Hoje a coisa funciona igualmente, exceto que o câmbio do mercado paralelo já multiplica por quatro o do governo. Há sete anos, viajar pela estrada velha de La Guaira, do aeroporto para Caracas, significava atravessar um rosário de bairros miseráveis, onde o risco de assalto à mão armada era muito alto.
Hoje, a sensação de perigo é ainda maior. Há mais de cinco anos as distâncias em Caracas eram calculadas sempre "com fila" ou "sem fila", isto é, com ou sem congestionamento. E havia dezenas de mototáxis para evitá-los. Hoje a situação é exatamente igual.
De vez em quando, desde que Hugo Chávez chegou ao poder em 1999, os mercados costumavam sofrer o desabastecimento de algum alimento básico. Chávez costumava chamar de "monopólio" as grandes empresas que pretendiam "desestabilizar" o governo. Mandava as autoridades, bem acompanhadas de cinegrafistas, para algum armazém e ordenava a distribuição imediata do produto em questão.
A oposição queixava-se de que isso era pura demagogia. Este mês faltaram óleo, frango, farinha e arroz. E o governo voltou a pôr na rua os produtos que havia em um armazém da maior empresa privada do país.
Há sete anos o governo sofria as críticas de dois grandes canais informativos de televisão. Hoje resta apenas um, a Globovisión. A associação Human Rights Watch publicou relatórios nos quais acusa Chávez de transformar o Tribunal Supremo em seu fantoche e de asfixiar as vozes críticas. Poderíamos dar mais dados sobre como aumentar o déficit fiscal e a dívida externa. Mas nenhum desses problemas impede que a maioria dos venezuelanos continue confiando nele.
Chávez só perdeu uma das 14 eleições convocadas desde 1999. A confiança dos eleitores nele é tão alta que seu rival nas presidenciais de 7 de outubro, Henrique Capriles, optou por atacar os mais altos cargos do governo dizendo-lhes que "nenhum chavista calça os sapatos de Hugo Chávez".
Diante da pergunta de qual é a principal conquista de Chávez, do flanco chavista se continua escutando a mesma frase que se escutava na metade de seu mandato: Chávez tornou visíveis milhões de pessoas que sempre foram invisíveis para o Estado. Deu-lhes consciência política. Pôs os pobres no primeiro lugar da agenda e daí não os baixou.
"No final dos anos 1990 havia 60% de pobres e hoje estão em torno de 25%. Essa é a grande verdade que uma parte da comunidade internacional demora a reconhecer", explica o deputado pela Venezuela no Parlamento Latino-Americano Calixto Ortega. "Há problemas, como o da insegurança, que devem ser solucionados. Mas os pobres reconhecem em Chávez um líder fundamental, percebem nele que sua preocupação é sincera."
Dezenas de analistas na Venezuela opinam que Chávez poderia ter aproveitado muito melhor o preço extraordinário em que se situou nos últimos anos o barril de petróleo. Mas diante desse tipo de argumento o governo responde nos canais do Estado, divulgando suas cifras: nos últimos dois anos foram entregues 20.341 moradias para famílias prejudicadas pelas inundações de 2010. Ainda permanecem outras 18.100 famílias vivendo em abrigos. Mas o governo, em nome de Chávez, prometeu realojá-las este ano.
Em janeiro de 1999, quando faltava um mês para Hugo Chávez ganhar suas primeiras presidenciais, Gabriel García Márquez escreveu um artigo intitulado "O enigma dos dois Chávez", que terminava assim: "Enquanto se afastava entre suas escoltas de militares condecorados e amigos de primeira hora, me estremeceu a inspiração de que havia viajado e conversado à vontade com dois homens opostos. Um para quem a sorte empedernida oferecia a oportunidade de salvar seu país. E o outro, um ilusionista, que poderia passar à história como um déspota a mais". Catorze anos e catorze eleições depois, a maioria dos venezuelanos continua se inclinando pelo primeiro Chávez.
Disparo da violência não afeta aprovação do governo
O dono da padaria que há em frente ao hotel está sequestrado há uma semana. Na sexta-feira os empregados de segurança impediram o ataque de duas pessoas de moto a três rapazes que estavam sentados a cerca de 50 metros do hotel. E estamos em Palos Grandes, uma das áreas mais seguras de Caracas.
Na porta de muitos restaurantes venezuelanos se vê um cartaz que diz "Espaço livre de cigarro" junto de outro que adverte "Espaço livre de armas". Consciente da violência que reina nas ruas, o governo empreendeu em 2011 uma campanha pelo desarmamento. Quase todo mundo em Caracas conhece alguém que foi atacado ou sofreu um sequestro expresso, que costuma durar várias horas.
Nos últimos anos surgiram bandos com armas mais poderosas que as da polícia e capacidade para executar vários sequestros em uma mesma noite. A classe média se familiarizou com a blindagem de automóveis e sabe que uma de proteção média custa em torno de 15 mil euros.
"Há 20 anos a blindagem era muito rara. Hoje você tem de esperar seis ou sete meses se quiser blindar seu carro. Também aumentou a contratação de seguranças, mesmo que seja para uma noite de festa. E quem não pode se permitir eletrifica os muros de sua casa. Tudo isso nos revela que há um processo de privatização da segurança em um país governado por políticos que se dizem socialistas", explica o sociólogo Roberto Briceño León, diretor do Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais, entidade de que participam sete universidades e que publica anualmente os números extraoficiais de homicídios.
Briceño estuda a violência desde 1994, cinco anos antes que Chávez chegasse ao poder. "O índice de homicídios era então de 20 para cada 100 mil habitantes. E já estávamos preocupados. Em 1998 foram registradas 4.500 mortes violentas. Em 2000 chegaram quase ao dobro. E em 2003, quando Chávez completou quatro anos no poder, os homicídios subiram para 11.300. A taxa havia triplicado. Então, em 2004, o governo proibiu a difusão dos números. E criamos o Observatório. Nosso relatório de dezembro indica que no ano passado houve 21.692 homicídios. Ou seja, 73 para cada 100 mil habitantes. É o dobro do índice da Colômbia (104), o triplo do México (23) ou Brasil (24) e muito superior ao da Argentina (8), Chile (4) ou Espanha (1). O governo não reconhece nossos números e só assume o índice de 50 homicídios, mas já é mais alto que o da Colômbia."
Por que um problema que afeta de forma tão urgente nunca cobrou a conta do governo? "Porque Chávez foi muito hábil ao desviar a atenção", explica Briceño. "Nunca se menciona o assunto na rádio e televisão oficiais. E nas raras ocasiões em que Chávez citou o problema disse que já vinha de longe. E é verdade que antes de ele chegar ao poder o índice era alto, de 22 homicídios por 100 mil habitantes. Mas durante sua gestão não só as mortes violentas aumentaram, como se estenderam pelo resto do país. Nos Estados com menos homicídios, como Mérida, o índice é maior que o da Colômbia."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Hoje, a sensação de perigo é ainda maior. Há mais de cinco anos as distâncias em Caracas eram calculadas sempre "com fila" ou "sem fila", isto é, com ou sem congestionamento. E havia dezenas de mototáxis para evitá-los. Hoje a situação é exatamente igual.
De vez em quando, desde que Hugo Chávez chegou ao poder em 1999, os mercados costumavam sofrer o desabastecimento de algum alimento básico. Chávez costumava chamar de "monopólio" as grandes empresas que pretendiam "desestabilizar" o governo. Mandava as autoridades, bem acompanhadas de cinegrafistas, para algum armazém e ordenava a distribuição imediata do produto em questão.
A oposição queixava-se de que isso era pura demagogia. Este mês faltaram óleo, frango, farinha e arroz. E o governo voltou a pôr na rua os produtos que havia em um armazém da maior empresa privada do país.
Há sete anos o governo sofria as críticas de dois grandes canais informativos de televisão. Hoje resta apenas um, a Globovisión. A associação Human Rights Watch publicou relatórios nos quais acusa Chávez de transformar o Tribunal Supremo em seu fantoche e de asfixiar as vozes críticas. Poderíamos dar mais dados sobre como aumentar o déficit fiscal e a dívida externa. Mas nenhum desses problemas impede que a maioria dos venezuelanos continue confiando nele.
Chávez só perdeu uma das 14 eleições convocadas desde 1999. A confiança dos eleitores nele é tão alta que seu rival nas presidenciais de 7 de outubro, Henrique Capriles, optou por atacar os mais altos cargos do governo dizendo-lhes que "nenhum chavista calça os sapatos de Hugo Chávez".
Diante da pergunta de qual é a principal conquista de Chávez, do flanco chavista se continua escutando a mesma frase que se escutava na metade de seu mandato: Chávez tornou visíveis milhões de pessoas que sempre foram invisíveis para o Estado. Deu-lhes consciência política. Pôs os pobres no primeiro lugar da agenda e daí não os baixou.
"No final dos anos 1990 havia 60% de pobres e hoje estão em torno de 25%. Essa é a grande verdade que uma parte da comunidade internacional demora a reconhecer", explica o deputado pela Venezuela no Parlamento Latino-Americano Calixto Ortega. "Há problemas, como o da insegurança, que devem ser solucionados. Mas os pobres reconhecem em Chávez um líder fundamental, percebem nele que sua preocupação é sincera."
Dezenas de analistas na Venezuela opinam que Chávez poderia ter aproveitado muito melhor o preço extraordinário em que se situou nos últimos anos o barril de petróleo. Mas diante desse tipo de argumento o governo responde nos canais do Estado, divulgando suas cifras: nos últimos dois anos foram entregues 20.341 moradias para famílias prejudicadas pelas inundações de 2010. Ainda permanecem outras 18.100 famílias vivendo em abrigos. Mas o governo, em nome de Chávez, prometeu realojá-las este ano.
Em janeiro de 1999, quando faltava um mês para Hugo Chávez ganhar suas primeiras presidenciais, Gabriel García Márquez escreveu um artigo intitulado "O enigma dos dois Chávez", que terminava assim: "Enquanto se afastava entre suas escoltas de militares condecorados e amigos de primeira hora, me estremeceu a inspiração de que havia viajado e conversado à vontade com dois homens opostos. Um para quem a sorte empedernida oferecia a oportunidade de salvar seu país. E o outro, um ilusionista, que poderia passar à história como um déspota a mais". Catorze anos e catorze eleições depois, a maioria dos venezuelanos continua se inclinando pelo primeiro Chávez.
Disparo da violência não afeta aprovação do governo
O dono da padaria que há em frente ao hotel está sequestrado há uma semana. Na sexta-feira os empregados de segurança impediram o ataque de duas pessoas de moto a três rapazes que estavam sentados a cerca de 50 metros do hotel. E estamos em Palos Grandes, uma das áreas mais seguras de Caracas.
Na porta de muitos restaurantes venezuelanos se vê um cartaz que diz "Espaço livre de cigarro" junto de outro que adverte "Espaço livre de armas". Consciente da violência que reina nas ruas, o governo empreendeu em 2011 uma campanha pelo desarmamento. Quase todo mundo em Caracas conhece alguém que foi atacado ou sofreu um sequestro expresso, que costuma durar várias horas.
Nos últimos anos surgiram bandos com armas mais poderosas que as da polícia e capacidade para executar vários sequestros em uma mesma noite. A classe média se familiarizou com a blindagem de automóveis e sabe que uma de proteção média custa em torno de 15 mil euros.
"Há 20 anos a blindagem era muito rara. Hoje você tem de esperar seis ou sete meses se quiser blindar seu carro. Também aumentou a contratação de seguranças, mesmo que seja para uma noite de festa. E quem não pode se permitir eletrifica os muros de sua casa. Tudo isso nos revela que há um processo de privatização da segurança em um país governado por políticos que se dizem socialistas", explica o sociólogo Roberto Briceño León, diretor do Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais, entidade de que participam sete universidades e que publica anualmente os números extraoficiais de homicídios.
Briceño estuda a violência desde 1994, cinco anos antes que Chávez chegasse ao poder. "O índice de homicídios era então de 20 para cada 100 mil habitantes. E já estávamos preocupados. Em 1998 foram registradas 4.500 mortes violentas. Em 2000 chegaram quase ao dobro. E em 2003, quando Chávez completou quatro anos no poder, os homicídios subiram para 11.300. A taxa havia triplicado. Então, em 2004, o governo proibiu a difusão dos números. E criamos o Observatório. Nosso relatório de dezembro indica que no ano passado houve 21.692 homicídios. Ou seja, 73 para cada 100 mil habitantes. É o dobro do índice da Colômbia (104), o triplo do México (23) ou Brasil (24) e muito superior ao da Argentina (8), Chile (4) ou Espanha (1). O governo não reconhece nossos números e só assume o índice de 50 homicídios, mas já é mais alto que o da Colômbia."
Por que um problema que afeta de forma tão urgente nunca cobrou a conta do governo? "Porque Chávez foi muito hábil ao desviar a atenção", explica Briceño. "Nunca se menciona o assunto na rádio e televisão oficiais. E nas raras ocasiões em que Chávez citou o problema disse que já vinha de longe. E é verdade que antes de ele chegar ao poder o índice era alto, de 22 homicídios por 100 mil habitantes. Mas durante sua gestão não só as mortes violentas aumentaram, como se estenderam pelo resto do país. Nos Estados com menos homicídios, como Mérida, o índice é maior que o da Colômbia."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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