quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Corte de gastos e ascensão das novas mídias ameaçam credibilidade da imprensa tradicional
Alan Cowell - IHT                    
Este deve ser o momento da verdade para a grande mídia. Literalmente. Mas ele parece ter todos os ingredientes de perfeita confluência de acontecimentos desastrosos, de Londres a Gaza e até Jerusalém.
Num momento em que um novo mundo de tweets e blogs estimula uma tempestade de informações não verificadas e, por vezes, incontrolável, a própria internet criou o desafio econômico mais sério das últimas décadas para os meios de comunicação tradicionais – e para os jornais, em particular.
E, à medida que os custos são cortados por meio de demissões nas equipes, também são reduzidas as habilidades e os recursos capazes de refinar o turbilhão de rumores e discursos retóricos e de transformá-lo em algo que se aproxime da realidade dos fatos.
Na British Broadcasting Corp (BBC), enredada em um escândalo de abuso sexual, uma investigação falha sobre a má conduta de um político britânico terminou em recriminações e ações judiciais na semana passada, após denúncias falsas e não confirmadas terem aparecido no “Newsnight”, o principal programa de notícias e reportagens investigativas da rede, e ido parar no Twitter.
A BBC fechou um acordo extrajudicial por 185 mil libras (aproximadamente R$ 620 mil) com o ex-tesoureiro do Partido Conservador, Alistair McAlpine, que havia sido implicado no caso – mas não fora identificado nominalmente – em um segmento do programa, que inspirou vários usuários populares do Twitter a passar adiante a falsa notícia a dezenas de milhares de seguidores. Agora, da mesma maneira que a velha mídia, tantas vezes desprezada pelos praticantes das novas mídias, esses tuiteiros enfrentam a ameaça de ações judiciais.
“Eu ajudei a alimentar uma atmosfera febril de insinuações em torno de um homem inocente”, disse em seu site um desses usuários do Twitter, o colunista e escritor George Monbiot. “E eu sinto muitíssimo pelo mal que causei a ele”.
Tudo isso está acontecendo num momento em que muitos na Grã-Bretanha dizem temer que a investigação Leveson, sobre as práticas dos jornais britânicos, leve a regulamentações legais não só para os tabloides que estão sendo investigados pelo escândalo dos grampos telefônicos, mas também para toda a imprensa britânica, restringindo ainda mais a capacidade de falar a verdade – essa palavra novamente – aos poderosos.
Isso é o que transforma essa situação numa perfeita confluência de acontecimentos desastrosos.
Algumas dessas considerações emergiram enquanto acontecimentos sangrentos se desdobravam na Faixa de Gaza, narrados em páginas como as do International Herald Tribune, por jornalistas corajosos que arriscaram suas vidas para relatar as notícias a partir do cenário dos ataques com foguetes, no sul de Israel, e dos ataques aéreos, na própria Faixa de Gaza.
Mas, ao lado da verdadeira guerra, uma outra guerra – a guerra cibernética – ocorria no Twitter, onde as Forças de Defesa de Israel e o braço militar dos grupos de combate do Hamas tentavam moldar a narrativa do conflito, ignorando o jornalismo tradicional. Até o início da segunda-feira passada (19), as Forças de Defesa de Israel haviam conseguido atrair quase 180 mil seguidores para o endereço @idfspokesperson, enquanto o @AlqassamBrigade, do Hamas, tinha atraído cerca de 32 mil seguidores.
Claramente, as mensagens do Twitter oferecem um insight notável sobre mundos rivais, refletindo a capacidade da região para espalhar muitas versões: o que para as Forças de Defesa de Israel foram “ataques cirúrgicos”, para aqueles que apoiam o ponto de vista do Hamas foi o “resultado horrível” de um ataque aéreo israelense.
As mensagens certamente contribuíram também para um maior conhecimento dos acontecimentos, somando-se à riqueza de fontes disponíveis de imagens de TV, textos de jornais, de agências de notícias ou de transmissões de rádio feitas in loco.
Mas, e se as missivas de 140 caracteres estiverem simplesmente erradas, como no caso do ex-tesoureiro McAlpine? E se a tecnologia tiver aberto esse universo sombrio de impostores, de tweets falsos enviados por usuários que se escondem atrás de identidades falsas? E se a suposta divulgação da verdade for apenas uma fachada para a manipulação da opinião – a alquimia almejada pelos marqueteiros durante séculos? O ciberespaço geralmente evita policiamentos. Então, quem julgará o que constitui – por falta de termos melhores – o bom gosto e a decência?
O jornalismo de guerra sempre produziu relatos partidários ao lado de esforços pela defesa da objetividade. Mas, com os dois lados do conflito transformando sites de mídias sociais em armas em prol de sua longa luta, alguns ficaram se sentindo enjoados com esse jogo.
“Há algo de grotesco e perturbador que dois lados que têm uma longa história de conflitos narrem ao vivo o lançamento de bombas que matam civis e destroem comunidades”, disse Jessica Roy, repórter do Betabeat, blog de tecnologia operado pelo The New York Observer. “Não há empoderamento nem revolução aqui: apenas um sentimento sombrio e pessimista enquanto assistimos ao derramamento de sangue se desdobrando em tempo real”.
(Esse sentimento surgiu em um jantar de fim de semana realizado no norte de Londres, durante o qual um convidado demonstrou a capacidade de um smartphone para exibir feeds com a visão do cockpit durante ataques aéreos realizados pelas Forças de Defesa de Israel em Gaza, oferecendo a perfeita tempestade de sobremesa durante a refeição com três pratos à general*.)
Por um lado, as incertezas em torno do papel da Web nas reportagens de guerra devem ser uma oportunidade de renovação, e não uma ameaça ao jornalismo tradicional, permitindo que os supostos principais meios de comunicação recuperem sua responsabilidade de intérpretes dos eventos.
Mas isso só funcionará se o jornalismo tradicional for capaz de endireitar os fatos que o ciberespaço deforma. E isso custa dinheiro.
“Ninguém que trabalhe para um jornal pode se dar ao luxo de ser complacente”, escreveu o colunista Ian Jack no The Guardian, ao discutir o impacto dos cortes de pessoal.
“Durante a quebra e a fragmentação de nossos antigos locais de trabalho, mais do que a camaradagem está sendo perdida e foi deixada errando à toa”, disse ele. “Os erros também estão à solta”.
*Frase que faz um jogo de palavras com “three course meal” (refeição de três pratos, substituída por “three-course generals”) e “perfect desert storm” (perfeita tempestade no deserto, substituída por “perfect dessert storm”).
Tradutor: Cláudia Gonçalves

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