Ilegalidade ambiental
O Estado de S.Paulo
A existência de cerca de 25 mil imóveis urbanos no
litoral de São Paulo que, mesmo dispondo de rede coletora, lançam o
esgoto diretamente no ambiente, poluindo o mar e contaminando a terra ou
o lençol freático, mostra a excessiva tolerância das autoridades locais
e das empresas de saneamento básico com um flagrante desrespeito à lei.
A decisão dos proprietários desses imóveis de conectá-los à rede de
esgoto já disponível não é apenas um ato de consciência ecológica; é uma
obrigação legal. A existência de tantos imóveis que ainda lançam o
esgoto no mar, por sua vez, é um atestado da leniência dos responsáveis
locais pela preservação do meio ambiente.
Em vigor desde janeiro de 2007, a Lei Geral de Saneamento Básico, que
estabelece as diretrizes nacionais para essa área, é clara ao
estabelecer que "toda edificação permanente urbana será conectada às
redes públicas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário
disponíveis", com o pagamento das tarifas e das taxas desses serviços.
Para dar mais força ao poder local, diversas Câmaras Municipais do
litoral paulista aprovaram legislação específica determinando a
obrigatoriedade da conexão dos imóveis urbanos à rede de esgoto
existente e instituindo multas de valores crescentes em caso de
descumprimento da norma. Além disso, um programa estadual que facilita a
ligação de imóveis de famílias de baixa renda à rede operada pela
Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp)
condiciona o benefício à existência de legislação municipal determinando
a obrigatoriedade da conexão.
O fato de a própria Sabesp reconhecer, como mostrou reportagem do
Estado (20/1), que tem cadastrados 25 mil imóveis urbanos de cidades
litorâneas não conectados à rede já disponível demonstra que o
descumprimento da legislação é do conhecimento das autoridades.
Considerando-se que uma residência produz, em média, 500 litros de
esgoto por dia, o resultado é o lançamento no ambiente de 12,5 milhões
de litros de esgoto sem nenhum tratamento, diariamente.
Entre esses imóveis em situação irregular, há muitos de famílias de
baixa renda, que podem ser atendidas pelo programa do governo do Estado,
chamado oficialmente de Pró-Conexão, mas mais conhecido como Se Liga na
Rede. Mas há também imóveis de alto padrão, alguns em áreas atendidas
por rede de esgoto há mais de 15 anos, mas que ainda não estão
conectados ao sistema coletor público.
A empresa estadual, que dispõe dos cadastros de imóveis não
conectados, não tem o poder de obrigar seus proprietários a
providenciarem a conexão - que é feita gratuitamente, mas, em muitos
casos, exige obras de adaptação, de responsabilidade do morador. A
Sabesp informou que tem alertado constantemente as áreas de vigilância
sanitária dos municípios e o Ministério Público.
O poder de multar os proprietários que descumprem a exigência legal
está nas mãos das prefeituras, que nem sempre o exercem inteiramente. Em
Caraguatatuba, por exemplo, há 7.880 imóveis não conectados à rede
disponível. Para uma parte desses imóveis, a disponibilidade é recente
(a rede foi liberada em agosto do ano passado). Para os demais, porém, a
disponibilidade é bem mais antiga. Mesmo assim, no ano passado, a
prefeitura local afirma ter fiscalizado 3.745 propriedades, autuado 477 e
multado 25.
O descaso das autoridades com o descumprimento da Lei Geral de
Saneamento Básico é mais um dos muitos obstáculos que o País tem de
superar para fazer avançar o Plano Nacional de Saneamento Básico, que
estabelece diretrizes, metas e ações de saneamento para todo o País.
Revisto em dezembro passado, o plano prevê investimentos de R$ 508,4
bilhões (públicos e privados) para o período 2014-2033.
Nesse período, a meta é atingir 99% de cobertura no abastecimento de
água potável (sendo 100% na área urbana) e de 92% de coleta de esgoto
sanitário (93% na área urbana). Para que essas metas sejam alcançadas,
as administrações municipais precisam dispor, além de planos exequíveis,
de coragem para fazer cumprir a legislação.
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