Der Spiegel
A experiência de morrer em um matadouro é "uma provação um enorme" para o gado. Uma fazenda no norte da Alemanha está propondo uma alternativa: abater o gado nos lugares em que ele vive. Muitos acreditam que o método fornece uma morte livre de estresse para os animais.
Há sete exemplares de gado Galloway aqui, e cada um deve pesar na balança uns bons 500 quilos de massa viva e respirando. Nesta manhã, em particular, eles caminharam para fora seu abrigo de madeira em direção à luz enevoada, mastigando contentes.
Quando o tiro ressoa, os bois levantam suas cabeças brevemente para ver de onde veio o barulho, mas quase imediatamente voltam a se preocupar com suas atividades. O fato de um novilho de três anos de idade de seu grupo ter sucumbido não parece incomodar excessivamente os outros bovinos.
Ao mesmo tempo, uma espécie de coreografia cuidadosamente orquestrada acontece em torno do pasto cercado. A porta se abre de um dos lados do abrigo, e com o aparecimento súbito de pessoas no pasto, o gado volta sem pressa de volta para dentro. Apenas 60 segundos depois, o boi que foi baleado estava pendurado de cabeça para baixo em um trator a alguns metros de distância, com o sangue escorrendo para dentro de uma banheira.
A morte chegou duas vezes neste dia para o rebanho da fazenda orgânica Bunde Wischen, na cidade de Schleswig, no norte da Alemanha, derrubando dois animais selecionados para abate. Cada etapa do processo acontece tranquilamente e não há nenhum grito. Nem mesmo uma hora depois do início da operação, um trailer contendo os dois animais mortos entra no estacionamento de um matadouro próximo.
"Tudo acontece muito rápida e tranquilamente", diz Stefanie Retz. Após os dois tiros, a pequena mulher de 28 anos se agachou ao lado dos animais derrubados para verificar se eles não tinham mais reflexos ou sinais vitais. "Neste clima frio e úmido, é fácil ver quando eles não estão mais respirando, porque a fumaça de água condensada não se forma em frente de suas narinas", ela explica.
Retz, um agrônoma da Universidade de Kassel, está realizando um estudo em conjunto com a colega Katrin Juliane Schiffer e os agricultores desta fazenda de gado orgânico no norte da Alemanha que parece uma espécie de Velho Oeste transplantado para uma fazenda. Aqui, o gado morre não através de um golpe certeiro de uma pistola de dardo seguido do sangramento até a morte num matadouro, mas do cano de uma espingarda de caça.
Morte sem estresse
"A ideia é que os animais devem morrer no mesmo lugar em que viveram, e que eles devem ter uma morte sem estresse – este é o objetivo fundamental", explica Retz. Especialmente o gado que não está acostumado a ficar preso, ela diz, ser transportado para um matadouro e depois ser colocado na posição para receber o golpe é "uma provação enorme".
Como alternativa, os funcionários da fazenda Schleswig estão propondo o que descrevem como o "método do tiro" que eles "adaptaram e otimizaram" juntamente com pesquisadores da Universidade de Kassel, diz o gerente de negócios Gerd Kammer.
Neste método, um grupo de animais se reúne numa área delimitada por uma cerca de madeira sólida e um barranco. A distância máxima entre o gado e o atirador que fica numa guarita de caçador no alto é de dez metros. Antes disso, o gado às vezes recebe comida nesta parte do pasto, então está acostumado tanto com a guarita quanto com o cercado ao ar livre em torno dele. Seu último dia começa tão inocentemente quanto todos os dias anteriores.
O atirador deve esperar vários minutos, até que um dos animais esteja na posição certa. "O atirador precisa conhecer bem a anatomia do boi e ser capaz de acertar um determinado ponto na testa para que o animal fique inconsciente instantaneamente, e na maioria dos casos morra na hora", explica Retz. "Isso não é algo que qualquer caçador amador consegue fazer."
Os pesquisadores de Kassel participaram de 40 operações como esta no pasto. "De acordo com nossas descobertas até agora, este método é livre de dor para o gado", relata Retz. E ao contrário das expectativas, os outros bois do grupo não irrompem em pânico quando um companheiro cai.
Interesse considerável entre criadores
Desde novembro, os criadores alemães que alimental o gado bovino no pasto podem pedir nos departamentos veterinários distritais uma isenção que os permite matar e sangrar seu gado diretamente no pasto.
O interesse entre os criadores tem sido considerável, mas o método não parece funcionar igualmente bem em todos os casos. "O que descobrimos é que muitos atiradores não conseguem produzir resultados consistentes. Nos casos em que fui convidado a assistir, observei que um em cada quatro tiros foram fora do alvo", relata Martin von Wenzlawowicz, veterinário na cidade alemã de Schwarzenbek e membro da Associação Veterinária para o Bem-Estar Animal (TVT).
Muitos estão pedindo controles mais rigorosos. "Se não for feito corretamente, é melhor não fazer de jeito nenhum", aconselha o veterinário envolvido no projeto de pesquisa de Schleswig.
O chefe da faenda Bunde Wischen, Kammer, não está preocupado. Cerca de 600 cabeças de gado Galloway vivem nos pastos extensos de sua fazenda, e cerca de 170 deles são abatidos a cada ano. E desde que a notícia se espalhou de que a fazenda proporciona mortes sem estresse para seu gado, as vendas no açougue da fazenda aumentaram. "De repente, há clientes que nunca vimos antes aparecendo", diz Kämmer.
Uma vez que o estudo estiver concluído, a fazenda planeja continuar com seu método de abate por tiro semanalmente. "Estamos fazendo isso pelo bem dos animais", diz Kammer. "Para nós, esta é a extensão lógica de criar animais de uma forma humana, desde o nascimento até a morte."
Tradutor: Eloise de Vylder
Há sete exemplares de gado Galloway aqui, e cada um deve pesar na balança uns bons 500 quilos de massa viva e respirando. Nesta manhã, em particular, eles caminharam para fora seu abrigo de madeira em direção à luz enevoada, mastigando contentes.
Quando o tiro ressoa, os bois levantam suas cabeças brevemente para ver de onde veio o barulho, mas quase imediatamente voltam a se preocupar com suas atividades. O fato de um novilho de três anos de idade de seu grupo ter sucumbido não parece incomodar excessivamente os outros bovinos.
Ao mesmo tempo, uma espécie de coreografia cuidadosamente orquestrada acontece em torno do pasto cercado. A porta se abre de um dos lados do abrigo, e com o aparecimento súbito de pessoas no pasto, o gado volta sem pressa de volta para dentro. Apenas 60 segundos depois, o boi que foi baleado estava pendurado de cabeça para baixo em um trator a alguns metros de distância, com o sangue escorrendo para dentro de uma banheira.
A morte chegou duas vezes neste dia para o rebanho da fazenda orgânica Bunde Wischen, na cidade de Schleswig, no norte da Alemanha, derrubando dois animais selecionados para abate. Cada etapa do processo acontece tranquilamente e não há nenhum grito. Nem mesmo uma hora depois do início da operação, um trailer contendo os dois animais mortos entra no estacionamento de um matadouro próximo.
"Tudo acontece muito rápida e tranquilamente", diz Stefanie Retz. Após os dois tiros, a pequena mulher de 28 anos se agachou ao lado dos animais derrubados para verificar se eles não tinham mais reflexos ou sinais vitais. "Neste clima frio e úmido, é fácil ver quando eles não estão mais respirando, porque a fumaça de água condensada não se forma em frente de suas narinas", ela explica.
Retz, um agrônoma da Universidade de Kassel, está realizando um estudo em conjunto com a colega Katrin Juliane Schiffer e os agricultores desta fazenda de gado orgânico no norte da Alemanha que parece uma espécie de Velho Oeste transplantado para uma fazenda. Aqui, o gado morre não através de um golpe certeiro de uma pistola de dardo seguido do sangramento até a morte num matadouro, mas do cano de uma espingarda de caça.
Morte sem estresse
"A ideia é que os animais devem morrer no mesmo lugar em que viveram, e que eles devem ter uma morte sem estresse – este é o objetivo fundamental", explica Retz. Especialmente o gado que não está acostumado a ficar preso, ela diz, ser transportado para um matadouro e depois ser colocado na posição para receber o golpe é "uma provação enorme".
Como alternativa, os funcionários da fazenda Schleswig estão propondo o que descrevem como o "método do tiro" que eles "adaptaram e otimizaram" juntamente com pesquisadores da Universidade de Kassel, diz o gerente de negócios Gerd Kammer.
Neste método, um grupo de animais se reúne numa área delimitada por uma cerca de madeira sólida e um barranco. A distância máxima entre o gado e o atirador que fica numa guarita de caçador no alto é de dez metros. Antes disso, o gado às vezes recebe comida nesta parte do pasto, então está acostumado tanto com a guarita quanto com o cercado ao ar livre em torno dele. Seu último dia começa tão inocentemente quanto todos os dias anteriores.
O atirador deve esperar vários minutos, até que um dos animais esteja na posição certa. "O atirador precisa conhecer bem a anatomia do boi e ser capaz de acertar um determinado ponto na testa para que o animal fique inconsciente instantaneamente, e na maioria dos casos morra na hora", explica Retz. "Isso não é algo que qualquer caçador amador consegue fazer."
Os pesquisadores de Kassel participaram de 40 operações como esta no pasto. "De acordo com nossas descobertas até agora, este método é livre de dor para o gado", relata Retz. E ao contrário das expectativas, os outros bois do grupo não irrompem em pânico quando um companheiro cai.
Interesse considerável entre criadores
Desde novembro, os criadores alemães que alimental o gado bovino no pasto podem pedir nos departamentos veterinários distritais uma isenção que os permite matar e sangrar seu gado diretamente no pasto.
O interesse entre os criadores tem sido considerável, mas o método não parece funcionar igualmente bem em todos os casos. "O que descobrimos é que muitos atiradores não conseguem produzir resultados consistentes. Nos casos em que fui convidado a assistir, observei que um em cada quatro tiros foram fora do alvo", relata Martin von Wenzlawowicz, veterinário na cidade alemã de Schwarzenbek e membro da Associação Veterinária para o Bem-Estar Animal (TVT).
Muitos estão pedindo controles mais rigorosos. "Se não for feito corretamente, é melhor não fazer de jeito nenhum", aconselha o veterinário envolvido no projeto de pesquisa de Schleswig.
O chefe da faenda Bunde Wischen, Kammer, não está preocupado. Cerca de 600 cabeças de gado Galloway vivem nos pastos extensos de sua fazenda, e cerca de 170 deles são abatidos a cada ano. E desde que a notícia se espalhou de que a fazenda proporciona mortes sem estresse para seu gado, as vendas no açougue da fazenda aumentaram. "De repente, há clientes que nunca vimos antes aparecendo", diz Kämmer.
Uma vez que o estudo estiver concluído, a fazenda planeja continuar com seu método de abate por tiro semanalmente. "Estamos fazendo isso pelo bem dos animais", diz Kammer. "Para nós, esta é a extensão lógica de criar animais de uma forma humana, desde o nascimento até a morte."
Tradutor: Eloise de Vylder
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