segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

França revê o papel da primeira-dama
Alissa J. Rubin e Maïa De La Baume - NYT
Rajanish Kakade/APO presidente francês, François Hollande, anunciou o fim do relacionamento com Valérie Trierweiler (foto)
O presidente francês, François Hollande, anunciou o fim do relacionamento com Valérie Trierweiler (foto)
Será que importa se o presidente francês decidir continuar seu mandato sozinho, sem ter uma companheira, cônjuge ou parceira a seu lado – situação que, aparentemente, deverá ser o próximo capítulo da bagunçada vida pessoal de François Hollande?Um drama que já vinha se estendendo por duas semanas chegou a uma espécie de desfecho no sábado passado, quando Hollande anunciou o fim do relacionamento com sua companheira de longa data, Valérie Trierweiler. Enquanto isso, os franceses – ou pelo menos aqueles que estavam prestando atenção – têm se mostrado cada vez mais fartos da ideia da existência de uma primeira-dama.
"Os franceses estão tendo dificuldades para definir qual deve ser o status da primeira-dama", disse Christine Clerc, jornalista que escreveu um livro sobre mandatários e suas esposas.
E uma das razões para isso, segundo Clerc, é que "uma pessoa que não foi eleita pelo sufrágio universal carece de legitimidade", na França.
Em várias pesquisas recentes realizadas na França, mais da metade dos entrevistados disseram que não queriam que as cônjuges (ou os cônjuges) presidenciais assumissem nenhum tipo de papel oficial.
O anúncio de Hollande sobre sua separação ocorreu depois de uma revista francesa ter informado que ele estava tendo um caso com a atriz francesa Julie Gayet. Depois tomar conhecimento sobre o suposto caso, Trierweiler, que é jornalista, teve um "colapso emocional" e passou mais de uma semana em um hospital.
Conversas mantidas nos últimos dias com biógrafos, jornalistas, uma ex-primeira-dama e várias outras pessoas sugeriram que o ponto de vista dos franceses sobre as primeiras-damas é muito mais ambivalente do que o dos norte-americanos, que – pelo menos desde que Eleanor Roosevelt, nas décadas de 1930 e 1940 – passaram a vê-las tanto como ativistas capazes de chamar a atenção para questões com as quais elas se importam quanto como indivíduos capazes de apresentar os presidentes sob uma luz mais suave. Na França, porém, ainda não há um consenso sobre esse papel e também não houve nenhum tipo de discussão sobre qual deve ser a real função da primeira-dama.
É difícil dizer qual primeira-dama norte-americana fez mais para começar a criar um modelo moderno para a posição de cônjuge do presidente. Certamente Eleanor Roosevelt era uma figura excepcional, que sem dúvida estava à frente de seu tempo. Em seguida, no início da década de 1960, Jacqueline Bouvier Kennedy conseguiu cultivar a imagem de uma primeira-dama que, entre outras funções, desempenhava fortemente o papel de promotora da cultura dos Estados Unidos, divulgando a música, a arte e a fotografia do país, e utilizava a Casa Branca como um fórum para exibir as obras norte-americanas e expor seus conterrâneos às culturas estrangeiras.
Ela foi seguida por Lady Bird Johnson, cujo projetos de embelezamento de espaços públicos, como estradas, continuam até hoje. Nancy Reagan e Barbara Bush assumiram questões sociais, como a luta contra o uso de drogas entre os jovens e a defesa da alfabetização. Hillary Rodham Clinton teve um papel ativo em questões de políticas públicas durante a presidência de seu marido, especialmente na área de saúde.
Na França, por outro lado, o papel de primeira-dama é um pouco confuso. Aparentemente, hoje as primeiras-damas de fato, como Trierweiler, não precisam ser casadas com o presidente, e elas podem manter seus empregos no setor privado. Mas tudo isso, segundo Armelle Le Bras Chopard, professora de ciência política na Universidade de Versailles St.-Quentin-en-Yvelines, levanta as seguintes questões: para quem elas estão trabalhando? Elas estão servindo o povo francês ou a si próprias?
No final do século 19 e no início do século 20, as esposas dos presidentes franceses seguiam o marido e, geralmente, se mantinham fora da vida pública. Posteriormente, quando os meios de comunicação se tornaram mais prevalentes, as primeiras-damas francesas passaram a ajudar a humanizar a percepção geral sobre seus maridos, exibindo-os com suas famílias e como pessoas normais. Mas hoje, quando a companheira do presidente tem uma carreira independente, "isso traz uma série de novas questões", disse Chopard.
Cécilia Attias, ex-mulher de Nicolas Sarkozy, o ex-presidente que se casou com a cantora Carla Bruni enquanto estava no exercício do mandato, disse em entrevista que, para ela, seria útil explicar o papel público da primeira-dama por meio de um estatuto. A esposa do presidente tem um papel importante a desempenhar como membro da equipe presidencial, promovendo as ideias e a imagem do mandatário, disse ela.
Bernadette Chirac, esposa do ex-presidente Jacques Chirac, disse em entrevista que o trabalho de primeira-dama é "muito difícil", mas que sua experiência de mais de 40 anos como esposa de político a preparou para assumir a posição. Ela usou o papel de primeira-dama como uma plataforma para trabalhar em prol de hospitais e em nome dos doentes e, de acordo com várias pesquisas, ela foi a primeira-dama mais popular dos últimos tempos.
"Há um problema de 'dois gumes' aqui", disse Attias. "Por um lado, nós precisamos respeitar a liberdade de cada pessoa. Nós não podemos obrigar o presidente a se casar. Mas, ao mesmo tempo, como presidente, ele também se torna um modelo para a sociedade".
Na opinião de Attias, não é fácil nem realista acreditar que o presidente possa ter uma vida privada que seja verdadeiramente privada.
"Para mim, o presidente do meu país é o meu país", disse ela. "Ele deve ser exemplar e respeitável".
Michaël Darmon, o editor-chefe de política da rede de notícias iTele, disse que há cada vez menos tolerância na França com relação a uma primeira-dama sustentada pelo dinheiro dos contribuintes, especialmente em um momento de crise econômica, altas taxas de desemprego e de arrocho generalizado.
"Essa história mostra que esse tipo de questão não é da conta de ninguém", disse Darmon, referindo-se ao ponto de vista do público e dos políticos franceses de que suas vidas pessoais devem permanecer como algo privado. Mas como, ao mesmo tempo, esse tipo de assunto serve de alimento para a mídia, "isso diz respeito a todos", segundo Darmon.
Tradução: Cláudia Gonçalves

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