quarta-feira, 3 de julho de 2013

OESTE NORTE-AMERICANO MAIS QUENTE

Oeste dos EUA está mais quente e mais seco
Felicity Barringer e Kenneth Chang - NYT

Dezenove bombeiros morreram na noite do domingo (30) em um incêndio florestal no Estado do Arizona, o pior dos últimos 30 anos nos Estados Unidos. O grupo, que pertencia a um corpo de elite, ficou preso pelo fogo que se propagou rapidamente nas colinas da cidade de Yarnell com a ajuda dos ventos fortes - KPHO-TV/CBS-5-az.com/AFP

Um dos incêndios florestais mais mortais do último período de mais de 20 anos nos Estados Unidos se expandiu muito na última segunda-feira, quando chegou a atingir mais de 32,3 milhões de quilômetros quadrados, varrendo encostas íngremes e queimando arbustos secos e pinheiros retorcidos um dia após as chamas e os ventos inconstantes terem matado 19 bombeiros.
As fortes rajadas de vento da época das monções (período de chuvas fortes de verão), detectadas onde o Planalto do Colorado começa seu declive em direção ao deserto de Sonora, continuavam atormentando cerca de 400 bombeiros que tentavam defender 500 casas e 200 empresas localizadas nas antigas aldeias de mineração de ouro de Yarnell e Peeples Valley.
Os cientistas disseram que esses incêndios e 15 outros que ainda estavam sendo combatidos, que se espalharam do Novo México até a Califórnia e Idaho, fazem parte de um novo padrão de normalidade, que está deixando a região oeste cada dia mais quente e seca e resultando em mais incêndios catastróficos.
Desde 1970, a temperatura no Arizona tem subido 0,72 grau por década, o ritmo mais acelerado de aquecimento entre todos os 50 estados norte-americanos, com base em uma análise de dados de temperaturas realizada pela Climate Central, uma organização independente que fez pesquisas e produz relatórios sobre o clima. E, apesar de as temperaturas terem se estabilizado em muitos locais ao redor do mundo durante a última década, o sudoeste dos EUA continuou esquentando.
"A década de 2001 a 2010 no Arizona foi a mais quente de todos os tempos durante a primavera e o verão", disse Gregg Garfin, professor de clima, recursos naturais e política da Universidade do Arizona e editor executivo de um estudo que analisou o impacto das mudanças climáticas no sudoeste norte-americano.
Invernos mais quentes significam menos neve. Com isso, uma parcela maior da precipitação de inverno cai na forma de chuva, que rapidamente é escoada para cursos de água em vez de se infiltrar nas profundezas do subsolo.
Dessa forma, os solos secam mais cedo e de maneira mais rápida nos meses de maio e junho.
"Essa é a época mais árida do ano", disse Garfin. "E também há muito vento."
Com isso, a estação de crescimento das plantas nativas e ornamentais também começa mais cedo e, dessa forma, há mais material para queimar no solo.
"A época dos incêndios tem aumentado substancialmente, em cerca de dois meses, ao longo dos últimos 30 anos", disse Craig D. Allen, ecologista pesquisador que atua na estação de Pesquisas Geológicas dos EUA, localizada no Monumento Nacional Bandelier, no Novo México.
O potencial para a ocorrência de incêndios é agravado por uma política antiga, que começou a ser adotada por volta de 1900. Essa política consitia em apagar todos os incêndios detectados. O problema é que os incêndios são uma forma natural de limpar o mato e, quando esse ritmo natural é interrompido, cresce o volume de material inflamável sobre o solo. Por isso, quando incêndios ocorrem, eles queimam mais e atingem áreas maiores.
Essa política de supressão total de todo e qualquer incêndio começou a acabar durante a década de 1950, quando os cientistas começaram a perceber o papel do fogo nos ecossistemas. Ela foi abandonada totalmente há quase duas décadas.
Mas, na década de 1970, o sudoeste dos EUA passou por um período chuvoso, que faz parte de um ciclo climático que se repete a cada 20 ou 30 anos.
"Esse período úmido ajudou a manter o controle sobre os incêndios", disse Allen. "E ele também permitiu que material orgânico se acumulasse no solo das florestas."
Desde 1996, o padrão climático conhecido como Oscilação Decadal do Pacífico tem oscilado para a extremidade seca do espectro e, atualmente, a região sob sua influência está passando por uma seca de longo prazo.
Segundo Stephen J. Pyne, professor da Universidade do Arizona e um dos principais historiadores a estudar e registrar incêndios nos EUA, "a forma como habitamos a terra, o que decidimos colocar em terrenos públicos e privados, como fazemos ou não fazemos as coisas na terra, tudo isso muda sua combustibilidade".
Em muitas localidades, acrescentou ele, "a combustibilidade natural foi ampliada" por meio da construção de centenas de milhares de casas em áreas suscetíveis a incêndios e por anos de supressão dos incêndios naturais, o que permitiu o acúmulo de materiais combustíveis no solo, como os restos de madeira deixados para trás pela exploração madeireira.
"As condições naturais, especialmente o clima, as mudanças no uso da terra que interagem com o clima e a forma como provocamos ou apagamos os incêndios: essas são as três partes do triângulo do fogo. Quase todas essas condições estão apontando na mesma direção, ou seja, para incêndios maiores e mais destruidores", disse ele.
Embora Yarnell não seja uma comunidade nova e sua população tenha se mantido praticamente estável entre 2000 e 2010, ela é representativa dos riscos que surgem quando as pessoas se mudam para áreas suscetíveis a incêndios, chamadas pelos cientistas sociais de "interfaces entre as terras urbanas e as terras selvagens".
Essas comunidades em expansão, que apesar de seu jeitão rural são dotadas de economias mais urbanas, têm sido foco de preocupação para as autoridades federais e estaduais durante o último período de uma década ou mais. Embora essas regiões sejam mais abundantes no leste do que no oeste dos EUA, é nas áreas localizadas a oeste do meridiano 100, que vão da região oeste do Texas e abrangem a Dakota do Norte e a Dakota do Sul, chegando até o Oceano Pacífico, que a aridez natural, cada vez mais exacerbada pelas mudanças climáticas, torna os incêndios uma ameaça comum.
Durante a década de 1990, no oeste dos EUA, mais de 2,2 milhões de unidades habitacionais foram construídas nessas áreas suscetíveis a incêndios, de acordo com o depoimento de Roger B. Hammer, demógrafo da Oregon State University e uma das maiores autoridades no assunto. Falando a uma comissão da Câmara dos Deputados dos EUA em 2008, ele chamou essa situação de "problema perverso" e previu que mais 12,3 milhões de casas seriam construídas em áreas como essas nos estados do oeste do país – mais do que o dobro dos números atuais.
Os dados de cientistas e do governo mostram que ondas de incêndios florestais destrutivos atingiram, anualmente, uma área média de 7 milhões de acres durante década de 2000, duas vezes o total das áreas registradas durante a década de 1990.
Michael Kodas, que está escrevendo um livro sobre o combate a incêndios nos dias atuais, publicou um artigo na revista On Earth no ano passado no qual afirma que os cientistas acreditam que a cifra referente à área total atingida por incêndios vai aumentar 50% ou mais até 2020.
Ainda assim, durante o ano fiscal de 2013, mais de US$ 1,7 bilhão, ou 38% do orçamento do Serviço Florestal, deveria ser aplicado no combate a incêndios em geral, sendo que US$ 537,8 milhões – quantia que sofreu uma pequena redução em relação à do ano anterior – foram especificamente alocados para o combate a incêndios florestais. A verba do Departamento do Interior destinada ao combate de incêndios florestais alcançou US$ 276,5 milhões no período, o que representa um ligeiro aumento em relação ao ano anterior.
Os cortes generalizados realizados no orçamento federal dos EUA eliminaram US$ 28 milhões do orçamento do Serviço Florestal, apesar de o orçamento do Departamento do Interior ter permanecido praticamente estável. Isso ocorreu apesar de ambas as agências terem gastado mais do que as quantias previstas em seus orçamentos de 2012 – que tinham dimensões similares – e apesar de os bombeiros federais serem frequentemente os primeiros a atuar no combate aos incêndios, trabalhando ao lado de seus colegas estaduais durante incêndios como o de Yarnell Hill.
"O Serviço Florestal está sendo tratado como um bombeiro de última hora", disse Pyne.
E ele acrescentou: "esse não é o motivo pelo qual o Serviço Florestal foi criado e ele também não é financiado para fazer isso".
Allen disse que a diferença observada entre os incêndios anteriores e os incêndios mais recentes – que tem se mostrado mais quentes e mais abrangentes – é que eles estão matando um número muito maior de árvores.
"Nós temos observado que o tamanho das áreas sem árvores que aparecem após os incêndios tem se estendido e se fundido por milhares de acres", disse ele, "às vezes, por muitos milhares de acres".
Isso poderá transformar permanentemente grande parte da paisagem do Arizona, pois pastos e arbustos preencheriam o espaço vazio.
Fernanda Santos e John Dougherty colaboraram com reportagem de Prescott, no Arizona, e Jonathan Weisman colaborou de Washington.
Tradutor: Cláudia Gonçalves

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