Ainda
aquém dos grandes eventos
O Globo
A confusão na chegada do Papa Francisco, levado a um engarrafamento na
Avenida Presidente Vargas, onde manteve o vidro da janela do carro aberto, sem
se assustar com o assédio do povo, já não foi um bom sinal. Tudo terminou bem, e
o Papa demonstrou falar sério quando disse, antes de embarcar, não querer
distância das pessoas comuns. Mas o desfecho poderia ser bem diferente.
O Papa ganhou ainda mais a simpatia de todos, e os organizadores da visita,
as críticas da imprensa internacional — com razão. Um desentrosamento
inaceitável entre a Polícia Federal e a prefeitura levou a comitiva papal a
ficar espremida, na altura da Central do Brasil, entre uma calçada impossível de
ser ultrapassada por automóveis e uma parede de ônibus, situação conhecida pelos
cariocas que ali engarrafam na hora do rush, mas não indicada a autoridades
visitantes.
Àquela primeira falha de planejamento, ou de execução do que havia sido
acertado, se somou, no dia seguinte, o apagão no metrô, a partir do meio da
tarde, quando peregrinos e fiéis em geral se dirigiam a Copacabana para assistir
à cerimônia de abertura da Jornada Mundial da Juventude.
Houve evidente falta de um plano de contingência para o caso de paralisação
do metrô. Algo que costuma acontecer. Por isso, previsível. Mesmo assim, nada em
especial foi feito. O sistema de ônibus, claro, ficou ainda mais
sobrecarregado.
Para o visitante, o calvário se transformou num inferno. Obrigado a se
locomover numa cidade com proverbiais problemas de sinalização para estrangeiros
— embora seja porta de entrada de turistas —, ainda ficou à mercê de taxistas
inescrupulosos. Outro problema crônico da cidade.
O teste foi muito negativo para uma cidade que em 2016 sediará as Olimpíadas,
no ano que vem será sede de grupo na Copa do Mundo e terá a final do
torneio.
O ensaio da Copa das Confederações já havia demonstrado que o dever de casa
foi feito apenas em parte, por governos estaduais e o federal. Estádios ficam
prontos, mas o entorno, acessos, aquilo que se convencionou chamar de legado
para as cidades, têm vários problemas. Há projetos que não saíram nem sairão das
pranchetas.
E os precários aeroportos brasileiros ainda não foram testados. Precisarão
atender ao aumento de demanda no ano que vem e em 2016, sem qualquer ensaio
prévio. O tempo ficou curto para as melhorias, porque, por prevenção ideológica
contra a iniciativa privada, o Executivo federal demorou muito para licitar
terminais.
A paquidérmica lentidão e ineficiência do poder público começam a justificar
as dúvidas sobre a capacidade de o país recepcionar grandes eventos. O metrô
carioca é uma concessão à iniciativa privada, mas traçar planos de contingência
é missão liderada por governos. O mesmo vale para todos os setores da
infraestrutura usada nestes acontecimentos. Não há desculpa.
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