Marion Van Renterghem - Le Monde
Ele ainda diz "minha casa" quando aponta para uma pilha amorfa de
madeira e ferragens na praia, nem a dez metros do hipócrita Oceano
Pacífico, que neste mês de dezembro voltou a exibir seu ar tranquilo
como se nada tivesse acontecido. O homem ainda diz "minha profissão"
quando fala do seu passado recente como cozinheiro em um hotel de
Tacloban, na ilha de Leyte. O hotel foi destruído. No dia 8 de novembro,
sob efeito do tufão mais violento e mais fatal da história das
Filipinas, o mesmo oceano subiu dez metros de altura. Manuel Awing de
Paz não tem mais nada.
O ciclone tropical literalmente arrasou tudo na ilha de Leyte, sobretudo nos arredores de Tacloban. Quando o vento, as chuvas e o oceano se acalmaram, eles deixaram para trás um cenário apocalíptico, com árvores tombadas, casas destruídas e, em seu lugar, um imenso depósito de lixo com milhares de cadáveres.
Mais de um mês se passou. As várias ONGs locais atenderam às maiores emergências, distribuindo rações de arroz e sardinhas em conserva várias vezes por semana para cada família: ninguém mais tem passado fome como nos primeiros dias. Mas a distribuição de comida em breve cessará, provavelmente a partir de janeiro. Agora vem a parte mais difícil e demorada: encontrar um meio de ganhar a vida, sendo que nada restou do "mundo de antes", reinventar algo que pareça uma economia local.
A recuperação começa com o reaproveitamento de detritos. Cadeiras, tábuas e pedaços de qualquer material para construir uma casinha, e o resto para vender. O cenário transformado em um imenso lixão macabro oferece a oportunidade de uma caça ao tesouro permanente, onde todos vêm procurar algo com o que sobreviver. Os menos atingidos pela catástrofe se tornaram os clientes dos mais pobres. Peças de metal em grande quantidade podem ser vendidas por alguns pesos para os que conseguem fundi-las. Manuel Awing de Paz encontrou um comprador para um galão de gasolina que ele conseguiu, em troca de 500 pesos.
Esse foi o início de sua reconstrução, seu "capital inicial". Com esse dinheiro, ele comprou arroz, frango e gengibre e fez um arroz caldo, uma receita local de canja. Ele ofereceu porções aos passantes e conseguiu 700 pesos, seu primeiro lucro. Em poucas semanas, Manuel virou comerciante.
Ainda faltava construir a barraquinha. Sua mulher e seus três filhos o ajudaram a juntar tábuas e pedaços de madeira entre os escombros das casas. Primeiro ele improvisou uma cabana feita de estacas e sacos de arroz vazios para abrigar sua família, a uma centena de metros do oceano que ele não quer mais ver.
A banquinha ele instalou logo ao lado, à beira da estrada. Um minúsculo quiosque onde deixou cuidadosamente expostos os poucos produtos disponíveis à venda: uma caixa de ovos, um filão de pão, dois maços de cigarros, bebidas energéticas e uma panela onde ele cozinha seu "arroz caldo".
Manuel pintou sua tenda de azul claro, com um galão de tinta que encontrou por acaso. "É mais atraente para os clientes", ele diz, com aquele incrível sorriso que os filipinos insistem em exibir elegantemente, em uma mistura de sabedoria com resiliência. O ex-cozinheiro limpa as prateleiras, polindo-as com um pedaço de pano.
Nesse cenário apocalíptico, as profissões se reinventam, uma economia se reconstrói, a moeda volta a circular e os preços vão subindo. Tudo se vende, tudo se compra, depende da imaginação e do pequeno negócio de cada um. As bancas de rua se proliferam. Para alguns, os saques de lojas nas horas que se seguiram à passagem do tufão foram uma oportunidade de ouro. Os geradores elétricos e o aluguel de tomadas para recarregar celulares fazem sucesso.
Da mesma forma, refrigeradores são arrancados das pilhas de detritos, pela seguinte razão: quando colocada na água, a geladeira flutua. Essa é a nova ferramenta de trabalho dos pescadores de Tacloban, que podem ser vistos no mar equilibrando-se sobre os aparelhos eletrodomésticos, avançando com a ajuda de remos improvisados.
Os agricultores são menos otimistas. Os arrozais e os coqueiros, pilares da economia local, foram dizimados pelo Haiyan. Os cocos foram todos varridos antes de amadurecerem, e poucas árvores permaneceram de pé. As que forem replantadas demorarão uma década até dar frutos. Já o arroz ia ser colhido justamente quando o tufão chegou.
Vilma Abraham, proprietária de três hectares de arrozais e de duzentos coqueiros no interior, a cerca de quinze quilômetros de Tacloban, perdeu tudo. "Danou-se tudo", ela diz. "Teoricamente, podemos semear grãos de arroz para o ano que vem, mas com que dinheiro? É o produto de cada safra que paga a seguinte, e não temos mais nada". Ela mandou cortar os coqueiros para vender a madeira. Dos arrozais devastados, ela salvou cinco sacos de grãos que mandou secar meticulosamente ao sol sobre uma lona colocada na estrada mesmo.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) calcula que o tufão tenha destruído a colheita de um terço dos arrozais nas Filipinas. Como é de costume aqui, Vilma sorri. "Ainda que eu morra bem velhinha", ela diz, "jamais me esquecerei do Haiyan."
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