domingo, 13 de janeiro de 2013

Protestantes mantêm confrontos na Irlanda por se sentirem abandonados
Eric Albert - Le Monde
Já virou quase uma rotina. Como toda noite, nessa terça-feira (8) centenas de unionistas se encontram por volta das 18h em uma rua do leste de Belfast, a capital da Irlanda do Norte. O ponto de encontro foi marcado de última hora pelo Facebook.
Há Land Rovers blindados da polícia parados em frente, em uma atmosfera tensa. Os mais jovens mal têm 10 anos, e a maioria não têm muito mais que 20. Por volta das 19h30, cerca de vinte deles, com o rosto coberto por uma echarpe, cercam a polícia e lançam alguns coquetéis Molotov.
Como em um espetáculo, as explosões são pontuadas por vivas da multidão. Segue um fluxo contínuo de garrafas vazias, tijolos e bolas de golfe. Adolescentes tiram fotos com seus celulares. Os vizinhos, nas janelas, observam com um olhar de aprovação.
O jogo de gato e rato com os policiais dura mais duas horas. Nessa noite, as únicas vítimas foram um ponto de ônibus, alguns postes e os tapumes de uma obra.
Embora de pouca extensão, os confrontos da noite de terça-feira (8) em Belfast – repetidos na quarta-feira (9), assim como em Londonderry (Derry, para os republicanos) – dão continuidade a mais de cinco semanas de tumultos regulares e às vezes brutais. No total, cerca de sessenta policiais ficaram feridos e uma centena de pessoas foram presas. "Esses problemas estão entre os mais sérios desde 1998 [data dos acordos de paz da Sexta-Feira Santa], avalia Naomi Long, deputada local.
Tudo isso por causa de uma bandeira à qual quase ninguém havia prestado atenção até então. No dia 3 de dezembro de 2012, a prefeitura de Belfast decidiu não expor mais de forma permanente o pavilhão britânico, pela primeira vez desde 1906. Os republicanos (majoritariamente católicos que querem se unir à República da Irlanda) queriam acabar com aquilo que eles consideravam um símbolo da ocupação britânica; os unionistas (protestantes que querem permanecer no Reino Unido) eram contra.
Um acordo foi feito, afinal: a Union Jack passará a ser içada somente vinte dias por ano, basicamente para celebrações ligadas à família real. Foi o que aconteceu pela primeira vez na quarta-feira, na ocasião do 31º aniversário de Kate Middleton, a futura rainha da Inglaterra.
"Só pararemos com as manifestações quando reinstaurarem nossa bandeira", ameaça Johnny, um dos manifestantes. O rapaz de 18 anos é um dos líderes dos protestos, que saiu às ruas cerca de vinte vezes desde que o movimento começou, ainda que ele condene a violência.
Fora a questão da Union Jack, é um profundo mal-estar que se exprime. "Desde o acordo de paz [ele tinha 4 anos então], nada mudou. Nossa comunidade não ganhou absolutamente nada". Sua comunidade são os protestantes das classes populares do leste de Belfast. Durante gerações foram eles que trabalharam nas fábricas e nas docas vizinhas, onde o Titanic foi construído um século atrás. Hoje, por causa da desindustrialização, o desemprego domina, fazendo do bairro um dos mais pobres do Reino Unido.
O pai de Johnny ficou deficiente após um acidente de carro. Sua mãe não trabalha. Ele está terminando um curso profissionalizante, mas não tem muitas ilusões sobre suas chances de arrumar um emprego. Seu colega David conta como 600 pessoas se candidataram recentemente a um único posto de vendedor em meio-período. "São jovens que não têm absolutamente nada a perder", diz Sara Cook, que trabalha em uma instituição local de caridade.
A pobreza não explica tudo. A ela se soma uma violenta raiva política. Todos têm a impressão de terem saído como perdedores do acordo de paz, ao deixarem os "terroristas" do IRA, o antigo grupo paramilitar republicano, chegarem ao poder.
Enquanto pedem sua terceira caneca de cerveja, antes mesmo da uma da tarde, o três aposentados James, Alex e Joseph não medem suas palavras. "O IRA ainda está ativo," diz um deles, apesar do que mostram as evidências. "E lentamente estão roubando nossa identidade".
Ele se refere às marchas orangistas (protestantes), que acontecem todo verão: vários deles tiveram de mudar seu percurso, negociado com os republicanos. A polícia, por muito tempo considerada pró-unionista, "agora sempre defende os republicanos". A isso se soma a demografia: por muito tempo minoritários, os católicos agora são quase tão numerosos quanto os protestantes.
De certa maneira, as queixas desses bebuns são compreensíveis: cinquenta anos atrás, os unionistas dominavam a Irlanda do Norte. Desde então, o equilíbrio entre as duas comunidades foi restabelecido, em prol dos republicanos. Em princípio, em troca da divisão do poder, os unionistas deveriam se beneficiar com a paz e a prosperidade que seguiriam. De forma geral foi o que aconteceu, mas não no leste de Belfast, onde o declínio industrial tomou conta. Nessas circunstâncias, para os protestantes pobres, os símbolos de identidade – a Union Jack, as paradas orangistas– são tudo que lhes resta. Mexer nisso é explosivo.
Tradutor: Lana Lim

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