sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Atirador de Paris participou de crime com 5 mortos em 1994 
Laurent Borredon - Le Monde 
Reprodução/Reuters
Imagem de circuito interno mostra suspeito de fazer disparos no escritório do jornal Libération, no dia 18 
Imagem de circuito interno mostra suspeito de fazer disparos no escritório do jornal Libération, no dia 18
Quando os policiais o detiveram na quarta-feira (20), pouco depois das 19h, ele jazia quase inconsciente dentro de um carro estacionado em uma garagem subterrânea de Bois-Colombes. Caçado durante 48 horas pela polícia, o homem suspeito de ser o atirador do "Libération" e da BFM-TV havia tomado medicamentos e se isolado para se matar. Ao amigo que o hospedava, Abdelhakim Dekhar simplesmente contou ter feito "uma besteira".
Abdelhakim Dekhar, 48 anos, pouco mais que a idade anunciada na chamada de testemunhas lançada na segunda-feira à noite pelos investigadores. Abdelhakim Dekhar, um dos protagonistas de um dos episódios mais marcantes dos anos 1990, o surto assassino de Audry Maupin e Florence Rey, que resultou em cinco mortos em 25 minutos, no dia 4 de outubro de 1994. Abdelhakim Dekhar, solto da prisão em 1998 e que desde então havia sumido do radar da polícia e da Justiça. De repente, o "atirador maluco", como foi apelidado, ganhou um nome e, junto com ele, uma profundidade inesperada.
Para os investigadores, não há dúvidas de que se trata do atirador. Seu DNA bate com o que foi encontrado nas diferentes cenas do crime. Sua condenação em 1998 explica por que os investigadores não o encontraram no cadastro nacional de impressões genéticas (Fnaeg), criado em 2000. Mas os policiais não encontraram nem sua arma, nem as roupas características que ele usava durante os ataques, a parca cáqui e o colete preto, em seu carro ou apartamento. Segundo Christian Flaesch, o chefe da polícia judiciária parisiense, ele foi apontado à polícia pelo homem que o hospedava em seu apartamento pois este sentiu "dúvidas" e "preocupações".
Abdelhakim Dekhar passou a noite sob custódia no hospital. Quando acordar, ele deverá se explicar perante os policiais sobre as razões que o levaram a ameaçar um redator-chefe da BFM-TV, armado com uma escopeta de repetição, na manhã de sexta-feira (15), a atirar em um jovem assistente de fotógrafo no saguão da sede do "Libération", na segunda-feira (18), antes de disparar contra o prédio do banco Société Générale, no bairro de La Défense, além de levar como refém um motorista até os Champs-Elysées e por fim sumir.
Duas cartas foram encontradas no apartamento onde ele vivia. Em uma delas, ele fala de maneira confusa sobre os grandes conflitos mundiais, como na Líbia e na Síria. Ele também ataca a mídia de maneira explícita, menciona o "fascismo", a periferia. Ele se preocupa com a forma como os outros o veem. A outra carta é dedicada a seus últimos desejos. Em nenhuma delas ele fala sobre os acontecimentos em si. Os policiais esperavam poder ouvi-lo em breve, na quinta-feira de manhã, assim que ele recobrasse a consciência.
Considerando o perfil do suspeito, não há certeza de que grandes esclarecimentos venham brotar do interrogatório. Nos anos 1990, Abdelhakim Dekhar era "Toumi", ativista que gravitava em torno do movimento "autônomo", pulando de squat em squat, participando desde manifestações contra o desemprego até movimentos contra o CIP, o "contrato de inserção profissional para jovens" de Édouard Balladur. Ali ele conheceu Audry Maupin e Florence Rey, dois jovens um pouco exaltados, em conflito. Muitos o achavam meio estranho. Alguns chegavam a desconfiar que ele fosse um informante do serviço de inteligência francesa.
Nem a investigação, nem o processo permitiram estabelecer de maneira clara seu papel exato em relação ao casal. Ele foi julgado em 1998 junto com Florence Rey. Ele havia fornecido um dos fuzis de repetição usado pelo casal, que comprou legalmente no setor de caça da loja de departamentos Samaritaine. Ele também foi apontado pela jovem como o "terceiro homem" que ficou de tocaia na ocasião do ataque do pátio de carros guinchados de Pantin, primeiro ato da tragédia. Uma testemunha falou da "pressão permanente, física, de Toumi, que tornava o ar irrespirável e as relações tensas" entre o casal: "Ele tinha uma maneira de lhes mostrar que eles eram jovens e inexperientes. Ele era como um monitor. Ele batia e assoprava."
Em sua instrução, a advogada-geral viu nele "a eminência parda, que se mantinha na retaguarda, que não largava mais o casal Rey-Maupin, o homem que veiculava ideias radicais" e pediu dez anos de reclusão. Em vão: o tribunal não aceitou os acontecimentos de Pantin, e assim rejeitou a acusação de cumplicidade em assalto à mão armada. Ela só aceitou a acusação de formação de quadrilha e o condenou a uma pena de quatro anos coberta pelo seu período de detenção provisória.
Abdelhakim Dekhar afirmou à plateia que estava sendo vítima de "manipulação". Ele garantia que, apesar das evidências, ele não conhecia "nem Rey, nem Maupin." Ele disse "fazer parte da segurança militar argelina". Mais: ele jurou que havia sido encarregado pelo governo argelino de se infiltrar na esfera autônoma em ligação com redes islamitas. Além disso, ele viajava "com muita frequência para a Argélia, a Inglaterra e a França" e não estava lá na famigerada noite de 4 de outubro, uma vez que estava em Londres, algo do qual ele se lembrou somente em 1996, após dois anos de detenção.
E Florence Rey só o teria entregado porque ele fora "marcado": os autônomos queriam sua pele. Depois de passar pelas mãos de psicólogos especialistas, ele saiu tachado: "indivíduo de tendências mitômanas que fazem dele um agente secreto, com uma missão política a serviço da causa argelina." Durante a instrução, ele havia afirmado que fora recrutado por um ex-legionário que passou pelo Serviço de Ação Cívica (SAC), o braço armado do partido gaullista até o início dos anos 1980. Para ele, o caso Rey-Maupin era o resultado de uma provocação armada pelos serviços franceses ou pela extrema direita, ou pelos dois juntos...
Abdelhakim Dekhar foi liberado no final do julgamento em 1998 e desde então não se ouvia mais falar dele. Entre os autônomos, ele definitivamente ficou "queimado", pois forneceu aos policiais, enquanto estava sob custódia, vários nomes de personalidades do movimento. Dois deles foram indiciados e presos após suas declarações, e depois inocentados. "Esse caso trouxe muita dor de cabeça a muitas pessoas que não tinham nada a ver com Rey e Maupin", explica uma pessoa próxima. Será uma das tarefas dos policiais: estabelecer como foi sua trajetória durante esses quinze anos em que esteve novamente no anonimato.

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