Der Spiegel

Beate Zschaepe, 38: prosecco com vizinhos e cordialidade que lhe valeu apelido de rato de desenho
Um ex-vizinho da principal ré no julgamento de uma mortífera célula terrorista neonazista da Alemanha descreveu-a como uma mulher simpática, que costumava ir até sua casa para tomar alguns drinks e que até mesmo trouxe uma pizza certa vez. A testemunha também admitiu ter um retrato de Hitler em sua casa.Uma testemunha que depôs na quarta-feira passada forneceu informações importantes sobre como Beate Zschäpe, a principal ré no processo contra uma célula terrorista neonazista da Alemanha, passou seus anos de fugitiva da justiça, acobertada por um disfarce.
O homem, de 44 anos, testemunhou perante um tribunal de Munique e descreveu como Zschäpe, uma de suas vizinhas que residia em uma casa multifamiliar localizada na cidade de Zwickau, no leste da Alemanha, gostava visitá-lo em seu porão para tomar uma taça de prosecco, um tipo de vinho espumante italiano.
"De vez em quando, nós comíamos juntos atrás da casa e falávamos sobre vários assuntos – coisas triviais", ele disse ao tribunal. O ex-vizinho de Zschäpe afirmou que a jovem mulher também se comportava de maneira amistosa com outros residentes do local. Certa vez, ela até mesmo trouxe uma pizza para seus vizinhos, que estavam sentados atrás da casa e assistindo futebol na televisão, disse ele.
Zschäpe havia se apresentado como "Susann Dienelt", um dos pseudônimos que, segundo os promotores, ela utilizava. Ela era popular no bairro, e os moradores locais a chamavam de "Dienelt-Maus", um trocadilho com o nome de um personagem de desenho animado e a palavra alemã para rato, que frequentemente é usada como diminutivo do nome de animais de estimação.
A testemunha disse que Zschäpe vivia há anos junto com outros dois membros da célula terrorista, Uwe Mundlos e Uwe Böhnhardt, no apartamento localizado no estado oriental da Saxônia. Zschäpe teria dito a ele que um dos homens era o namorado dela e o outro era seu irmão, e que eles trabalhavam como cegonheiros.
Segundo a testemunha, ele mal teve contato com os dois homens. "Às vezes eles diziam 'olá' ou 'bom dia', mas isso era tudo", disse ele. Zschäpe, no entanto, era diferente. De vez em quando, ela se juntava à testemunha e a outros vizinhos no porão dele para tomar uns drinks e conversar. Zschäpe aparentemente não gosta de cerveja e preferia tomar prosecco, um tipo de vinho espumante italiano. A testemunha disse que Mundlos e Böhnhardt nunca se juntaram a eles e que o grupo nunca discutiu política durante esses encontros.
Imagem de Hitler sobre a televisão
Em resposta a uma pergunta do juiz, no entanto, a testemunha admitiu ter uma imagem de Adolf Hitler sobre sua televisão no porão. Mas ele alegou que a foto não tinha nenhum significado político e que era apenas uma lembrança de um vizinho que havia morrido. A imagem não incomodava Zschäpe nem qualquer outra pessoa, acrescentou ele.Os promotores afirmam que Zschäpe tentou criar um front para si mesma, para Mundlos e para Böhnhardt, que permitiu que os terroristas neonazistas planejassem e perpetrassem seus atentados sem serem pegos. Atualmente, ela está respondendo a acusações de que ser membro dos Nacional Socialistas Clandestinos, uma organização terrorista de extrema-direita, e de ter atuado como cúmplice no assassinato de nove homens, a maioria de ascendência turca, e no assassinato de uma policial. Ela também é acusada de tentativa de homicídio relacionada com atentados a bomba realizados na cidade velha de Colônia e no bairro Mühlheim, distrito da mesma cidade onde vivem muitos moradores de origem turca. Quatro homens que se acredita terem fornecido apoio à célula terrorista também estão sendo julgados.
Em 4 de novembro de 2011, Mundlos e Böhnhardt se suicidaram quando a polícia os encurralou depois de eles terem roubado um banco. A acusação contra Zchäpe afirma que ela, em seguida, jogou gasolina em todo o apartamento onde os três moravam e ateou fogo. A explosão que se seguiu foi tão forte que arrancou parte da parede externa do edifício.
"Há um incêndio atrás de você"
Outra testemunha descreveu uma cena bizarra após a explosão. A mulher, de 31 anos, disse que passou com seu carro pela Frühlingstrasse, a rua onde a casa estava localizada, e viu as treliças do telhado em chamas. "Então, eu parei porque toda a rua estava cheia de fumaça", disse ela, acrescentando que saiu de seu carro para dar uma olhada melhor. Nesse momento, Zschäpe virou a esquina com dois porta-gatos em suas mãos. A testemunha disse ter falado para Zschäpe: "Há um incêndio atrás de você, é preciso chamar os bombeiros". Em seguida, Zschäpe virou-se e, parecendo chocada, disse: "Minha avó ainda está dentro da casa", de acordo com a testemunha. "Então, Zschäpe se virou e caminhou de volta em direção à casa", disse a testemunha.Uma mulher de 89 anos de idade realmente morava no edifício, e foi resgatada a tempo por seus familiares. Mas especialistas da Secretaria de Estado de Investigação Criminal disseram que a idosa tinha, de fato, corrido perigo e que a explosão poderia ter derrubado a parede de seu apartamento. Os promotores também acusam Zschäpe de ter colocado em risco de morte a idosa e dois carpinteiros.
Na quarta-feira passada, pela primeira vez em dias, simpatizantes da cena extremista de direita da Alemanha puderam ser vistos na plateia do tribunal, incluindo dois homens com cabeças raspadas – um dos quais tinha tatuagens até o pescoço. Durante um dos intervalos do julgamento, ele caminhou até o divisor localizado entre o estande onde ficam sentados os visitantes e os réus e cumprimentou o corréu Ralf Wohlleben e seu advogado. Ele não revelou de onde conhecia Wohlleben. Wohlleben foi acusado de ser cúmplice de assassinato por ter supostamente fornecido a arma do crime que foi utilizada na série de assassinatos.
No início do julgamento, cerca de 500 policiais faziam a segurança do tribunal, mas agora há, visivelmente, um número menor deles presentes no local, disse aos jornalistas Gerhard Zierl, presidente do tribunal distrital e responsável por organizar as medidas de segurança. Ele disse que, se a situação mudasse, mais policiais poderiam ser chamados. "Nós adotamos precauções para que todo o nosso efetivo possa ser rapidamente reunido", disse ele.
Tradutor: Cláudia Gonçalves
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