A ponte entre educação e economia
João Batista Araujo Oliveira* - O Estado de S.Paulo
A última rodada do Programa Internacional de Avaliação
dos Alunos (Pisa), divulgada no final do ano passado, mostra que o
Brasil continua firme no ranking entre os países com pior desempenho em
educação. E os melhores países continuam os mesmos, com algumas mudanças
de posição. As sete primeiras são ocupadas pelos asiáticos. A diferença
entre os alunos do país mais bem colocado - China, Xangai - e os do
Brasil é de mais de 200 pontos, ou seja, o equivalente a cinco anos
escolares. É com países desse naipe educacional que competimos na arena
internacional.
É fato que não se podem esperar grandes mudanças a cada aplicação do
Pisa. Para isso acontecer teria sido necessário um esforço gigantesco
dos brasileiros, o que não ocorreu. O que chama mesmo a atenção,
contudo, é o silêncio e o alheamento dos responsáveis pela política
econômica e das lideranças empresariais diante da situação educacional
do Brasil em relação ao restante do mundo. Afinal, o Pisa é a ponte que
liga a educação à economia do conhecimento.
Concebido na virada do século por especialistas reunidos pela
Organização de Cooperação para Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Pisa
logo se tornou um benchmark, o termômetro da qualidade internacional da
educação. A cada ano é maior o número de países que adere a esse teste,
aplicado a cada três anos e que é original em várias dimensões.
A característica mais importante do Pisa é a de que a avaliação afere
habilidades consideradas essenciais para o sucesso do jovem na escola,
no mercado de trabalho e na vida da economia do século 21. O teste está
para a sociedade do conhecimento da mesma forma que saber ler e escrever
estava para os primórdios da Revolução Industrial. É preciso ressaltar
que o Pisa não é um teste escolar, ele mede a capacidade das pessoas de
mobilizar conhecimentos das três disciplinas escolares básicas -
Linguagem, Matemática e Ciências - para lidarem com informações e
problemas do mundo real. É tudo o que um empresário gostaria de saber
antes de recrutar um novo funcionário. O Pisa faz isso.
O Pisa também traz outro alerta importante para o setor produtivo: a
escola deve preparar o aluno para continuar a estudar e para resolver os
problemas concretos do mundo. Mas para isso é preciso existir um ensino
rigoroso das disciplinas básicas no ensino fundamental.
Profissionalização é assunto para o ensino médio e deve ser realizada em
instituições com vocação específica, não relegadas a status inferior em
escolas de educação geral.
Os dados colhidos na aplicação dos testes também revelam a
importância da disciplina, da pontualidade e do respeito aos professores
para o sucesso escolar dos alunos. Crianças que faltam ou se atrasam já
na pré-escola se situam entre as de pior desempenho mais tarde. A
escola não é fábrica. A educação escolar, contudo, deve ser também
educação para a cidadania e para os valores do mundo do trabalho.
Estudos realizados com alunos que fizeram o primeiro teste do Pisa,
em 2003, comprovam a sua validade preditiva quanto ao desempenho
acadêmico e profissional dos jovens nas economias globalizadas. Não por
acaso, em pouco menos de dez anos o Pisa virou uma espada de Dâmocles
pairando sobre os países industrializados, levados a ajustar os seus
sistemas educativos aos resultados do teste.
Da última rodada do Pisa participaram 65 países. O Brasil ficou entre
os seis e/ou os oito piores, dependendo da disciplina considerada -
Linguagem, Matemática e Ciências. O mais preocupante é a quantidade de
alunos brasileiros abaixo do mínimo, o nível 2 - em Matemática são mais
de 67%. Nos países da OCDE, com os quais competimos comercialmente, 23%
dos alunos estão abaixo desse nível.
Outro dado que deveria preocupar as elites brasileiras: em média,
12,6% dos alunos dos países da OCDE alcançam o patamar superior da
prova. Esse porcentual no Brasil é de apenas 0,8%. Não cuidamos das
categorias de base nem do grupo de elite. A média dos alunos de nossas
escolas particulares fica a uma boa distância abaixo da dos países mais
desenvolvidos. E por aí vai.
O Brasil participa do Pisa desde a primeira rodada e tem mostrado
alguns avanços. Mas a maior parte deles não se deve a melhoras na
educação, e sim na economia. O melhor desempenho econômico das famílias e
a escolaridade dos pais estão entre os fatores que explicam o avanço
dos alunos. No País é a economia que melhora a educação, e não
vice-versa. Nada que justifique qualquer demonstração de euforia.
O comentário mais interessante sobre os resultados dos Estados Unidos
no Pisa de 2012 veio do economista Erik Hanushek, da Universidade
Stanford. Disse ele: "Nossa economia ainda continua forte porque temos
um bom sistema econômico capaz de superar as deficiências de nosso
sistema educativo".
Mudar a educação não é fácil. Se fosse, muitos países teriam um
sistema educacional muito melhor. Mas os caminhos para que isso ocorra
são conhecidos e são muito diferentes dos que vimos trilhando ou do que
está delineado no Plano Nacional da Educação (PNE). Em qualquer país,
uma reforma educativa requer o estabelecimento de um consenso e uma
mobilização em torno de ideias básicas e cientificamente fundamentadas,
como currículo, avaliação, formação e carreira de professores e gestão.
Requer foco e capacidade de definir prioridades, sem açodamento. E
requer também uma enorme capacidade de implementação adequada, no caso,
ao nosso modelo federalista de governo.
Se Erik Hanushek teme que a economia americana não venha a se tornar
robusta o suficiente para financiar um sistema educacional que se situe
na média do dos países da OCDE, o que diria ele da economia brasileira?
Penso que não compartilharia a euforia que o ministro da Educação do
Brasil tem demonstrado.
*João Batista Araujo Oliveira é presidente do Instituto Alfa e Beto (IAB).
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