Pais se declaram em greve contra a lição de casa dos filhos na França
Miguel Mora e J. A. Aunión - El País
As tarefas de casa estão proibidas na escola primária francesa (de 6 a 11 anos) desde 1956, quando o Ministério da Educação aprovou uma circular nesse sentido. Mas os professores continuam impondo aos alunos menores que realizem deveres em casa. Desde 26 de março, dezenas de milhares de pais e colegiais franceses disseram basta. A FCPE (Federação de Conselhos de Pais de Alunos da França) convocou uma greve de deveres de duas semanas, em protesto contra os "trabalhos forçados" fora do horário letivo.
Eles argumentam que os deveres não servem para nada, são antipedagógicos, causam tensões na família ao obrigar os pais a servir de professores, prolongam desnecessariamente a jornada de seis horas diárias, impedem as crianças de dedicar tempo à leitura e aumentam as desigualdades entre os alunos que podem ou não se beneficiar da ajuda da família.
A associação majoritária de pais e mães de alunos na Espanha (Ceapa) compartilha muitas dessas ideias e por isso lançou um comunicado de apoio, no qual diz que pretende fazer algo semelhante.
Há um grande leque de tarefas que os professores mandam os estudantes fazer em casa, fora do horário letivo - trabalhos, ensaios, leitura de livros, exercícios de matemática ou análises morfológicas - e parece difícil pôr em dúvida que praticar, em geral, é bom para adquirir qualquer habilidade. Mas o debate sobre se os deveres têm mais efeitos positivos ou negativos, sobretudo, se são tantos que sobrecarregam a vida do aluno, percorrem há anos muitos sistemas educacionais de todo o mundo, dos EUA à Espanha. No ano passado, o Conselho Escolar de Navarra se pronunciou sobre isso a pedido do Defensor do Povo (Ministério Público).
Apesar da controvérsia científica, que não deixa claro até que ponto os deveres servem para melhorar o rendimento, dizia em um texto: "É um fato que as tarefas escolares ou lições de casa estão arraigadas no ambiente escolar de forma secular. [...] Parece que em princípio existe o consenso em nossa comunidade docente de que as tarefas servem para inculcar nos alunos o valor do esforço pessoal e da responsabilidade em sua formação e educação", concluiu. Por isso limitou-se a dar uma série de recomendações sobre as características que as tarefas escolares para casa devem cumprir, como por exemplo ser motivadoras, não causar discriminações nem ser usadas como castigo.
No entanto, os mais firmes críticos acreditam que deveriam desaparecer, pelo menos na escola primária. Nos EUA é constantemente citado nas fileiras dos inimigos dessas lições de casa o livro "The case against homework" [O caso contra os deveres de casa]. Uma de suas autoras é Sara Bennett, uma mãe americana que empreendeu há anos sua luta particular: "Há muito poucas evidências que relacionem os deveres aos melhores resultados, especialmente nos primeiros cursos da educação, e mesmo assim dedicam muito tempo a essas tarefas em casa. Quando as crianças são pequenas, são incapazes de fazer os deveres sozinhas, e afinal o que aprendem é a depender de seus pais. Assim, em vez de aprender a automotivação, disciplina e responsabilidade (como dizem os que os defendem), aprendem a depender de outros e a motivar-se somente à base de negociações e castigos", escreve Bennett por e-mail.
A associação de pais espanhola diz que a escola se vê obrigada a sobrecarregar as crianças de tarefas que, na realidade, "deveriam ter realizado na escola"; queixa-se de que é uma prática "pouco motivadora e distante da cultura audiovisual em que cresceram" e que provocam desigualdades sociais: "Enquanto alguns pais tentam ajudar seus filhos, outros recorrem a aulas particulares ou academias e muitos outros não têm nível educacional nem dinheiro para poder pagar por esses apoios".
Jean Jacques Hazan, presidente da FCPE, explica que "muitos professores, sindicatos e inspetores de educação aderiram ao protesto e à discussão, porque os deveres são um dos sintomas da degradação que vive a escola pública na França". Segundo Hazan, "o tempo letivo é muito mal organizado, e os deveres só acrescentam um trabalho suplementar de repetição que não ajuda os alunos a entender as matérias. Se alguém não entendeu a lição na aula com o professor, será um milagre que a aprenda em casa só ou com seus pais. É preciso que as crianças mostrem em casa o que aprenderam no colégio, e não que mostrem na classe o que fizeram em casa".
A greve de deveres, que para alguns talvez pareça uma brincadeira e que foi rejeitada pelo ministro da Educação, Luc Chatel, como uma iniciativa "demagógica", tem uma profunda leitura política e reabriu o debate sobre a escola pública em plena campanha eleitoral para as presidenciais francesas. A federação de pais de alunos, que atua como grupo de pressão, convidou alguns candidatos para analisar em detalhe seu programa educacional.
Embora sua associação não tenha dado ordem de voto, o líder da FCPE explica que "o mandato de Sarkozy foi catastrófico para a educação republicana, certamente o pior da história. Ele aplicou ao ensino seu lema 'trabalhar mais para ganhar mais', uma filosofia totalmente errônea e antipedagógica. Suprimiu 80 mil professores em cinco anos, mais de 10% do total, e denegriu profundamente a escola pública, reduzindo pela metade os gastos para crianças deficientes e suprimindo totalmente a formação dos professores. Hoje basta um título de física para dar aula de física em um colégio, sem ter a menor noção de pedagogia ou psicologia. Temos professores com mestrado em sua especialidade que são incapazes de transmitir conhecimentos".
A corrente quase global de cortar os orçamentos da escola pública, que faz parte do ideário da direita neoliberal e que em alguns países do sul da Europa ocorreu paralelamente ao aumento dos benefícios e às ajudas para a Igreja Católica, teve características próprias na França laica, explica Hazan. "Aqui a igreja pesa menos que na Espanha ou na Itália. Mas somos a segunda potência da zona do euro e a quinta do mundo, e reduzimos o gasto com educação em 15 anos de 7,5% do PIB para 6,5%. Além disso, foram cortados 150 mil lugares de educação infantil e se favoreceu ao máximo possível o sistema privado. O negócio das academias de reforço floresceu de forma extraordinária, enquanto a imagem do ensino público despencava."
De fato, o debate que a Ceapa coloca na Espanha (onde os plantéis de professores foram reduzidos em milhares e os orçamentos de ensino perderam mais de 3 bilhões de euros em dois anos) também vai além dos deveres, explica Jesús María Sánchez, presidente da confederação de pais. De fato, lembra que em sua nota a respeito reclamavam a reforma do currículo educacional para que seja mais motivador, atraente, prático e adaptado à sociedade do século 21; e mais programas de reforço educacional à tarde nas próprias escolas, como o PROA, que certamente hoje corre risco devido aos cortes orçamentários em educação.
Mas, embora a discussão vá além, não se deve esquecer que o debate sobre os deveres existe e se reaviva periodicamente com grande oposição entre as partes. Para a federação de pais da escola católica (Concapa) parece loucura e uma "grande irresponsabilidade" questionar essas tarefas com uma greve, disse a associação em uma nota.
Os pais da Ceapa, por sua vez, querem que as tarefas fora de classe sejam formação complementar em bibliotecas ou museus, com tarefas de leitura, pesquisa e utilizando as tecnologias da informação e a comunicação; e que também possam ser feitas sem a ajuda de um adulto. Além disso, criticam, mais que sua existência, seu excesso: "Nos últimos anos aumentou o tempo que os menores precisam dedicar em casa às tarefas escolares, o que demonstra que a escola não responde adequadamente às necessidades educacionais".
Embora não se saiba se a situação mudou muito nos últimos cinco anos, o certo é que entre 1997 e 2007 a dedicação diária aos deveres escolares dos alunos do primeiro grau foi aumentando. E enquanto os que dedicavam menos de uma hora (incluindo os que não fazem nada) a essas tarefas passaram de 37% para 20%; os que dedicavam entre uma e duas horas aumentaram de 40 para 48%; e os que passavam mais de duas horas foram de 23% para 32%.
Segundo um dos especialistas que mais estudaram a eficácia de fazer deveres para conseguir melhores notas, o professor Harris Cooper, da Universidade Duke, apesar de os críticos das tarefas o citarem constantemente, a verdade é que não fala em eliminá-las, mas sim limitá-las. "Os alunos que fazem deveres parecem ter melhores resultados que os que não fazem, mas só em quantidades apropriadas a seu desenvolvimento", diz Cooper. Mas ele adverte que também não se deve pôr demasiada fé em que os resultados melhorem de modo espetacular.
Cooper revisou as pesquisas feitas sobre o tema e explica que, segundo parece, os deveres são mais eficazes no segundo grau do que no primeiro porque os pequenos têm mais dificuldades para superar todas as distrações que têm em casa; enquanto os maiores também são capazes de dedicar mais tempo às tarefas mais difíceis (os pequenos as abandonam).
Uma das queixas dos pais do Ceapa é exatamente a luta e o conflito que representa nas famílias perseguir os jovens para que façam as lições. "Criam tensões entre pais e filhos. Muitas vezes, para poder fazer os deveres, eles ficam sem brincar, o que gera rejeição. É verdade que as crianças precisam saber suas obrigações, mas também devem ter tempo para brincar."
Exatamente a isto se refere a professora de educação Diane Ravitch, da Universidade de Nova York: "As tarefas não devem ser excessivas. As crianças precisam de tempo para brincar e sociabilizar-se com os amigos. Para as crianças nos primeiros cursos, não mais de dez minutos por dia. Em nenhum caso devem exceder as duas horas diárias no final do primário". Mas Ravitch acrescenta por e-mail uma firme defesa de certos tipos de tarefas: "Alguns deveres podem ser bons, como ler livros, escrever ensaios e também ficção ou elaborar projetos de ciências".
Em todo caso, o professor Cooper não acredita que a pergunta certa que professores e pais devem fazer nesse debate é se as tarefas escolares têm mais efeitos positivos ou negativos: "Ambos podem ocorrer. Para evitar os efeitos negativos, devem-se evitar quantidades muito grandes de deveres, mas também dar flexibilidade aos professores para levar em conta as necessidades e circunstâncias únicas de cada um de seus alunos", acrescenta. Lembra também que mais tempo não tem por que ser melhor: talvez um aluno demore muito mais para fazer os deveres porque ainda não aprendeu bem e está tendo mais dificuldade.
Na Espanha, lembremos que quase um terço dos alunos do primeiro grau excede esse tempo de duas horas diárias indicado como limite lógico pela professora Ravitch. Além disso, nos últimos anos muitos especialistas em psicologia, como a Sociedade Espanhola de Psiquiatria, alertaram sobre o aumento do estresse entre crianças cujas agendas não param de crescer. Além do colégio, mais de 90% dos alunos espanhóis de ensino obrigatório (de 6 a 16 anos) desenvolvem alguma atividade extracurricular, e pouco mais da metade, duas ou mais por semana.
Perguntado há algumas semanas sobre a cultura do esforço, o catedrático de sociologia da Universidade Complutense, Julio Carabaña, comentou com alguns companheiros que, na realidade, na escola espanhola existe hoje uma "cultura do estresse". "Quando eu era estudante, não me davam deveres; hoje os alunos estão saturados", afirmou.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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