A verdade dói
Eliane Cantanhêde - FSP
BRASÍLIA - Passou quase em branco, mas não foi mero detalhe da
abertura da Assembleia-Geral da ONU: a presidente do Brasil falou duro com os
EUA, mas nem o presidente Obama, nem o secretário de Estado, John Kerry, nem a
conselheira de segurança, Susan Rice, estavam lá. E, dizem, a própria
embaixadora dos EUA na ONU só chegou na última hora.
Não foi por falta de aviso. O mundo inteiro sabia que Dilma apontaria o dedo
na cara de Obama por causa da espionagem. Ele também.
Hipótese 1 para a ausência: os americanos, sempre tão pontuais,
atrapalharam-se no trânsito e chegaram atrasados à cerimônia.
Hipótese 2: o chefe Obama estava ali ao lado, esperando sua vez de falar, e
sua equipe não pôde prestigiar Dilma para fazer-lhe a corte.
Hipótese 3: Obama e sua equipe não estão nem aí para as reclamações (justas,
diga-se de passagem) e para a gritaria (em tom adequado, idem) da presidente do
Brasil.
Hipótese 4: foi uma retaliação à decisão de Dilma de cancelar a visita
oficial a Washington, alegando que não haveria clima para a conversa bilateral
depois de escancarada a espionagem americana, sobre, até mesmo, a Presidência
brasileira.
De qualquer forma, se os EUA deviam um pedido de desculpas ao Brasil pela
interceptação ilegal de dados de cidadãos, empresas, representações diplomáticas
e do Planalto, agora devem dois: o segundo pela deselegância e pelo descaso
diante da fala da presidente a centenas de chefes de Estado e, por extensão, ao
mundo todo. O alvo eram os EUA e Obama. E eles deveriam dar atenção.
Dilma usou termos fortes como "ilegal", "indignação", "repúdio" e
"inadmissíveis". E, afora a tentativa vã de liderar um movimento por um marco
internacional da internet, ela foi bem ao acusar: "Jamais pode o direito à
segurança dos cidadãos de um país ser garantido mediante a violação de direitos
humanos e civis fundamentais dos cidadãos de outro país". Como discordar?
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