sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Atores da "primavera búlgara" denunciam a corrupção do regime 
Alain Salles - Le Monde 
Vassil Donev/Efe
Estudante segura bandeira búlgara após subir em monumento durante protesto contra o governo Estudante segura bandeira búlgara após subir em monumento durante protesto contra o governo
Na quarta-feira (20), uma centena de estudantes marchava em passo cadenciado, vestidos com roupa camuflada ou uniformes de papel, armados com revólveres de papelão. Eles se dirigiam ao Parlamento gritando "Octabka" ("renúncia", em búlgaro) e se jogaram ao chão, para terminar seu percurso rastejando. Rojões simbolizavam o barulho de bombas e coquetéis molotov. Ao chegarem diante das barreiras de segurança, sob o olhar em alguns casos divertido dos policiais, eles se deitaram no chão, colocaram máscaras de gás, enquanto bombas de fumaça faziam o papel de gás lacrimogêneo.
Em Sófia, há 160 dias as pessoas têm protestado como se estivessem no teatro, fazendo performances para expressar sua revolta e seu repúdio pelo governo. Durante o verão, os manifestantes representaram a tela de Delacroix, "A Liberdade Guiando o Povo", com uma jovem búlgara revelando o seio, empoleirada sobre o monumento em frente ao Parlamento, brandindo as bandeiras búlgaras e europeias. Eles construíram um "muro de Berlim", com a palavra "máfia" escrita por cima, e pintaram de rosa um tanque em frente à sede do Partido Socialista búlgaro, mostrando que preferem a criatividade à violência.
O movimento de revolta contra o governo dirigido pelo Partido Socialista Búlgaro e pelo partido da comunidade de origem turca, também apoiado pelo partido xenófobo Ataka, perdeu intensidade desde que foi lançado em 14 de junho, mas ele persiste inexoravelmente. Às vezes, algumas dezenas ou centenas de pessoas se mobilizam, outras são milhares, como foi o caso na quarta-feira.
Um dos principais sindicatos do país fez uma manifestação naquele dia para exigir aumento de salário. Motoristas de táxi também protestavam contra a criação de uma nova taxa. As relações não eram das melhores entre os diferentes grupos. Os estudantes não queriam ser tomados pelos sindicatos, que preferiam se afastar das agitações estudantis. Os manifestantes desfilavam com cartazes onde o primeiro-ministro, Plamen Orecharski, aparecia como zumbi para mostrar que seu governo está morto-vivo, e onde havia desenhadas cabeças de porcos vermelhos, caricatura referente ao empresário Delyan Peevski, motivador dos protestos.

"Símbolo da corrupção"

O movimento começou no dia 14 de junho, quando o governo decidiu nomear para a chefia da agência de segurança nacional esse jovem magnata da mídia e dos negócios, considerado um dos símbolos dessas oligarquias búlgaras que administram seus negócios em relações estreitas com os partidos políticos. "Ele era um símbolo da corrupção e da interdependência dos setores político, midiático e econômico e o tornaram representante dos serviços secretos", se admira Boriana Dimitrova, diretora do instituto de pesquisas Alpha Research.
O assunto dos serviços secretos é delicado. Os espiões são conhecidos no mundo inteiro em razão dos "guarda-chuvas búlgaros", um método de envenenamento que utiliza um guarda-chuva, mas a maior parte dos agentes secretos não ficaram preocupados com a queda do regime comunista. "Uma grande parte dos arquivos foi destruída e vários ex-agentes se infiltraram na polícia, na mídia e nas empresas. O aparelho de segurança do sistema soviético criou a nova elite búlgara", resume Christo Christev, professor de direito.
"Eu estava na Ucrânia quando soube da nomeação de Peevksi, cancelei todos meus compromissos e voltei para Sófia para mudar esse sistema mafioso", explica o empresário Georgi Iliev. Desde então, esse dono de agência de publicidade praticamente não saiu mais das ruas e deixou a barba crescer, que ele cortará quando o governo renunciar. Iliev também cuida da organização de grandes shows de rock e convenceu Roger Waters a escrever "Octabka" no muro do espetáculo "The Wall" quando o Pink Floyd passou por Sófia, neste verão.
Diante da comoção geral, Peevksi renunciou, mas as manifestações continuaram durante todo o verão. Elas estavam começando a enfraquecer quando, no final de outubro, o Tribunal Constitucional autorizou Peevksi a voltar a assumir seu cargo de deputado. Os estudantes da faculdade de direito protestaram contra essa decisão do presidente do Tribunal, que é também o professor deles. E sobreveio um movimento de ocupação das universidades, que chegou ao fim na segunda-feira (18). O governo, por sua vez, organizou contramanifestações no sábado (16) e lançou ataques contra os manifestantes, reforçado pelos jornais e canais de televisão de Peevksi. Os manifestantes estariam sendo pagos pelo bilionário George Soros.
A campanha surtiu efeito entre os mais pobres, fora das grandes cidades. Isso porque a "primavera búlgara" atinge principalmente a classe média urbana e tem dificuldades para ampliar sua base. "A cultura do protesto é mais fraca no interior e o risco de sair às ruas é maior. O controle social é mais forte nas pequenas cidades", observa o cientista político Dimitar Bechev. O governo está tirando proveito da situação, oferecendo um bônus de Natal de 26 euros para os aposentados, que recebem 130 euros por mês. E tenta ganhar tempo, esperando que o movimento se esgote.

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