Os créditos do BNDES e o mercado de capitais
O Estado de S.Paulo
O BNDES fechou o segundo trimestre do ano com 19,7% de
participação no total do crédito oferecido a empresas e famílias no
País. E, segundo notícia do Estado, sua fatia no crédito passou do
equivalente a 1% para 3,1% do PIB no período de uma década.
É inegável a enorme importância do BNDES para o desenvolvimento da
economia e das empresas brasileiras, não só agora, mas ao longo da sua
história de mais de 60 anos. Criado por Getúlio Vargas no início do seu
último mandato, que se encerrou com o seu suicídio, o banco teve papel
de destaque na industrialização do País e na montagem da sua
infraestrutura.
Mas, como todo órgão do governo, não deixou de sofrer em várias fases
os efeitos de políticas desastradas, de desvios da sua finalidade, de
programas mal concebidos e de imposições de cunho nitidamente
demagógico. Foi salvo, nessas ocasiões, pela qualidade da sua equipe e,
em alguns casos, pela coragem política de seus dirigentes em convencer
ministros e até presidentes da conveniência e da vantagem de não
comprometer a credibilidade do banco. E também pelo Tesouro.
Essa credibilidade, aliás, dá ao banco capacidade de captação de
recursos, nacionais e internacionais, para projetos privados ou
governamentais, a ponto de ombreá-lo com o Banco Mundial nessa função, e
este tem mais de uma centena de países para atender.
Ultimamente, têm surgido em alguns debates propostas para que o
governo limite o papel e as funções do BNDES ao âmbito da
infraestrutura, deixando as necessidades de capital e financiamentos das
empresas privadas a cargo do mercado de capitais. O argumento é de que,
dispondo o BNDES de recursos públicos para financiamentos de longo
prazo, isso acabou inibindo os bancos privados, e até públicos, como o
Banco do Brasil, de desenvolverem mecanismos e instrumentos capazes de
bancar tais operações. Essa não é, evidentemente, a causa de o
investimento privado ter caído de 16,9% para 15,7% na Formação Bruta de
Capital Fixo no Brasil, nos últimos três anos. Mas é claro que, se
projetos de longo prazo, privados e confiáveis, não pudessem contar com o
BNDES, os bancos privados encontrariam como atendê-los.
Pode ser essa a razão de o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, ter
declarado a jornalistas brasileiros anteontem, em Nova York, que é
intenção do banco moderar, em 2014, a liberação de recursos para
empresas privadas.
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