domingo, 7 de abril de 2013

Na Alemanha, mulheres acabam renunciando à carreira
Governo aposta em medidas para acabar com o machismo e fazer com que os homens compartilhem as tarefas domésticas. Além disso, a meta é incentivar o aumento no número de nascimentos
Graça Magalhães-Ruether - O Globo
Sergio e Sabine Costa: "O homem brasileiro vai se emancipar"´
Foto: Arquivo pessoal
Sergio e Sabine Costa: "O homem brasileiro vai se emancipar"´Arquivo pessoal
BERLIM — Para o carioca Sérgio Costa, desde 2007 professor do Instituto de América Latina da Universidade Livre de Berlim, com a nova lei das empregadas domésticas “o homem brasileiro vai precisar se emancipar”. Mas o cientista político admite que a experiência também na desenvolvida Alemanha tem mostrado que quando fica difícil a contratação de uma empregada doméstica para cuidar da casa e dos filhos, “a mulher termina renunciando um pouco ao seu desenvolvimento profissional”.
Enquanto Sérgio Costa, hoje com 51 anos, pôde fazer carreira como professor titular da universidade berlinense, sua mulher, a também brasileira Sabine, precisou dedicar-se aos dois filhos pequenos. Só depois que eles cresceram, ela voltou a se dedicar ao seu trabalho. Para recomeçar, Sabine descobriu algo novo e transformou o seu hobby, a culinária, em profissão. Hoje, ela escreve livros de receitas.
Para Sérgio Costa, a nova lei é um marco na história social do Brasil, onde o setor de trabalho doméstico era até agora “tratado com informalidade em prejuízo das empregadas”.
— O Brasil é o campeão mundial em empregadas domésticas — diz o cientista político.
O trabalho doméstico de baixo custo, que segundo o analista teria garantido a integração das mulheres da classe média ao mercado de trabalho, vai ser renegociado, mas assim mesmo continuará muito mais barato do que é na Europa. Enquanto no Leste alemão, até 1989 governado pelos comunistas, sempre houve um sistema amplo de creches e escolas de dia inteiro, que permitia às mulheres um emprego em tempo integral, na parte ocidental da Alemanha, onde até a virada do milênio predominava ainda o ideal da mulher da era nazista — da mulher doméstica e submissa —, ter filhos significava para as mães uma renúncia ao trabalho profissional.
Desde que a chanceler Angela Merkel, uma física que vem do Leste, assumiu, em 2005, e indicou uma médica que é mãe de sete filhos, Ursula von der Leyen, como ministra da Família, houve uma revolução da política familiar do governo alemão, rompendo as estruturas tradicionais que predominavam no ocidente do país.
Com o programa de “salário dos pais”, as mães podem requerer, desde 2008, uma licença-maternidade de um ano, recebendo 70% do seu salário (mas no máximo 1.800 euros mensais). Para incentivar o fim do tradicional machismo alemão, o governo passou a oferecer dois meses a mais de salário se o pai, e não a mãe, tirasse a licença.
Outra revolução, que entra em vigor no dia primeiro de agosto, foi a garantia de uma vaga em uma creche gratuita para todas as crianças entre 1 e 3 anos de idade — antes de terem acesso ao jardim da infância, a partir dos 3 anos, e à escola, a partir dos 6. A decisão de Ursula, que é hoje ministra do Trabalho, foi mal recebida pelos conservadores do governo. Para compensar, eles introduziram um outro tipo de pagamento aos pais, que é ironizado pela oposição como o “prêmio do fogão”. As mães que renunciam a uma vaga na creche vão receber a partir de agosto uma ajuda extra de cerca de 150 euros mensais até os filhos completarem três anos.
Todas as medidas do governo têm em vista aumentar o número de nascimentos. Com 1,39 crianças por mulher, a Alemanha corre o risco de encolher. Aldeias e cidades pequenas estão ficando vazias com a falta de crianças. Apesar de todas as ajudas do governo, ter filhos significa uma renúncia à qual muitas mulheres não estão dispostas.
Mas o outro objetivo é mudar a mentalidade masculina. Uma pesquisa indica que os homens alemães, que só trabalham quando ganham dinheiro, não fazem nada em casa. Quando são casados, deixam as tarefas domésticas para a mulher.
Muitos pais resolvem o problema da falta de ajuda doméstica, que custa de dez a 15 euros por hora — custo que fica ainda mais alto se o trabalho é contratado legalmente, com taxa social de 30% —, ensinando os filhos a ter autonomia. Crianças de cinco anos de idade já vão sozinhas ao jardim de infância e aprendem também a ficar em casa sozinhas até a volta dos pais. Vovós dedicadas são também uma raridade.
Uma vantagem para as crianças é o sistema de transportes, que é bom e pontual. O de Berlim é um dos melhores do mundo. Além disso, jardins de infância e escolas primárias costumam ficar perto de casa.
Por outro lado, quem tem pais idosos que precisam de cuidadores enfrenta um problema ainda maior do que as pessoas com filhos pequenos. Com toda a regulamentação, quem contrata dois cuidadores para dividir a carga horária termina pagando a quantia astronômica de dez mil euros por mês. Os abrigos para idosos são a opção mais usada. Uma parte da mensalidade, de cerca de três mil euros, é coberta pelo seguro público de saúde. Muitos contratam ilegalmente cuidadores do Leste europeu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.