quarta-feira, 31 de julho de 2013

A corrosão das contas públicas
O Estado de São Paulo
Corroídas pela gastança federal, pelos erros do governo e pela consequente estagnação da economia, as contas públicas nacionais continuam mal e sem perspectiva de grande melhora nos próximos meses. O resultado primário do primeiro semestre - R$ 52,16 bilhões ou 2,25% do PIB - foi o pior para o período de janeiro a junho desde 2010. Nos primeiros seis meses do ano passado havia correspondido a 3,08% do PIB. O acumulado em 12 meses, de R$ 91,5 bilhões, correspondeu a 2% do PIB. A meta revista para este ano é de 2,3%. A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desistiram há meses da meta fixada originalmente na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), de 3,1%. Se esse objetivo for alcançado, será com auxílio de receitas extraordinárias, como dividendos antecipados de empresas estatais e o bônus previsto para a licitação, em outubro, de uma grande área do pré-sal.
O superávit primário é o dinheiro posto de lado para o serviço da dívida pública - na prática, apenas para pagar uma parte dos juros vencidos. Como esse dinheiro é insuficiente para equilibrar as contas, é geralmente negativo o resultado nominal, isto é, as despesas totais são normalmente maiores que as receitas. Esse déficit equivaleu a 2,07% do PIB nos primeiros seis meses de 2011, a 2,13% no semestre inicial de 2012 e a 2,85% no acumulado de janeiro a junho deste ano. Segundo o governo federal, a política frouxa é necessária para estimular a atividade econômica, mas o resultado tem sido abaixo de pífio. Se o crescimento do PIB em 2013 for o triplo do obtido no ano passado, será igual ao de 2011, de 2,7%.
Por enquanto, esse resultado está acima das projeções de mercado. A mediana das previsões, no último fim de semana, era de 2,28%, segundo a pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo Banco Central (BC). Para 2014 a expansão estimada é de 2,6%. A consulta é realizada com cerca de uma centena de instituições financeiras e consultorias independentes.
De maio para junho o superávit primário mensal subiu de 1,95% para 2% do PIB. O resultado de junho, de R$ 5,43 bilhões, ficou acima da projeção mais alta dos especialistas do setor financeiro, de R$ 4,7 bilhões. Mas a maior parte da melhora se deveu à elevação do superávit dos governos estaduais, de 0,43% para 0,5% do PIB. O superávit obtido nos Estados, de R$ 3,4 bilhões, foi o maior da série registrada pelo BC a partir de 1998.
A piora das contas públicas é explicável principalmente pela má gestão das finanças federais. O governo da União tem mais liberdade que Estados e municípios para decidir a gestão dos tributos, a concessão de subsídios e a elevação dos gastos. O uso dessa liberdade tem sido claramente nocivo. Além disso, a gestão imprudente das contas públicas tem sido um importante fator inflacionário. A inflação brasileira tem sido maior que a de países latino-americanos mais dinâmicos.
No primeiro semestre, o superávit primário do governo central ficou em R$ 34,4 bilhões e foi 28,3% menor que o de igual período de 2012, segundo o Tesouro. Esse resultado é diferente daquele indicado nos cálculos do BC, por uma questão de método, mas a tendência apontada é a mesma e, além disso, as contas publicadas pelo Tesouro permitem uma visão mais detalhada das finanças federais.
Segundo esse relatório, a arrecadação total, de R$ 560,87 bilhões, foi 7,5% maior que a de um ano antes, enquanto a despesa, de R$ 428,41 bilhões, ficou 12,9% acima da contabilizada no primeiro semestre do ano anterior. O resultado de junho, um superávit primário de R$ 1,27 bilhão, só foi possível com o ingresso de R$ 5,16 bilhões de receitas extraordinárias, isto é, de dividendos e concessões.
Dividendos, especialmente antecipados, e receitas de concessões são ganhos eventuais, muito menos previsíveis e seguros que a arrecadação tributária. Têm sido usados, no entanto, para reforçar um orçamento com despesas permanentes cada vez maiores. Um governo prudente e preocupado com a credibilidade - cada vez menor, no caso brasileiro - evitaria esse jogo arriscado.
Um choque de otimismo
O Estado de S.Paulo
Em outros tempos, o município ribeirinho de Melgaço, no norte do Pará, com 25 mil habitantes, metade dos quais analfabetos, poderia ser apontado como exemplo extremo do atraso nacional em termos de saúde, educação e renda per capita. Símbolo às avessas do que aconteceu com o País ao longo de dois decênios, mais precisamente de 1991 a 2010, Melgaço aparece hoje no noticiário como a grande exceção que confirma a regra das mudanças havidas nesse período em matéria de longevidade, rendimento médio, acesso à escola - e até mesmo na área pantanosa das desigualdades regionais. O ermo está em último lugar na nova versão do Índice de Desenvolvimento Humano dos Municípios brasileiros (IDHM), construído com dados do Censo de 2010. Os anteriores basearam-se nas informações coletadas em 1991 e 2000, respectivamente.
Do primeiro estudo ao atual, o salto é de dar um choque de otimismo. Em 1991, numa escala ascendente de 0 a 1, o IDHM médio era de 0,493, ou "muito baixo", a pior das categorias em que se divide a tabela. Em 2000, na metade do segundo mandato do presidente Fernando Henrique, subiu para 0,612, no nível intermediário. Por fim, em 2010, no último ano da era Lula, alcançou 0,727, já na faixa alta. (O IDHM de Melgaço é de 0,418.) Do levantamento original ao que acaba de ser divulgado, o ganho, portanto, foi de 47,5%. Dito de outro modo, em menos de uma geração a parcela de municípios com IDHM muito baixo despencou de 86% para 0,6%.
Além disso, contrariando a tendência histórica de que as coisas melhoram menos onde mais precisariam melhorar, na década passada os ganhos proporcionais de qualidade de vida nos municípios do Norte e Nordeste mais do que dobraram em relação aos do Sul e Sudeste - enquanto, ainda por cima, aumentava a diferença entre o topo e a base do IDHM. Apesar do impacto das políticas de redistribuição de renda semeadas nos governos Fernando Henrique e elevadas exponencialmente por Lula, nos anos dourados do crescimento econômico do País, o que mais contou para alçar a patamares sem precedentes o desenvolvimento humano nos 5.565 municípios brasileiros foram os avanços em longevidade, medida pela expectativa de vida das pessoas ao nascer. O índice, nesse caso, é de 0,816, considerado "muito alto", ante 0,739, no quesito renda per capita, e 0,637, apenas "médio", em educação.
Os brasileiros vivem mais graças à virtuosa combinação de dois fatores: queda expressiva das taxas de mortalidade infantil e de fecundidade (número de filhos por mulheres em idade fértil). Políticas públicas e decisões pessoais mais bem informadas explicam por que, em mais da metade dos municípios, o índice decrescente de óbitos por mil nascidos vivos já alcançou a meta da ONU para 2015 e o crescimento demográfico se tornou negativo. A expectativa média de vida no País, da ordem de 73 anos, seria ainda maior não fosse a violência que dizima a população mais moça. A mortandade entre adolescentes e jovens adultos atinge 134 por 100 mil habitantes, ou 2,5 vezes o cômputo geral - e a diferença só tende a aumentar.
O que puxa para baixo o IDHM, mais do que qualquer outra variável singular, são os números da educação, classificados como "muito baixos" em quase 30% das cidades brasileiras. Paradoxalmente, foi o setor em que o País mais progrediu, em comparação com os demais. O índice cresceu de 0,279 para 0,637 - ou 128%. Compreende os porcentuais da população frequentando ou tendo completado o ensino fundamental e médio. Entre 1991 e 2010, a proporção de jovens (15 a 17 anos) com o antigo primário completo praticamente triplicou, chegando a 57% do total. Mas, na faixa de 18 a 20 anos, beira 60% o contingente que não concluiu o colégio. É o gargalo do sistema.
As estatísticas da educação seriam melhores sem o estoque do passado: em média, os brasileiros com 25 anos ou mais têm somente 7,2 anos de estudo, ao passo que, hoje em dia, se espera que a criança recém-matriculada no fundamental só deixe de estudar 13,8 anos depois. A questão de fundo é o que ela terá aprendido ao longo desse tempo. Pelos padrões de hoje, muito pouco. A má qualidade da educação é o grande freio ao desenvolvimento humano do País.
SP tem mais cenas de vandalismo em ato contra Alckmin e Cabral
Polícia e manifestantes entraram em confronto; 20 foram detidos
Tatiana Farah - O Globo

Jovem quebra vidraça de agência bancária
Foto: AFP
Jovem quebra vidraça de agência bancária - AFP
SÃO PAULO - Em novo protesto contra os governadores Geraldo Alckmin (SP) e Sérgio Cabral (Rio), manifestantes e policiais entraram em confronto, nesta terça-feira, em São Paulo, depois de cenas de vandalismo em diferentes pontos da cidade. Enquanto seguiam da Avenida Faria Lima para a Paulista, vândalos quebraram agências bancárias e uma concessionária de veículos importados, enquanto a polícia reagia com bombas de efeito moral.
Ao menos 20 pessoas foram detidas. Um deles chegou a ser arrastado por policiais para um carro da polícia. Com a cabeça sangrando e ferimentos no rosto, um jovem foi socorrido por uma mulher no meio da Avenida Rebouças.
Os jovens, a maior parte escondendo o rosto com lenços e capuzes, também picharam lojas e carros na rua. Eles gritavam palavras de ordem contra Alckmin e Cabral e xingavam policiais e jornalistas.
Segundo o tenente-coronel Eduardo da Silva Almeida, comandante do 23º BPM, a PM monitorou as redes sociais e localizou a convocação para o protesto. Antes do ato, a polícia já se preparava para reagir.
— Vamos garantir a manifestação para que não haja depredações e problemas — disse o comandante, negando que o grande número de policiais tenha sido chamado por se tratar de protesto contra o governador.
Numa tentativa de diminuir o impacto do protesto, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo divulgou nota, horas antes da manifestação, afirmando que usaria a “energia necessária” em caso de depredações. O governo foi pego de surpresa quando, na última sexta-feira, pelo menos oito agências bancárias e uma cabine da PM foram depredadas.
“A convocação está sendo feita pelo mesmo grupo que promoveu atos de vandalismo na última sexta-feira na Avenida Paulista. A PM respeita o direito à livre manifestação, estará presente ao protesto para dar segurança aos cidadãos pacíficos e agirá com a energia necessária para evitar atos criminosos”, dizia a nota.
Chamava atenção o forte aparato policial. Algo em torno de um policial para cada dois manifestantes. Policiais foram orientados pelo comando a permanecer atrás do grupo de manifestantes, que seguiam pelas principais ruas da Zona Oeste de São Paulo. No início, cerca de 220 PMs acompanhavam os manifestantes; depois, juntaram-se a eles outras forças: Tropa de Choque, Cavalaria e Rota. A PM não divulgou o efetivo total no protesto.
Pelo menos 50 PMs acompanhavam o ato em motocicletas. De cima do capô de um dos carros da polícia, policiais filmavam manifestantes, que reagiam com gritos de “polícia fascista”.
As forças policiais também ocuparam postos na Avenida Paulista para aguardar os manifestantes, que se dispersaram antes de chegar ao local. Aos detidos, os policiais diziam que eles estavam sendo presos por formação de quadrilha e depredação.
Depois das 22h, manifestantes passaram a se concentrar no Vão Livre do Masp, na avenida Paulista. Segundo a PM, eram 40 pessoas. O grupo seguiu para o 14º DP, onde estavam os 20 detidos durante o protesto. Segundo a polícia, a manifestação seguia pacífica. A rua que dá acesso à delegacia, no bairro de Pinheiros, foi cercada por forças policiais, incluindo a tropa de choque. Os manifestantes protestavam contra a prisão de 20 pessoas.
eliego:

untitled by valentina. río. on Flickr.
Via nep
“Por primera, o por única vez, soy libre”

José Hierro
... quisiera ser uno de los motivos de tu sonrisa, quizá un pequeño pensamiento de tu mente durante la mañana, o quizá un lindo recuerdo antes de dormir. Sólo quisiera ser una fugaz imagen frente a tus ojos, quizá una voz susurrante en tu oído, o quizá un leve roce en tus labios. Sólo quisiera ser alguien que quisieras tener a tu lado, quizá no durante todo el día, pero de una u otra forma, vivir en ti.

Via nep
photo

photo

photo

photo
Via mlloydart
PMDB afirma que não abandona Cabral e pede paciência ao partido
Direção nacional espera recuperação do governador para o bem da sigla
Paulo Celso Pereira - O Globo
Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral
Foto: Frame / Adriano Ishibashi
Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral - Frame / Adriano Ishibashi
BRASÍLIA — Se entre secretários do prefeito Eduardo Paes já há muitos que defendem o afastamento dele do governador Sérgio Cabral, em Brasília o clima é diferente. A palavra de ordem na direção nacional do PMDB, partido dos dois, é paciência. Os caciques da legenda acreditam que ainda há tempo até as eleições do próximo ano para que o governador recupere ao menos parte de seu prestígio. Mais do que uma avaliação, existe uma torcida grande para que o correligionário se recupere o quanto antes, para o bem do próprio PMDB.
— Não é da cultura do PMDB abandonar companheiros em dificuldade. Nada garante a irreversibilidade desse quadro. Temos de esperar, falta mais de um ano para a eleição. Não vamos julgar, condenar ou abandonar ninguém antes de entender a realidade e fazer uma revisão da trajetória. Ele tem todas as condições de se recuperar se fizer as mudanças que o povo exige. Não há muita diferença da situação dele para a de outros governadores, só a intensidade — defende o ministro da Secretaria de Aviação Civil da Presidência, Moreira Franco.
O vice-presidente Michel Temer está preocupado com a situação e chegou a ligar para Cabral há duas semanas, quando ocorreu o mais violento protesto no Leblon, próximo à casa do governador. O vice-presidente, de quem Moreira é um dos aliados mais próximos, também trabalha com a perspectiva de encontrar um cenário melhor em junho do próximo ano, quando serão sacramentadas as alianças nas convenções partidárias.
— Temos tempo. As conversas vão até junho do próximo ano — tem dito Temer aos dirigentes do partido.
Cabral era visto como um trunfo peemedebista para as negociações nacionais com o PT. A ideia era que a capacidade de ajudar a eleição de Dilma no Rio permitisse que a legenda estabelecesse outras exigências Brasil afora. Agora, o risco é que em vez de bônus para Dilma, a aliança com Cabral seja vista como um ônus, levando o PT a fazer exigências.
Conversas com Dilma
Durante a visita do Papa Francisco ao Rio, a presidente Dilma Rousseff conversou com Cabral sobre os protestos, e ele afirmou que irá comprovar em breve o envolvimento de adversários políticos com os grupos mais radicais das manifestações. Apesar da derrocada do aliado, a presidente continua considerando como cenário ideal para as eleições de 2014 o apoio de Cabral no Rio.
A questão é que Cabral perdeu capital político para manter a exigência de retirada da candidatura do senador Lindbergh Farias (PT) ao governo do estado. Até por isso, a ideia é só retomar esse tema dentro de alguns meses.
Confiança abalada
CELSO MING - O Estado de S.Paulo
Em dois dias, três índices diferentes, medidos por institutos diferentes, apontaram para uma forte redução da confiança no governo por parte do consumidor, da indústria e do comércio.
Há duas semanas, a presidente Dilma Rousseff, criticou os propagadores do pessimismo que azedam tudo e criam um ambiente ruim para recuperação da atividade econômica. E culpou os analistas da economia, sem precisar melhor o seu alvo.
O governo é incapaz de reconhecer seus erros na condução da economia, divulga só o que lhe interessa, maquia resultados e distorce fatos.
Nenhum estrago à credibilidade do governo foi maior do que as práticas argentinas do secretário do Tesouro, Arno Augustin, de submeter as contas públicas de 2012 a artifícios contábeis. Até agora, ninguém entendeu como o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pode garantir um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida), em 2013, de 2,3% do PIB.
As contas públicas são opacas. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, admitiu em entrevista ao Estadão (21/7) que "a política fiscal não é clara". E, antes dele, o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto declarou ao Estadão (8/6) que a percepção do mercado é de que "a situação fiscal do Brasil é uma esculhambação". E, ainda ontem, o próprio Delfim advertiu que essa contabilidade criativa distorce as estatísticas da dívida pública líquida.
Também ontem, o economista-chefe do Grupo Credit Suisse, Nilson Teixeira, advertiu que, para a recuperação da confiança é necessário que o governo aponte o resultado real das contas públicas, "sem manobras contábeis".
O governo não apenas gasta demais, mas, sobretudo, gasta mal; investe pouco e administra pior ainda seus projetos de investimento. Em praticamente todos eles, temos a síndrome das obras de transposição do Rio São Francisco, que não terminam nunca e custam cada vez mais, para benefício sabe-se lá de quem.
Por que, por exemplo, a presidente Dilma insiste em afirmar que a inflação fechará este ano "na meta", quando se sabe que a meta de inflação é de 4,5% e não os 6,5% (que incluem a margem extra de tolerância) a que ela se refere? Todas as projeções apontam para uma inflação acima dos 5,5% em 2013. Por que não admitir que esse estouro é gol contra e não uma vitória sobre a alta de preços, especialmente quando se leva em conta a deterioração do poder aquisitivo do assalariado.
Não há comentário da área econômica do governo que não atribua os números ruins da atividade econômica aos graves problemas externos - que os analistas, é claro, acabam piorando com seu pessimismo. Apesar disso, também o governo garante que a virada vem vindo aí e que tudo vai melhorar, inclusive as avaliações da população em relação ao desempenho da presidente Dilma. Ora, se estamos mal porque o mundo vai mal, então como é que se pode esperar pela melhora, se os prognósticos são de uma piora do comportamento da economia mundial?
A maneira como o governo administra a economia e as contas públicas é parte essencial do problema da falta de confiança. E as críticas que lança a esmo contribuem para a prostração.
Partidos dizem que não podem garantir a Serra apoio em 2014
Ex-governador procurou PV e PSD; PPS se queixa de indefinição
Silvia Amorim e Gustavo Uribe - O Globo
Serra tem até 5 de outubro para decidir se deixa o PSDB
Foto: O Globo / Marcelo Carnaval
Serra tem até 5 de outubro para decidir se deixa o PSDB - O Globo / Marcelo Carnaval
SÃO PAULO — A dois meses do prazo final para o ex-governador José Serra (PSDB) decidir se troca de partido, as legendas procuradas para construir uma aliança em torno do nome dele para a eleição presidencial em 2014 já dizem que dificilmente o tucano terá um compromisso de apoio por parte delas até outubro. Uma das condições para Serra tentar uma candidatura à Presidência fora do PSDB é ter aliados de peso, que garantam a ele competitividade, cenário cada vez mais distante.
 Lideranças do PV, PSD e PTB alegam que não há como definir questões como essa um ano antes da disputa eleitoral. O partido que mais se aproxima do tucano hoje é o PPS. Serra foi convidado em abril a se filiar à sigla. Mas o PPS tem menos de um minuto no horário eleitoral, o que inviabilizaria uma candidatura solteira — sem apoio de outros partidos. Por isso, o ex-governador tem passado as últimas semanas em conversas com dirigentes partidários para avaliar as chances de alianças.
Serra tem até 5 de outubro para decidir se fica ou sai do PSDB, onde, com o avanço do senador Aécio Neves, não deverá haver espaço para ele na próxima corrida presidencial. Se permanecer no PSDB, Serra terá como opção se candidatar ao Senado ou à Câmara dos Deputados. Na primeira alternativa, é possível que tenha de brigar pela vaga. No caso de disputar uma cadeira de deputado federal, o ex-governador já ouviu a proposta de aliados, mas rechaçou prontamente. A avaliação de dirigentes tucanos é que Serra só deverá se filiar ao PPS se tiver a certeza do apoio, ao menos, do PSD.
O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, que fez o convite a Serra para se filiar à sigla, diz que a situação do amigo não é fácil.
— No máximo, o que pode haver são alguns encaminhamentos (com os potenciais partidos aliados), mas nenhuma grande definição sobre alianças é tomada um ano antes da eleição — afirmou.
Freire disse que renovou o convite a Serra após a fusão entre o PPS e o PMN fracassar. O ex-governador já esteve com outros dirigentes do PPS para tratar do cenário eleitoral de 2014. Mas a indefinição dele tem gerado reclamações. Um grupo alinhado a Marina Silva, liderado pelo secretário de comunicação do PPS de São Paulo, Maurício Huertas, encaminhou na semana passada uma carta ao dirigentes nacional do PPS cobrando prazo de 15 dias para que Serra dê uma resposta. Freire descartou essa possibilidade.
Tendência do PSD é apoio a Dilma
Segundo o ex-líder do PSD na Câmara, Guilherme Campos, o partido não deverá tomar nenhuma decisão sobre esse assunto este ano.
— O José Serra sempre é um grande nome, tem consistência e representatividade e deve ser levado em consideração. Não existe, contudo, neste momento, nada fechado. O partido ainda não se definiu e há uma tendência de apoiar Dilma Rousseff. A decisão deve ser tomada apenas no início do que vem, que é o timing correto de definição de apoios — afirmou.
Em conversas reservadas, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, tem lembrado a aliados que, ao ter ocupado uma pasta no governo federal, a sigla assumiu um compromisso com a reeleição de Dilma, mas não tem descartado o apoio a Serra caso a presidente não recupere a popularidade perdida nos últimos meses. O ex-governador tem mantido contato com Kassab e, segundo aliados, encontrou-o no Hospital Sírio-Libanês, na semana passada, onde fui submetido a um cateterismo.
No PV, a situação é parecida. Com o anúncio do ex-deputado federal Fernando Gabeira de não disputar a sucessão presidencial, o partido também decidiu que só tomará uma decisão sobre quem apoiará na disputa presidencial no início de 2014, quando o quadro eleitoral estiver mais claro. Serra almoçou com o presidente nacional da sigla, José Luiz Penna, há cerca de duas semanas na capital paulista. Segundo Penna, o tucano estava animado com as possibilidades para 2014, mas disse ainda não ter um “horizonte definido”. Além de Serra, o PV tem sido sondado por lideranças da Rede Sustentabilidade, partido da ex-senadora Marina Silva.
— A decisão do partido será tomada ano que vem. Não fomos nós que antecipamos o quadro eleitoral. Faremos a nossa agenda de conversas conforme o tempo eleitoral — afirmou Penna.
O PTB, assim como as outras siglas, só deve definir o seu apoio em 2014. Presidente nacional do partido, Benito Gama ressalta que a legenda caminha para o apoio a Dilma. É aguardado um encontro entre o tucano e lideranças do PTB para os próximos dias.
— Nós temos um compromisso com o governo federal e caminhamos para essa direção. Não há data certa para a definição de apoio, mas eu acredito que será no ano que vem — disse Gama.

DÓRICAS

Rosa dos ventos
DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo
Depois de um primeiro momento de agitação com tendência à infidelidade provocada pela queda geral da avaliação de governantes - notadamente da que habita o Planalto -, partidos, políticos e até empresários adotam a velha combinação de prudência e caldo de galinha, receita que não faz mal a ninguém.
A palavra de ordem é conter o ímpeto da crítica e da debandada até sentir para onde sopram os ventos das manifestações, da popularidade da presidente Dilma Rousseff, da capacidade de seus prováveis oponentes em 2014 arrebatarem ao menos em parte o patrimônio perdido pelo PT e até da probabilidade de Lula se candidatar.
Diante das dúvidas (a maior delas diz respeito à recuperação de Dilma) e da incerteza sobre qual o caminho mais acertado a tomar anda valendo o velho lema: quando não se sabe o que fazer, melhor não fazer nada.
Prova é o recuo do PT no tom do documento discutido pelo diretório nacional do partido dias atrás. Inicialmente continha críticas à política econômica e pedia revisão das alianças com "os conservadores" para fazer a rota de retorno à esquerda. Tudo isso foi tirado para, de um lado, preservar Dilma e, de outro, não queimar caravelas com os aliados antes do tempo.
Compasso de espera é a expressão que define o momento. A questão é: até quando? Não se sabe ao certo mas no início de outubro, quando acaba o prazo para filiações partidárias dos candidatos em 2014, o quadro estará mais definido. Não porque quaisquer dos pretendentes a presidente - à possível exceção de José Serra - estejam pensando em mudar de partido, mas porque a partir daí seus aliados já não poderão abandonar os barcos sem abrir dissidência explícita nem se submeter aos riscos daí decorrentes.
Uma mudança, entretanto, parece consolidada: antes das manifestações os partidos aliados do governo não viam opção fora da reeleição de Dilma. Hoje ainda não conseguem dizer qual seria a alternativa, mas sabem que ela não é a única.
Volta por baixo. De mola que leva ao alto, Sérgio Cabral Filho virou âncora que prende ao fundo, com seus minguados 12% de avaliação positiva à frente do governo do Rio. De onde sua companhia tornou-se um embaraço federal para seus parceiros na política.
Resultado da conjugação de abuso de poder na prática de hábitos faustosos, provincianismo político (demonstrado na excessiva confiança na influência de Lula sobre o Congresso quando da discussão sobre a distribuição dos royalties do petróleo) e arrogância tardiamente assumida com a promessa de ser "mais humilde".
Cabral, reeleito em 2010 no primeiro turno com votação espetacular, confundiu apoio popular com salvo-conduto para transgredir todas as regras. Sejam as de civilidade no convívio com os governados, sejam as balizas legais que exigem do governante respeito à transparência, à impessoalidade e à probidade.
O governador achou que ninguém iria se incomodar com o fato de destratar professores, médicos e bombeiros chamados de vândalos e bandidos no exercício de movimentos reivindicatórios; de passar boa parte do tempo viajando ao exterior, incluindo aí ocasiões em que o Rio foi atingido por tragédias às quais não dava a devida importância evitando aparecer em público em momentos adversos. Cabral considerou que, ao abandonar entrevistas no meio porque não gostava das perguntas, afrontava a imprensa - quando o gesto significava interdição do diálogo com a sociedade.
Acreditou-se inimputável. Não teve noção de limite. Agora se diz arrependido por influência das palavras do papa. Ao que alguns chamam de senso de oportunidade outros dão o nome de oportunismo. Para não falar no egoísmo de pedir aos manifestantes que se retirem da porta de sua casa porque tem "filhos pequenos", sem se importar com os filhos dos vizinhos.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Vândalos depredam lojas e bancos em São Paulo
Vinte pessoas foram detidas por atos de vandalismo durante a passeata
VEJA
Policiais desobstruem barricada criada por manifestantes na Avenida Reboucas durante protesto pedindo a saida do governador de Sao Paulo Geraldo Alckmin
Policiais desobstruem barricada na Avenida Reboucas, em Sao Paulo (Nelson Antoine / Fotoarena)
Um grupo de manifestantes depredou agências bancárias e uma loja de veículos na Zona Oeste de São Paulo na noite desta terça-feira. Segundo a Policia Militar, 300 pessoas participam da passeata, convocada para protestar contra os governadores Geraldo Alckmin (SP) e Sérgio Cabral (RJ). Ao menos vinte pessoas foram detidas por vandalismo.
A passeata teve início na região do Largo da Batata, na Zona Oeste da capital paulista. De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a Rebouças chegou a ser bloqueada nos dois sentidos, mas já foi liberada.
Imagens da TV Globo News mostram que homens da Polícia Militar monitoram a movimentação dos manifestantes em direção à Avenida Paulista. Uma cabine da Polícia Militar também foi depredada. Os policiais chegaram a usar bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os vândalos que depredaram os estabelecimentos comerciais pelo caminho e colocaram fogo em sacos de lixos.
Bancos lucram mais, apesar da economia fraca
Itaú Unibanco, Bradesco e Santander reduziram projeção de expansão do crédito
Roberta Scrivano - O Globo
SÃO PAULO - Apesar do fraco desempenho da atividade econômica brasileira neste ano, o lucro dos três maiores bancos privados — Itaú Unibanco, Bradesco e Santander — cresceu 1,93% no primeiro semestre na comparação anual, totalizando R$ 14 bilhões. Excluindo o Santander, que teve lucro 21,4% menor no primeiro semestre (R$ 1,1 bilhão), a média de crescimento dos resultados, também na comparação anual, é mais vigorosa e chega a 4,5%. Com o fechamento do primeiro semestre, os três bancos aproveitaram para revisar para baixo as suas projeções de expansão da carteira de crédito neste ano. Os motivos são o mau desempenho da economia e também a maior seletividade na aprovação de novos contratos, além da demanda menor.
O Itaú Unibanco divulgou alta de 4,8% no lucro líquido, para R$ 7 bilhões, e o Bradesco, 4,3%, totalizando R$ 5,9 bilhões no primeiro semestre. Já as novas previsões para a carteira de crédito no Itaú caíram de 11% a 14% para um intervalo que vai de 8% para 11%. O Bradesco baixou de 13% a 17% para uma faixa entre 11% e 15%.
— Revisamos nossa projeção para o PIB de 3,5% para 2,3%. A revisão é a principal razão pela qual não nos pareceu plausível a projeção inicial para a carteira de crédito — afirmou Rogério Calderón, diretor Corporativo de Controladoria do Itaú Unibanco, ontem, durante conferência.
Aposta no crédito consignado
Na média, a carteira dos três bancos cresceu 7,3% de janeiro a junho, chegando a R$ 902,8 bilhões. Entre as linhas ofertadas, o crédito consignado e o imobiliário, considerados mais seguros, foram os que mais cresceram em todas as instituições.
O destaque ficou para o Itaú que, depois de fazer parceria com o BMG para ampliar os empréstimos consignados, viu a modalidade avançar 58,6% no primeiro trimestre.
— Os bancos estão saneando as suas carteiras e emprestando com mais qualidade. Embora as carteiras estejam crescendo menos, o que impacta o lucro, podemos dizer que os resultados tendem a ser de mais qualidade, com maior solidez — explicou Luís Miguel Santacreu, analista de bancos da consultoria Austin Rating.
O saneamento citado por Santacreu já se reflete nas taxas de inadimplência dos grandes bancos, outro fator que também colabora para a qualidade dos resultados, segundo o especialista. O Itaú conseguiu reduzir os calotes acima de 90 dias em 1 ponto percentual, o Bradesco em 0,3 ponto. Já no Santander, a taxa subiu 0,3 ponto.
— Na comparação trimestral, a inadimplência caiu 0,6 ponto, para 5,2%. Estamos esperançosos de que essa tendência de queda se mantenha — explicou Carlos Galán, vice-presidente de Finanças do Santander Brasil, durante coletiva de imprensa.
Marcelo Torto, analista da Ativa Corretora, vincula a melhoria na inadimplência justamente ao novo modelo de concessão de crédito, mais rígido e que prioriza linhas mais seguras.
— O ponto positivo do resultado fica por conta da inadimplência, que deve seguir sua trajetória descendente, mostrando nova melhora na qualidade de crédito do banco — detalhou Torto.
A arrecadação com tarifas e a ampliação de eficiência, por meio do corte de gastos, estão ganhando cada vez mais espaço. Na média das três instituições, a alta com a arrecadação nos serviços foi de 13,9% e chegou a R$ 26,3 bilhões. Calderón, do Itaú Unibanco, afirmou que quase metade do aumento de 13,5% (R$11,4 bilhões) com as receitas do banco vieram de serviços relacionados ao cartão de crédito. Em maio, o banco anunciou a compra da Credicard por R$ 2,8 bilhões.
— Neste jogo de compensação, o que mais traz efeito é a ampliação da eficiência, por meio da redução de custos, o que inclui demissões. É uma nova fórmula de negócios para este momento — disse Santacreu.
Direito pode incluir estágio em favela
OAB propôs ao Ministério da Educação alteração nos cursos; para a Ordem, hoje essas experiências não passam de ‘faz de conta’
Lisandra Paraguassu - OESP
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) propôs ao Ministério da Educação uma alteração no currículo dos cursos de Direito, que poderão incluir um estágio em comunidades carentes do País. O estágio, de seis meses, seria dentro do período do curso.
A proposta foi apresentada nesta segunda-feira, 29, pelo presidente da OAB, Marcus Vinícius Coelho, durante evento em Teresina. "A grade curricular do curso é do século 19, e a metodologia e o sistema de avaliação são precários. Queremos um curso de Direito que prepare cidadãos conscientes de seu papel no mundo e não meramente burocratas ou tecnocratas", disse ele.
A OAB propõe ainda um aumento de disciplinas para o curso. Nesse período, os estudantes teriam de fazer um estágio "de verdade", segundo Coelho. Hoje, o estágio já é previsto na grade curricular e deve ser realizado em fóruns, juizados e tribunais, mas são experiências de "faz de conta", de acordo com o presidente da Ordem.
Ao Estado, Coelho disse que o estágio não deverá ser obrigatoriamente em comunidades carentes, mas terá de dar aos estudantes experiência prática no exercício do Direito. "O estágio será em favelas, em empresas, em escritórios, em tribunais, enfim, onde o estudante tiver sua vocação e sua afinidade. Vivemos em um país democrático e plural, onde a liberdade das pessoas desenvolverem suas potencialidades deve ser respeitada."
A criação de novos cursos de Direito está suspensa desde o início deste ano, quando a OAB e o Ministério da Educação firmaram um acordo para criar um marco regulatório para a área. Por 12 meses, a criação de novas faculdades ficará parada, até que a OAB apresente e o MEC aprove um novo currículo para a área. Segundo Coelho, a maioria dos alunos sai das instituições de ensino superior sem conhecimentos básicos, como processo eletrônico e prática do Direito. Procurado, o MEC não se pronunciou sobre a proposta da OAB de incluir estágio em comunidades carentes.
Médicos
A ideia de propor que estudantes façam algum trabalho social veio à tona com a decisão do governo federal de incluir na formação de médicos dois anos de trabalho remunerado no Sistema Único de Saúde (SUS). Os dois casos, no entanto, são diferentes. O estágio em comunidades carentes seria uma alternativa ao que já existe hoje, e não um período extra.
Dilma libera R$ 2 bi para conter motim de aliados no Congresso
Temendo derrotas após o recesso, presidente autoriza emendas e tenta enquadrar ministros da cota partidária
Petista reúne 1º escalão e cobra fidelidade de bancadas; governo fala em liberação extra de R$ 4 bi em setembro
NATUZA NERY/VALDO CRUZ - FSP
A presidente Dilma Rousseff montou uma operação para tentar reduzir os riscos de derrota em votações prometidas para agosto, às vésperas da retomada dos trabalhos no Congresso, e com sua base parlamentar rebelada.
Para acalmar os ânimos, Dilma resolveu mexer no "bolso". Ontem, em reunião com dez ministros e assessores no Palácio da Alvorada, ela autorizou a liberação de R$ 2 bilhões em emendas feitas por deputados e senadores ao Orçamento da União.
Apesar de prometidos e programados desde maio, esses recursos estavam represados por decisão do próprio Executivo devido às limitações fiscais deste ano.
Os congressistas também receberam a promessa de liberação de outros R$ 4 bilhões em setembro.
Apesar da concessão, a presidente fez uma cobrança aos ministros políticos --aqueles indicados por aliados. Eles deverão trabalhar para garantir a fidelidade de suas bancadas em votações de interesse do Planalto.
A exigência resulta do diagnóstico segundo o qual os partidos contemplados com cargos no primeiro escalão não têm votado com o Executivo.
A avaliação é que as derrotas sofridas pelo Palácio do Planalto no Legislativo foram armadas a partir de grupos aliados do próprio governo.
Na reunião de ontem, estavam ministros do PMDB, PP, PC do B, PSB, além do próprio PT. Anteontem, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) já havia pedido ajuda ao PSD de Gilberto Kassab (SP), este formalmente fora da base, mas com afilhado no Ministério da Micro e Pequena Empresa.
Dilma e sua equipe discutiram também investimentos que serão anunciados hoje em São Paulo, ao lado do prefeito Fernando Haddad (PT), em mobilidade urbana, área sensível e, por isso, motor das manifestações de junho.
Aliados de Dilma diziam ontem, em tom de brincadeira, que o governo começou a se preparar para enfrentar agosto, o "mês do cachorro louco".
Segundo uma crença popular, o período é propício para acontecimentos traumáticos.
O Congresso reinicia os trabalhos na próxima semana, e reserva dias de tensão para o Planalto. No centro das preocupações está a apreciação de vetos presidenciais.
Até o recesso, vigorava a regra que facilitava o engavetamento de vetos.
Agora, pelo novo sistema definido no Congresso, eles precisam ser votados em 30 dias a partir de sua leitura no plenário. Se isso não ocorrer, os vetos trancam a pauta de votação.
No cardápio de vetos com risco de serem derrubados está o que impediu o fim da multa adicional de 10% sobre o saldo das contas de FGTS na demissão sem justa causa de trabalhadores.
Na lista de projetos a serem votados, estão a medida provisória do programa Mais Médicos e a proposta que reverte os royalties do petróleo para educação e saúde.
A Câmara quer aprovar mecanismo que destina 50% da receita do fundo social do pré-sal para educação, enquanto o governo defende apenas o rateio de seus rendimentos.

Dilma emborca junto com a CNV
Carlos Tautz - O Globo
Uma das melhores iniciativas do governo Dilma está a naufragar e a presidenta não intervém nessa derrocada anunciada. A Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada para resgatar as estórias secretas da ditadura civil-militar produzida pelo golpe de 64, vai afundando em praça pública. Porém, Dilma, tragada pelas manifestações e um fragilíssimo repúdio envergonhado à espionagem dos EUA sobre o Brasil, não cobra resultados de seus comissionados nem dá o respaldo necessário para a CNV aprofundar as investigações urgentes para reescrever o passado e esclarecer o presente do Brasil.
Ao se omitir, a presidenta vai, assim, tal e qual um comandante que não abandona o navio avariado, emborcando junto com sua própria obra.
Os males de que padece a CNV não se limitam à falta de metodologia que amplie e qualifique os apoios advindos da sociedade para apurar quem fez o que durante a ditadura, nem na falta de coragem para enfrentar torturadores como o coronel Ustra.
A CNV também vacila – e se não o faz, não revela porque não o faz - justamente diante de um dos pontos em que mais precisava avançar: o mapeamento, a denúncia e as propostas de punição das grandes corporações brasileiras e estrangeiras que financiaram o aparelho repressivo e que, em contrapartida, beneficiaram-se da ditadura que apoiaram. Aí, precisa ir muito mais longe do que apenas pinçar nomes de dedos-duros que denunciavam sindicalistas nos locais de trabalho.

Dilma poderia marcar seu mandato como aquela presidenta que, após Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula, teve o compromisso histórico de trazer a público as maquinações, internas e externas ao Brasil, que viabilizaram a tortura como método de Estado e sustentaram e ainda sustentam as relações de poder no País. Ao se manter imóvel diante das urgências sintetizadas nos trabalhos e objetivos da CNV, Dilma entra célere para a lista de presidentes que, de tão comprometidos, faz pouco e muda nada.
Uma certa imprensa trata a crise na CNV como produto único de uma suposta fogueira de vaidades e se recusa a ver o óbvio, contribuindo pouco para os debates centrais desse país e expondo ainda mais sua própria inutilidade. Além da falsa crise de egos, a Comissão esbarra em radicais limites de tempo, estrutura, objetivos e apoio político do centro do poder para chegar onde é necessário.
Dilma finge que não vê – e não adianta jogar a culpa no séquito que a bajula. O impasse na CNV nada tem a ver com incompetência. Tem a ver com medo pessoal e com medo de arranhar os arranjos que a sustentam.
Carlos Tautz, jornalista, coordenador do Instituto Mais Democracia – Transparência e controle cidadão de governos e empresas.
O Rio à deriva
Igor Gielow -FSP
BRASÍLIA - Entre tantas trincheiras abertas para 2014, uma em especial chama a atenção: a do Rio de Janeiro, terceiro colégio eleitoral do país.
Após anos de gestões divididas e fracassadas, 2013 parecia coroar a dobradinha Sérgio Cabral-Eduardo Paes, história de sucessos de marketing: o Rio voltara à sua fantasia imagética de ser o coração espiritual do país, Olimpíada, final de Copa, o aparente sucesso das UPPs. Até Eike Batista virou patrimônio emocional.
Deu no que deu. Escândalos que vão da relação do governador com empreiteiro enrolado ao uso de helicópteros, caos logístico na Copa das Confederações e na visita do papa, manifestações infindáveis, violência perene --e mesmo Eike em apuros.
Cabral, perdoado pela classe média mesmo quando chamou favelado de "otário", teve de, algo pateticamente, apelar ao instinto paterno de manifestantes impúberes para pedir a desocupação de sua rua.
Paes sofre por tabela e protagonizou nada menos do que uma agressão a um cidadão neste ano, mas Cabral ainda é o alvo. De ativo do PMDB, ele agora é um pato a manquitolar, exceto que tire da cartola alguma agenda positiva de fato eficaz. Se já enfrentava a canibalização da candidatura de seu vice em 2014 pelo PT, o processo será dramático.
A oposição tradicional nada ganha. O tucano Aécio Neves contava com algo entre apoio tácito e defecção do amigo Cabral. Agora, terá de apresentar escusas e distanciar-se.
Marina Silva, por sua vez, já demonstrara potencial no Estado, em especial na parte "cenário de novela" do Rio. Ao encenar um "one-woman show", sem palanques fortes, ao menos neste caso ela pode lucrar.
A tragédia da adutora ontem ganha caráter simbólico. Enfim, o governador foi ter com as vítimas, talvez seguindo a "humildade" que diz ter aprendido com Francisco. Pelo que contam os moradores, contudo, Cabral (Paes a tiracolo) ainda não pode andar com vidro aberto, como o papa.
"Reportagens antiéticas": político grego briga com jornal alemão
Der Spiegel
17.jun.2012 - John Kolesidis/Reuters
Alexis Tsipras, líder do Syriza, vota em Atenas nas eleições de 2012
Alexis Tsipras, líder do Syriza, vota em Atenas nas eleições de 2012
A entrevista foi encerrada após a quinta pergunta. Alexis Tsipras, líder do Syriza, partido de de esquerda da Grécia, interrompeu a entrevista que estava concedendo ao jornal conservador alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung depois de sete minutos e 50 segundos.
Antes da interrupção, o jornalista Michael Martens havia perguntado ao líder da oposição grega o que ele quis dizer quando afirmou, em junho de 2012, que os partidos atualmente no poder na Grécia, o Nova Democracia e o PASOK, "tinham denegrido a bandeira grega e a entregado a Angela Merkel".
Tsipras se ofendeu com a pergunta. O político grego disse que "nunca" fez essa afirmação. O jornal alemão, no entanto, afirma que existem provas de que ele fez. A frase estaria documentada em imagens gravadas pela TV grega durante um comício do Syriza realizado em 14 de junho de 2012, em Atenas, e também foi divulgada em um comunicado à imprensa emitido pelo partido oposicionista Syriza.
Tsipras e o Syriza se opõem aos programas de austeridade que os parceiros europeus da Grécia impuseram em troca da ajuda financeira para salvar o país da crise do euro. A chanceler alemã, Angela Merkel, em especial, se transformou em uma figura odiada por muitos na Grécia, onde a culpam pelo sofrimento que os cortes causaram à população.
Em editoriais anteriores, o jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung já havia criticado Tsipras e defendido a continuidade das políticas de austeridade na Grécia, além de ter argumentado, em editorial publicado em maio 2012, que a saída da Grécia da União Europeia poderia ter um "efeito disciplinador para outros países".

Schäuble, o "Gauleiter"

Por sua vez, o Avgi, jornal do partido Syriza, publicou charges mostrando Merkel recebendo ordens de Adolf Hitler. Recentemente, a publicação também descreveu o ministro da Fazenda da Alemanha, Wolfgang Schäuble, como um "Gauleiter", termo usado para descrever os líderes regionais do partido nazista. Essas referências nazistas, divulgadas pela imprensa grega e mencionadas durante comícios contra as políticas de austeridade, nas quais Merkel é retratada vestindo um uniforme nazista, têm irritado os alemães.
Após a entrevista ter sido encerrada, a porta-voz de Tsipras, que faz a interface com a imprensa, enviou um e-mail para um dos principais editores do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, acusando Martens de "ter ido muito além das fronteiras da ética do trabalho jornalístico" e de trabalhar com "boatos, declarações de terceiros e informações aceitas sem verificação".
Tsipras decidiu encerrar a conversa por não conceder entrevistas à "imprensa sensacionalista", acrescentou o e-mail.
Posteriormente, o Avgi, jornal do partido Syriza, publicou um artigo sobre o correspondente do Frankfurter Allgemeine Zeitung:
"Martens parece ter se inspirado no estilo de um procônsul, que seus compatriotas, os políticos alemães e os funcionários da troika tendem a adotar quando andam pelos gabinetes do governo grego (...) Por isso, o jornalista pensou que o líder da oposição grega estaria disponível para entrevistas de natureza politicamente irresponsável."
O Frankfurter Allgemeine Zeitung reagiu publicando uma transcrição da entrevista e perguntando:
"Se Alexis Tsipras e seu séquito dizem que um jornalista é antiético devido ao fato de eles terem sido confrontados com suas próprias declarações, será que, no fim das contas, isso não diz mais sobre eles mesmos e sobre a cultura de seu diálogo político do que sobre a pessoa que reproduziu as falas de Tsipras?"
Tradutor: Cláudia Gonçalves
Ícone da indústria alemã mergulha em caos administrativo
David Crossland - Der Spiegel
Oliver Lang/AFP
Peter Löscher, presidente da Siemens, durante conferência de imprensa anual da empresa, em Munique
Peter Löscher, presidente da Siemens, durante conferência de imprensa anual da empresa, em Munique
A Siemens, um dos pilares reputação industrial da qual a Alemanha se orgulha, demitiu seu CEO Peter Löscher por presidir uma série de infortúnios e não atingir as metas de lucros. Comentaristas alemães receberam bem sua saída e dizem que o supervisor chefe Gerhard Cromme também deveria ser demitido.
A gigante industrial alemã Siemens mergulhou num caos administrativo desencadeado por um alerta de lucro na semana passada que levou à remoção de seu CEO, Peter Löscher. Uma reunião da supervisão da empresa, organizada às pressas no sábado (27), decidiu derrubá-lo, e a empresa deverá nomear o diretor financeiro Joe Kaeser como seu sucessor numa reunião nesta quarta-feira (31).
Mas Löscher não vai sair sem lutar. De acordo com uma reportagem do jornal Süddeutsche Zeitung na segunda-feira (29), Löscher só deixará o cargo voluntariamente se o presidente do conselho de supervisão, Gerhard Cromme, sair também. Caso contrário, Löscher insistirá numa votação e tentará impedir a maioria de dois terços necessária para que o conselho de supervisão o remova do cargo, segundo o jornal, citando fontes não identificadas do conselho de fiscalização.
Mas as fontes acrescentaram que Löscher não tem chance de permanecer no cargo. Löscher, dizem as fontes, culpa Cromme por conspirar para retirá-lo do cargo para distrair a atenção de suas próprias falhas. Cromme foi forçado a renunciar como presidente do conselho de supervisão da siderúrgica ThyssenKrupp em março por não ter impedido a empresa de ter um prejuízo de bilhões de euros.
Cromme, de acordo com o Süddeutsche, agora quer evitar ser responsabilizado por não tomar medidas no momento certo na Siemens, que encontrou uma série de problemas graves, entre eles o atraso na entrega de 16 trens de alta velocidade ICE, que eram necessitados com urgência, para a operadora ferroviária Deutsche Bahn, e dificuldades em conectar os parques eólicos no Mar do Norte com a rede elétrica. O grupo bastante diversificado fabrica produtos que vão desde turbinas a gás para trens de alta velocidade até aparelhos auditivos.
Ao se tornar CEO em 2007, Löscher se tornou a primeira pessoa de fora da empresa a assumir o leme da Siemens, e ganhou elogios por tirar a empresa de um grave escândalo de suborno. Seu contrato foi prorrogado por mais cinco anos em 2012.
Desde então, as críticas a Löscher cresceram. Ele foi acusado de ter avaliado mal a evolução do mercado em seu objetivo de expandir as vendas em um terço, para 100 bilhões de euros, e a empresa está sofrendo com uma queda na demanda global. Além disso, os lucros da Siemens foram atingidos por encargos únicos relacionados com atrasos em projetos e outras questões.
Comentaristas da mídia alemã escreveram na segunda-feira que Löscher merece elogios por ter limpado a empresa depois do escândalo de corrupção, mas disseram que ele não conseguiu definir uma visão para o grupo e presidiu erros que foram colocando em risco sua reputação tecnológica. Vários dizem que o chefe do conselho de supervisão, Cromme, também deve sair.
O Süddeutsche Zeitung, e centro-esquerda, escreveu:
"Os desafios que esta companhia global enfrenta podem ser comparado aos do envelhecimento de uma nação industrial. Assim como a Alemanha, a gigante de exportação já teve o mundo a seus pés, a Siemens fez negócios lucrativos em quase 200 países. Mas hoje, os países emergentes estão abrindo caminho para os mercados e suas empresas estão colocando a Siemens sob pressão. Neste mundo selvagem, a empresa precisa dos melhores engenheiros, vendedores e administradores – ela precisa ter à frente um executivo com nervos de aço e uma vontade forte, um líder. Löscher queria ser isso. Ele enxugou a empresa com sucesso e melhorou a eficiência. Mas esse sucesso não durou muito porque foi puramente impulsionado por custos e números, em detrimento da força de trabalho. E porque não havia nenhuma visão clara por trás. Em suma, foi porque ele não levou as pessoas junto consigo."
O jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung escreveu:
"Um ícone da indústria alemã está estremecido. É evidente há muito tempo que uma das maiores empresas da Alemanha não está fazendo progresso e que a sua posição nos mercados mundiais está em perigo. A Siemens costumava ser o cartão de visitas para a tecnologia "made in Germany", para fábricas industriais, estações de energia, turbinas eólicas, trens e tomografia computadorizada. Mas a empresa está perdendo sua rentabilidade e competitividade, e sua capacidade de inovação, em particular – uma das virtudes da economia alemã. A erosão era reconhecível. Mas o conselho de administração, a cargo de Peter Löscher, e o conselho fiscal, com Gerhard Cromme como supervisor-chefe, não tomaram nenhuma atitude."
"Não surpreende que as metas da 'Siemens 2014' foram abandonadas – e que Löscher esteja de saída. Seu diretor financeiro, Joe Kaeser, deveria agora acertar as coisas – alguém que é em parte responsável pela situação. Mas ele sempre conseguiu andar na corda-bamba entre ser leal a Löscher e ao mesmo tempo seu adversário. No entanto, ele poderia restaurar Siemens à sua antiga glória. Ele sabe como motivar a força de trabalho, ele conhece a empresa de dentro para fora e os investidores o têm em alta conta."
O conservador Die Welt escreveu:
"É louvável que Peter Löscher esteja sendo substituído como diretor-executivo da Siemens. Seu histórico é desastroso. A empresa perdeu sua aura de infalibilidade. Isso se aplica à sua tecnologia: trens de alta velocidade não são concluídos e há problemas de qualidade com as turbinas eólicas. Mas isso também se aplica à gestão: as metas corporativas de Löscher, como de 100 bilhões de euros em vendas parecia assustadoramente fora da realidade, mas as circunstâncias de sua demissão sugerem que o austríaco por si só não é o problema. Não é só Löscher que carece a qualificação para conduzir uma construção tão complexa quanto o grupo Siemens com seus 70 mil funcionários, o resto da liderança se comportou como uma equipe de estagiários."
O diário de economia Handelsblatt escreveu:
"A retirada do gerente austríaco era inevitável. Primeiro, a empresa de outra forma nunca se estabilizaria e a tortuosa batalha interna teria continuado. Segundo, Löscher de fato cometeu erros em seu segundo mandato, e mostrou uma liderança fraca. Ele deixou as rédeas escorregarem e não desenvolveu qualquer visão para os próximos anos."
Mas a atual crise na Siemens não é apenas culpa do Löscher, argumenta o Handelsblatt. Em seu primeiro mandato como diretor, entre 2007 e 2012, Löscher limpou a empresa depois de ter sido abalada pelo maior escândalo de corrupção da Alemanha: "seu mantra 'apenas negócios limpos' parecia ter credibilidade. O velho escândalo de corrupção ficou nos livros de história graças a esta diretriz clara, e ao redor do mundo Siemens é considerada um modelo quando se trata de combate à corrupção".
"Mas, desde então, os erros e derrocadas foram se acumulando – e isso é em parte se deve a deficiências de Löscher Ele estava constantemente viajando para conquistar um acordo de exportação e sempre em contato com governos – ele era o lobista-chefe da empresa, mas não era o grande criador de jogadas que a equipe esperava. Ele nunca se dedicou profundamente o suficiente aos assuntos. O diretor executivo confiava nas cabeças de seu setor e deixou um monte de responsabilidades com ele."
"Todo o conselho administrativo seguiu a estratégia da Löscher. E o conselho de supervisão, com Cromme, assinado em baixo de decisões ruins, assentiu para aquisições equivocadas e estendeu o contrato de Löscher, embora ele não tivesse apresentado uma estratégia clara para o futuro. Agora que Löscher se foi, o debate em torno de Cromme voltará à tona. O que é correto. A Siemens precisa de um novo e forte diretor executivo com um forte presidente do conselho de supervisão."
Tradutor: Eloise de Vylder
Radicais islâmicos usam internet para estudar e disseminar doutrinas
Shahzad Abdul e Laurent Borredon - Le Monde
Reprodução/AFP

24.dez.2012 - Integrantes do grupo radical islâmico Ansaru supostamente fazem um anúncio sobre uma ação do grupo: o recente sequestro de um francês no norte da Nigéria
24.dez.2012 - Integrantes do grupo radical islâmico Ansaru supostamente fazem um anúncio sobre uma ação do grupo: o recente sequestro de um francês no norte da Nigéria
É um disco rígido perdido no oceano do processo judiciário aberto após os assassinatos cometidos em março de 2012 por Mohamed Merah. Os policiais o descobriram durante uma revista na casa da família da esposa de Abdelkader, o irmão mais velho do assassino de Toulouse. Ele pertencia a "Kader", indiciado por "cumplicidade em homicídio". Dentro dele havia uma biblioteca digital de milhares de textos que constituem tanto um guia de doutrinamento salafista quanto um manual do aprendiz jihadista, com textos de "acadêmicos" religiosos, vídeos propagandistas ou excertos de livros.
O que pode parecer um detalhe dentro de um caso judicial tão pesado, na verdade revela a caixa de ferramentas islamita, disponível a um clique de mouse. Ela materializa o grande papel da internet no processo de radicalização. Os sites visitados por Abdelkader Merah não estão ocultos: eles chegam a aparecer nas primeiras ocorrências nos motores de busca usando palavras-chave óbvias – "jihad", "sharia" etc. São traduzidas para o francês e, portanto, podem atingir um público bem mais amplo que a revista da Al-Qaeda na internet, a "Inspire", redigida em inglês. Acima de tudo, eles fazem uma propaganda em gotas recomendando um islamismo rigorista para a defesa de um jihad mais duro.
A maior parte dos textos é construída em torno de um mesmo raciocínio binário. Qualquer que seja o tema abordado, os argumentos são idênticos, apoiados por textos religiosos instrumentalizados e distorcidos de seu sentido primeiro. O objetivo é oferecer fundamentos ideológicos para um pensamento austero, para depois chamar o leitor a escolher seu lado.
O doutrinamento se constrói em etapas. A primeira consiste em opor os muçulmanos aos "descrentes". Assim, nos documentos consultados por Abdelkader Merah, o fiel aprende que a mínima dúvida o joga para o lado errado, o dos ímpios. "A mensagem do Profeta é uma verdade indiscutível. Acreditar que ela possa não ser é a descrença da dúvida", é possível ler em um texto intitulado "Descrença". Um outro condena qualquer forma de nuance, e ordena que os fiéis "respeitem o Corão ao pé da letra em vez de tentar inovar".

"Desencaminhar os jovens muçulmanos"

A segunda etapa visa colocar os muçulmanos uns contra os outros, em quase todos os documentos consultados, sugerindo que somente os "bons muçulmanos" são partidários de uma aplicação rígida da lei islâmica: "A sharia é o caminho geral que todos os muçulmanos devem tomar", insiste um desses textos, "Julgar as leis humanas". Pouco importa que eles rezem, jejuem ou façam caridade, "aqueles que julgam com as leis inventadas pelos homens trocaram a religião por essas leis, e isso é descrença."
Nessa aplicação rígida da regra, nenhum modelo, exceto por aquele que os talebãs estão tentando impor no Afeganistão, parece ser aceito pelos redatores dos diferentes textos. Nem mesmo a Arábia Saudita, considerada excessivamente submissa aos Estados Unidos, que, no entanto, é defensora de um wahhabismo – movimento tradicionalista e literalista – ultraortodoxo. No entanto, eles têm urgência em aplicar a sharia, inclusive nos países ocidentais. Isso porque nessas sociedades, como é mencionado no tratado "Sobre o comportamento em relação aos descrentes", é feito de tudo para "desencaminhar os jovens muçulmanos."
Uma vez assimilada essa base ideológica, o internauta que consultar os mesmos documentos que Abdelkader Merah pode passar para a terceira etapa: a execução da jihad.
"A principal obrigação que cabe aos muçulmanos não é o combate?", pergunta o autor do texto discretamente intitulado "A paz ou a espada", que diz: "Eles devem sair em jihad, jovens ou velhos, cada um segundo suas próprias capacidades (...). As pessoas querem praticar atos espirituais e temporais completamente difíceis apesar de sua falta de vantagens, ao passo que a jihad é religiosamente mais saudável. É, na realidade, o melhor ato para um muçulmano". Esse dever da jihad mundial, inicialmente justificada pelo conflito israelense-palestino, tem chegado a terras ocidentais.
Nessa quarta etapa, a ação individual é aconselhada e justificada. É o fim de células e redes como a Al-Qaeda. A hora é dos solitários isolados, mais discretos e com mais mobilidade: "O que faz o indivíduo sozinho se os outros não cumprirem seu dever? Ele ataca a si mesmo, se for capaz." Em outro texto, fala-se no "fim de uma das fases da jihad e no início de uma nova fase."

"A jihad se tornou um assunto controverso"

Todavia, nenhum versículo do Corão recomenda ações bélicas. Como para eles é impossível de justificar, esse é um ponto que a maior parte dos autores evitam. "O ato mais virtuoso é a jihad. Fazer o espírito humano compreender a virtude desse ato pode se provar difícil, mas somente a graça de Alá pode nos esclarecer", argumenta o autor das "Virtudes da jihad".
Alguns autores têm ciência de que a maior parte da comunidade muçulmana rejeita essa ideologia, e antecipam os questionamentos dos leitores. "A jihad se tornou um assunto controverso cuja finalidade é dizer aos muçulmanos: sejam pacíficos... As pessoas que procuram desculpas para não lutar zombam e ridicularizam a religião", afirma o autor de "A Paz".
Em uma última etapa, os textos mastigam o trabalho do neojihadista: eles selecionam para ele alvos em potencial. "Não se pode inculcar às pessoas que é proibido combater os civis", afirma o autor de "Inocentes", que lista os "infiéis" em geral e explica certos casos, como o dos judeus, "cujas mulheres e crianças" o jihadista "pode matar se eles começarem a matar". Mas um muçulmano não pode ser morto, a menos que tenha "ajudado militarmente" o inimigo.
Esses textos soam ainda mais fortes pelo fato de que são muitos os que passam para a prática, como o caso de Mohamed Merah, que matou em Toulouse e em Montauban quatro soldados franceses de origem muçulmana, além de três crianças em uma escola judaica, em março de 2012; o de Alexandre Dhaussy, um convertido de 22 anos chamado de Abdelilah, que agrediu com uma faca um militar da Defesa em maio; e, por fim, o de Michael Adebolajo e de seu cúmplice, em Londres, acusados de terem matado a golpes de cutelo um jovem soldado no meio da rua, alguns dias antes.
Nem todos os que bebem nesses textos embarcam em ações. Mas todos os que embarcaram em ações os consultaram.
Tradutor: Lana Lim