quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O custo da crise na Síria
Michael Jefferson - NYT
Há 40 anos neste mês, o mundo entrou em um período que o grupo de planejamento da Shell chamava de "As Corredeiras". Foi um período de forte crescimento econômico no mundo industrializado, aumento da importação de petróleo pelos Estados Unidos e de aumento significativo do preço do petróleo. O principal gatilho foi a Guerra do Yom Kippur de outubro de 1973, entre Israel e uma coalizão de países árabes vizinhos, incluindo o Egito e a Síria.
Agora, como naquela época, a economia global está exibindo sinais de um retorno ao crescimento, pelo menos nas economias desenvolvidas do Ocidente, os preços do petróleo estão subindo e há uma grave instabilidade no Oriente Médio. Em junho, o preço de um barril de petróleo custava 100 libras (US$ 160) – agora custa 115 libras. No final de agosto, o preço teve alta acentuada, um aumento que coincidiu com a deterioração da situação na Síria.As raízes da crise síria são profundas e a ameaça à segurança energética é considerável. Desde 1964, há combates entre a minoria xiita alauita na Síria e as comunidades sunitas. Há uma longa história de conflito religioso profundamente enraizado na área.
Qual é a situação agora, para a oferta de petróleo e preços, e quais são as opções existentes para os países que compram esse petróleo? A própria Síria, restringida pelas sanções impostas por muitos países e com sua produção de petróleo em 2012 em menos da metade dos níveis de 2005-2009, atualmente tem opções limitadas. Ela continua produzindo um pouco de petróleo e gás a partir de suas reservas substanciais (mais de 2 bilhões de barris de petróleo e mais de 8 trilhões de pés cúbicos de gás natural), e conta com oleodutos e gasodutos que passam por ela até o Mediterrâneo. Existe potencial adicional além da costa na Bacia Levantina, mas vários países têm interesse em explorar petróleo e gás lá – Israel, Líbano e Chipre entre eles. Há numerosas disputas territoriais. 
Por toda parte na região há preocupação com os efeitos de qualquer ação militar estrangeira na Síria. Há preocupações com as divisões sunita-xiita no Iraque e alarme em alguns países do Golfo com o Irã. Oleodutos, gasodutos, terminais, refinarias e passagens marítimas permanecem vulneráveis a conflitos.
Também há outra preocupação, apesar de uma menosprezada por aqueles que não aceitam a hipótese do "pico do petróleo": o argumento de que a produção a partir de fontes convencionais de petróleo atingirá um pico. Nos anos 70, acreditava-se que o pico ocorreria perto da primeira década do século atual, e numerosos observadores mantêm essa posição, assim como eu. O argumento alternativo é que as reservas comprovadas de petróleo aumentaram acentuadamente nos últimos 30 anos. Mas essa visão é seriamente torta. Essas fontes sugerem que as reservas globais de petróleo convencional comprovadas totalizavam 1,67 trilhão de barris no final de 2012, tendo aumentado acentuadamente nos últimos 30 anos. Quais são os fatos?
Primeiro esse número inclui 298 bilhões de barris de óleo pesado venezuelano e 174 bilhões de barris das areias betuminosas canadenses. Mas não se trata de petróleo convencional, por ser pesado, oneroso para extrair e refinar, além de produzir forte impacto ambiental ao longo do caminho. Portanto, 471,5 bilhões de barris deveriam ser imediatamente deduzidos do total. 
Potencialmente mais séria é a manipulação do cálculo dos 1,2 trilhão de barris restantes. Há 30 anos, para que uma reserva de petróleo pudesse ser considerada "comprovada", era preciso uma probabilidade de 90% de existência. Mas essa definição agora mudou, de modo que uma probabilidade de existência de apenas 50% é necessária. Começando pelo Kuait, e seguido pelo Iraque, Abu Dhabi, Arábia Saudita e Irã, houve um forte aumento nas alegadas reservas comprovadas de petróleo totalizando 435 bilhões de barris. Portanto, 435 bilhões de barris devem ser deduzidos dos 1,2 trilhão de barris, reduzindo o número para cerca de 760 bilhões de barris (um ligeiro ajuste para cima das reservas comprovadas de petróleo ocorreu durante esse período na Líbia e na Nigéria, mas esse aumento somado corresponde apenas a outros 35 bilhões de barris).
O ajuste final que precisa ser feito reflete parte do petróleo que os cinco membros chave da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) no Oriente Médio produziram nos últimos 30 anos. Afinal, essas revisões, em vez de comprovarem reservas convencionais de petróleo próximas de 1,67 trilhão de barris, podem colocar o número de fato em menos de 450 bilhões de barris, ou nem 28% do número frequentemente alegado. Mas nós podemos sugerir com maior confiança que os membros do Oriente Médio da OPEP mantêm mais de 50% das reservas globais de petróleo. 
Há duas implicações consequentes. A primeira, as reservas comprovadas de petróleo convencional são muito menores do que o presumido, portanto questões de disponibilidade da oferta e de preço se avultam. A segunda, a turbulência no Oriente Médio também continua sendo um grande motivo de preocupação para a segurança das reservas de petróleo e o nível dos preços. 
É claro, ninguém sabe qual será o número de fato dos recursos recuperáveis de petróleo convencional no Oriente Médio ou no total. É possível que os recursos de petróleo que estão sendo explorados em alto-mar no Brasil, no Oeste e Leste da África e no Ártico provem serem maiores do que a maioria das estimativas anteriores. Mas parece possível que a exploração do óleo cru convencional – isto é, relativamente leve– atingiu seu pico ou não está longe dele. Isso torna a oferta de petróleo muito mais vulnerável a intervenções militares, terroristas ou políticas.
O setor que seria mais fortemente afetado por perturbações na oferta de petróleo e altas de preço é o dos transportes, já que mais de 90% do transporte motorizado do mundo ainda depende de petróleo. (Eu deixo de lado os muitos lares rurais no Reino Unido que não têm acesso a gás, e dependem de petróleo para aquecimento central.) Maiores esforços podem ser esperados para introdução e expansão dos mercados de veículos com combustíveis alternativos, especialmente os elétricos híbridos. Mas isso levará décadas para ter um impacto significativo globalmente. Maior eficiência em combustível e mudança dos hábitos de dirigir terão um impacto modesto, como já foi observado nos últimos cinco anos nos Estados Unidos. 
De fato, com o atual boom de gás de xisto e níveis relativamente altos de estoque de petróleo, os Estados Unidos parecem mais bem posicionados do que a maioria das economias europeias e das economias em rápido desenvolvimento para suportar uma tempestade de turbulência no petróleo e alta de preços. Se a Arábia Saudita –uma grande aliada– for excluída, então os Estados Unidos dependeriam dos países do Oriente Médio para menos de 10% de suas importações de petróleo – e por volta de 22% considerando a Arábia Saudita. A UE também depende do Oriente Médio para cerca de 20% do abastecimento de petróleo, mas é mais dependente da oferta do Norte da África do que os Estados Unidos.
Quais são as opções? A expansão do gás natural e a retomada da energia nuclear para geração de eletricidade parecem caminhos óbvios a seguir. Mas quem sabe quão rapidamente e quão amplamente a exploração de gás de xisto ocorrerá, sem contar que em muitos países os governos e autoridades de planejamento têm sido mais gentis em dar permissão para empreendimentos próximos de imóveis residenciais. Afinal, permissão foi concedida para empreendimentos de fazendas eólicas em terra com pouca consideração pela velocidade dos ventos nos locais propostos, além do impacto visual em locais sensíveis.Quanto à energia nuclear, após a reação de pânico em muitos países (principalmente na Alemanha) ao desastre na usina nuclear de Fukushima, a retomada e expansão da energia nuclear é improvável que seja tão veloz quanto necessário. Novas formas de energia renovável terão dificuldade em preencher a lacuna – os esforços para fazê-lo por meio de biocombustíveis já provaram ser desastrosos para a disponibilidade de alimentos e preços. (Em 2008, ocorreram distúrbios por causa de alimentos em 47 países e os preços também intensificaram o descontentamento nos países da Primavera Árabe.) A energia eólica é muito intermitente. A energia solar tem muito potencial em princípio, especialmente se transmitida para regiões onde a radiação solar é baixa – por exemplo, se pudesse ser transmitida do Norte da África para a Europa.Mas isso não apenas seria caro e exigiria muito tempo para implantar, como também exigiria confiança na existência de uma estabilidade sociopolítica contínua nas regiões onde os painéis solares fossem instalados. A volatilidade no Norte da África e no Oriente Médio não contribui para uma implantação bem-sucedida disso.
A maioria de nós ficaria mais feliz se uma transição para um mundo de baixo carbono, menos dependente de petróleo, estivesse se desdobrando diante de nós. Em vez disso, complexidade e caos parecem dominar.
(Michael Jefferson é ex-vice-secretário-geral do Conselho Mundial de Energia e ex-economista chefe do grupo Royal Dutch Shell).

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