábricas de software e três de produtos, localizadas em Varginha (MG), Lagoa Santa (MG) e Manaus.
Esta última, que fabrica aparelhos de áudio, deve sofrer o maior impacto. A unidade emprega 350 funcionários. Todo o pessoal de marketing e vendas do segmento também será transferido.
A negociação -que envolve a divisão de áudio, multimídia e acessórios- deve ser concluída no segundo semestre deste ano.
Até lá, não há como afirmar se haverá ou não cortes de pessoal, segundo a assessoria de imprensa da Philips no Brasil.
Dinamarca estuda igualar preço de corte de cabelo de homens e mulheres para evitar discriminação
Gloria Moreno - La Vanguadia
Uma mulher deveria pagar o mesmo preço que um homem quando vai a um salão de cabeleireiro? Para o Conselho de Igualdade de Tratamento da Dinamarca, a resposta é sim. Isso ficou bem claro em uma de suas últimas deliberações, na qual obriga um salão de cabeleireiro a indenizar em 2.500 coroas dinamarquesas (o equivalente a 335 euros, quase R$ 900) uma cliente que queria cortar o cabelo, que já era curto, e à qual informaram um preço mais alto do que seria cobrado de um homem.
Segundo os preços fixados pelo estabelecimento por ocasião desse episódio, o corte de cabelo feminino custava 528 coroas dinamarquesas (cerca de 70 euros), 100 a mais que o corte masculino. O salão de cabeleireiro também fixava uma taxa extra para cortes de cabelo comprido. Após comprovar que, apesar de ter o cabelo curto, lhe pediam o preço fixado para mulheres, a parte queixosa desistiu de cortar o cabelo nesse salão e resolveu denunciá-lo junto ao Conselho de Igualdade de Tratamento.
Após estudar o caso, esse órgão viu indícios claros de que a fixação do preço em função do sexo, e não do comprimento do cabelo, do tipo de corte e de outros parâmetros é sinal de discriminação e, portanto, infringe a lei dinamarquesa que determina a igualdade de tratamento para todas as pessoas, independentemente de seu gênero, raça, religião, crença, opiniões políticas e origem social. Todavia, a decisão contundente desse órgão gerou surpresa e irritação entre os profissionais do setor, que qualificam a medida de "absurda" e já recorreram do veredicto, que agora deverá ser reexaminado por um tribunal.
Segundo a presidente da organização dinamarquesa de cabeleireiros e estilistas independentes, Connie Mikkelsen, "cortar o cabelo de uma mulher simplesmente requer mais tempo", não importando se o cabelo é curto ou comprido. Além disso, em sua opinião, deixar de fixar os preços em função do sexo, como é de praxe na maioria dos salões de cabeleireiros, causará "um caos nos preços". "Medir o tempo que se gasta para cortar o cabelo de cada cliente levaria a uma discussão sobre o comprimento do cabelo, quando deve ser considerado médio ou quando deve ser considerado longo, com isso gerando uma série de conflitos com os clientes", prevê Mikkelsen.
Por ora, o recurso apresentado contra a decisão conseguiu adiar temporariamente o pagamento da multa por parte do salão de cabeleireiro denunciado, à espera que um tribunal decida se os cabeleireiros podem continuar cobrando em função do sexo ou se devem achar outro modo de cobrar seus serviços. Seja qual for o desfecho, o caso não faz mais que sublinhar a imagem da Dinamarca como uma das nações mais comprometidas com a igualdade de sexos, a exemplo dos outros países nórdicos.
A Dinamarca é o sétimo país do mundo com menos diferenças entre homens e mulheres, segundo o relatório anual publicado em 2012 pelo Fórum Econômico Mundial, no qual Islândia, Finlândia, Noruega e Suécia lideram a classificação. 
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Conceituada escola de música americana abre filial na China
Joyce Lau - IHT                    
Estudantes de música da Escola Juilliard, em Nova York, ouviram as perguntas da pequena plateia da Sociedade da Ásia, em Hong Kong, sobre suas experiências em uma das principais escolas de arte do mundo. De certo modo, parecia como qualquer outra faculdade de elite, com estudantes desalinhados, carga de trabalho pesada e pais que ficam constantemente de olho.
"Os banheiros para os calouros no campus eram horríveis", disse Olivia Mok, 20, violinista formada de Hong Kong.
Eles também falaram dos dias longos de aulas e da competição feroz. Além de praticarem seus instrumentos, Mok e seus amigos praticavam corrida para inscrição nas vagas de testes. "Havia literalmente um estouro de boiada no segundo que eu apresentava meu nome", ela disse.
"Eu acho que todo mundo quer que seus filhos sejam solistas. Os pais tentam pressionar o máximo possível", acrescentou Kathryn Peterson, uma trompista do Texas e companheira de quarto de Mok. (Elas já saíram do campus.)
A conversa em Hong Kong neste mês ocorreu após o anúncio em junho de que a Juilliard montaria seu primeiro campus no exterior na China. O empreendimento faz parte da Juilliard Global, uma iniciativa de 2011 para expansão no exterior.
Várias instituições americanas –mais notadamente a Universidade de Nova York e Yale– estão no processo de abrir campi na Ásia. Mas Juilliard é a primeira escola de artes performativas americana importante a fazê-lo.
A ideia é abrir um campus em Yujiapu, um distrito financeiro planejado em construção em Tianjin, uma cidade vizinha de Pequim.
O instituto Juilliard em Yujiapu não será uma cópia do existente em Nova York. Ele terá programas semelhantes aos da Divisão Pré-Universitária menor da Juilliard, para estudantes de 8 a 18 anos, e não oferecerá diplomas superiores. Ele também se concentrará em música e carecerá da grande variedade de cursos de humanas e artes performativas encontrados no campus principal.
Um novo corpo docente será recrutado para o campus chinês, apesar de que o corpo docente de Nova York realizará visitas para oficinas e aulas especiais, disse Christopher Mossey, vice-presidente de iniciativas globais da Juilliard, em uma resposta por e-mail às perguntas.
Mas talvez a diferença mais importante é que Yujiapu não é Nova York. Juilliard fica famosamente localizada dentro do Lincoln Center for the Performing Arts. Ela é tão respeitada na cena cultural da cidade que as apresentações dos alunos recebem atenção dos críticos dos principais veículos de mídia.
"A Juilliard de Nova York faz parte de uma cena de artes bem estabelecida, enquanto em Yujiapu nós estamos orgulhosos em trabalhar com nossos parceiros no desenvolvimento de uma tradição rica e nova", disse Mossey por e-mail.
O campus chinês servirá como o único endereço não americano para estudantes que desejarem realizar testes para o campus principal da Juilliard em Nova York.
"Os estudantes dos países asiáticos não precisarão mais viajar para Nova York para testes ao vivo", disse Katy Ho, uma violista do quarto ano que se apresentou no Carnegie Hall.
"Todo mundo agora terá uma oportunidade igual de entrar na Juilliard", disse Ho, natural de Macau, que falou no evento na Sociedade da Ásia.
Mossey citou uma "grande demanda por treinamento na Juilliard na Ásia".
A Juilliard, que tem entre seus ex-alunos celebridades ásio-americanas como o violoncelista Yo-Yo Ma e a violinista Sarah Chang, é altamente respeitada na Ásia.
A China é apaixonada por crianças prodígio da música clássica desde 1979, quando o falecido Isaac Stern tirou o violoncelista de 10 anos chamado Wang Jian da obscuridade. Desde então, o país está à procura do próximo Li Yundi ou Lang Lang.
Ao longo dos anos, houve tentativas de abertura de escolas baseadas em institutos americanos como Tanglewood. O governo chinês está despejando centenas de milhões de dólares no financiamento das artes.
Mas, assim como muitos projetos na China, os detalhes são escassos. O "Juilliard Journal" noticiou em setembro que um estudo de viabilidade tinha sido concluído e que os planos para construção começariam depois dele, mas não há datas confirmadas.
Mossey escreveu que os parceiros no projeto chinês "ainda estão finalizando vários dos detalhes específicos do programa".
Os estudantes no evento da Sociedade da Ásia enfatizaram a diferença entre o método asiático de ensino de música e o formato de artes liberais mais amplo da Juilliard.
"A escola fez um esforço para promover uma educação mais arredondada", disse Mok, que cofundou uma organização de música sem fins lucrativos chamada Project Discover com seu irmão.
(Riva Hiranand e Calvin Yang contribuíram com reportagem.)
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Acusações de corrupção colocam governo espanhol na defensiva
Helene Zuber - Der Spiegel
Pedro Armestre/AFP Photo
17.dez.2012 - Manifestante segura cartaz em que se lê "Rajoy, ladrão!" durante protesto em Madri, Espanha, nesta segunda-feira. Os manifestantes protestam contra as medidas de austeridade e corte de pensões impostas pelo presidente espanhol Mariano Rajoy para conter a crise política que assola o país
17.dez.2012 - Manifestante segura cartaz em que se lê "Rajoy, ladrão!" durante protesto em Madri, Espanha, nesta segunda-feira. Os manifestantes protestam contra as medidas de austeridade e corte de pensões impostas pelo presidente espanhol Mariano Rajoy para conter a crise política que assola o país
Os poderosos reagiram da forma como os poderosos reagem quando se veem em apuros. O ex-primeiro-ministro José María Aznar instruiu seus advogados a processarem o jornal "El País". O atual primeiro-ministro Mariano Rajoy, um conservador como Aznar, ameaçou processar quem faça acusações ao seu Partido do Povo (PP).
Há semanas os jornais espanhóis publicam novos detalhes sobre um dos maiores escândalos de corrupção do país, chamado "caso Gürtel", cujo nome em alemão faz menção ao sobrenome do empresário Francisco Correa. Por anos, Correa supostamente subornou autoridades do PP com dinheiro e presentes em troca de contratos públicos.
As linhas gerais do caso eram conhecidas, mas não o fato de que o ex-tesoureiro do Partido do Povo, Luis Bárcenas, reuniu até 22 milhões de euros de fontes suspeitas em contas do Dresdner Bank em Genebra. O juiz do Tribunal Nacional Espanhol só tomou conhecimento disso em consequência da assistência legal da Suíça. Até mesmo o jornal conservador "El Mundo" não pôde mais deixar de tratar do escândalo.
Enquanto Bárcenas cuidava das finanças do PP, escreve o "El Mundo", o político entregava às autoridades do partido envelopes contendo entre 5 mil euros e 15 mil euros em dinheiro todo mês. Um ex-membro do Parlamento pelo PP confirmou a prática. Apesar da aceitação de pagamento adicional não ser proibida se a pessoa o declarar em seu imposto de renda, os conservadores estão preocupados. Bárcenas pode ter registrado a fonte dos fundos em seus livros (doações anônimas para partidos políticos foram proibidas desde 2007), assim como para quem o dinheiro foi repassado e o motivo.
Uma ‘Bomba Atômica’
Bárcenas aceitou o equivalente a mais de 1,3 milhão de euros em propinas, uma circunstância da qual o empresário Correa se gabou em conversas gravadas que levaram à descoberta do escândalo, em 2009. Rajoy, chefe do PP e líder da oposição na época, protegeu primeiro seu tesoureiro e o partido pagou um advogado. Mas um ano depois, os conservadores forçaram Bárcenas a renunciar de sua cadeira no Senado e a deixar o Partido do Povo.
Poucos dias depois da prisão de Correa em 2009, Bárcenas começou a transferir o dinheiro que estava na Suíça e, em 2010, as contas em Genebra já tinham sido esvaziadas. Graças a uma anistia fiscal declarada pelo governo Rajoy, ele transferiu perto de 10 milhões de euros de volta à Espanha nos últimos meses, disse seu advogado. Mas a anistia não cobre os fundos obtidos ilegalmente, destaca o ministro das Finanças.
Bárcenas negou todas as acusações. E se for enviado para a prisão, ele ameaçou que uma "bomba atômica" explodiria.
A secretária-geral do PP, María Dolores de Cospedal nega qualquer conhecimento dos envelopes recheados de dinheiro e diz que nunca discutiu essa prática com Rajoy. "O PP não tem nada a ver com a conta e esse cavalheiro não tem mais nada a ver com o partido." Rajoy, atormentado pela dívida pública e pelo déficit orçamentário persistente, ordenou uma auditoria interna e externa. Ele também espera que ex-autoridades do partido assinem uma declaração de que não coletaram nenhum dinheiro ilegal. O primeiro-ministro planeja responder as perguntas da oposição nesta semana.
Simpatia pela doce vida
Alfredo Rubalcaba, líder do Partido Socialista dos Trabalhadores, pediu por um pacto anticorrupção no início do ano, mas até o momento encontrou poucos adeptos, apesar de mais de 200 políticos enfrentarem acusações de corrupção em seis das 17 regiões autônomas. Na socialista Andaluzia, seis altos funcionários do governo foram indiciados em um caso de fraude envolvendo fundos de aposentadoria antecipada. Na Catalunha, as autoridades estão examinando os negócios realizados por membros da família do líder do governo regional.
Não causa surpresa o fato dos cidadãos não confiarem mais em seus políticos. Em uma pesquisa, 95% dos entrevistados disseram estar convencidos de que os partidos políticos do país encobrem a corrupção e as propinas. Logo após suas preocupações com o desemprego e a renda, os espanhóis veem os políticos e o nepotismo como o maior problema do país.
Nas últimas eleições, autoridades notoriamente corruptas foram reeleitas. Mas no sexto ano da crise, na qual o governo conservador está pedindo constantemente por novos sacrifícios e aumentando impostos, e na qual mais e mais pessoas estão perdendo seus empregos, não há mais qualquer simpatia pela doce vida dos poderosos.
Quando os primeiros relatos dos supostos pagamentos especiais por Bárcenas foram discutidos no rádio e pelo Twitter, centenas de pessoas marcharam até a sede do partido em Madri e protestaram contra os políticos que enchem seus bolsos à custa do contribuinte.
Também foram feitas novas revelações nos últimos dias sobre como o genro do rei, casado com a princesa Cristina, pode ter desviado dinheiro de uma caridade para sua própria conta. Ele foi chamado novamente a depor sobre o assunto em fevereiro, apesar de ele negar as acusações. O julgamento poderia se tornar desagradável para o rei, porque a secretária particular de sua filha também estaria envolvida no assunto. 
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Amor midiático de casal Obama tem raiz no marketing político
Rosario G. Gómez e Cristina F. Pereda - El Pais
Jewel Samad/AFP
22.jan.2013 - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e a primeira-dama, Michelle Obama, dançam durante festa após cerimônia de posse no Centro de Convenções Walter E. Washington, em Washington (EUA)
22.jan.2013 - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e a primeira-dama, Michelle Obama, dançam durante festa após cerimônia de posse no Centro de Convenções Walter E. Washington, em Washington (EUA)
"Hoje só tenho que fazer mais uma coisa", afirmou o presidente Obama durante o baile realizado em Washington para comemorar sua posse. "Tenho um encontro. Ela faz que eu seja um homem melhor e um presidente melhor. Talvez alguns ponham em dúvida minha qualidade como líder, mas ninguém põe em dúvida as qualidades da primeira-dama. Senhoras e senhores, apresento-lhes minha melhor metade e minha companheira de baile: Michelle Obama."
Imaginam Mariano Rajoy falar em seu discurso de posse sobre Elvira Rodríguez como sua metade da laranja? Ou um comício de campanha de Alfredo Pérez Rubalcaba no qual apareça rodeado de sua família, ao estilo Sarah Palin? O que na Espanha parece algo completamente inverossímil ocorre nos EUA com absoluta naturalidade. A família e a política formam uma dupla compacta no mundo anglo-saxão, enquanto na Europa persiste um muro intransponível entre a vida pública e a privada.
Os especialistas consideram que comportamentos como o de Obama correspondem a estratégias próprias do marketing empresarial. Com os políticos ocorre o mesmo que com esses altos executivos cujas empresas impõem um estilo de vida social que os identifique, e a suas famílias, com a imagem da marca que lhes paga. "O marketing político nos EUA não passa de uma transferência do marketing empresarial para a política. Não se vota só no político, vota-se na pessoa", diz Xesca Vidal, doutora em ciências da informação, psicóloga e especialista em comunicação pública.
Nas campanhas eleitorais americanas é comum o recurso aos "surrogates" [substitutos], pessoas próximas do candidato, principalmente familiares, que intervêm em seu nome e o substituem em muitos atos, salienta o consultor em comunicação estratégica Xavier Roig. O "surrogate" mais valioso sempre é a mulher do candidato.
"Por trás dessas práticas há uma razão de respeito à tradição conservadora, mas também outra de eficiência. Em uma campanha eleitoral americana, trata-se de reiterar a mensagem por todos os meios possíveis e com a maior intensidade. Integrar a família à campanha é uma medida de eficiência", salienta Roig.
Além disso, ele acrescenta, a mulher pode proporcionar aos cidadãos, e definitivamente aos eleitores, muita informação sobre o candidato. Seria o caso, diz, de Michelle Obama, Hillary Clinton, Cherie Blair ou da mulher do presidente Bartlett na série de televisão "West Wing". "Em todos esses casos, trata-se de profissionais de sucesso à margem da referência de seus maridos."
Olivia Fox Cabane, autora do livro "El Mito del Carisma" e especialista em técnicas de comunicação e liderança, afirma que uma das grandes diferenças dos EUA é sua cultura da personalização, capaz de transformar uma pessoa individual em uma marca e em um negócio. "Isto não quer dizer que na Europa não haja certo fascínio pelas pessoas públicas, a grande diferença está em como elas mesmas se comportam diante dos cidadãos", comenta Fox. "Você nunca ouvirá a família real inglesa contar que tomou o café da manhã, mas os Obama não têm problema em contá-lo."
Xavier Roig, que tem longa experiência em estratégias de comunicação política, considera que na Europa ocorre uma maior separação entre a política e a família. Mas a pressão dos meios de comunicação aproximou a Europa de algumas pautas próprias da política americana. Ele cita os casos do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy e de sua mulher midiática, Carla Bruni, e do casal Cameron no Reino Unido.
A verdade é que no mundo anglo-saxão predomina um modelo que não é o que se pratica no Velho Continente. No primeiro, a mulher (ou o marido, embora mais raramente) desempenha um papel que tem pouco a ver com o que lhe é concedido na maioria dos países europeus, incluindo a Espanha, onde "o espaço político se reserva a quem compareceu diante dos eleitores", salienta Borja Puig de la Bellacasa, conselheiro delegado da Bassat Ogilvy Comunicación. "A soberania reside só nestes, e o cônjuge não faz parte desse contrato", acrescenta.
Os modelos ancorados em um e outro lado do Atlântico não se desenvolvem por geração espontânea. Estão muito ligados à cultura e à história, e em certa medida estão enraizados em dois tipos de moral: a católica e a protestante; esta última, "muito mais exigente", na opinião do representante da Bassat Ogilvy. E o que refletem são duas maneiras diferentes de conceber a política.
Nessa linha, Roig afirma que os valores familiares presentes na vida pública, e mais concretamente na política, derivam em boa medida da herança puritana dos fundadores. "A colonização foi, depois de tudo, uma colonização familiar, igual à conquista do oeste. São posições que adquiriram uma força renovada em consequência da revolução conservadora que vem à superfície com Reagan nos anos 1980."
O diretor da Bassat Ogilvy afirma que o modelo espanhol é "um tanto hipócrita", por se assentar no velho princípio de que "sua mão esquerda não saiba o que faz sua mão direita". Ele explica assim: Estamos acostumados a situações nas quais os protagonistas do mundo público não têm uma atitude privada exemplar.
Costuma-se dizer que o espaço privado é algo estritamente pessoal e não é objeto de um julgamento público". Esse modelo é totalmente diferente do americano, onde o público e o privado, quando se trata de personagens de relevância social, é o mesmo. Algo "enormemente exemplar", aponta Puig de la Bellacasa.
O especialista percebe que em países como a Espanha existe uma espécie de muralha entre as duas esferas. E a privada viria a ser uma espécie de mundo protegido, inexpugnável aos olhos do escrutínio público. O especialista em comunicação defende importar a ética anglo-saxã porque, na sua opinião, é "mais exemplar" e sustenta que não vale estar mudando de chapéu permanentemente: "Agora eu ponho o público, agora o privado".
A diferença do papel que desempenha um casal do presidente dos EUA e o do presidente do primeiro-ministro espanhol, por exemplo, se assenta no contraste dos modelos sociais exigidos nesses países das mulheres, explica Xesca Vidal.
As origens desse contraste "se encontram na educação transmitida familiarmente à mulher, a ambição nas expectativas de sua formação como profissional, a cultura empresarial em cada um desses países e, como consequência de todo o anterior, o marketing político adotado em cada um deles".
Ninguém pode negar que o carisma de um presidente que faz escalas em sua viagem de campanha para comprar abóboras em um posto de estrada, tomar sorvete com moradores da Flórida ou deixar-se abraçar pelo dono de um restaurante contribui para aproximá-lo dos cidadãos, algo imprescindível para qualquer candidato a um cargo como a Presidência dos EUA.
Os cidadãos procuram em seus líderes e políticos alguém que os entenda. "Os americanos se preocupam mais com o que podem ter em comum com seu presidente, se este compreende sua realidade, do que se ele faz bem seu trabalho", explica Fox.
"Se você observar todos esses elementos não verbais, ele não está dizendo abertamente que se sente feliz, mas a maneira subconsciente como julgamos o comportamento de uma pessoa nos permite sentir que sim, é feliz", afirma Jeff Thompson, pesquisador de comunicação não verbal na Universidade de Pittsburgh.
"É algo contagioso. Todos sabemos que algo tão simples como sorrir para outra pessoa pode favorecer a situação. Sua atitude afeta as pessoas que o estão vendo", diz. Thompson. E explica que é difícil apontar os detalhes que conformam o carisma do presidente ou um gesto exato com que um cidadão se sinta identificado, mas o que realmente importa é o conjunto.
Em geral, o recurso à utilização da mulher/esposa/mãe na política está ancorado nos partidos mais conservadores. São sintomáticos, indica Roig, os casos de Ana Botella - "uma mulher mulher" - e de Marta Ferrusola - "isto é uma mulher". Acrescente o caso de Barbara Bush, a mulher do presidente Bush pai, que desempenhou como ninguém o papel de vigilante familiar. Mas essa tendência não é exclusiva dos partidos conservadores. Também ocorre na esquerda. Roig cita novamente as mulheres de Clinton, Obama e a do fictício Bartlett, e como tenderam a representar posições um pouco mais radicais que as de seus maridos.
"Michelle marcou uma grande diferença de outras primeiras-damas", diz Fox. "Obama não pode fazer nada melhor que contar com ela em qualquer ato público; até agora foi sua decisão mais inteligente nesse sentido." E em cada uma dessas aparições públicas o casal parece acertar o número de abraços e beijos que se dão em público - e sentir-se à vontade com eles. Segundo os especialistas, não há casal mais fácil com que se identificar, do ponto de vista dos cidadãos, que os Obama.
"Trata-se da pessoa mais poderosa do mundo e, apesar disso, os americanos querem ver que também é humano", diz Thompson. A humanidade de Obama fica refletida em aparições depois de eventos como o massacre de Newtown, quando disse sofrer "primeiro como pai e depois como presidente". Todos os gestos ocorrem diante das câmeras, como presidente e como pai de família. "Se diz que não quer que suas filhas tenham uma conta no Facebook ou que não tivessem um telefone celular até certa idade, qualquer cidadão pode se sentir identificado com ele."
Para os analistas, o carisma de uma pessoa pública se assenta sobre três pilares: sua expressividade, sua sensibilidade e se transmite a noção de manter o controle. Nem positivo demais nem sério demais. Nem muito alegre nem muito frio. E que todas essas qualidades se encaixem no contexto em que aparece o político. "Não podemos esperar nada natural de nenhum político", diz Fox. "Todos e cada um dos detalhes com relação à atração dos candidatos ou de um presidente são medidos constantemente."
Thompson concorda em que é impossível determinar até que ponto os cidadãos percebem se o comportamento de um casal como os Obama é pensado, medido e ensaiado, mas seu segredo, segundo o especialista, é que, façam eles o que fizerem, o público tem a sensação de que é genuíno.
Os valores que valorizam como conduta social de um casal são diferentes conforme o país. Xesca Vidal observa diferenças essenciais. "Nos EUA predomina a lealdade e na Espanha, a fidelidade", diz. E explica: "A primeira-dama americana deve ser leal a seu marido, a sua família e a seu país. Na Espanha, a mulher de um primeiro-ministro, mais que primeira-dama, é considerada simplesmente a 'mulher de'." Vidal explica como a mulher americana está acostumada desde o século 19 a ocupar um espaço na esfera pública. No entanto, na Espanha do século 21 "ainda se debate a necessidade de arbitrar medidas como listas paritárias para promover a visualização da mulher na política".
As mulheres dos presidentes dos EUA, às vezes, antes de chegar à casa Branca ou antes de que eles começassem suas corridas eleitorais, haviam tido uma vida profissional mais brilhante que a de seus maridos. Veja-se a biografia de Michelle Obama ou a de Hillary Clinton. "Na Espanha, isso pareceria um insulto ao marido", diz a psicóloga.
Obama chegou ao poder com uma arma poderosa, como já demonstrou na campanha eleitoral de 2008: sua mulher, Michelle. Sem ela, é só o presidente. Com ela é marido e pai de família. Na Espanha, Aznar soube utilizar melhor que ninguém o marketing político "made in USA", afirma Xesca Vidal: "E teve grandes resultados. Um, vencer Felipe González no primeiro cara-a-cara na televisão. Outro, vigente na atualidade: Ana Botella".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Via ip

Budva, Montenegro (by the.redhead.and.the.wolf)

Mont Saint-Michel, France (by NETC.Educational.Travel)
O vale-tudo dos partidos
O Estado de S.Paulo
Em 1988, ano da promulgação da Constituição pelo Congresso Constituinte, 61% dos brasileiros ouvidos em pesquisa de opinião pública do Ibope declararam ter preferência por um partido político. E apenas 38% se disseram apartidários, ou seja, sem simpatia por nenhuma das siglas partidárias que disputavam à época seu voto. No fim de 2012, 24 anos depois, isso se inverteu: em levantamento feito por encomenda do Estado, apenas 44% disseram preferir alguma sigla partidária, enquanto 56% não destacaram nenhuma. Nessa perda de empatia, nenhum partido se salvou: hoje há menos petistas, tucanos, peemedebistas, democratas do que em 2007.
A primeira explicação para esse declínio pode ser encontrada na frustração da cidadania quanto ao desempenho das agremiações partidárias. "Fiquei muito decepcionada. Desde 2005, só voto nulo. Não acredito em nenhum partido, apesar de existirem pessoas que respeito na política", disse a escritora e socióloga Ivana Arruda Leite.
Esta manifestação de descrença não é isolada. Quem duvidar poderá compulsar o total de eleitores que decidiram não sufragar nenhum candidato ou partido nas eleições de 2012. Com uma abstenção de 16,41% dos eleitores em todo o País e altos índices de votos nulos e brancos, considerados inválidos, eles somaram mais de 35 milhões de votos não contabilizados no cômputo final. Este total representa 25%, ou seja, um quarto dos eleitores. Somente em São Paulo, mais de 2,4 milhões de votos, entre brancos, nulos e abstenções, deixaram de ser computados no resultado final pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O desencanto da cidadania pela atividade partidária chegou ao auge no ano passado, a maior parte do qual esteve sob o impacto da transmissão do julgamento do escândalo do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Durante o julgamento, foram expostas as vísceras da corrupção na política, tendo como principal alvo as relações espúrias entre partidos e o Estado. Os podres revelados no julgamento levaram à condenação figurões das bancadas da base governista: dos Partidos dos Trabalhadores (PT), Progressista (PP), da República (PR), do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e Trabalhista Brasileiro (PTB).
Este fator, contudo, não basta para explicar o esvaziamento da simpatia partidária. Afinal, os condenados mais importantes no processo foram dirigentes do PT, mas este se mantém no topo da preferência do eleitorado nacional com 24%. Obteve muito menos citações do que no último ano dos dois governos Lula (2010), quando o partido bateu o recorde de 41%, o que justifica a eleição de sua candidata, Dilma Rousseff. Mas, mesmo tendo caído quase pela metade, o prestígio mantido pelo PT, em pleno ano do mensalão, ainda representa quatro vezes o do segundo colocado, o PMDB (6%), seu principal aliado no governo, e do terceiro, o PSDB, maior partido da oposição, com 5%. O desprestígio dos tucanos é ainda mais impressionante ao se analisarem apenas os índices registrados no Sudeste, onde o partido sempre teve mais força, o que se comprova pela ocupação dos governos de dois Estados importantes, São Paulo e Minas: em 1995, 14% dos eleitores o citaram como preferido. Em outubro de 2012, este número caiu pela metade: 7%. O declínio vertiginoso revela, de um lado, um certo cansaço do eleitorado com a sucessão de gestões do PSDB e também constata a ausência de uma política clara e coerente que possa servir de alternativa à do PT e seus aliados, vencedores das três últimas eleições federais.
Deixando de lado as características de cada sigla, há uma explicação genérica para a queda geral da preferência do eleitor por cada uma delas. "Partidos não promovem mais grandes debates. Só se apresentam para a sociedade em período de eleição. Deixaram de ser referência. Não existe mais mobilização, a não ser a defesa do interesse do próprio partido", disse Marco Antônio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Outra justificativa a ser levada em conta para entender o desencanto com os partidos foi definida pelo publicitário Daniel Palma ao criticar o "tudo pelo poder". O cerne da política é a luta pelo poder, mas o cidadão não aceita o vale-tudo hoje adotado como regra geral.
Terceirização de prisões
O Estado de S.Paulo
A inauguração da primeira unidade do complexo penitenciário na região metropolitana de Belo Horizonte construída e administrada por uma parceria público-privada reacendeu a polêmica sobre a oportunidade e o alcance da terceirização de presídios no País. A controvérsia começou, no plano doutrinário, na década de 1980 e entrou na agenda política na década seguinte, quando o governo Fernando Henrique estimulou os Estados a terceirizar a gestão de estabelecimentos penais.
Segundo os dirigentes do Ministério da Justiça da época, a terceirização desburocratizaria os presídios e possibilitaria uma significativa economia de recursos, num período em que nem a União nem os Estados dispunham de recursos suficientes para investir no setor. Nesse sistema, os serviços básicos - como segurança - são de responsabilidade de empresas privadas. Nos EUA, a iniciativa privada assume total responsabilidade pela direção e gestão administrativa, financeira e disciplinar de algumas prisões. Na França, Bélgica e Holanda, empresas privadas e poder público compartilham essas funções.
No Brasil, Paraná e Pernambuco foram os primeiros Estados a adotar esse modelo, há mais de dez anos. Com o tempo, alguns Estados entregaram a gestão de algumas penitenciárias às Associações de Proteção e Assistência aos Condenados - ONGs especializadas na gestão de unidades com 60 presos de menor periculosidade e sem ligações com organizações criminosas. Essas unidades são geridas por voluntários oriundos das mesmas cidades dos condenados, o que ajuda na sua reeducação e ressocialização.
O problema desse modelo é sua escala, pequena demais face à magnitude dos problemas do sistema penitenciário, que tem um déficit de 194 mil vagas, segundo o Ministério da Justiça. Em 1994, o País dispunha de 511 presídios. Em 2009, eram 1.806. Apesar do número de presídios, cadeiões e penitenciárias ter triplicado, entre 2000 e 2009, o sistema penitenciário recebeu, em média, 65% mais presos do que as vagas disponíveis. Em 2010, as penitenciárias tinham 303.850 vagas, mas a população carcerária era de 498.500 presos. Por causa do déficit de vagas, 57.195 presos aguardavam julgamento em carceragens policiais.
Construída por um consórcio de cinco empresas, a primeira unidade do complexo penitenciário com gestão privatizada na região metropolitana de Belo Horizonte foi planejada para acolher 608 presos. A alimentação, a saúde e a educação deles ficarão por conta de um consórcio, que vai receber mensalmente do governo mineiro R$ 2,8 mil por preso, durante os próximos 27 anos. Ao justificar esse valor, as autoridades mineiras afirmam que o investimento foi alto, pois a unidade conta com duas torres de monitoramento, 300 câmeras de segurança e dispositivos para abertura e fechamento de portões e funcionamento de energia elétrica - além de oficinas de trabalho, colchões antichama, lâmpadas de baixa voltagem e paredes sem tomadas elétricas.
Esse modelo de gestão penitenciária, contudo, sempre foi criticado pelo Ministério Público, por juízes criminais e por especialistas em segurança pública. Eles alegam que a experiência não deu certo nos Estados Unidos, Japão, Itália, França e Inglaterra - entre outros motivos porque não reduziu o déficit de vagas do sistema prisional e não criou condições para a reeducação e ressocialização dos presos, submetendo-os a um tratamento desumano. Também apontam a incompatibilidade entre o regime de confinamento dos presos nas penitenciárias terceirizadas e os direitos a eles concedidos pela Lei de Execução Penal.
Nessa polêmica, os defensores do modelo afirmam que a terceirização dos presídios torna a gestão das penitenciárias mais racional, uma vez que as empresas entram numa competição para ver qual delas é a mais eficiente e lucrativa. Já os críticos lembram que, no Estado de Direito, a responsabilidade pela gestão prisional é função pública exclusiva do poder público, por envolver privação de liberdade, não podendo ser delegada a terceiros. No que têm toda a razão.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Os ‘hoyts’ é nosso
 Lauro Jardim - VEJA

Erro de grafia
Seria cômico se não fosse deprimente. Mas no primeiro dia do encontro dos prefeitos, em Brasília, já deu para sentir o nível de instrução e escolaridade de alguns mandatários de cidades do país.
A presidente da União dos Municípios da Bahia, Maria Quitéria, resolveu estender uma faixa, na Esplanada, para marcar posição e reivindicar seu quinhão na distribuição dos royalties do petróleo. Até aí, beleza.
Mas eis o texto: “A presidenta da União dos Municípios da Bahia, Maria Quitéria, e os prefeitos baianos presentes na luta dos hoyts (sic) pela Bahia e pelo Brasil”.
É triste.