A mão pesada da presidente
O Estado de S.Paulo
Na véspera do Natal, quando o País todo estava olhando
para o outro lado, a presidente Dilma Rousseff deu um presentaço a si
mesma - e, de quebra, aos grandes grupos que fazem negócios com o setor
federal. Eliminou sumariamente da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)
para 2014, sancionada naquele dia, as referências de preços que há 14
anos figuravam no seu texto, como parâmetros para a contratação de obras
rodoviárias e de construção civil. O assunto é árido, mas poucos hão de
ser mais importantes quando estão em jogo as normas de controle dos
gastos em infraestrutura do Estado nacional. Eis por que se faz
necessário detalhar a história do que outra coisa não é senão uma
demonstração da falta de limites da presidente - motivada, em derradeira
análise, pelo desastre administrativo que é a marca de seu mandato.
Em regra, quando o Executivo define projetos nas áreas citadas, o seu
custo é calculado segundo dois parâmetros. Um é o Sistema Nacional de
Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (Sinapi), com base em
valores verificados mês a mês em âmbito nacional. Outro é o Sistema de
Custos Referenciais de Obras Rodoviárias (Sicro) atualizado a cada dois
meses. Essas tabelas são a primeira linha de defesa contra o sobrepreço
das empreitadas. No governo Lula e nos anos anteriores do período Dilma,
o Planalto tentou removê-las da LDO, mas recuou diante das resistências
parlamentares. Mas, em abril passado, ao apresentar a sua proposta
orçamentária para este ano, a presidente não apenas deixou de nela
incluir os mencionados parâmetros, como, pior ainda, os alojou em um
decreto.
Pior ainda porque, se ela realmente quisesse "perenizar", no jargão
oficial, as referências - a LDO, afinal, muda de ano para ano -, poderia
fazê-lo mediante projeto de lei. Mas, a intenção era outra, obviamente:
afrouxar o controle dos gastos com obras, mediante mudanças que os
decretos presidenciais proporcionam aos seus signatários. Dito de outro
modo, a pretexto de superar a transitoriedade dos Orçamentos, Dilma
degradou em decreto o que estava no bojo de uma Lei Complementar, como a
LDO - o mais alto instrumento legal do País, abaixo apenas da
Constituição e que exige maioria qualificada para passar no Congresso.
Pois bem, quando a expurgada LDO de 2014 passou a tramitar, os
parlamentares nela repuseram o conteúdo suprimido. E foi isso que a
presidente vetou em 24 de dezembro, como se colocasse na árvore de Natal
do gabinete um regalo inestimável para as empreiteiras que de há muito
pressionam pela flexibilização dos parâmetros de referência do custo de
obras.
Essa é uma possibilidade objetiva criada pelos vetos, ainda que a
intenção de Dilma tenha sido, com toda a certeza, expandir o seu poder
pessoal, no bojo de uma desesperada tentativa de atribuir a terceiros -
no caso, o Parlamento - o notório fracasso de sua gestão. Não é a
primeira vez que ela tenta remediar o irremediável neste governo
aparelhado e, por isso mesmo, destituído de capacidade administrativa.
Foi o caso do esperto Regime Diferenciado de Contratações (RDC) que
conseguiu aprovar no Congresso em 2011, alegadamente para
desburocratizar a execução das obras para a Copa e os Jogos Olímpicos.
Não é preciso ser presidente da Fifa ou do Comitê Olímpico Internacional
para saber a quantas desanda a infraestrutura para as competições. O
sistema - um drible na Lei de Licitações - acabou sendo estendido para
as obras do SUS e o PAC. Fez pouca ou nenhuma diferença para o programa.
É o que não se cansam de mostrar os levantamentos independentes sobre o
seu desempenho.
Os vetos natalinos de Dilma, que deixaram o campo completamente
entregue às implicações do decreto de abril, inquietam o Tribunal de
Contas da União (TCU). O seu presidente, Augusto Nardes, compara a peça a
uma portaria "que eu aprovo e, a qualquer momento posso modificar". Ao
contrário do que quer fazer crer o Planalto, o fato de serem complexos
os índices que nela foram abrigados não os torna imunes à mão pesada da
chefe do governo. Quem pode o mais, pode o menos, ensina o ditado. E o
mais ela já fez, com característica soberba - para não falar em
descaramento.
Nenhum comentário:
Postar um comentário