Zigue-zague
DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo
A desconfiança do mundo do dinheiro privado em relação à
presidente Dilma Rousseff não se dá por razões subjetivas. Questões de
simpatia, personalidade, de maior ou menor habilidade no trato pessoal
sensibilizam mais o universo político.
O pessoal da economia - mercado financeiro, setor produtivo - quer
saber do preto no branco, trabalha com previsibilidade e regra clara. De
onde o distanciamento, que tanto preocupa o governo quanto anima a
oposição, decorre dos sinais emitidos pelo Palácio do Planalto ou do
Ministério da Fazenda (dá no mesmo).
Basta uma circulada rápida por essa área para se perceber o alto grau
de reservas quanto ao futuro. Verdade seja dita, as dúvidas dizem
respeito também ao que fariam os dois pretensos oponentes, Aécio Neves e
Eduardo Campos. Mas, no momento, quem precisa mesmo dar conta desse
recado é o governo. Que faz o quê? Reúne-se com as lideranças no
Congresso e propõe um pacto para que não se aprove nada que implique
redução de impostos ou aumento de gastos fora do previsto no Orçamento.
O mesmo governo que reduziu impostos a torto e a direito, controla
preços e gasta a rodo para não se indispor com o eleitorado. Demagogia
nos olhos do alheio é refresco. O ministro Guido Mantega foi ao
Parlamento dizer a deputados e senadores que contivessem o ímpeto
eleitoral (não falou com essas palavras) porque há riscos no horizonte:
inflação e redução da nota de crédito no Brasil junto a agências
internacionais.
Mas não é esse mesmo ministro do governo que toda hora vem a público
fazer coro ao discurso da presidente de que está tudo muito bom, corre
tudo bem? Alega-se que é preciso dar um sinal de austeridade fiscal aos
investidores estrangeiros.
Pois no dia seguinte à firmação do pacto, o Congresso
majoritariamente governista aprovou projeto que retira da União a
obrigação de cobrir o déficit de Estados e municípios no cumprimento de
suas metas fiscais. Com isso, cai o montante do superávit primário a ser
alcançado em 2013. E por quê? Porque o governo chegou à conclusão de
que o aumento das despesas e a redução das receitas não lhe permitiria
cumprir a meta inicial. Nessa base do faça o que eu digo, mas não faça o
que eu faço, com o velho e desgastado truque do pacto o governo talvez
faça uma boa cena. Mas nada faz de objetivo para recuperar a confiança
do capital.
Estaca zero. O adiamento da decisão de se abrir ou não processo para a
cassação do mandato do deputado José Genoino pode melhorar a situação
dele, que tem chance de conseguir aposentadoria por invalidez e de
evitar a mácula biográfica de cassado por seus pares.
Mas nem de longe resolve o problema da Câmara, que logo terá de
examinar os casos de Pedro Henry e Valdemar Costa Neto, ambos no aguardo
do início da execução das penas.
Conspiração. Em outubro de 2012, a Justiça Federal de Minas Gerais
condenou José Genoino e Delúbio Soares a quatro anos por falsidade
ideológica devido a empréstimos considerados fraudulentos com o BMG.
Marcos Valério recebeu quatro anos e seis meses. Ainda cabem recursos.
O processo foi remetido à primeira instância quando terminou o
mandato de Genoino e lá ficou porque ele não foi reeleito em 2010.
Suplente, quando assumiu a vaga na Câmara a ação relativa a ele "subiu"
para o Supremo. Distribuída ao ministro Marco Aurélio Mello, ainda está
para ser votada.
O fato conspira contra a teoria petista de que os companheiros são
inocentes, vítimas da perseguição do STF. A se aceitar a tese, a
arbitrariedade se estende, então, ao Poder Judiciário como um todo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.