No
pano de fundo das manifestações
O Globo
Enquanto analistas tentam decifrar as mensagens emitidas pelas manifestações
de ruas, políticos procuram capitalizar a onda de mobilizações. A oposição não
perdeu tempo em acusar o PT e aliados de serem os alvos efetivos das reclamações
gritadas pelos jovens contra a má qualidade de serviços públicos essenciais.
Já o lulopetismo construiu o argumento, exposto pelo ex-presidente em artigo
no “New York Times”, de que tudo se deve ao êxito no campo social obtido pelo PT
no Planalto. A explicação estaria na faceta do ser humano de sempre querer mais
do que é bom, tese de inspiração antropológica repetida pela presidente Dilma no
discurso de recepção ao Papa Francisco.
A discussão não tem fim, por ser alimentada pela campanha eleitoral
antecipada. Numa visão fria, distante de paixões político-ideológicas,
inevitável considerar, nas análises sobre o fermento no subsolo da agitação da
juventude, as falhas na política de investimentos e gastos públicos.
Reclamações pela falta de saúde, educação e transporte público de “padrão
Fifa”, expostas em muitos cartazes nas manifestações de junho, não surgem do
nada, nem são resultado de alguma perversão oposicionista.
Pesquisa feita em maio, nas vésperas das passeatas, pelo Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), subordinado à Secretaria de Assuntos
Estratégicos da Presidência, detectou junto aos jovens de 15 a 29 anos de idade
demandas quase unânimes por melhores educação e saúde, nesta ordem, com índices
de respostas acima de 80%. O “combate às mudanças climáticas” fecha a lista com
apenas 7% — prova de como o senso comum às vezes passa distante da
realidade.
Se há deficiências nas escolas públicas e nas emergências, postos e hospitais
do SUS é porque o dinheiro do contribuinte teve outras prioridades, como
programas assistencialistas e aposentadorias, por exemplo. E tanto a Educação
quanto a Saúde padecem, em geral, da falta de técnicas modernas de gestão.
Tabulação feita pelo GLOBO com base em estatísticas do DataSUS e da Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, mostra outro aspecto do erro
de enfoque na política de gastos.
O levantamento, sobre o período de 2001 a 2011, detecta o paradoxo do
crescimento de mortes violentas nas regiões Norte e Nordeste enquanto aumenta a
renda per capita. Mas não há contradição.
A renda aumentou, mas equívocos na política de gastos e investimentos
públicos deixaram em plano secundário a segurança pública e a infraestrutura de
transportes. Policiamento deficiente, estradas malconservadas e transporte
público precário são causas importantes de mortes no país, em especial nas
regiões menos desenvolvidas.
A onda de manifestações parece ter surgido de repente. Mas não foi assim. Ela
já crescia abaixo da superfície do cotidiano, ajudada por uma inflação
persistente e alta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário