segunda-feira, 9 de abril de 2012

NA CÚPULA DAS AMÉRICAS SÓ VAI DAR ÍNDIO NARCO-TRAFICANTES, BRANCOS CORRUPTOS E NEGROS INCOMPETENTES. NINGUÉM HONESTO, NÃO IMPORTA A COR

A nova miopia latino-americana
Mac Margolis - O Estado de S.Paulo
Quando os chefes das nações americanas se reunirem na próxima semana cidade colombiana de Cartagena das Índias, na Cúpula das Américas, assunto não lhes faltará.
As economias latino-americanas vão bem, mas o comércio entre os vizinhos está menos livre e politizado demais. Nos principais países bolivarianos - Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela -, a liberdade de imprensa está em retrocesso. Em vários lugares, cartéis criminosos usurpam a paz e a ordem democrática, enquanto a América Central enxuga o gelo em uma guerra contra o tráfico de drogas.
No entanto, para quem imagina que surgirão acordos de peso na costa colombiana, a sexta Cúpula das Américas tem tudo para decepcionar. No lugar de pactos, haverá palavras bonitas e foguetório ideológico. Das 33 nações com presença confirmada, duas devem monopolizar os debate.
A primeira, pela sua ausência, é Cuba, cujo regime, embora habilitado a voltar à Organização dos Estados Americanos (OEA), foi "convidado" a não comparecer para garantir a participação da segunda, os EUA. Sem o presidente Barack Obama, a cúpula não passaria de um happy hour com cumbia.
Mesmo assim, a presença gringa pode não trazer muitas luzes. Com a Síria em polvorosa, a guerra inglória no Afeganistão e as ambições atômicas do Irã, a América Latina mal aparece no radar de Washington.
E, quando aparece, não encaixa, já que nenhum governo latino-americano apoia o cinquentenário embargo americano a Cuba e quase todos rejeitam as sanções unilaterais contra Teerã. Inclusive o governo da brasileira Dilma Rousseff, que deve antecipar o recado em sua visita à Casa Branca a partir de amanhã.
Eleição. Tampouco ajuda o fato de que Obama trava em casa a maior batalha de sua carreira. O presidente tenta a reeleição enquanto a Suprema Corte ameaça defenestrar sua ousada reforma da saúde publica. Tamanho é seu desprestígio que a principal diplomata para as Américas, Roberta Jacobson, sequer foi confirmada no cargo pelo Congresso de maioria republicana.
Por essas e outras é que o ex-presidente peruano Alan García chamou a cúpula de "diálogo de surdos em que cada presidente chega com seu discurso feito para culpar alguém por seus problemas". Quase sempre o culpado é o Tio Sam ou o "horroroso" sistema financeiro internacional.
Mais do que a estridência, o perigo desse evento trienal da OEA é a irrelevância. O condomínio das Américas já teve momentos de coragem e de lucidez. O maior deles foi na "Carta Democrática Interamericana", de 2001, que afirmou que "os povos da América têm direito à democracia e seus governos têm a obrigação de promovê-la e defendê-la".
O problema é que o continente ficou prisioneiro de uma definição ultrapassada de democracia. Finda a Guerra Fria, o golpe de estado clássico está em vias de extinção na América Latina, senão no mundo - o de Mali está aí para me desmentir, mas foi mais uma exceção à regra no continente africano.
No entanto, esbanja saúde seu sucessor, o golpe velado, por meio do qual governantes populistas insuflam sua maioria para centralizar o poder, esvaziar parlamentos, lotear a justiça e retalhar regras eleitorais.
Quem precisa de tropas e de tanques quando pode controlar juízes, transmitir notícias por canais oficiais e governar por Twitter?
Assim, a OEA não titubeou ao condenar o golpe contra Hugo Chávez, em 2002, mas ignorou a manipulação escancarada do pleito venezuelano no ano passado que atropelou as urnas e presenteou o chavismo com o controle do Parlamento.
Honduras. Governantes soltaram o grito retumbante contra a derrubada do presidente hondurenho Manuel Zelaya, em 2009, mas não disseram nada quando Zelaya tentou drible a Constituição para permanecer no poder, no melhor estilo bolivariano.
O absurdo da base americana de Guantánamo e o bloqueio à economia cubana são sempre denunciados, mas a liberdade sufocada na ilha some no Triângulo das Bermudas dos países latino-americanos. Golpe amigo é outra coisa.
Eis a nova miopia latina, onde a democracia virou a prática torta escrita por linhas certas. Sem uma revisão de sua cartilha, a Cúpula das Américas pode não passar de uma câmara de ventos.

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