Livro de queixas
Manias, cacoetes, atrasos e erros do governo frustram otimismo
que havia com concessões
Vinicius Torres Freire - FSP
MUITA GENTE que vive fora do universo paralelo de Brasília e mesmo críticos
duros de Dilma animaram-se com o início, ainda que tardio, das privatizações de
infraestrutura.
Apesar de manias e atrapalhações do governo e do fato de que esta rodada de
privatização não salvaria a horta da economia, havia otimismo. Havia.
O calendário da privatização das rodovias será refeito, pois o interesse das
empresas pelo negócio é bem menor do que o estimado pelo governo, porque os
estudos sobre os empreendimentos são ruins, porque o entendimento sobre os
editais era confuso até dentro do governo.
O leilão das ferrovias foi para as calendas, pois não há embasamento legal
para o modelo inventado pelo governo. Além do mais, o modelo depende de uma
estatal desacreditada e que não está estruturada para cumprir as tarefas que o
governo a ela atribuiu.
Há confusão nas normas dos portos. Há confusão na renovação das concessões de
energia, para nem lembrar o fiasco da redução do preço da energia deste ano,
menor do que a esperada e que vai custar bilhões a mais que o previsto em
subsídios. Há frustração de expectativas no leilão do pré-sal, prejudicado em
parte pelo novo modelo de exploração, estatista demais. Decerto as empresas
aproveitam o descrédito e a pressa ansiosa do governo a fim de arrancar
vantagens. Mas o problema de fundo não é esse.
Para começo de conversa, o governo aceitou apenas tardiamente a privatização
de parte da infraestrutura, lá pelo final de 2011 --não tinha planos,
improvisou-os. Aceitou um tanto a contragosto, por falta de alternativa, pois as
obras dos aeroportos da Copa mergulhavam no vinagre, pois havia inépcia e
escândalos nos ministérios.
Para continuar a conversa, o governo tem dificuldade de entender que
privatização significa aceitar preços: sem preço e rentabilidade, não há
negócio. Decerto leilões de serviços públicos, monopólios, são coisas
extremamente complicadas. Mas, em última análise, concessão depende de preços,
os quais o governo quer mais ou menos tabelar, em vez de deixar que os leilões
os definam.
Mais intrigante é que os deságios nos leilões têm sido enormes, vide os
descontos oferecidos mesmo por empresonas que perderam disputas realizadas desde
2007. O governo se bate pela causa errada.
Terceiro, a tentação de tabelar preços é complementada pelo desejo de maquiar
tarifas com subsídios. Quando o objetivo da intervenção não é baixar preços, o
governo quer ser sócio porque quer: com a Infraero, com a PPSA (a Petrosal), com
a Petrobras, com a Valec, com estatais elétricas etc.
Nesses casos, a intervenção por vezes prejudica a própria estatal, caso da
Petrobras, sobrecarregada de tarefas e investimentos. Por vezes, assusta
investidores (o que PPSA ou Valec vão aprontar?). Por outras, não cumpre prazos
e obrigações, inutilizando investimento privado e causando prejuízo ao governo.
Intervenções estatais em lugar e hora errados, tentativas de tabelar preços,
normas confusas, estudos mambembes, pressa depois de anos de inércia, tudo isso
estragou o clima dos leilões de privatização. Pode levar o governo até a
conceder favores indevidos a empresas.
Alguma coisa vai sair, decerto. Melhor que nada. Mas a quanto custo.
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