Para se modernizar, escolas tomam empréstimos e repassam dívida para próxima geração
Floyd Norris - NYT
O processo de quitação das dívidas dos Estados Unidos está em andamento, à medida que indivíduos e empresas se recuperam da tomada excessiva de empréstimos que ajudou a produzir o boom e deixou muitas pessoas vulneráveis quando a bolha estourou. A dívida dos lares caiu quase US$ 900 bilhões nos últimos quatro anos, em parte por quitação e em parte por calote.
Durante os tempos loucos, os proprietários de imóveis residenciais conseguiam hipotecas que permitiam pagar menos do que o valor total dos juros cobrados, com o restante adicionado ao principal. Os donos de imóveis comerciais geralmente pagavam o valor pleno dos juros, mas não tinham que começar a abater o principal até o vencimento do empréstimo, em cinco ou 10 anos. Tanto para os imóveis residenciais quanto comerciais, os credores estavam dispostos a aceitar avaliações extremamente otimistas.
Para os compradores de imóveis, esses dias são coisa do passado.
Mas para alguns tomadores de empréstimos, ainda é possível levantar dinheiro agora e não pagar nada por décadas.
Há um furor na Califórnia porque o Distrito Escolar Unificado de Poway, no condado de San Diego, tomou um empréstimo no ano passado em termos que todo o país riria mesmo durante o boom. Ele não pagará um centavo de juros ou do principal por mais de duas décadas. Apenas então ele começará a pagar o serviço dos títulos.
Ele está pagando um preço alto. Apesar de uma boa avaliação de crédito –Aa2 na Moody’s e AA- na Standard & Poor’s– ele pagará futuramente juros isentos de impostos de até 6,8% pelo empréstimo. Quando emitiu títulos mais convencionais no ano passado, ele pagou taxas muito menores, variando até apenas 4,1%.
Para tomar US$ 105 milhões em empréstimo em 2011, os contribuintes – ou talvez seria mais preciso dizer os filhos e netos dos contribuintes de hoje – pagarão US$ 877 milhões em juros entre 2033 e 2051.
Em San Diego, a emissão de títulos chamou atenção pela primeira vez no “The Voice of San Diego”, um jornal de Internet, que publicou um artigo neste mês intitulado “Quando um empréstimo de US$ 105 milhões custará US$ 1 bilhão: as escolas de Poway”. Como notou o “Voice”, outros, incluindo Joel Thurtell, um blogueiro de Michigan, escreveram artigos ultrajados sobre a emissão de títulos. Mas foi o artigo do “Voice” que chamou atenção nacional, incluindo uma reportagem na “CNBC”.
Mas a emissão de títulos por Poway não é a única. Esse tipo de tomada de empréstimo ocorre há anos, particularmente na Califórnia, onde a revolta tributária que teve início com a Proposta 13, em 1978, tornou cada vez mais difícil financiar o ensino e outros serviços públicos locais. Diferentes propostas aprovadas pelos eleitores também dificultaram o aumento de impostos.
Segundo o banco de dados Thomson Reuters, os distritos escolares emitiram quase US$ 4 bilhões em títulos no ano passado e venderam quase US$ 3 bilhões adicionais neste ano. Em 2006, quando o boom do crédito estava a pleno vapor, US$ 9 bilhões em títulos de capital foram vendidos.
A emissão por Poway é incomum no adiamento do pagamento de juros por tanto tempo, mas há outros. Seu vizinho, o Distrito Escolar Unificado de San Diego, tomou US$ 150 milhões emprestados em maio, prometendo iniciar os pagamentos em 2032.
A lógica dos distritos escolares para tomada de empréstimo para projetos de construção sempre foi a de que aqueles que se beneficiarão devem pagar pelo projeto de construção. Mas no caso dos títulos de Poway, é possível que os filhos dos atuais estudantes é que acabem pagando a conta. Mas até lá, muitos dos prédios dessas escolas poderão estar obsoletos, ou pelo menos precisando de outra reforma.
Em uma declaração, o distrito de Poway apontou que a emissão de títulos foi a quinta parte de um plano para modernizar as 24 escolas mais velhas do distrito, acrescentando que apesar dos títulos “terem uma razão de reembolso de 9,3 vezes o valor do principal”, o programa geral de tomada de empréstimo tem uma razão de reembolso de apenas 4,2. Isso significa que para cada dólar emprestado, serão pagos US$ 3,20 em juros.
Para colocar isso em perspectiva, uma hipoteca de 30 anos com a mesma taxa de juros de 6,8% exigiria US$ 1,35 em pagamento vitalício de juros para cada dólar emprestado, ou uma taxa de reembolso de 2,35.
“O valor mais importante recebido com o programa de construção e que é difícil de quantificar é o valor educacional de fornecer aos estudantes de hoje instalações de aprendizado de qualidade”, disse John Collins, o superintendente do distrito, que tem 34 mil alunos. “Também é difícil calcular o valor em dólares da economia conseguida ao evitar os custos de construção inflacionados devido ao adiamento da conclusão do programa de construção por uma década ou mais.”
Seu palpite pode ser tão bom quanto o dele sobre quão inflacionados esses custos seriam. Mas é difícil acreditar que o distrito não estaria melhor servido tomando empréstimo em termos que exigissem o pagamento da dívida mais rapidamente. Os juros seriam mais baixos e o poder dos juros compostos não faria o pagamento total subir à estratosfera.
Mas a opção de obter um financiamento razoável pode não estar disponível ao distrito de Poway, ou a muitos outros distritos que recorreram a esses chamados títulos de capital. As autoridades de Powell prometeram não aumentar os impostos, e dessa forma não terão. Pelo menos não até 2033. Eles agendaram o início dos pagamentos para após os títulos anteriores serem quitados.
Nacionalmente, parece que menos e menos distritos escolares foram capazes, ou estavam dispostos, a encontrar formas de financiar os novos prédios – ou mesmo pagar os professores– à medida que a arrecadação do imposto sobre propriedade despencou com a deflação da bolha imobiliária e os Estados apertados reduziram a assistência. Os governos estaduais e locais estão gastando menos, e empregando menos pessoas, agora do que antes da recessão. Corrigido pela inflação, o investimento estadual e local em prédios e outros ativos é o mais baixo desde 1998. Nos últimos 30 meses, a economia ganhou cerca de meio milhão de empregos no setor manufatureiro e perdeu quase o mesmo número no setor público estadual e local.
Os distritos deveriam emitir esses títulos? Não é uma pergunta fácil de responder. Grande parte dessa tomada de empréstimo cara é resultado das autoridades locais estarem buscando um modo de cumprirem suas responsabilidades em um momento em que a oposição aos impostos se tornou um mantra. Esta geração não pagará pelo que precisa, então alguns de seus líderes decidiram deixar as contas para futuras gerações.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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