Guarda-chuva e leque. Com 35 graus Celsius e 90% de umidade, esses foram os dois acessórios básicos para as hordas de participantes da longa marcha de protesto pacífico, organizada, como todos os anos, no dia 1º de julho, aniversário da devolução da ex-colônia britânica à República Popular da China, que ocorreu em 1997.
Segundo os organizadores, eram 430 mil e, segundo a polícia, 66 mil. Uma hora antes do início da marcha, o alerta do observatório de Hong Kong passou para o nível 3, com a aproximação da tempestade tropical Rumbia. No entanto, nem essa ameaça, nem as trombas d'água que se abateram sobre a multidão por diversas vezes, nem as várias atrações organizadas ao mesmo tempo com o intuito de desviar os manifestantes (liquidações excepcionais e um show subsidiado de um grupo pop coreano) conseguiram dispersar as pessoas.
Além disso, foram feitas várias tentativas de intimidação contra arautos da democracia e da oposição. O presidente do grupo Next Media, Jimmy Lai, teve o portão de sua casa arrebentado por um carro, enquanto o famoso deputado "Long Hair" (cabelos longos, apelido de Leung Kwok-hung) recebeu um telefonema lhe recomendando insistentemente que não participasse da marcha.
A mão invisível de Pequim é criticada
Mas os habitantes de Hong Kong, furiosos e inquietos, fizeram questão de mostrar "com os pés" sua raiva, tanto contra seu governo quanto contra as autoridades chinesas. Isso porque ninguém mais duvida do papel determinante de Pequim no futuro de Hong Kong. Essa mão invisível é uma das preocupações latentes da população. A presença impertinente de algumas bandeiras do Reino Unido no meio dessa multidão eclética não passou despercebida pelos observadores chineses."Nosso governo não se preocupa conosco, ele só se preocupa em agradar Pequim", se alarma Charles Ying, um empresário rotundo de 34 anos que vestia uma camiseta em que o chefe do Executivo, C. Y. Leung, aparece com um comprido nariz de Pinóquio, em que consta a data do massacre da Praça da Paz Celestial.
Em outros lugares, o "número 1" de Hong Kong, no poder há exatamente um ano, é representado como um grande lobo mau. Em um dos leques de plástico rígido dos mais populares, C. Y. Leung é representado como um Playmobil carregando uma foice e um martelo amarelos sobre fundo vermelho. Ele está cercado de várias pessoas de seu círculo, todas elas tendo pecado de uma maneira ou de outra. Ali figuram Timothy Tong, ex-chefe da agência anticorrupção (ICAC), acusado de ter comprado funcionários públicos chineses durante jantares caros e regados a bebidas; Barry Cheung, responsável pela campanha eleitoral de C. Y. Leung, cujo mandato como chefe da Autoridade de Revitalização Urbana foi prorrogado além do que consta na regra, ou ainda Roy Tang, diretor do setor público de audiovisual.
"Os cidadãos de Hong Kong estão cansados de esperar pelo sufrágio universal"
"São todos desonestos", resume uma jovem voluntária do Partido Democrático de Hong Kong. Desde que chegou ao poder para um mandato de cinco anos, C.Y. Leung, o self-made man misterioso, tem decepcionado. Ele teve de reconhecer que sua mansão comportava "acréscimos ilegais". Foi um escândalo parecido que causou a derrota de seu rival, dado como vencedor e favorito de Pequim, Henry Tang. Em seguida ele tentou impor, sem sucesso, um programa de educação patriótica chinesa que chocou muitos habitantes de Hong Kong. E o acesso à propriedade imobiliária continua sendo uma miragem para muitos cidadãos de classe média que, pelo contrário, estão empobrecendo. Mas seu maior defeito parece ser sua timidez, muito tática, no avanço das reformas democráticas."Os habitantes de Hong Kong estão cansados de esperar pelo sufrágio universal e pela sociedade democrática que nos foram prometidos", comenta Andrew Shum, do coletivo Civil Human Rights Front (Frente Civil dos Direitos Humanos), organizador do evento. Embora a mini-Constituição de Hong Kong --a chamada "Lei fundamental da região administrativa"-- preveja a instauração de um sistema democrático, o chefe do governo até hoje só foi eleito por 1.200 pessoas (em uma população total de 7 milhões de habitantes) e somente metade dos deputados é eleita por sufrágio universal.
Mas as eleições estão se aproximando. As do Conselho Legislativo (Legco) em 2016 e depois em 2020, e sobretudo as do chefe do Executivo em 2017, que os habitantes de Hong Kong sonham em poder eleger por sufrágio universal direto. Mas já circulou a ideia de que, mesmo se o chefe do Executivo algum dia for eleito por todos, o candidato deverá "agradar" Pequim.
Durante a tradicional cerimônia de saudação à bandeira, o chefe do Executivo afirmou que a instauração do sufrágio universal para 2017 era uma "tarefa essencial" para seu governo e que ainda teriam "todo o tempo" para isso.
Tradutor: UOL
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