Confissões sobre a Revolução Cultural chinesa
Xiao HanEm 12 de janeiro, Song Binbin, filha de um antigo membro importante do Partido Comunista, provocou agitação na blogosfera chinesa quando se juntou a alguns colegas que participaram da Guarda Vermelha em um colégio de Pequim e fizeram um pedido de desculpas público por sua participação em uma das chacinas mais famosas da Revolução Cultural. Em agosto de 1966, o vice-diretor da escola, Bian Zhongyun, foi atormentado, espancado e deixado à morte por estudantes. Song disse que tentou contê-los, mas não o suficiente. Ela disse que não participou do espancamento.
A Revolução Cultural provocou devastação nas vidas
de milhões de chineses. Mao Tse-tung, que iniciou o movimento pedindo
que os jovens se erguessem contra seus pais e professores, tentava
recuperar a proeminência depois de anos de políticas fracassadas
expurgando os "capitalistas" do Partido Comunista. Durante dez anos o
país foi reduzido a um estado de barbárie.
Como Mao continuou sendo reverenciado pelos líderes chineses depois de sua morte em 1976, uma verdadeira reflexão pública sobre as lições dessa época desastrosa foi impossível. Tentativas de intelectuais de abordar a Revolução Cultural em público foram reprimidas; somente um punhado de pesquisas feitas por acadêmicos financiados pelo Estado vieram à luz. O resultado foi um gradual recuo na memória. O sucesso econômico dos últimos 30 anos levou alguns espíritos desiludidos a rever o período com nostalgia. Mas, diante da natureza autoritária da liderança atual, muitas pessoas temem a perspectiva de uma volta do terror que marcou a Revolução Cultural.
Ainda assim, uma espécie de "compulsão de desculpas" parece ter tomado conta de pessoas como Song Binbin, que foram atraídas para a transgressão naquele período tumultuado. Wang Jiyu, assombrado por um espancamento fatal que ele realizou em 1967, quando tinha 16 anos, publicou um artigo em um jornal pró-reforma, "Yanhuang Chunqiu", em 2010, refletindo sobre suas transgressões.
Wang Keming, que admitiu ter espancado gravemente um idoso durante a Revolução Cultural, compilou um livro de artigos escritos por pessoas dispostas a contar suas histórias. Ele terminou o livro em 2013, mas não conseguiu encontrar uma editora disposta a publicar o projeto.
Talvez o exemplo mais destacado seja o de Chen Xiaolu, filho de um ex-ministro das Relações Exteriores, Chen Yi, que criou uma tempestade no final do ano passado quando pediu desculpas por ordenar que professores fizessem fila no auditório da escola e usassem chapéus de burro.
Entre os que pediram desculpas, Song Binbin e Chen Xiaolu não parecem ter cometido crimes muito sérios. São os que cometeram as maiores atrocidades, como os canibais da região de Guangxi, ou as pessoas que realmente mataram o vice-diretor Bian Zhongyun, que continuam em silêncio.
Mas a reação pública sugere que muitos chineses - especialmente da geração mais jovem que é atuante na internet - consideram o pedido de desculpas de Song insincero. Muitos internautas a acusam de falsidade; alguns afirmam que sua desculpa é insignificante se ela não disser quem matou o vice-diretor. Muitos duvidam de que ela esteja dizendo toda a verdade. "Ela pede desculpas por seu crime. Quais de suas palavras são verdadeiras?", perguntou um comentarista anônimo. Outro escreveu: "O pedido de desculpas não teve muito significado".
A verdade é que não devemos limitar a reflexão pública somente à Revolução Cultural. A história da China foi marcada por uma interminável série de massacres e perseguições lideradas pelo governo - desde a Grande Fome até as mais recentes campanhas contra o crime, o massacre na Praça Tiananmen e a perseguição do movimento espiritual Falun Gong, para citar apenas alguns.
Mas uma contabilidade pública de nossas tragédias não virá tão cedo. Somente por causa do envolvimento maciço de pessoas comuns na Revolução Cultural a repressão oficial não conseguiu evitar que alguns participantes oferecessem espontaneamente suas desculpas.
A China pode continuar nesse impulso e criar um quadro para um maior reconhecimento público? Os chineses estão prontos para essa confissão em massa?
A Justiça exige a aplicação dos princípios legais e uma consideração básica pelo sentimento humano. No caso da Revolução Cultural, um pedido de desculpas é a coisa mais importante, mais que qualquer punição. Mais desculpas devem ser incentivadas - e aceitas -, mesmo que venham 40 anos depois.
A preocupação é que as pessoas que estejam dispostas a avançar sejam desencorajadas de fazê-lo por medo de enfrentar críticas em excesso, como Song Binbin. Se os que se desculparem publicamente forem constantemente colocados em uma disputa online, e forem eventualmente submetidos à justiça absoluta, os perpetradores mais relutantes certamente ficarão nas sombras.
Nós, chineses, precisamos construir um ambiente apropriado para que os malfeitores se apresentem. Em primeiro lugar, isso exige que as pessoas que foram felizes o suficiente para não viver a Revolução Cultural se coloquem no lugar dos perpetradores. Enquanto elas têm o direito de criticar os perpetradores pelos crimes passados, devem reprimir o impulso de condenar duramente os que se apresentarem. Não devemos fazer exigências demais nesse processo. A população chinesa deve tentar considerar o que ela mesma teria feito nessas circunstâncias.
Mas, como mostra a reação ácida ao pedido de desculpas de Song, a sociedade chinesa não está pronta para um reconhecimento público. Simplesmente não há boa vontade suficiente para aceitar as desculpas dos criminosos da Revolução Cultural.
Resta a pergunta de se a sociedade pode mudar de posição antes que todas as vítimas tenham morrido e a Revolução Cultural seja mais uma tragédia em nossa história que nunca recebe a discussão pública que merece.
(Xiao Han é professor associado na Universidade de Ciência Política e Direito da China. Este artigo foi traduzido do chinês por Stacy Mosher.)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Como Mao continuou sendo reverenciado pelos líderes chineses depois de sua morte em 1976, uma verdadeira reflexão pública sobre as lições dessa época desastrosa foi impossível. Tentativas de intelectuais de abordar a Revolução Cultural em público foram reprimidas; somente um punhado de pesquisas feitas por acadêmicos financiados pelo Estado vieram à luz. O resultado foi um gradual recuo na memória. O sucesso econômico dos últimos 30 anos levou alguns espíritos desiludidos a rever o período com nostalgia. Mas, diante da natureza autoritária da liderança atual, muitas pessoas temem a perspectiva de uma volta do terror que marcou a Revolução Cultural.
Ainda assim, uma espécie de "compulsão de desculpas" parece ter tomado conta de pessoas como Song Binbin, que foram atraídas para a transgressão naquele período tumultuado. Wang Jiyu, assombrado por um espancamento fatal que ele realizou em 1967, quando tinha 16 anos, publicou um artigo em um jornal pró-reforma, "Yanhuang Chunqiu", em 2010, refletindo sobre suas transgressões.
Wang Keming, que admitiu ter espancado gravemente um idoso durante a Revolução Cultural, compilou um livro de artigos escritos por pessoas dispostas a contar suas histórias. Ele terminou o livro em 2013, mas não conseguiu encontrar uma editora disposta a publicar o projeto.
Talvez o exemplo mais destacado seja o de Chen Xiaolu, filho de um ex-ministro das Relações Exteriores, Chen Yi, que criou uma tempestade no final do ano passado quando pediu desculpas por ordenar que professores fizessem fila no auditório da escola e usassem chapéus de burro.
Entre os que pediram desculpas, Song Binbin e Chen Xiaolu não parecem ter cometido crimes muito sérios. São os que cometeram as maiores atrocidades, como os canibais da região de Guangxi, ou as pessoas que realmente mataram o vice-diretor Bian Zhongyun, que continuam em silêncio.
Mas a reação pública sugere que muitos chineses - especialmente da geração mais jovem que é atuante na internet - consideram o pedido de desculpas de Song insincero. Muitos internautas a acusam de falsidade; alguns afirmam que sua desculpa é insignificante se ela não disser quem matou o vice-diretor. Muitos duvidam de que ela esteja dizendo toda a verdade. "Ela pede desculpas por seu crime. Quais de suas palavras são verdadeiras?", perguntou um comentarista anônimo. Outro escreveu: "O pedido de desculpas não teve muito significado".
A verdade é que não devemos limitar a reflexão pública somente à Revolução Cultural. A história da China foi marcada por uma interminável série de massacres e perseguições lideradas pelo governo - desde a Grande Fome até as mais recentes campanhas contra o crime, o massacre na Praça Tiananmen e a perseguição do movimento espiritual Falun Gong, para citar apenas alguns.
Mas uma contabilidade pública de nossas tragédias não virá tão cedo. Somente por causa do envolvimento maciço de pessoas comuns na Revolução Cultural a repressão oficial não conseguiu evitar que alguns participantes oferecessem espontaneamente suas desculpas.
A China pode continuar nesse impulso e criar um quadro para um maior reconhecimento público? Os chineses estão prontos para essa confissão em massa?
A Justiça exige a aplicação dos princípios legais e uma consideração básica pelo sentimento humano. No caso da Revolução Cultural, um pedido de desculpas é a coisa mais importante, mais que qualquer punição. Mais desculpas devem ser incentivadas - e aceitas -, mesmo que venham 40 anos depois.
A preocupação é que as pessoas que estejam dispostas a avançar sejam desencorajadas de fazê-lo por medo de enfrentar críticas em excesso, como Song Binbin. Se os que se desculparem publicamente forem constantemente colocados em uma disputa online, e forem eventualmente submetidos à justiça absoluta, os perpetradores mais relutantes certamente ficarão nas sombras.
Nós, chineses, precisamos construir um ambiente apropriado para que os malfeitores se apresentem. Em primeiro lugar, isso exige que as pessoas que foram felizes o suficiente para não viver a Revolução Cultural se coloquem no lugar dos perpetradores. Enquanto elas têm o direito de criticar os perpetradores pelos crimes passados, devem reprimir o impulso de condenar duramente os que se apresentarem. Não devemos fazer exigências demais nesse processo. A população chinesa deve tentar considerar o que ela mesma teria feito nessas circunstâncias.
Mas, como mostra a reação ácida ao pedido de desculpas de Song, a sociedade chinesa não está pronta para um reconhecimento público. Simplesmente não há boa vontade suficiente para aceitar as desculpas dos criminosos da Revolução Cultural.
Resta a pergunta de se a sociedade pode mudar de posição antes que todas as vítimas tenham morrido e a Revolução Cultural seja mais uma tragédia em nossa história que nunca recebe a discussão pública que merece.
(Xiao Han é professor associado na Universidade de Ciência Política e Direito da China. Este artigo foi traduzido do chinês por Stacy Mosher.)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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