Evitando o culto a Mao, Pequim zela pelo seu legado político
Brice Pedroletti - Le Monde
Embora tenha sido oficialmente considerado responsável em 1981 pelo
desastre que foi a Revolução Cultural, Mao Tsé-Tung, morto em 1976,
nunca foi derrubado de seu pedestal na China. Seu retrato continua a
dominar a fachada da porta da Paz Celestial. Mas o aniversário dos 120
anos de seu nascimento, no dia 26 de dezembro, tem alimentado polêmicas
discretas sobre seu embaraçoso legado.
O dilema que o Partido
Comunista Chinês (PCC) sempre enfrentou – de que Mao seria ao mesmo
tempo Lenin e Stalin – continua a polarizar os chineses. Existem aqueles
que o defendem com unhas e dentes em nome do patriotismo, e aqueles que
o consideram fonte de todos os males da sociedade chinesa atual. Os
intelectuais, que Mao se esforçou para disciplinar, o demonizam: nunca
houve coveiro da inteligência e da cultura maior do que ele.
Uns
tentam tirar proveito financeiro de seu culto. Outros abusam da ironia e
do cinismo, chegando a lhe atribuir a paternidade do milagre econômico
chinês. Shenzhen, o berço das reformas, inaugurou no início de dezembro
uma estátua de Mao em ouro e jade. Na blogosfera, os internautas logo
condenaram tais extravagâncias.
Na era Xi Jinping, o PCC parece
estar fazendo um exercício de equilibrismo. Os sete membros do Comitê
Permanente, o coletivo dirigente supremo do partido, entre eles Xi
Jinping, foram na quinta-feira até o mausoléu de Mao, na Praça da Paz
Celestial, e o reverenciaram três vezes.
Para o historiador
Zhang Lifan, "os debates sobre os méritos e os defeitos de Mao estão
mais intensos do que nunca". Segundo ele, exprimir uma opinião sobre Mao
sempre tem um sentido: "Os maoístas estão tentando organizar o máximo
possível de manifestações para exprimir o descontentamento deles. Para
Xi Jinping, é um meio de estabelecer a legitimidade do partido". Desde o
expurgo de Bo Xilai, ex-oficial do Partido em Chongqing condenado à
prisão perpétua por corrupção, os neomaoístas têm se mantido discretos.
As reformas econômicas anunciadas durante a terceira sessão plenária do
PCC, em novembro, vão no sentido inverso do estatismo promovido por Bo.
Fang Jinggang, diretor da livraria Utopia, um dos celeiros do
neomaoísmo, diz se tratar de uma "contrarrevolução": "Os intelectuais
maoístas são extremamente marginalizados", ele lamenta. "E a classe
capitalista dominante se esforça para dissimular as lutas de classe em
andamento". Fang constata uma certa "frieza" nos meios oficiais em
relação a Mao. Mas "o povo continua a celebrá-lo com carinho", ele se
consola.
O jornal "Global Times", próximo dos meios
nacionalistas e defensor do legado de Mao, enaltece continuamente a
importância do aniversário, chegando a afirmar que quase 80% dos
entrevistados em uma pesquisa acreditam que "as realizações de Mao
superam seus erros". O jornal também se mantém na defensiva, acusando os
"liberais" de "repudiarem totalmente o papel de Mao na história
chinesa", e pleiteia a "coexistência de opiniões diferentes". O
argumento dos defensores do Grande Timoneiro é que ele teria lançado as
bases para a China das reformas.
Seus detratores observam que o
crescimento econômico só decolou a partir do momento em que os
sobreviventes dentre aqueles que foram alvo de seus expurgos voltaram ao
poder, no final dos anos 1970. O resto foram só disputas de poder e
destruições – os historiadores calculam que a fome contínua no Grande
Salto Adiante causou entre 30 e 45 milhões de mortes.
Para o
PCC, o importante é evitar que Mao lhe escape: "Eles querem a qualquer
custo manter o poder de comemorar Mao", explica a jornalista e
dissidente Gao Yu, em Pequim. "Eles desconfiam dos extremistas de
esquerda que teriam tendência a reativar a Revolução Cultural, o que
está fora de questão, ao mesmo tempo em que controlam e contêm as
críticas a Mao nos meios liberais."
Para o PCC, continuar
celebrando Mao também equivale a dizer que não se pode questionar o
partido único: "O que constrange os oficiais é o fato de que as pessoas
têm tido uma imagem cada vez mais negativa de Mao. Mas eles apreciam seu
principal legado: ter permitido que os oficiais do partido tivessem
todos os poderes", acredita Bao Tong, braço direito do ex-oficial Zhao
Ziyang, expurgado em 1989.
O paradoxo é ainda mais evidente
entre os filhos da nobreza vermelha, como Xi Jinping, o número um
chinês. "Apesar dos tormentos e, em alguns casos, das torturas sofridas
por seus pais durante o governo de Mao, eles são obrigados a reconhecer
que o poder do partido foi estabelecido por Mao e que, sem ele, eles não
estariam onde estão", diz Bao. No entanto, Xi Jinping cultiva a
ambiguidade. Ele achou de bom tom se levantar contra qualquer
"negativismo" sobre os trinta anos que precederam a era de Deng
Xiaoping, ou seja, a China de Mao. Para desgosto dos meios liberais, ele
reativou o conceito de linha de massa elaborada por Mao, bem como as
sessões de autocrítica coletiva para os oficiais.
Esses
posicionamentos e a visita simbólica ao mausoléu são vistos como sinais
de apaziguamento da parte de Xi Jinping em relação aos maoístas e, de
forma mais geral, aos príncipes vermelhos. Isso parece também favorecer o
surgimento de outras referências histórias: em outubro, o primeiro
secretário do partido comemorou o centenário do nascimento de seu
próprio pai, Xi Zhongxun, que era vice-premiê antes de ser expurgado por
Mao em 1962. Para alguns, o fato de Xi Jinping ter recorrido às
ferramentas tradicionais de governança do partido remete mais a esse
período de gestão coletiva do país do que a um culto ao maoísmo. Além
disso, a biografia de Chen Duxiu, um comunista de primeira hora que se
desentendeu com Mao, acaba de ser publicada.
Em novembro, Xi
Jinping vistou Hunan sem passar por Shaoshan, lugar de nascimento de
Mao. No mesmo mês, ele foi até o templo de Confúcio, em Shandong, onde
convidou os chineses a reconstruírem uma moralidade a partir daquilo que
fosse positivo nas crenças tradicionais. Mao não está pronto para ser
derrubado na China. Mas sua influência poderá ser diluída entre as de
outras figuras tutelares.
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